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Posted on 18-11-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 18-11-2019
 DO EL PAÍS
 

Ex-presidente nunca se distinguiu por suas exacerbações à esquerda, menos precisa disso em um momento como o que está atravessando o Brasil, rodeado de incêndios políticos que provocam mortes e raiva em vários países irmãos da América Latina

Ex-presidente Lula em São Bernardo um dia após a saída da prisão.
Ex-presidente Lula em São Bernardo um dia após a saída da prisão.NELSON ALMEIDA (AFP)

A afirmação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que saiu da prisão “mais à esquerda” deu a volta ao mundo e merece ser analisada. Isso me fez lembrar de quando Lula, recém-eleito presidente, tomando café em uma pausa de uma entrevista concedida a cinco correspondentes estrangeiros, entre eles o do EL PAÍS, aproximou-se de mim e me disse: “Acho que nem Aznar [o então chefe de Governo da Espanha José María Aznar, do conservador Partido Popular] é tão de direita como vocês pensam, nem eu sou tão de esquerda como pensam aqui no Brasil”.

Na verdade, Lula nunca foi de uma esquerda raivosa, e o Partido dos Trabalhadores também não. Não só o ex-sindicalista inflamado nunca foi de esquerda no sentido clássico da palavra, como sua capacidade de metamorfose, de que ele se gabava quando governava o país, levou-o a fazer alianças com a direita, com a qual pactuou e até se contaminou em assuntos de corrupção para garantir a governabilidade. Foi o que tentou explicar a seu amigo José Mujica quando disse: “É que no Brasil ou se governa assim ou não se governa”. Lula sempre foi um pragmático, às vezes até o exagero.

Mas se Lula nunca se distinguiu por suas exacerbações à esquerda, menos precisa disso em um momento como o que está atravessando o Brasil, rodeado de incêndios políticos que provocam mortes e raiva em vários países irmãos da América Latina. Um contágio dos desmandos que estão ocorrendo no Chile, Bolívia, Equador e Venezuela é a última coisa de que precisa neste momento o país que é o coração econômico do continente.

Os verdadeiros estadistas sempre foram aqueles que, para conter os perigos de desgarre da democracia ou de insurreições sangrentas, saíram às ruas não atiçando o fogo, e sim atuando como bombeiros capazes de defender a paz ameaçada.

Lembro-me de quando morreu o caudilho e ditador espanhol Franco, que deixou uma Espanha dividida salomonicamente em duas metades que pareciam irreconciliáveis graças ao rastro de dor e morte que havia ficado no caminho. Foi a lucidez dos então jovens dirigentes políticos, herdeiros de uma situação aparentemente sem solução, que deu vida ao criativo Pacto de Moncloa, que seria mais tarde imitado em muitos países em crise, um encontro de todas as forças políticas capaz não só de conter o conflito, como também de abrir novos espaços de liberdade e de democracia.

A chave foi a capacidade de todos os partidos, inclusive do Partido Comunista, de juntar o que os unia, em vez do que os dividia, em favor da reconstrução da paz quebrada pelo horror de uma guerra civil seguida por 40 anos de ditadura. Naquela ocasião, a decisão do jovem rei Juan Carlos I de prometer governar “para todos os espanhóis”, e de permitir que o Partido Comunista medisse sua força nas urnas, foi fundamental para o período de reconstrução da concórdia nacional que veio em seguida.

Se tentar apagar o fogo com mais fogo nunca deu resultado, essa continua sendo a metáfora que revela melhor o momento que vive hoje a América Latina, onde há quem deseje que também contagiasse o Brasil, aproveitando um momento como este de atrito político em que começam a aflorar nostalgias ditatoriais e desejos de vingança. E é em momentos como este que os líderes, que deveriam ser os mais responsáveis e capazes de erguer barreiras para evitar o contágio das chamas, têm oportunidade de se revelar à altura da situação e acabar entrando na História.

