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Anúncio foi feito em rede nacional; o vice, Álvaro García Linera, também deixa o cargo; antes de renunciar, Morales havia dito que convocaria novas eleições, pois uma auditoria da OEA encontrou indícios de fraude no pleito realizado no dia 20 de outubro.

Por G1

Veja o momento em que Evo Morales renuncia a presidência da Bolívia

Veja o momento em que Evo Morales renuncia a presidência da Bolívia

Evo Morales renunciou neste domingo (10) ao cargo de presidente da Bolívia, após uma escalada nas tensões no país. O anúncio foi feito em rede nacional, pela televisão.

O vice-presidente, Álvaro García Linera, também apresentou a renúncia.

“Eu decidi, escutando meus companheiros, renunciar ao meu cargo da presidência”, ele disse.

Logo em seguida, ele ataca seus opositores Carlos Mesa e Luis Camacho.

“Por que tomei essa decisão? Para que Mesa e Camacho não sigam perseguindo meus irmãos dirigentes sindicais. Para que Mesa e Camacho não sigam queimando a casa dos governadores de Oruro e Chuquisaca.”

 
 
Evo perdeu o apoio das forças de segurança e de seus principais aliados

Evo perdeu o apoio das forças de segurança e de seus principais aliados

Ele ainda classificou a situação como um golpe:

“Lamento muito esse golpe cívico, e de alguns setores da polícia podem se juntar para atentar contra a democracia, contra a paz social com violência, com amedrontamento para intimidar o povo boliviano.”

Depois de acusar a oposição de atos violentos, ele terminou: “Por essas e muitas razões, estou renunciando, enviando a minha carta renúncia à Assembleia Legislativa Plurinacional da Bolívia. Muito obrigado”.

Morales havia dito, mais cedo neste domingo (10), que convocaria novas eleições, após a Organização dos Estados Americanos, OEA, divulgar que as eleições de 20 de outubro haviam sido fraudadas. Ele lembrou isso em seu pronunciamento de renúncia: “De manhã cedo estivemos reunidos com alguns ministros e decidimos, inclusive, renunciar nosso triunfo para novas eleições ocorram em toda a amplitude”.

Não está claro como vão acontecer as novas eleições e nem se ele mesmo será candidato. Mais cedo, ao anunciar a nova votação, ele disse que elas são importantes para que o povo boliviano possa eleger novas autoridades, “incorporando novos atores políticos”.

 

Opositores de Evo Morales comemoram renúncia do presidente neste domingo (10) nas ruas de La Paz — Foto: Juan Karita/AP Opositores de Evo Morales comemoram renúncia do presidente neste domingo (10) nas ruas de La Paz — Foto: Juan Karita/AP

Opositores de Evo Morales comemoram renúncia do presidente neste domingo (10) nas ruas de La Paz — Foto: Juan Karita/AP

Pouco antes da renúncia, os chefes das Forças Armadas e da Polícia, além da oposição, haviam pedido que Evo Morales deixasse o cargo para “pacificar” o país.

Nas últimas horas, ao menos três ministros também entregaram seus cargos.

Carlos Mesa, um dos principais opositores, se pronunciou em uma rede social.

“À Bolívia, ao seu povo, aos jovens, às mulheres, ao heroísmo da resistência pacífica. Nunca me esquecerei este dia único. O fim da tirania. Agradecido como boliviano por essa lição. Viva a Bolívia!”

Outras renúncias

Além de Evo Morales e do vice, Álvaro García Linera, outros dois na linha de sucessão renunciaram: Adriana Salvatierra, a presidente do Senado, e Víctor Borda, presidente da Câmara de deputados.

De acordo com o jornal “El Deber”, não se sabe quem assumirá o poder.

Fim de um governo de 13 anos

Evo Morales, 60, venceu as primeiras eleições em 2005 e assumiu em 2006.

Ele foi o primeiro presidente de origem indígena da Bolívia, fato que ele mesmo lembrou em seu pronunciamento de renúncia: “Nesse momento é importante dizer ao povo boliviano, é minha obrigação, como primeiro presidente indígena e presidente de todos os bolivianos, buscar essa pacificação”.

Morales foi eleito pela segunda vez em 2009, pela terceira em 2014 e, então, decidiu disputar um quarto mandato seguido em 2019.

