O enigma chileno

 

Dentro da catastrófica quinzena que foi esta para a América Latina –derrota de Macri e retorno do peronismo com a senhora Kirchner na Argentina, fraude escandalosa nas eleições bolivianas que permitirá ao demagogo Evo Morales se eternizar no poder, agitações revolucionárias dos indígenas no Equador–, há um fato misterioso e surpreendente que me nego a emparelhar com os mencionados: a violenta explosão social no Chile contra a alta dos bilhetes do metrô, os saques e a destruição, os vinte mortos, os milhares de presos e, por último, a manifestação de um milhão de pessoas nas ruas protestando contra o Governo de Sebastián Piñera.

Por que misterioso e surpreendente? Por uma razão muito objetiva: o Chile é o único país latino-americano que travou uma batalha eficaz contra o subdesenvolvimento e cresceu nestes anos de maneira assombrosa. Embora eu saiba que os relatórios internacionais não comovem ninguém, recordemos que a renda per capita chilena é de 15 mil dólares anuais (e em poder aquisitivo é de 23 mil dólares, segundo órgãos como o Banco Mundial). O Chile acabou com a pobreza extrema e em nenhuma outra nação latino-americana tantos setores populares passaram a fazer parte das classes médias. Goza de pleno emprego, e os investimentos estrangeiros e o desenvolvimento notável de seu empresariado e seus técnicos fizeram com que seu nível de vida subisse velozmente, deixando muito para trás os demais países da região. No ano passado viajei pelo interior chileno e fiquei maravilhado ao ver o progresso que se manifestava em toda parte: os lugares esquecidos de trinta anos atrás são hoje cidades pujantes, modernas e com nível de vida muito alto, levando em conta os padrões do Terceiro Mundo.

Por isso o Chile quase já deixou de ser um país subdesenvolvido e está mais perto do Primeiro Mundo que do Terceiro. Isto não se deve à ditadura feroz do general Pinochet. Deve-se ao resultado do referendo de 31 anos atrás com o qual o povo chileno pôs um ponto final à ditadura (e em que, além do mais, Piñera fez campanha contra Pinochet) e ao consenso entre a esquerda e a direita para manter uma política econômica que trouxe gigantescos progressos ao país. Em 29 anos de democracia a direita só governou cinco anos e a esquerda –ou seja, a Concertação–, 24. Não é descabido afirmar, portanto, que a esquerda contribuiu mais que ninguém para que aquela política, de defesa da propriedade e das empresas privadas, o estímulo aos investimentos estrangeiros, a integração do país nos mercados mundiais e, claro, as eleições livres e a liberdade de expressão, tivessem levado ao extraordinário desenvolvimento do Chile. Um progresso de verdade, não só econômico, como também ao mesmo tempo político e social.

A esquerda contribui para um progresso de verdade, não só econômico, como também ao mesmo tempo político e social

Como explicar, então, o ocorrido? Para entender é imprescindível dissociar o que se passou no Chile do levantamento camponês equatoriano e das desordens bolivianas pela fraude eleitoral. A que comparar, então, a explosão chilena? Ao movimento francês dos coletes amarelos, antes melhor, e ao grande mal-estar que há na Europa denunciando que a globalização aumentou as diferenças entre pobres e ricos de modo vertiginoso e pedindo uma ação do Estado que a freie. É uma mobilização das classes médias, como a que agita boa parte da Europa, e tem pouco ou nada a ver com as erupções latino-americanas dos que se sentem excluídos do sistema. No Chile ninguém está excluído do sistema, embora, sem dúvida, a disparidade entre os que têm e os que mal começam a ter algo seja grande. Mas esta distância se reduziu muito nos últimos anos.

Ainda não existe uma educação pública de primeiro nível, nem uma saúde que concorra com sucesso com a privada, nem aposentadorias que cresçam no ritmo dos padrões de vida