Todo o resto, por muitas justificativas que possam ser dadas, são paliativos para esconder desejos vãos de poder e de revanches pessoais ou de grupos, que só levam à autodestruição. São horas em que os maiores responsáveis pelo país devem deixar de lado os velhos rótulos de esquerda e direita para que, como ocorre com famílias desunidas em momentos de grave perigo, possam dar as mãos e tentar, juntos, salvar-se de algo pior que as brigas familiares.

Recorrer, em momentos de perigo, a imagens de hienas e leões para personificar os inimigos ou agir como o lobo em pele de cordeiro de que fala Jesus nos evangelhos é cair em outra imagem bíblica, a de um cego que guia outro cego e ambos caem no buraco. É no momento em que a casa começa a arder que todos devem dar as mãos em vez de se anatematizar, já que todos podem acabar presos no incêndio. E para quê? Não dizemos que o maior bem dos indivíduos e das nações é a paz, é não sofrer discriminações sociais, é haver pão e liberdade para todos e não para um punhado de privilegiados que se alimentam do sangue de escravidões atávicas?

E o que se pode dizer em relação a personagens como Lula e Jair Bolsonaro, que parecem se preparar para entrar no ringue para medir forças, vale também para as instituições do Estado, como o Congresso, o Executivo e o Supremo Tribunal Federal. As três instituições deveriam oferecer à nação um exemplo de busca da concórdia perdida, em vez de se aproveitar das águas turbulentas para favorecer seus interesses, fechando as janelas para não ver a raiva que começa a aparecer nas ruas.

Se o velho ditado latino dizia “se quer paz, prepare-se para a guerra”, para nosso mundo de hoje, ao contrário, a única salvação seria levantarmos a bandeira branca da paz ao ver a guerra aparecer. Lula primeiro, pela grande responsabilidade que teve no passado com seus acertos, mais que seus desatinos. É agora que ele não pode errar nem pensar que erguendo bandeiras de guerra em momentos de tensão nacional poderá salvar este país, que hoje deveria dar um exemplo de racionalidade em um continente que parece estar perdendo a cabeça.

“Roda Pião”, Nana, Dori e Danilo Caymmi: uma maravilhosa cantiga de infância de seu Dorival, na voz dos filhos, que emociona gente de toda idade desde os primeiros acordes e versos.Emociona, da vontade de sorrir, de chorar, cantar e bater palmas, todo ao mesmo tempo. Viva!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

 

Por G1 BA

Morte foi confirmada pela Sesab neste domingo (17). — Foto: Reprodução/Instagram Morte foi confirmada pela Sesab neste domingo (17). — Foto: Reprodução/Instagram

 

Morte foi confirmada pela Sesab neste domingo (17). — Foto: Reprodução/Instagram

Morreu na manhã deste domingo (17), em Salvador, o ex-piloto de Stock Car Tuka Rocha, vítima da queda de um jato executivo em Maraú, no baixo sul da Bahia, na quinta-feira (14). A informação é da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab). Trata-se da terceira morte confirmada após o acidente. Outras sete pessoas continuam internadas.

Christiano Chiaradia Alcoba Rocha, 36 anos, conhecido como Tuka Rocha, morreu às 6h20, no Hospital Geral do Estado (HGE), na capital baiana, segundo a Sesab. Ele estava na unidade desde sexta-feira (15), quando havia sido transferido do Hospital Municipal de Salvador. Tuka teve 80% do corpo queimado. Não há informações sobre o sepultamento dele.

  • Famosos e amigos lamentam morte de Tuka Rocha e outras vítimas do acidente

Em 2011, o ex-piloto da Stock Car já tinha escapado de um grave acidente, quando o carro que ele pilotava em uma competição pegou fogo, no Rio de Janeiro. Ele conseguiu se jogar do veículo.

