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Postado em 10-11-2019
Arquivado em (Artigos) por vitor em 10-11-2019 00:27
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CRÔNICA

Eu sou uma velha Belina laranja

 

Janio Ferreira Soares

Sábado passado minhas filhas resolveram fazer uma farra aqui no sítio. Coisa pequena, disseram-me as duas, como se em tempos whatsapeanos isso fosse possível. Pois bem, em dias assim meu papel é filtrar a piscina, arrumar as coisas e tratar de achar um lugar aonde o pancadão das imensas caixas que alguém sempre traz, não atrapalhe o som das minhas baladas e dos meus rocks rurais.

E aí, como já sabia a provável direção do vento naquela hora em que o álcool bate no estômago e segue pela corrente sanguínea até pipocar na cabeça da moçada, escolhi a sombra de uma mangueira próxima ao estacionamento dos carros, cuja coberta, construída na época da morte do filho do senador, seguiu a tendência de toda Bahia e foi batizada por um velho gaiato de: “Terminal Rodoviário Mui Excelentíssimo, Maravilhosíssimo – e, sem sombra de dúvida -, Extraordinaríssississimo, Deputado Luiz Eduardo Magalhães”.

E enquanto Sá, Rodrix e Guarabyra sacudiam os ossos nos tempos do rock no Blue Riviera, este velho escriba também balançava os seus, não na levada da canção, que isso agora é quase risco de vida. O meu movimento consistia num sucessivo senta e levanta para receber abraços e beijinhos da galera que chegava, todos, é claro, no atual padrão “iPhones nas mãos, Ray-ban nos olhos e variados perfumes na pele”, que ainda hoje tenho a impressão de sentir quando sopra um alísio.

Bem mais tarde, depois que o barulho dos motores quietou, chegou minha vez de estacionar o esqueleto na velha cadeira de balanço, que de tanto absorver os sons e acordes travessos nas dobras de sua almofada, hoje se move como se fora um metrônomo marcando o andamento das canções.

E foi nesse embalo sincopado que percebi que todos os carros parados nas proximidades do Terminal Luiz Eduardo ou eram pratas, ou brancos, ou pretos, cores que traduzem à perfeição a melancolia desses nossos dias.

Mas aí, como se num recado de um anjo torto amante do oposto, eis que vejo surgindo na última curva da estrada a velha Belina laranja do meu parceiro Fernando Pacu, que, pra completar, ainda vinha mandando um Doobie Brothers no toca-fitas que a acompanha desde os tempos em que ela era apenas uma ninfetinha tangerina.

Confesso que se Anitta (ou Ludmilla, juro que não as distingo bem) não estivesse se esgoelando lá do outro lado, teria dado pra ouvir o choro de desespero de um Ford KA todo branquinho e arrumadinho, coitado, quando sua tia devassa parou do seu lado e, soltando fumaça pelo rabo, óleo pelo carter e cheirando a gasolina batizada, começou a se tremer toda, mesmo depois de desligada.

Agradecido e representado, aumentei o som, enchi meu copo e o toquei de leve no capô ainda quente da velha forasteira, num brinde a todos os outsiders que desafiam a mesmice do mundo.

Janio Ferreira Soares, cronista , é secretário de Cultura da Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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