O que falhou, então? Acredito que um aspecto fundamental do desenvolvimento democrático que os liberais postulamos: a igualdade de oportunidades, a mobilidade social. Esta última existe no Chile, mas não de maneira tão eficaz a ponto de frear a impaciência, perfeitamente compreensível, daqueles que passaram a fazer parte da classe média e aspiram a progredir mais e mais graças a seus esforços. Ainda não existe uma educação pública de primeiro nível, nem uma saúde que concorra com sucesso com a privada, nem aposentadorias que cresçam no ritmo dos padrões de vida. Este não é um problema chileno, mas algo que o Chile compartilha com os países mais avançados do mundo livre. Uma sociedade admite as diferenças econômicas, os distintos níveis de vida, só quando todos têm a sensação de que o sistema, precisamente pelo quanto é aberto, permite em cada geração que haja progressos individuais e familiares notáveis, ou seja, que o êxito –ou o fracasso– esteja no destino de todos. E que isso se deva ao esforço e à contribuição feita ao conjunto da sociedade, não ao privilégio de uma pequena minoria. Esta é, provavelmente, a matéria pendente no progresso chileno, como sustenta, em um inteligente ensaio, o colombiano Carlos Granés, cujas opiniões em grande parte compartilho

A obrigação nesta crise do Governo chileno não é, portanto, de dar volta atrás em suas políticas econômicas, como pedem alguns enlouquecidos que gostariam que o Chile retrocedesse até se tornar uma segunda Venezuela, mas de completá-las e enriquecê-las com reformas na educação pública, na saúde e nas aposentadorias até dar ao grosso da população chilena –que em toda sua história nunca esteve melhor que agora– a sensação de que o desenvolvimento inclui também essa igualdade de oportunidades indispensável em um país que escolheu a legalidade e a liberdade, e rejeitou o autoritarismo. A Justiça tem que estar no coração da democracia e todos têm de sentir que a sociedade livre premia os esforços, e não as conexões e os pistolões.

O segundo homem da “revolução venezuelana”, o tenente Diosdado Cabello, teve a desfaçatez de dizer que todas as mobilizações e tumultos latino-americanos se devem a que um “terremoto chavista” está soprando sobre o continente. Não parece ter se inteirado de que quatro milhões e meio de venezuelanos fugiram de seu país para não morrer de fome, porque na Venezuela socialista destes dias só comem como se deve quem está no poder e seus comparsas, ou seja, aqueles que roubam, traficam e desfrutam dos típicos privilégios que as ditaduras e extrema esquerda (e as de direita, com frequência) concedem a seus súditos submissos. Não é impossível que agitadores venezuelanos, enviados por Maduro, tenham turvado e agravado as reivindicações dos indígenas equatorianos, e até dado uma mão a Cristina Kirchner em seu retorno ao poder, meio oculta sob o guarda-chuva do presidente Fernández, mas, no Chile, certamente que não. Que na cúpula venezuelana celebrem com champanhe francês as dores de cabeça do Governo de Piñera, dá-se como certo. Mas que seja o motor da revolta, é inconcebível, por mais que tenha sido justo a meninada quem queimou vinte e nove estações de metrô de Santiago e fez pichações em favor do socialismo do século XXI (o paradoxal é que esses moleques nem sequer pagam a passagem do metrô: sua carteirinha estudantil os exclui desse expediente)

“Suite dos Pescadores”, Dorival CaymmiE agora, Mestre? Que a sua música maravilhosa e a sua poderosa memória nos apontem caminhos !!!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

nov
05
Posted on 05-11-2019
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Temer e Padilha serão testemunhas de Geddel no caso Calero

Na próxima quinta, a juíza Diana Wanderlei, de Brasília, vai ouvir Michel Temer, Eliseu Padilha e Marcelo Calero numa ação de improbidade contra Geddel Vieira Lima.

Ele é acusado de, em 2016, ter pressionado Calero, então ministro da Cultura, a liberar projeto de um arranha-céu, no qual havia adquirido um apartamento, numa área histórica de Salvador.

Preso desde 2017 e já condenado pelo STF por organização criminosa e lavagem, Geddel irá à Quinta Vara da Justiça Federal assistir aos depoimentos, que serão feitos por videoconferência.

Do Jornal do Brasil

 

CadernoB

Cia Teatral Oficina Uzyna Uzona completa 61 anos de atividade artística permanente

Após a estreia de Chico Buarque como dramaturgo, há 51 anos, Roda Viva chega ao Rio, a partir de sexta (8), na Cidade das Artes, com direção de Zé Celso

  A gente vai contra a corrente. Até não poder resistir. Na volta do barco é que sente. O quanto deixou de cumprir. Faz tempo que a gente cultiva. A mais linda roseira que há. E eis que chega a roda viva. E carrega a roseira pra lá. Roda mundo, roda-gigante. Roda moinho, roda pião. O tempo rodou num instante. Nas voltas do meu coração
Macaque in the trees
A Cia Oficina, de Zé Celso Martinez Correa, vai encenar o antológico Roda Viva, de Chico Buarque, no Rio (Foto: Montagem/Divulgação)