Ele era tricampeão brasileiro de Kart. Durante a carreira, disputou mais de 100 Grandes Prêmios na Stock Car e venceu a etapa de Ribeirão Preto, em 2015. Recentemente, Tuka trabalhava com coach de jovens pilotos. Ele era solteiro e não deixa filhos.

 
 
Confirmada a morte do ex-piloto de Stock Car em acidente de avião na Bahia

Confirmada a morte do ex-piloto de Stock Car em acidente de avião na Bahia

O ex-piloto Felipe Massa lamentou a morte de Tuka e desejou “muita força para seus familiares, para os que estão machucados e todos que estão sofrendo”.

“Descanse em paz Tukinha. Estou muito triste com a perda de um irmão como vc e de outras pessoas que estavam juntos nesse trágico acidente. Você foi um herói em voltar para salvar a vida de uma criança que estava no avião. Que Deus te receba de braços abertos”, comentou Felipe.

Vítimas

A queda do jato executivo aconteceu na pista de pouso de um resort de luxo que está desativado. Morreram Maysa Marques Mussi, de 27 anos, e a irmã dela, a jornalista Marcela Brandão Elias, de 37 anos.

Os outros ocupantes da aeronave ficaram feridos e estão internados em hospitais de Salvador. São eles:

  • Aires Napoleão, de 66 anos, que pilotava o jato
  • Fernando Oliveira Silva, de 26 anos,
  • Marcelo Constantino, de 28 anos, neto do Nenê Constantino, fundador da Gol
  • Marrie Cavelan, de 27 anos
  • Eduardo Mussi, irmão do deputado licenciado Guilherme Mussi
  • Eduardo Trajano Telles Elias, de 38 anos, que era casado com Marcela Brandão Elias
  • Eduardo, de 6 anos, filho de Eduardo e Marcela

Acidente

 

Aeronave caiu em Maraú, na Bahia — Foto: Dudu Face/Camamu Noticias Aeronave caiu em Maraú, na Bahia — Foto: Dudu Face/Camamu Noticias

Aeronave caiu em Maraú, na Bahia — Foto: Dudu Face/Camamu Noticias

O acidente ocorreu pouco depois das 14h da quinta-feira, em uma pista de pouso no distrito de Barra Grande, que pertence a Maraú, segundo informações da assessoria de comunicação da prefeitura.

O jato executivo decolou do aeródromo de Jundiaí (SP), às 11h, com destino ao município baiano, segundo informações da Voe SP, que administra o terminal, e da Força Aérea Brasileira (FAB)

Conforme registro da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a aeronave, um bimotor Cessna C550 fabricado em 1981, de prefixo PT- LTJ, estava em situação regular.

O acidente aéreo é apurado pelo Segundo Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa II), da Aeronáutica. Militares do órgão estiveram no local do acidente, na sexta-feira, para coletar dados que possam auxiliar nas investigações que vão apontar as causas da queda. Não há previsão para que a apuração seja concluída.

Os destroços do jato foram retirados do local do acidente neste sábado, segundo informações da secretária de Turismo do município, Nilza Costa.

FHC: “Lula não é incendiário”

A Época perguntou a Fernando Henrique Cardoso se ele vê Lula como conciliador ou incendiário. O tucano respondeu:

“O Lula não é incendiário . Ele é verbalmente incendiário, porque é do poder. Como estilo político e humano, não é a tendência do Lula ser incendiário. As pessoas às vezes o pintam de guerra, mas não é assim. Não conheço Bolsonaro e não quero avançar como ele é. Visto de fora, dá a impressão de que ele é mais guerreiro, mais intransigente, acredita em uns fantasmas. O Lula acredita nele.