Após renunciar, ele disse que ficará na cidade de El Chapare, em Cochabamba –ele negou rumores de que vai sair do país.

Eleições tumultuadas

 

Manifestantes tomam as ruas de La Paz para denunciar 'fraude eleitoral' nesta sexta-feira (25) após apuração indicar vitória de Evo Morales nas eleições presidenciais da Bolívia — Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters Manifestantes tomam as ruas de La Paz para denunciar 'fraude eleitoral' nesta sexta-feira (25) após apuração indicar vitória de Evo Morales nas eleições presidenciais da Bolívia — Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters

Manifestantes tomam as ruas de La Paz para denunciar ‘fraude eleitoral’ nesta sexta-feira (25) após apuração indicar vitória de Evo Morales nas eleições presidenciais da Bolívia — Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters

A crise na Bolívia tomou maiores proporções após as eleições de 20 de outubro deste ano, quando Evo foi reeleito em primeiro turno.

Depois de uma apuração problemática, o órgão responsável por computar os votos apontou o seguinte resultado final:

  • Evo Morales: 47,07% dos votos
  • Carlos Mesa: 36,51%

Como a diferença entre Morales e Mesa foi de mais de 10 pontos percentuais, o atual presidente foi reeleito para seu quarto mandato.

O resultado foi contestado pela oposição e, no dia 30 de outubro, a Bolívia e a OEA concordaram em realizar uma auditoria.

Antes desses números serem publicados houve uma indefinição: inicialmente, havia um método mais rápido e preliminar de apuração, e um outro, definitivo e mais lento, onde se conta voto a voto. Os números dessas duas contagens começaram a divergir, e a apuração mais rápida, que indicava que haveria um segundo turno, foi suspensa.

Desde que Evo ganhou, a oposição tem ido às ruas em protestos. A polícia parou de reprimir as manifestações, e houve motins em quartéis do país.

Na sexta (8) e no sábado (9) policiais bolivianos se amotinaram. O governo respondeu com um comunicado no qual denunciava um plano de golpe de estado.

nov
10
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CRÔNICA

Eu sou uma velha Belina laranja

 

Janio Ferreira Soares

Sábado passado minhas filhas resolveram fazer uma farra aqui no sítio. Coisa pequena, disseram-me as duas, como se em tempos whatsapeanos isso fosse possível. Pois bem, em dias assim meu papel é filtrar a piscina, arrumar as coisas e tratar de achar um lugar aonde o pancadão das imensas caixas que alguém sempre traz, não atrapalhe o som das minhas baladas e dos meus rocks rurais.

E aí, como já sabia a provável direção do vento naquela hora em que o álcool bate no estômago e segue pela corrente sanguínea até pipocar na cabeça da moçada, escolhi a sombra de uma mangueira próxima ao estacionamento dos carros, cuja coberta, construída na época da morte do filho do senador, seguiu a tendência de toda Bahia e foi batizada por um velho gaiato de: “Terminal Rodoviário Mui Excelentíssimo, Maravilhosíssimo – e, sem sombra de dúvida -, Extraordinaríssississimo, Deputado Luiz Eduardo Magalhães”.

E enquanto Sá, Rodrix e Guarabyra sacudiam os ossos nos tempos do rock no Blue Riviera, este velho escriba também balançava os seus, não na levada da canção, que isso agora é quase risco de vida. O meu movimento consistia num sucessivo senta e levanta para receber abraços e beijinhos da galera que chegava, todos, é claro, no atual padrão “iPhones nas mãos, Ray-ban nos olhos e variados perfumes na pele”, que ainda hoje tenho a impressão de sentir quando sopra um alísio.

Bem mais tarde, depois que o barulho dos motores quietou, chegou minha vez de estacionar o esqueleto na velha cadeira de balanço, que de tanto absorver os sons e acordes travessos nas dobras de sua almofada, hoje se move como se fora um metrônomo marcando o andamento das canções.

E foi nesse embalo sincopado que percebi que todos os carros parados nas proximidades do Terminal Luiz Eduardo ou eram pratas, ou brancos, ou pretos, cores que traduzem à perfeição a melancolia desses nossos dias.

Mas aí, como se num recado de um anjo torto amante do oposto, eis que vejo surgindo na última curva da estrada a velha Belina laranja do meu parceiro Fernando Pacu, que, pra completar, ainda vinha mandando um Doobie Brothers no toca-fitas que a acompanha desde os tempos em que ela era apenas uma ninfetinha tangerina.