 

“O teatro é o aqui agora, ele projeta o futuro sim, mas a partir da energia presente”, diz o diretor Zé Celso, que traz para o Rio de Janeiro, a partir de 8 de novembro, na Cidade das Artes, o novo “Roda Viva”, com texto de Chico Buarque atualizado para o Brasil de 2019. “Inserimos: agro negócio, memes, notícias que acontecem a cada semana e a presença da internet, que é muito central no musical”, revela Zé. RODA VIVA estreou em dezembro de 2018 e ficou em cartaz por quase um ano em São Paulo, com casa lotada. A intenção é, também na temporada carioca, trazer ao público a urgência de diversas questões da atualidade nos campos cultural, social, político, ecológico, econômico e tecnológico.

A dramaturgia de Roda Viva conta a trajetória, de ascensão e queda, de Benedito Silva (Roderick Himeros), cantor e compositor de sucesso. O personagem é inventado e manipulado pela máquina político-midiática. A trama se desenvolve pelas intervenções do Anjo da Guarda (Gui Calzavara) e do Capeta (Joana Medeiros e Zé Ed). Eles fazem de Benedito o cantor de grande sucesso popular Ben Silver, herói pop. Haverá uma terceira metamorfose que colocará em cena Benedito Lampião, cantor “bem brasileiro, bem violento”. Mané (Marcelo Drummond) é o amigo de juventude do protagonista, que durante todo o espetáculo fica na mesa do bar, e tem sua genialidade fabricada, monitorada pelo jogo entre Anjo, Capeta e coro. Quando Benedito é, enfim, devorado pelo coro, sua esposa Juliana (Camila Mota), que o substituiria como novo ícone da cultura, se liberta da formatação imposta e propõe ao coro e à multidão um novo acordo de produção de vida e desalienação.

Em 17 de janeiro de 1968, no Teatro Princesa Isabel, em Copacabana, o músico Chico Buarque estreava como dramaturgo – sob direção de Zé Celso Martinez Corrêa, com Marieta Severo, Antônio Pedro, Heleno Prestes, entre outros no elenco – o musical RODA VIVA. No mesmo ano, em julho, Marília Pêra, Rodrigo Santiago, Zezé Motta e mais 30 artistas, iniciavam a temporada paulista. Meses depois, 110 pessoas do grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas – CCC – invadem o Teatro Galpão, espancam o elenco e destroem o cenário da peça. 13 de dezembro de 1968, o governo militar decreta o Ato Institucional nº5, que suprimiu garantias constitucionais e marcou a chegada do mais duro período da ditadura. RODA VIVA torna-se um ícone da liberdade de expressão, da resistência e da contribuição das artes e do teatro para consolidação da democracia brasileira.

“RODA VIVA em 68 foi massacrada, uma horrível repressão. Isso me fez decidir voltar, agora, com a peça. A polícia invadiu a apresentação em São Paulo, em Porto Alegre também. As atrizes e o elenco foram agredidos. “Roda viva não representa nada. Ela presenta. Não é teatro de representação. A gente chama de “tragicomédiaorgia”, define o diretor. O texto foi atualizado e aponta fenômenos culturais como o sertanejo universitário e as redes sociais. Narra à ascensão e queda de um ídolo popular, Benedito Silva/Ben Silver. Zé Celso acrescentou duas músicas de Chico que não estavam na montagem original: “As caravanas” e “Cordão”.

A Cia Teatral Oficina Uzyna Uzona realiza, até 13 de novembro, um crowndfunding: www.benfeitoria.com/oficina e pretende, com a verba arrecadada, quitar todo o custo de produção da temporada carioca. A primeira meta foi atingida e contemplará o restauro da sede do Oficina. Na meta 2, o valor arrecadado será destinado para transportar cenários; locar equipamentos de luz, som e vídeo; hospedar artistas e técnicos no Rio de Janeiro. Não há patrocínio para montagem e manutenção das 4 semanas que ficará em cartaz na Cidade das Artes. As apresentações – com toda estrutura do espetáculo no Rio – custam 830 mil reais. A campanha arrecadou até agora pouco mais de 30 mil. Somente para diárias de alimentação, está previsto um custo de aproximadamente 200 mil reais.

