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Antonio Risério

 

Muita gente do campo democrático anda preocupada em superar a atual polarização brasileira e encontrar um rumo para o País. Acontece que o Brasil não vai experimentar nenhuma guinada realmente democrática se não encarar duas coisas. A primeira, mais imediata e superficial, é que este campo democrático se empenhe de fato numa releitura rigorosa do que aconteceu de 2013 para cá. A segunda, exigindo mergulho em águas mais profundas, é a necessidade de repensar a sociedade e reinventar a nação.

Junho de 2013 expressou de forma aguda a crise representacional do partidocratismo. A chamada “classe política” tinha simplesmente dado as costas à sociedade. E esta – numa resposta lógica e natural, mas surpreendentemente enérgica – declarou nas ruas que aquela não a representava. Infelizmente, a discussão acabou sufocada por dois processos. De uma parte, o da corrupção, vindo à luz de forma inédita em nossa história. De outra, o do “impeachment”. E a conversa política mais rica foi adiada. O regime partidocrata sentiu, aliviado, que podia empurrar a questão com a barriga. Neste sentido, a campanha presidencial de 2014 foi escandalosamente esperta, entre a dissimulação e a alienação.

Todos os candidatos – sem exceção – fizeram de conta que 2013 não tinha acontecido. O ideal seria que os partidos tivessem a coragem de fazer uma espécie de “psicanálise selvagem”, para usar a expressão freudiana cara a Glauber Rocha. Como isso não acontecerá dentro do atual sistema político-partidário, teríamos ao menos de rever a peripécia que nos levou ao fracasso. Ou começaremos mal – se é que será possível falar de começo e não de mera continuação de tudo. Insistimos que o PT é incapaz de explicitar seus erros. Mas os demais partidos de esquerda e centro-esquerda, também. Nunca ouvi uma autocrítica em profundidade do PSDB. De outro ângulo, a Rede precisa aprender a ser mais conjuntural ou vai se tornar pura fantasia filosófica. Parece que, hoje, humildade política é um bem bastante escasso no País. Mas vamos ter de passar por esse cabo das tormentas, se quisermos que ele vire da boa esperança.
Quanto ao outro lance, o sociólogo Werneck Vianna passou pelo tema em entrevista recente. Observou que o desentendimento a respeito de nossa trajetória histórica e dos nossos valores chegou a um ponto agônico: “Ninguém mais pode reconhecer na nossa história êxitos e sucessos”. Execra-se até mesmo a Abolição de 1888, luta democrática vigorosa, que se arrastou por décadas, numa ampla coalizão de classes e cores. Enfim, “tudo que era da nossa tradição foi depredado, foi jogado no lixo”. Despreza-se a nossa história, desqualificam-se todos os nossos feitos: o 13 de Maio hoje é “o dia do taxidermista”. A grande questão é esta: de algumas décadas para cá, temos submetido a nossa história como povo e nação, a nossa experiência nacional, a um processo de avacalhação sistemática.

Vou resumir o que aconteceu. A partir da década de 1970, a esquerda começou a produzir uma espécie de contra-história do Brasil. E digo contra-história porque era a mesma velha história oficial, que nos veio de Varnhagen e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, mas com o sinal algébrico radicalmente invertido: tudo o que antes se celebrava, passou a ser execrado. E tudo que era desconsiderado, passou a ser glorificado. Com o tempo, qualquer feito nacional se tornou alvo de agressão, desprezo e chacota. Na verdade, o que se fez foi substituir mentiras antigas por mentiras novas. O Brasil passou a ser visto como num antigo filme de bandido e mocinho. E foram se multiplicando textos e mais textos nessa direção, conformando então uma nova história oficial do País, desde que ela se gravou nos parâmetros curriculares do ensino, sob o governo de Fernando Henrique Cardoso.

E o processo não parou. Foram pilhas e pilhas de livros, bombardeio diário nas salas de aula. A apresentação da Estação Primeira de Mangueira, no carnaval deste ano, foi na verdade o desfile desta nova história oficial. Houve quem chegasse a escrever que a escola de samba estava contando a história que não se encontrava nos livros. Longe disso: o desfile da Mangueira foi desfecho de anos e anos de doutrinação, via livros, artigos, panfletos, cursinhos políticos, pregação em escolas públicas e privadas. Com todas as suas mistificações, que a esquerda cultua por desconhecimento dos fatos históricos.

Foi assim que vi a ex-ministra da Cultura, minha querida Ana de Holanda, aplaudindo: vamos, com a Mangueira, saudar os malês. Ora, os malês nada tinham a ver com liberdade, igualdade, fraternidade. Pelo contrário: seu projeto, em 1835, incluía fuzilar os brancos e escravizar os mulatos. Como Zumbi, eram africanos escravistas, que lutavam exclusivamente contra a sua própria escravização, não contra a escravidão em geral. Esta só foi combatida, enquanto sistema, pelo movimento abolicionista.
Esta desqualificação da experiência nacional brasileira, como disse, rola no reino do desconhecimento. E o que é pior: no espaço de uma sociedade bipolar. Vai-se então da euforia à depressão em fração de segundo, mas sob os signos constantes do masoquismo e da autodepreciação derivada da ignorância. Daí que ouçamos frases do tipo “é assim desde 1500, é assim desde as capitanias”, por exemplo. Mas é ridículo postular uma linha de continuidade entre Mem de Sá e a Odebrecht. A suposta analogia é fruto apenas da combinação de ignorância histórica e masoquismo nacional.
Claro que temos um vasto elenco de coisas abomináveis em nossa história. E ao mesmo tempo temos muito o quê comemorar. Falei já do movimento abolicionista e de 1888, ainda hoje a nossa maior revolução social. Mas posso dar vários exemplos e em diversos campos. Vejamos. Enquanto os norte-americanos atiravam seus índios em reservas estéreis de poeira e cactos, o Brasil (graças ao general Rondon e aos antropólogos Darcy Ribeiro e Eduardo Galvão, o autor de Santos e Visagens) criou o Parque Nacional do Xingu, um paraíso ecológico maior do que Israel, quase do tamanho da Bélgica.