Confesso que se Anitta (ou Ludmilla, juro que não as distingo bem) não estivesse se esgoelando lá do outro lado, teria dado pra ouvir o choro de desespero de um Ford KA todo branquinho e arrumadinho, coitado, quando sua tia devassa parou do seu lado e, soltando fumaça pelo rabo, óleo pelo carter e cheirando a gasolina batizada, começou a se tremer toda, mesmo depois de desligada.

Agradecido e representado, aumentei o som, enchi meu copo e o toquei de leve no capô ainda quente da velha forasteira, num brinde a todos os outsiders que desafiam a mesmice do mundo.

Janio Ferreira Soares, cronista , é secretário de Cultura da Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

“Secretário do Diabo”, Jackson do Pandeiro: um canto forrozeiro no ritmo e estilo mais genial do rei do ritmo na música nordestina, sucesso antigo de autoria de Osvaldo Oliveira, gravado no álbum Cabra da Peste, mas com tamanha atualidade na ironia e bom humor, que parece ter sido feita sexta-feira, em Curitiba, na frente da sede da PF, ou neste sábado, em São Bernardo do Campo, região do ABC paulista. 

BOM DOMINGO!!!

(Vitor Hugo Soares)

Por Laís Lis, G1 — Brasília

Bolsonaro diz que Lula ‘continua com todos os crimes dele nas costas’

Bolsonaro diz que Lula ‘continua com todos os crimes dele nas costas’

O presidente Jair Bolsonaro chamou neste sábado (9) de “canalha” e “presidiário” o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que na sexta-feira (8) deixou a prisão em Curitiba, após 580 dias. À noite, após discurso de Lula em São Bernardo do Campo (SP) no qual foi citado, o presidente afirmou que não responderá a “criminosos que por ora estão soltos”.

Em discurso no início da tarde durante um ato em São Bernardo, Lula disse que Bolsonaro foi eleito para “governar para o povo” e não para “os milicianos do Rio de Janeiro”.

Em resposta, Bolsonaro publicou em uma rede social, sem citar Lula:

“Não responderei a criminosos que por ora estão soltos. Meu partido é o Brasil!”.

Pela manhã, na mesma rede social, Bolsonaro havia publicado uma mensagem na qual chamou o ex-presidente de “canalha”, embora não o tenha mencionado nominalmente.

“Amantes da liberdade e do bem, somos a maioria. Não podemos cometer erros. Sem um norte e um comando, mesmo a melhor tropa, se torna num bando que atira para todos os lados, inclusive nos amigos. Não dê munição ao canalha, que momentaneamente está livre, mas carregado de culpa” escreveu.

Mais tarde, ao deixar o Palácio da Alvorada para participar de um almoço no Clube Pandiá Calógeras, no Setor Militar Urbano, em Brasília, foi indagado por repórteres a respeito da libertação de Lula. Respondeu que não vai “contemporizar com presidiário”.

“A grande maioria do povo brasileiro é honesto, trabalhador e nós não vamos dar espaço nem contemporizar com presidiário. Tá solto, mas continua com todos os crimes dele nas costas”, afirmou.

Condenado em duas instâncias no caso do tríplex no Guarujá, no âmbito da Operação Lava Jato, Lula cumpria pena de 8 anos, 10 meses e 20 dias.

Nesta sexta, o juiz Danilo Pereira Jr. autorizou que ele recorra em liberdade, depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter derrubado a possibilidade de prisão após condenação na segunda instância do Judiciário.

nov
10
Posted on 10-11-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 10-11-2019

DO EL PAÍS

Ex-presidente usa discurso ácido para antagonizar com posições radicais do atual mandatário, mas enfrenta o rótulo de “criminoso” depois que saiu da prisão

Lula discursa em São Bernardo um dia após sua prisão
Lula discursa em São Bernardo um dia após sua prisãoN.Doce (Reuters)

O ex-presidente Lula da Silva voltou ao jogo político e já despertou suas bases ao mesmo tempo em que provocou reações de seus adversários. Em seu discurso, em São Bernardo do Campo, adoçou o coração de quem o segue com palavras de esperança de um país melhor, incluindo o aviso de que a esquerda vencerá a extrema direita em 2022. Trouxe também de volta os fantasmas que alimentam a narrativa do Governo Jair Bolsonaro e a massa de antipetistas do Brasil. Depois de acusar o presidente Bolsonaro de governar para os “milicianos do Rio de Janeiro”, e de chamar o ministro Sergio Moro de “canalha”, Lula mencionou os protestos de rua que o Chile vem enfrentando há duas semanas. Citou os chilenos como “exemplo” para “resistir” e “lutar”.