SERVIÇO: | RODA VIVA DE CHICO BUARQUE / CIDADE DAS ARTES / De 8/11 a 1/12 / Horários: Sextas, 20h. Sábados e domingos, 19h. / Ingressos: Plateias e frisas R$ 120 inteira, R$ 60 meia / Galerias baixas e altas R$ 90 inteira, R$ 45 meia / Local: Cidade das Artes (Av. das Américas, 5300 – Barra da Tijuca / Duração: 4h (com intervalo de 15 minutos) / Ingressos antecipados: AQUI / Colabore com o financiamento coletivo da montagem: benfeitoria.com/oficina.

RODA VIVA 2019 | FICHA TÉCNICA / Texto: Chico Buarque / Versão 2018: Zé Celso e Coro Teatro Oficina 2018 / Diretor: Zé Celso / Conselheira Poeta: Catherine Hirsch / Diretor musical: Felipe Botelho / Direção de produção: Camila Mota, Marcelo Drummond e Zé Celso / Produção executiva: Anderso Puchetti/ Assistente de direção: Beto Eiras / Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação. / Benedito Silva: Roderick Himeros / Juliana: Camila Mota / Anjo: Guilherme Calzavara / Capeta: Joana Medeiros e Zé Ed / Mané: Marcelo Drummond.

O Coro: Cafira Zoé, Clarisse Johansson, Cyro Morais, Danielle Rosa, Fernanda Taddei, Gabriela Campos, Isabela Mariotto, Kael Studart, Kelly Campello, Marcelo Dalourzi, Mayara Baptista, Nolram Rocha, Sylvia Prado, Tony Reis, Tulio Starling, Wallie Ruy.

A Banda: Violoncelo: Amanda Ferraresi / Bateria: André Santana / Percussão: Carina Iglecias / Baixo: Felipe Botelho / Piano: Giuliano Ferrari / Percussão: Ito Alves / Guitarra: Moita Mattos.

Do Jornal do Brasil

  O presidente Jair Bolsonaro voltou a negar que o fato de seu filho Carlos ter acessado o sistema de gravação de áudio do condomínio onde mora para rebater depoimento de um porteiro que citou o presidente nas investigações sobre a morte da vereadora Marielle Franco tenha representado algum tipo de obstrução.

“Que obstrução? Apenas eu falei com meu filho, ele foi na portaria, coisa que qualquer um dos 150 moradores do condomínio podem fazer, colocou a data 14 de março do ano passado, e todas as ligações para a minha casa e a casa dele, colocou o áudio, e filmou esse áudio, nada mais além disso”, disse Bolsonaro em entrevista à TV Record exibida na noite de domingo.

Macaque in the trees
Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Bolsonaro já havia afirmado no fim de semana, após dizer que Carlos tinha acessado a gravação para evitar que fosse “adulterada”, que o fato não representava qualquer tipo de obstrução.

Na quarta-feira, Carlos Bolsonaro publicou um vídeo nas redes sociais em que acessava o sistema de gravação de áudio da portaria do condomínio para mostrar, segundo ele, que o porteiro que citou o nome de Bolsonaro nas investigações da morte de Marielle não tinha falado a verdade.

O vídeo foi publicado após reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, afirmando que o porteiro disse em depoimento que Élcio Queiroz, acusado de dirigir o carro usado no assassinato da vereadora do Rio de Janeiro e de seu motorista Anderson Gomes, em março do ano passado, entrou no condomínio afirmando que ia à casa de Bolsonaro e que teve a entrada autorizada pelo “seu Jair”.

Queiroz, de acordo com a reportagem que cita o depoimento, teria, na verdade, ido à residência de Ronnie Lessa, acusado de efetuar os disparos que mataram Marielle e Anderson. Lessa mora no mesmo condomínio de Bolsonaro.

Na reportagem, o Jornal Nacional disse que o sistema de presença da Câmara dos Deputados mostra que Bolsonaro estava em Brasília no dia do assassinato de Marielle, o mesmo em que Queiroz teria visitado Lessa no condomínio.

O presidente confirmou que estava em Brasília e fez duros ataques à TV Globo e ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), a quem acusou de vazar as investigações, que correm sob segredo de Justiça.

O Ministério Público do Rio de Janeiro, que lidera a apuração do caso Marielle junto com a polícia do Rio de Janeiro, afirmou no mesmo dia em que Carlos fez a gravação que o porteiro do condomínio mentiu, uma vez que as investigações apontam que é de Ronnie Lessa a voz que aparece em uma gravação autorizando a entrada de Élcio Queiroz.