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Posted on 18-11-2019
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Iotti, no portal de humor A Charge Online

 

DO EL PAÍS

Renúncia e a substituição de Evo Morales precipitam a crise social e política de um país profundamente dividido entre seus seguidores e o Governo interino

 

O nome de Evo Morales não é somente a chave do confronto político na Bolívia. Sua figura de líder carismático ultrapassou o estritamente político e continua presente no cotidiano, nas conversas, em milhares de pichações, nas esperanças de seus seguidores e nos temores de seus adversários. E suas pegadas são uma amostra da hegemonia cultural que exerceu durante quase 14 anos de Governo, que hoje deixam uma grande fratura. Tudo o que aconteceu nos últimos anos no país gira de alguma forma em torno dele e do movimento que representa. Nessa semana, sua renúncia, forçada pelos militares, e seu exílio no México, agravaram a comoção social.

A aceleração dos acontecimentos desde domingo passado propiciou um clima de desconcerto e desconfiança palpável nas ruas de La Paz e Santa Cruz de la Sierra. Muitos ainda não entendem por que Morales partiu. Muitos entendem em qual momento o líder boliviano perdeu o apoio que o levantou como o presidente da América Latina há mais anos seguidos no poder.

É preciso voltar a 2016. “Talvez o apoio não seja o de antes”. Em fevereiro desse ano Morales admitiu em uma entrevista ao EL PAÍS que sua força enfraquecia. E o fez horas antes do referendo no qual a Bolívia recusou a possibilidade de modificar a Constituição para que ele pudesse voltar a ser eleito. Não havia se passado um ano desde sua última vitória eleitoral, categórica, mas as pessoas deram as costas a Morales, que ainda tinha um mandato. Tempo no qual se assegurou de que poderia voltar a concorrer à reeleição graças ao Tribunal Constitucional e ao poder eleitoral.

Tanto naquela entrevista como há um mês e meio em La Paz, Morales se mostrava tranquilo, alheio à derrota prevista pelas pesquisas e à possibilidade de precisar ir ao segundo turno após as eleições de 20 de outubro. Como se aquilo não fosse com ele. Uma segurança, a que transmitia, que foi pelos ares no domingo após semanas de denúncias de fraude e uma auditoria final da Organização dos Estados Americanos (OEA) que recomendava a repetição das eleições.

Um dia antes de ser derrubado, Morales fez uma declaração no hangar presidencial, localizado no aeroporto militar de El Alto, a cidade que sempre o apoiou. Escolheu esse lugar porque não se sentia seguro na Casa Grande do Povo, o palácio que mandou construir, e na residência presidencial, em La Paz, uma das cidades que protestavam contra ele. A Polícia, em rebelião, havia acabado de suspender a proteção dos edifícios públicos.

Morales, enfraquecido, falou brevemente para “pedir oxigênio”: pela primeira vez na história de seu Governo chamou os partidos de oposição a um pacto político. Eles, sem pensar duas vezes, se vingaram: recusaram o diálogo e deixaram que os líderes civis Luis Fernando Camacho e Marco Pumari, e as dezenas de milhares de manifestantes que paralisavam o país, acabassem com o primeiro presidente indígena da Bolívia. Para eles, simplesmente, um “ditador”.

El Alto, a principal cidade indígena da Bolívia, se transformou nos últimos dias no principal cenário do descontentamento aumentado pela renúncia e substituição do ex-presidente. Nesse município, que nas últimas eleições não foi uma exceção ao desgaste generalizado do partido de Governo, o Movimento ao Socialismo (MAS), o sentimento de orfandade degenerou em violentos distúrbios e barricadas que continuam paralisando as comunicações.

O que diferencia El Alto de La Paz, cidades vizinhas e que em princípio deveriam ser uma só? Sua composição social. El Alto é uma cidade fortemente aimará, até mesmo em suas classes médias, minoritárias na cidade. Em La Paz, por sua vez, as classes médias são a maioria da população. Um estudo desse ano do acadêmico Rafael Loayza descobriu que, no bairro mais “profundo” de El Alto, 90% dos habitantes se identificaram como aimarás. Ao mesmo tempo, em certos pontos da zona sul de La Paz, 90% consideravam que não tinham etnia alguma. A correspondência entre essas identidades e o voto a favor ou contra Morales era, segundo Loayza, quase completa.