Foi a deixa para acusar o ex-presidente de estimular a violência. “Lula, em seu discurso, mostra quem é e o que deseja para o país. Incita a violência (cita povo do Chile como exemplo), agride várias instituições, ofende o Presidente da República e mostra seu total desconhecimento sobre carreira militar”, tuitou o general Augusto Heleno, ministro de Segurança Institucional, fazendo alusão também ao fato de Lula ter dito que Bolsonaro se aposentou cedo e agora tira direitos previdenciários com a reforma.

Claudio Couto, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas, avalia que o discurso inflamado de Lula para o seu público é estratégico para polarizar com Bolsonaro e posicionar-se como sua principal oposição. “Não foi radical, foi um discurso forte que marca a distância com a extrema direita [de Bolsonaro]”, completa. O que vai definir o jogo eleitoral, no entanto, não são palavras ácidas ou dóceis do discurso. “É saber se ele vai procurar o Ciro Gomes ou não, se será articulador ou se vai se isolar”, completa o professor da FGV.

A esquerda no Brasil saiu fragmentada da eleição de 2018 após a fratura exposta com o PDT, hoje dominado por Ciro Gomes, que nunca visitou Lula na prisão e não perde uma oportunidade de alfinetá-lo. Baixar a guarda é um desafio diante de uma direita que também se dividiu depois de uma aliança pela eleição do presidente Jair Bolsonaro, mas que deu sinais neste sábado de quem também pode se reaproximar em nome de combater o petista que volta à arena política. “A esquerda nunca foi muito unida”, ressalva a cientista política Maria Hermínia Tavares, que não acredita numa radicalização de Lula e nem do PT. “Ele não foi radical nem nos discursos mais virulentos. O Lula é um político de negociação, e isso pode formar um campo amplo de oposição caso se estique até o ‘centrão’, ao MDB, porque ele já governou com essa gente”, opina. Mas, agora, o PT precisa juntar as forças primeiros, opina. “O partido estava preso em Curitiba e agora está solto”.

Couto concorda. “Hoje ele tem mais apoiadores do que detratores, embora também teremos uma mobilização forte dos bolsonaristas”. O professor entende que se Lula atuar como articulador da oposição, o discurso da esquerda se fortalece. “Ele só vai conseguir capitalizar essa vantagem se “brigar menos e conversar mais”. Ele tem a capacidade de atrair até lideranças do centro, como Renan Calheiros e Roberto Requião, mesmo que o partido deles tenha atuado pelo impeachment da Dilma”, opina.

O petista tem contra si um rótulo pesado depois da prisão, ainda que seu processo seja objeto de questionamento na Justiça, com o recurso de suspeição do ex-juiz Sergio Moro (a ser votado ainda este mês, segundo o ministro Gilmar Mendes), que poderia anular seu processo. “Lula foi condenado e grande parte da população entende que ele é um criminoso. A maior parte do Brasil não comemorou sua saída e ele não tem mais o poder de levar tanta gente para a rua, apesar de sua oratória”, acredita Sergio Denicoli, diretor de big data da AP Exata. É um flanco que foi explorado por Bolsonaro e Moro neste sábado. O presidente se referiu a Lula como um “canalha, momentaneamente livre, mas cheio de culpa”. Moro tuitou hoje que não responderia  a “criminosos, presos ou soltos”, em referência aos ataques de Lula.

Se o recurso de suspeição do então juiz Moro, responsável pela sua prisão em primeira instância no caso do triplex, foi aceito pelo Supremo, teria poder para alterar seu status, avalia o jurista Marco Aurélio de Carvalho, que vê chances de o ex-presidente sair vitorioso no julgamento que pode ocorrer ainda este mês na Segunda Turma. “Ele pode se reabilitar politicamente, e todos os demais processos aos quais ele responde seriam contaminados pela suspeição de Moro”, diz ele. Nesse caso, Lula teria capacidade de regeneração política muito maior, avalia o professor Claudio Couto. “Se houver anulação do julgamento, o jogo muda totalmente de figura”.