Após a reação do MPRJ, uma das promotoras que atuam no caso decidiu se afastar da apuração da morte de Marielle e Anderson depois que foram reveladas publicações dela em redes sociais de apoio a Bolsonaro durante a campanha eleitoral do ano passado.

nov
05
Posted on 05-11-2019
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Duke, hoje no jornal  O Tempo (MG)

nov
05
Posted on 05-11-2019
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DO EL PAÍS

Trecho do livro ‘Por Que Nós Dormimos’, do neurocientista Matthew Walker, que explica como os humanos deveriam dormir

A sesta parece ser parte fundamental do ciclo de sono humano.
A sesta parece ser parte fundamental do ciclo de sono humano.pabloduke

Nós, humanos, não dormimos do jeito que a natureza pretendia. O número de episódios de sono, sua duração e os momentos em que deveríamos dormir foram compreensivelmente distorcidos pela modernidade.

Nas nações desenvolvidas, a maioria dos adultos dorme atualmente segundo um patrão monofásico, ou seja, tratamos de completar um só sono prolongado durante a noite, cuja duração média é inferior a sete horas. Se você visitar culturas às quais a eletricidade não chegou, certamente verá algo bastante diferente. Tribos extrativistas como a dos gabras, no norte do Quênia, ou os san no deserto do Kalahari, cuja forma de vida mudou muito pouco nos últimos milênios, dormem seguindo um patrão bifásico. Os dois grupos dormem por um período bastante longo durante a noite (passam de sete a oito horas na cama, dormindo umas sete horas), e depois, pela tarde, fazem uma sesta que dura entre 30 e 60 minutos.

Também há indícios de uma combinação dos dois padrões de sono em função da época do ano. Algumas tribos pré-industriais como os hadzas, do norte da Tanzânia, e os san, da Namibia, seguem um padrão bifásico nos meses mais calorosos do verão, com uma sesta de 30 a 40 minutos no começo da tarde. Depois, durante os meses mais frios do inverno, mudam para um padrão de sono em grande parte monofásico.

Mesmo quando seguem um patrão de sono monofásico, o tempo de sono observado nas culturas pré-industriais não é como o nosso. Em geral, os membros da tribo vão dormir duas ou três horas depois do pôr-do-sol, por volta das 21h. Seu episódio de sono noturno acabará por volta do amanhecer. Alguma vez você se perguntou sobre o significado do termo “meia-noite”? Obviamente, significa a metade da noite, ou, mais tecnicamente, o ponto médio do ciclo solar. E assim é para o ciclo de sono das culturas extrativistas, e supostamente para todos os que viveram antes. Agora pense nas normas de sono da nossa cultura. A meia-noite já não é “a metade da noite”. Para muitos de nós, a meia-noite costuma ser o momento em que decidimos checar nosso e-mail pela última vez, e já sabemos o que frequentemente acontece depois. Para agravar o problema, não dormimos mais pela manhã para compensar este início de sono mais tardio. Não podemos. Nossa biologia circadiana e as insaciáveis demandas da vida pós-industrial à primeira hora da manhã nos negam o sono de que tanto necessitamos. Houve um tempo em que íamos para a cama ao anoitecer e acordávamos com as galinhas. Agora, muitos de nós continuamos acordando na mesma hora que as galinhas, mas o anoitecer é simplesmente a hora em que terminamos o trabalho no escritório, restando ainda muitas horas de vigília pela frente. Além disso, pouquíssimos nos concedemos uma sesta completa à tarde, o que contribui ainda mais para o nosso estado de falta de sono.

Entretanto, o sono bifásico não tem uma origem cultural. É profundamente biológico. Todos os humanos, independentemente de sua cultura ou localização geográfica, sofrem um declínio no seu estado de alerta no começo da tarde, o que é geneticamente codificado. Observe qualquer reunião depois da hora do almoço e isto ficará evidente. Como marionetes cujos fios se soltam e depois voltam a se esticar rapidamente, as cabeças começarão a cair e a se levantar de repente. Estou seguro de que alguma vez você já experimentou um desses ataques de sonolência que parecem se apoderar de você, como se seu cérebro fosse dormir surpreendentemente cedo.

