ARTIGO

Um grande acadêmico

Joaci Góes

Ao confrade Aleilton Fonseca!

Hoje, sexta-feira, 29 de novembro, às 20 horas, toma posse, na Academia de Letras da Bahia, o jurista Edvaldo Pereira de Brito da cadeira número três que teve como último ocupante o legendário polígrafo Guilherme Requião Radel. Consoante o que temos sentido há anos, as pessoas, em geral, revelaram-se surpreendidas por suporem que a esse venerável sodalício o eminente jurista baiano de há muito já pertencesse. Melhor, assim, do que o constrangimento que passam alguns ao serem questionados sobre as forças ocultas que os levaram a ocupar posições, aparentemente, acima dos seus méritos.

Edvaldo Brito é, sem favor, o brasileiro que, na atualidade, mais excele como dublê de teórico e pragmático, esgrimindo com igual descortino e eficácia nos domínios da teoria como nos das demandas da vida que reclamam resultados imediatos. Por isso, é de evidência solar que na atualidade, como, provavelmente, ao longo de toda a história dessa vetusta instituição cultural, não há nem nunca houve quem chegasse à casa de Arlindo Fragoso tão respaldado pelo apoio popular, de tal modo é pública e aclamada a evidência de seu grande valor intelectual, ainda que as massas brasileiras nunca tenham tido contato com sua abundante e qualificada obra, o mesmo tendo acontecido com personalidades solares, como Rui Barbosa, Orlando Gomes ou Guilherme Radel, falecido no último janeiro, a quem ele sucede imediatamente, na cadeira nº 3.
Fato inquestionável é que são poucos os que, ao longo de quase trezentos anos de história, ingressaram nesse venerável sodalício precedidos, sequer proximamente, de uma biografia intelectual das dimensões desse colosso de ébano que, nascido no pequeno município de Muritiba, berço de Castro Alves, chegou à Metrópole para usá-la como plataforma de lançamento para conquistar o Brasil. Entre as duas centenas de nomes que, ao longo da História, ocuparam as 40 cadeiras deste sodalício, penso que Orlando Gomes seja o que guarda maior semelhança com o seu caso, fato que, me parece, resultou do inspirado propósito de seguir as pegadas do Grande Mestre, no mesmo padrão dos casos antológicos de que as relações de Sócrates com Platão e deste com Aristóteles são paradigmáticos. Não se trata, portanto, de uma coincidência, mas de um desfecho muito pertinaz e conscientemente perseguido por EB, na esteira das sinergias que resultam da sintonia entre mestres e discípulos que se impõem ao processo intelectual sucessório.
Não seria o caso de proclamar que, com a sua chegada, virou quarteto o famoso trio de juristas que a Bahia presenteou o Brasil, formado por Teixeira de Freitas, Rui Barbosa e Orlando Gomes?
Além de festejado advogado, professor emérito e autoridade nacionalmente consagrada como doutrinador, nos campos de suas especialidades jurídicas, Edvaldo Brito guarda com o Mestre Orlando o paralelismo de ter o braço ligado ao cérebro, de tal modo maneja, como ele, os requerimentos da teoria e da prática operacional. Sem dúvida, não há memória de quem, como Orlando Gomes e Edvaldo Brito, tenha se desincumbido tão bem das exigências dessas duas dimensões fundamentais à sobrevivência e ao avanço humanos. Como Orlando Gomes, que operava no assombroso nível de uma equipe multidisciplinar, Edvaldo Brito construiu obra jurídica de peso, ao tempo em que desempenhou funções tão distintas como a gestão da cidade do Salvador, quatro secretarias de Estado e a condução dos negócios da cidade de São Paulo, que tem o terceiro orçamento do País. De quebra, ainda, numa prova de humildade e de amor à sua terra, exerce o segundo mandato como vereador de Salvador, pontificando no mais antigo parlamento brasileiro como o mais ilustre entre os sessenta mil vereadores que representam os 5.570 municípios brasileiros.
Fortalecidos pela honraria de presidir a mais antiga Academia do Continente Americano, vamos convocar o novo e eminente confrade para juntar, à nossa, sua poderosa voz, na promoção dos legítimos interesses da negritude brasileira, em geral, e da baiana, em particular, vítima histórica da impregnação de um vitimismo que a estiola e paralisa, submetendo-a aos inconfessáveis interesses do populismo de todas as cores ideológicas.
O desdobramento dos fundamentos desse raciocínio compõe a essência do nosso discurso de saudação ao ilustre brasileiro, casado com a jurista Reginalda; pai do advogado Edvaldo Filho e do deputado Antônio Brito; avô de Marina, Felipe, Paula, Antônio Ali e Laila. Nesses rebentos repousa a garantia de uma descendência marcada pelo saber e pela honradez.
A exuberante biografia de Edvaldo Brito resulta do seu empenho em cumprir a advertência do seu augusto pai, João: “Edvaldo, meu filho, estuda para te transformares num grande homem”

Joaci Góes, escritor, é presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Artigo publicado nesta quinta-feira, 28, na TB.