 

Distração provocada

Couto acredita que o antagonismo entre Lula e Bolsonaro traz uma vantagem maior para o segundo. “O presidente opera o tempo todo sendo anti-PT. Lula fora da prisão lhe dá um discurso mais efetivo. Agora ele pode falar que a corrupção está vencendo e que o STF está cedendo à pressão dos condenados”, analisa. Os movimentos de rua da direita exploraram exatamente isso neste sábado, incentivando o apoio à PEC que rever a decisão do Supremo da semana passada sobre segunda instância que libertou Lula e outros desafetos deles, como o ex-ministro José Dirceu.

Para Bolsonaro, a volta de Lula ao cenário nacional ajuda a redirecionar o debate para um nível ideológico, “tirando o foco das dificuldades diárias que o seu Governo vem demonstrando ter”, avalia o analista Thiago de Aragão. “Isso também é o que o Lula quer, tirar o foco de Bolsonaro enquanto busca apoio dos [partidos] de centro para inibir cada vez mais a capacidade do presidente de formar uma aliança forte”, completa.

Essa cartada do presidente, porém, é limitada. Ele também tem seus esqueletos no armário jurídico, com o filho, o senador Flavio Bolsonaro, sendo investigado pelas movimentações financeiras suspeitas do ex-funcionário de seu gabinete, Fabricio Queiroz, o que ofuscou seu papel de defensor da luta anti-corrupção. Couto enxerga no fato de Sérgio Moro ser ministro do Governo um ponto a favor da postura lavajatista do presidente. “Se o Bolsonaro perdeu essa reputação íntegra, embora não tenha nenhuma trajetória histórica de político anticorrupção, ele pode retomá-la com a aliança de Moro”, opina. Hermínia Tavares não vê o presidente se beneficiando e nem se prejudicando com a soltura de Lula. “O fato pode criar um elo maior. Mas só para os que já estão do lado dele”. Vai ser um jogo de resistência para os dois campos até 2022.

nov
10
Posted on 10-11-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 10-11-2019

DO BLOG O ANTAGONISTA

Moro, sobre Lula: “Não respondo a criminosos”

Sergio Moro afirmou no Twitter que não vai se manifestar sobre os ataques de Lula:

“Aos que me pedem respostas a ofensas, esclareço: não respondo a criminosos, presos ou soltos. Algumas pessoas só merecem ser ignoradas.”

Mais cedo, em São Bernardo do Campo, o ex-presidiário chamou Moro de “canalha”.

nov
10
Posted on 10-11-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 10-11-2019


 

 Clayton, no jornal

 

nov
10

Um dirigente do partido comunista anunciou à imprensa uma nova normativa que permitiria viajar de maneira controlada a partir do Leste. Ele desconhecia os detalhes da lei e improvisou, precipitando a queda do muro

Uma mulher, que está do lado ocidental, olha através do muro de Berlim.
Uma mulher, que está do lado ocidental, olha através do muro de Berlim.LUIS MAGÁN

 Ana Carbajosa Vicente

Um dos episódios mais extraordinários da história moderna, a queda do Muro de Berlim, foi resultado de um erro causado pela negligência dos mais destacados dirigentes da República Democrática Alemã (RDA). Isto é recordado agora, 30 anos depois, pelos protagonistas daquele 9 de novembro que mudou o destino da Europa e do mundo.

Corria o outono de 1989 e as manifestações que exigiam reformas democráticas e liberdade de viajar se multiplicavam por toda a Alemanha Oriental. Milhares de pessoas fizeram fila nas embaixadas dos países do Leste para tentar atravessar a cortina de ferro. Dentro do país, a pressão popular impressionava e Erich Honecker, o secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED), tinha sido substituído em 18 de outubro por Egon Krenz, considerado mais moderado e reformista. Mas a pressão não diminuía.

O desejo de viajar para além do muro de concreto que encerrava a RDA era quase irrefreável àquela altura. O Governo checoslovaco ameaçava fechar a fronteira se algo não fosse feito. Os dirigentes sabiam que a panela de pressão poderia acabar explodindo e o comitê central do Partido Comunista decidiu abrir um pouco a válvula, mas pensaram que seria de maneira controlada. O plano, no entanto, escapou de seu controle.