Tanto você como o resto dos participantes da reunião estão sendo vítimas de uma queda no alerta, impresso pela evolução, que favorece uma sesta vespertina, chamada sonolência pós-prandial (do latim prandium, comida). Este breve redução da vigília, de um estado de alerta de alto grau a outro de baixo nível, reflete uma necessidade inata de fazer uma sesta vespertina. Isso parece ser uma parte normal do ritmo diário da vida. Se alguma vez você tiver que fazer uma apresentação no trabalho, para o seu próprio bem (e pelo do estado consciente de sua audiência), se puder evite essas horas.

O que se torna muito evidente quando você repara nestes detalhes é que a sociedade moderna nos afastou do que deveria ser uma organização pré-estabelecida do sono bifásico, que nosso código genético trata de reavivar a cada tarde. O abandono do sono bifásico começou quando passamos de uma existência agrícola a outra industrial, ou talvez inclusive antes.

Os estudos antropológicos dos extrativistas da época pré-industrial também dissiparam um mito popular a respeito de como os seres humanos deveriam dormir. Por volta do final da alta idade moderna (final do século XVII e princípios do XVIII), os textos históricos sugerem que os europeus ocidentais dormiam dois longos períodos noturnos, separados por várias horas de vigília. Entre estes dois períodos de sono gêmeos, às vezes chamados primeiro sono e segundo sono, liam, escreviam, rezavam, faziam amor e inclusive faziam vida social.

Entretanto, o fato de as culturas pré-industriais estudadas até agora não terem mostrado uma forma de sono similar, em dois turnos noturnos, sugere que esta não é a forma de sono natural programada evolutivamente. Mais parece se tratar de um fenômeno cultural que se popularizou com a migração para a Europa ocidental. Por outro lado, não existe nenhum ritmo biológico – cerebral, neuroquímico ou metabólico – que aponte a uma necessidade humana de estar acordado várias horas no meio da noite. O verdadeiro padrão de sono bifásico –para o qual existe evidência antropológica, biológica e genética, e continua sendo mensurável em todos os seres humanos até hoje – é o que consiste em um episódio mais longo de sono contínuo à noite, seguido de uma sesta curta no meio da tarde.

Aceitando que este é nosso padrão natural de sono, chegaremos algum dia a saber com certeza que tipo de consequências há para nossa saúde por termos deixado o sono bifásico? Esta forma de dormir que incorpora a sesta é praticada em diferentes culturas de todo o mundo, incluindo a América do Sul e a Europa mediterrânea. Quando eu era criança, na década de 1980, fui de férias à Grécia com a minha família. Ao caminharmos pelas ruas das principais cidades gregas que visitamos, via avisos pendurados nas vitrines que eram muito diferentes dos que costumava ver na Inglaterra. Diziam: “Aberto de nove da manhã a uma da tarde, fechado de uma a cinco, aberto de cinco a nove”.

Na atualidade, restam poucos avisos desse tipo nos comércios da Grécia. Antes da virada do milênio, viveu-se uma pressão cada vez maior pelo fim da prática da sesta na Grécia. Uma equipe de pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard decidiu quantificar as consequências para a saúde desta mudança radical estudando mais de 23.000 adultos gregos, homens e mulheres de 20 a 80 anos de idade. Os pesquisadores se centraram nos efeitos cardiovasculares, fazendo um acompanhamento do grupo durante um período de seis anos, ao longo dos quais muitos deles deixaram de dormir a sesta.

Como em inumeráveis tragédias gregas, o resultado final foi dilacerante, mas aqui de maneira mais séria e literal. Nenhum dos pacientes tinha antecedentes de enfermidade coronária ou acidente vascular cerebral no início do estudo. Entretanto, nesse período de seis anos, aqueles que deixaram a sesta habitual viram um aumento de 37% no risco de morte por doença cardiovascular, em comparação àqueles que mantiveram as sestas regulares durante o dia. O efeito foi especialmente intenso nos trabalhadores, onde o risco de mortalidade resultante de prescindir da sesta aumentou em mais de 60%.

Trata-se de um estudo excepcional, que deixa um fato patente: quando abandonamos a prática inata do sono bifásico, nossas vidas se abreviam. Talvez por isso não seja surpreendente que nos pequenos enclaves da Grécia onde o costume da sesta permanece intacto, como na ilha de Ikaria, os homens tenham quase quatro vezes mais chances de chegar aos 90 anos que os homens norte-americanos. As sociedades que incorporaram a sesta a seus hábitos já foram descritas como “os lugares onde as pessoas se esquecem de morrer”. A prática do sono bifásico natural e uma dieta saudável parecem ser as chaves para uma longa vida.

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