Nos bairros mais abastados de La Paz, a oposição a Morales durante essa crise foi quase unânime. Os sinos das igrejas chamavam as concentrações e marchas; todas as noites, às 21h, hora escolhida em alusão a 21 de fevereiro de 2016, o dia em que o ex-presidente perdeu o referendo para poder ser reeleito, as ruas se enchiam com o ruído de panelas. Advogados, médicos, empresários, administradores, famílias com filhos e cachorro, pessoas que nunca haviam estado em uma ação social, bloqueavam as ruas. No momento em que o alto comando militar “sugeriu” a renúncia do presidente, centenas de pessoas no sul de La Paz tocaram as buzinas de seus veículos em comemoração. El Alto, por sua vez, continua lutando por Morales.

Radicalização

“Existe uma fratura histórica entre indígenas, geralmente pobres, e setores médios e brancos”, diz o jornalista e historiador Pablo Stefanoni, especialista em Bolívia. “O racismo é uma atitude que impregna quase todos os fatos da história boliviana”, acrescenta. Durante sua queda, o Governo tentou articular uma campanha contra o racismo, que não foi levada a sério por ninguém, e, em duas entrevistas coletivas, o já ex-vice-presidente Álvaro García Linera mostrou imagens de atos de abuso e discriminação de parte dos manifestantes, organizados em grupos juvenis de choque, contra camponeses e gente humilde, que por essa condição social eram considerados militantes do MAS.

“Em determinado momento, dizer masista se transformou em outra forma de dizer índio de uma forma pejorativa, mas legal”, diz Stefanoni. Quem quis participar dos protestos com uma wiphala, a bandeira indígena que Morales transformou na segunda do país, sofreu represálias: foi considerado um “infiltrado”. Os manifestantes contra Evo se cobriram com as cores nacionais como nunca havia sido visto em conflitos sociais. E quando por fim triunfaram, seu festejo incluiu, em alguns casos, a queima da wiphala. Os opositores de Morales, começando pelo ex-candidato Carlos Mesa, consideraram por sua vez que o ex-presidente se aproveitou dessa causa para ganhar simpatias, principalmente no estrangeiro, mas que na verdade manipulou o mundo indígena. “Ele não abriu a página, a fechou”, diz Mesa para defender os esforços anteriores de integração.

Nos últimos dias, em El Alto e outras regiões de protesto, se ergueram os manifestantes que protestam contra o Governo interino de Jeanine Áñez. Na sexta-feira milhares de pessoas marcharam quilômetros de lá até o centro de La Paz para manifestar seu repúdio ao Gabinete da presidenta que assumiu o cargo na terça-feira sem o apoio majoritário do Parlamento e que ainda não convocou eleições. A mobilização, liderada pelos ponchos vermelhos, uma espécie de grupo de choque masista, acabou em confrontos com as forças de segurança, enquanto em outra marcha, na região cocaleira de Chapare, próxima a Cochabamba, os choques com a polícia deixaram pelo menos nove mortos.

Enquanto isso, os mercados de El Alto estavam vazios. Dois idosos vendiam bandeirinhas wiphala por cinco bolivianos (2,95 reais) em um cruzamento da Avenida 6 de março. Dezenas de pessoas procuravam transporte para voltar ao seu bairro antes do entardecer. Uma jovem atende os clientes em uma loja de alimentação. “Tenho medo, prefiro que vá embora”. A tensão disparou. Quase todas as casas e os carros exibem as cores da bandeira indígena para deixar claro de que lado estão.

Os últimos dias contribuíram para radicalizar as posições e apagar os matizes. Muitos indígenas, principalmente jovens, foram muito críticos à última etapa de Morales. Uma prova é que El Alto é governado desde 2015 por uma prefeita da Frente de Unidade Nacional, rival do MAS. Não esquecem, entretanto, o que o primeiro presidente indígena do país fez por eles. Em seus quase 14 anos de mandato, Morales conseguiu reduzir a pobreza – a extrema passou de 38% a 15%; a pobreza, no total, diminuiu de 60% a 34%, de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento – e modernizar o país.