“Era preciso fazer uma política compreensível para as pessoas e as pessoas não entendiam por que não podiam viajar. A pressão era enorme”, lembra Peter Steglich, ex-embaixador da RDA, em seu apartamento na Alexanderplatz. Naquele novembro de 1989, Steglich trabalhava na sede do Ministério das Relações Exteriores e ali foi formado um grupo de trabalho, do qual participou, para procurar fórmulas que permitissem as saídas.

A ideia era que as pessoas pudessem começar a viajar de maneira organizada perto do Natal, dizem os que conheciam os planos daqueles dias. Werner Kolhoff, então braço direito do prefeito de Berlim Ocidental, Walter Momper, lembra agora como o próprio Günter Schabowski, o membro do Politburo que se tornaria o protagonista indiscutível da jornada, contou-lhe dez dias antes da queda do muro. Kolhoff diz que ele e o prefeito se reuniram com Schabowski para preparar as chegadas em massa –entre 50.000 e um milhão de pessoas, segundo seus cálculos– que se supunha que aconteceriam no final do ano. “Era preciso preparar alojamento em albergues para quem fosse ficar, ampliar o transporte público, organizar um serviço para crianças perdidas, um dispositivo caso a violência explodisse. Não sabíamos o que os soldados russos iriam fazer”, diz Kolhoff agora em seu escritório no Saarbrücker Zeitung, onde trabalha como correspondente em Berlim.

Kolhoff afirma que chegaram a manter conversas com os países aliados para ver se poderiam organizar pontes aéreas para levar as pessoas a outras cidades da Alemanha para que Berlim não entrasse em colapso. Além disso, abririam 12 passagens no muro para que as pessoas pudessem sair sem problemas. “Publicamos um comunicado de imprensa com o conteúdo da reunião, com o objetivo de pressionar para que realmente acontecesse”, diz Kolhoff, que lembra que o clima político e social estava complicado também no Oeste. “As pessoas tinham medo de que os que viessem do outro lado do muro ficassem com seus empregos. Era um clima que lembra o que está acontecendo agora com os refugiados.”

Mas todos aqueles minuciosos preparativos foram pelos ares em 9 de novembro. Kolhoff recebeu uma ligação ao meio-dia na qual lhe disseram que havia uma nova lei em marcha. Às seis da tarde o comitê central comunista convocou os jornalistas estrangeiros no Leste para informá-los sobre uma nova lei de viagens.

Na véspera fora realizada a primeira coletiva desse tipo e os jornalistas não quiseram perder a segunda porque sabiam que uma importante reunião do comitê central havia sido realizada pela manhã. Quatro altos funcionários, incluindo o do Ministério do Interior, Gerhard Lauter, foram encarregados de redigir um rascunho com o objetivo impossível de estabilizar a situação, permitindo algumas viagens. No texto, Lauter e seus colegas foram muito além e o entregaram aos seus superiores esperando uma resposta que nunca chegou.

Durante a reunião, a nova regulamentação foi um assunto que não recebeu excessiva atenção, explica Mary Elise Sarotte em seu livro O Colapso, A Abertura Acidental do Muro de Berlim. Enviaram o rascunho, considerando-o adequado, depois que Krenz o compartilhou durante uma pausa da reunião. Naquele dia se comunicaria à imprensa e a partir do dia seguinte, dia 10 pela manhã, as pessoas poderiam solicitar sua autorização. Calcularam que por volta do Natal milhares de alemães orientais poderiam desfrutar de uma abertura de fronteiras como nunca se havia visto antes. Mas sempre sob o controle da RDA e sem que isso implicasse na queda do muro.

O plano estava pronto e Schabowski seria o membro do Politburo que o apresentaria à imprensa internacional. Peter Brinkmann, correspondente na RDA do diário Bild, um dos jornalistas que compareceram à coletiva de imprensa e que fez uma pergunta crucial para o curso da história, explica que “queriam dar a imagem de que eram profissionais. Por isso organizaram essa coletiva para jornalistas estrangeiros”. Brinkmann foi convidado porque, por ser do Oeste, era tecnicamente de um país estrangeiro. O local escolhido foi o Centro de Imprensa Internacional, hoje sede do Ministério da Justiça, na Mohrenstrasse, no coração de Berlim.

Peter Brinkmann em Berlim, em frente a um dos pedaços que restam do muro.
Peter Brinkmann em Berlim, em frente a um dos pedaços que restam do muro.OMER MESSINGER

O que ninguém previu é que Schabowski apareceria diante dos jornalistas sem ter preparado o assunto e sem ter lido as notas, nem que acabaria fazendo o papelão de sua vida. “Schabowski não esteve na reunião da manhã e não estava a par das coisas. Deveria estar, mas não estava”, diz Brinkmann. “Pouco antes das cinco da tarde, Schabowski chegou e Krenz entregou-lhe os papéis”, acrescenta. Assim ele chegou ao centro de imprensa. Afinal, estava acostumado a transmitir aos repórteres o que eles tinham de escrever e provavelmente não previu a chuva de perguntas a que seria submetido minutos mais tarde.

Vestindo terno cinza e gravata listrada, Schabowski falou e falou durante cerca de 45 minutos sobre processos, métodos, camaradas, linhas de partido… até que chegou a primeira pergunta sobre as viagens. Riccardo Ehrman, correspondente da agência italiana Ansa, perguntou sobre uma lei anterior de viagens que foi objeto da oposição da população, que a considerou pura propaganda. Schabowski respondeu de maneira confusa, mas no final, quando faltavam oito minutos as sete da noite, se produziu, ou melhor, o próprio Schabowski produziu a notícia com letras maiúsculas. Disse que “hoje foi tomada uma decisão […] para que as pessoas possam deixar a república”. Uma pequena agitação aconteceu e os jornalistas se interrompiam uns aos outros para perguntar. “Com passaporte?”, perguntou um. “De agora em diante?”, gritou Brinkmann da plateia. “Isso também se aplica a Berlim Ocidental?”, acrescentou.

Schabowski remexeu seus papéis em busca de uma resposta, coçou a testa, colocou os óculos de perto e leu: “Poderão ser solicitadas viagens particulares para fora do país sem justificativa, sem motivos para a viagem ou sem relações familiares e serão aprovadas com rapidez”. Um terceiro jornalista, Ralph Niemeyer, perguntou novamente a partir de quando. Schabowski voltou aos papéis sem saber muito bem o que lia. “Eu entendo que de maneira imediata, imediatamente.” Ele não leu, no entanto, a página seguinte, onde se dizia que a decisão de emitir vistos não seria oficializada até o dia seguinte.

A gravação do ambiente naquela sala de imprensa evidencia o desconcerto e a incredulidade diante do que estava acontecendo. “Fui correndo para o hotel na Friedrichstrasse e vesti tudo o que tinha. Duas camisas e dois pulôveres. O porteiro chamou um táxi e eu dei 50 marcos ao motorista, uma fortuna, quase metade do que ganhava em um mês, para que dirigisse comigo a noite toda. Fui percorrendo todo o muro”, lembra Brinkmann.

Naquela noite, o noticiário da televisão ocidental, o Tagesthemen, anunciou solenemente que “hoje é um dia histórico. A RDA anunciou que as fronteiras estão abertas para todo mundo” e colocou ao vivo um enviado especial ao pé do muro, do qual as pessoas começavam a se aproximar. Depois vieram as lágrimas, a euforia, as massas subindo no muro e tudo o mais.

“Foi um caos total”, lembra Kolhoff. “O prefeito estava em um estúdio de televisão e se levantou ao vivo. Na Invalidenstrasse, ao lado do muro, subiu em uma mesa e, com um megafone, começou a dirigir o tráfego humano”, lembra.

Brinkmann, que ainda dá uma risada nervosa quando se lembra disso e que tem escrita a famosa pergunta da coletiva de imprensa no verso do seu cartão de visita, afirma que “tudo foi uma coincidência graças a duas palavras, ab sofort [de agora em diante, em alemão]”.

Steglich, o embaixador, quase não se alterou. Naquele dia não atravessou para o Oeste e no dia seguinte foi ao ministério como se nada estivesse acontecendo. “Eu era um patriota convencido, não estava interessado no que acontecia no Oeste”, diz agora este homem, que afirma que “por uma casualidade se escreveu a história do mundo”.

Trinta anos depois ainda há muito a se saber. Schabowski morreu em 2015, levando ao túmulo a resposta a um dos grandes enigmas da história. Por que não esteve presente na reunião do comitê central no qual foram decididas as medidas cujos detalhes desconhecia? E, principalmente, suas palavras foram realmente um erro?

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