Impulsionado pelo boom das matérias-primas, conseguiu com que a economia boliviana cresça a uma média anual de 4,9% e que a inflação quase não exista. “Além da unidade do povo, a economia é fundamental”, disse durante a campanha. Apostou tudo na economia e isso ficou claro na última campanha eleitoral, quando se apresentou como garantia da estabilidade. Seus adversários sempre consideraram esse discurso uma falácia. Além disso, não foi suficiente para diminuir o confronto social.

“Guerra civil de baixa intensidade”

“A Bolívia vive uma espécie de guerra civil de baixa intensidade e, como é comum, cada facção levanta sua própria bandeira”, diz Stefanoni. E o uso que o ex-presidente fez do racismo teve uma espécie de efeito bumerangue. Loayza coloca “os nenhum” no centro dessa disputa. Ou seja, os bolivianos que não pertencem a nenhuma etnia originária, falam espanhol e vivem uma vida urbana moderna. Antes de Morales, de acordo com sua análise, “não tinham uma identidade étnica clara, começaram a adquiri-la a partir do discurso do MAS, que não só não os incluía, como os acusava de ser racistas, de ter explorado os indígenas por 500 anos e ter roubado o dinheiro do país”. “Eles se sentiram segregados”. Na opinião do acadêmico, essa sensação explica a força, o radicalismo e a persistência da mobilização de classes que os sociólogos sempre consideraram “volúveis e indecisas”. “O que vimos foi um enorme movimento de reivindicação, em que os nenhum pediram um espaço no país, um espaço que sentiram, com razão ou sem, que o MAS lhes havia tirado”, conclui Loayza.

Essa intensidade foi sentida especialmente em Santa Cruz, onde prosperaram os chamados comitês cívicos, organizações de moradores e de sindicatos que estiveram na linha de frente dos protestos contra o ex-presidente e que foram decisivas em sua queda. O protagonismo desses grupos liderados pelo católico radical Luis Fernando Camacho é outro reflexo do legado de Morales. Também lá, tudo gira, ou girava, em torno dele. Ainda que fosse para condená-lo como “ditador”, “Maquiavélico” e “narcotraficante”. Esses insultos fazem parte de um relato que se alimentou da elevada polarização social e das tentativas do ex-mandatário de se perpetuar no poder. O repúdio que sua figura ainda desperta em certos setores é tamanho que muitos não acreditam que tenha realmente ido e que pode voltar do México a qualquer momento.

Evo Morales afirmou nessa semana que quer retornar ao seu país. Colocou diversas condicionais na conversa com o EL PAÍS. “Se for para pacificar…”, “se minha experiência servir para alguma coisa”. O Governo de Andrés Manuel López Obrador deu asilo político por razões humanitárias a Morales e o protege desde então. O hermetismo sobre “as instalações oficiais” em que ele se encontra é total. O líder boliviano se movimenta com uma mobilização de segurança maior do que a de qualquer dirigente mexicano, sempre acompanhado por sua ministra da Saúde e ex-presidenta do Congresso, Gabriela Montaño. Álvaro Garcia Linera, seu vice-presidente, também asilado no México, é o que menos aparece. Atribuem a ele o controle à distância enquanto Morales comparece aos atos organizados e dá entrevistas denunciando um “golpe de Estado”.

Jeanine Áñez, a presidente interina, alertou na sexta-feira que se ele decidir voltar enfrentará a Justiça ainda que afirme que não deseja revanchismo e perseguição, mas vários gestos de seus ministros demonstraram o contrário, como as palavras do novo ministro do Governo, que ameaçou “caçar” o ex-ministro da Presidência. Os primeiros dias do Governo interino também se inserem nesse clima de radicalização extrema. De um país partido em dois

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