Mesmo nosso tão criticado espírito de conciliação merece ser visto com outros olhos. Quem o despreza, manifesta-se, admitindo-o ou não, como se só a guerra fratricida, com cidades bombardeadas e gente metralhada nas ruas, pudesse ser a glória suprema. Uma celebração bélica que nos vem de comunistas e do futurista Marinetti – e que aqui podemos encontrar tanto no Retrato do Brasil do aristocrata Paulo Prado quanto nos delírios mais extremistas da esquerda. Um sub-romantismo homicida.
Enfim, o Brasil precisa de uma tremenda mudança de mentalidade com relação a si mesmo. “Metânoia” era a palavra grega para isso, como aprendemos com a “Septuaginta”. Sim: mudar a mentalidade deve ser o objetivo maior. E esta será uma tremenda luta ideológica e cultural. Não para voltar atrás, mas para ajustar as coisas, em leituras mais serenas e menos sectárias.

Temos de ser claros e críticos diante dos legados históricos, mas não cegos, desinformados e unilaterais. Porque o que se fez, com a construção de uma nova história oficial do País, resultou em autossabotagem nacional. Na banalização do tudo-que-o-Brasil-e-os-brasileiros-fazem é merda. Enfim, é isso. Falando da França oitocentista em seu Diário, Michelet disse algo que se aplica à perfeição à atual conjuntura brasileira: “De todos os males deste país, o mais profundo, a meu ver, é que ele perdeu a consciência de si mesmo, a consciência de sua natureza, de sua missão, de seu papel nesse momento, a consciência histórica de seu verdadeiro passado”. Sem uma revisão crítica do que levou às manifestações de junho de 2013 e desembocou na vitória da extrema direita em 2018, de uma parte – e, de outra, sem um repensamento vertical da nossa história e da nossa sociedade, com vistas a uma reinvenção da nação, dificilmente iremos a algum lugar.

*ANTONIO RISÉRIO É POETA, ANTROPÓLOGO E ROMANCISTA, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE ‘A UTOPIA BRASILEIRA E OS MOVIMENTOS NEGROS’ E ‘A CASA NO Brasil

“Foi Assim”, Wanderléa: Wandeca interpreta com voz e jeito únicos a canção tema do filme “Juventude e Ternura”, do fim dos Anos 70. Composição de Ronaldo e Renato Correa. Gravado no álbum “A Ternura de Wanderléa”. Relembre, confira e cante para começar bem a última semana de outubro.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

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FOI ASSIM
COMPOSIÇÃO: RONALDO CORREA & RENATO CORREA.
ÁLBUM: A TERNURA DE WANDERLÉA – 1966

LETRA

FOI ASSIM
EU VI VOCÊ PASSAR POR MIM
E QUANDO PRA VOCÊ EU OLHEI
LOGO ME APAIXONEI

FOI ASSIM
O QUE EU SENTI NÃO SEI DIZER
SÓ SEI QUE PUDE ENTÃO COMPREENDER
QUE SEM VOCÊ MEU BEM
NÃO POSSO MAIS VIVER

MAS FOI TUDO UM SONHO
FOI TUDO ILUSÃO
PORQUE NÃO É MEU O SEU CORAÇÃO
ALGUÉM ROUBOU DE MIM SEU AMOR
ME DEIXANDO NESTA SOLIDÃO

FOI ASSIM
E AGORA O QUE É QUE EU VOU FAZER
PRA QUE VOCÊ CONSIGA ENTENDER
QUE SEM VOCÊ MEU BEM
NÃO POSSO MAIS VIVER

A apuração, aos 94,8%, dá a vitória a Fernández, que vence por mais de sete pontos sobre Mauricio Macri. O presidente parabeniza o candidato peronista e o convida para uma reunião para organizar a transição

Alberto Fernandez com a ex-presidenta Cristina Kirchner, sua companheira de chapa diante dos apoiadores em Buenos Aires.
Alberto Fernandez com a ex-presidenta Cristina Kirchner, sua companheira de chapa diante dos apoiadores em Buenos Aires.Agustin Marcarian (REUTERS)

Mais de 32 milhões de argentinos foram neste domingo às urnas para eleger um novo presidente e renovar parte do Congresso. E, com quase 90% das urnas apuradas, o candidato peronista Alberto Fernández garantiu a vitória no primeiro turno, com 47,73% dos votos. O atual presidente, Mauricio Macri, tinha 40,78% àquela altura, bem mais do que os 33% que havia recebido nas eleições primárias. Apesar da recuperação de Macri, a diferença é suficiente para para eleger Fernández sem um tira-teima entre os dois em um segundo turno.

“Eu quero lhe dizer de verdade: isso está apenas começando. Estaremos lá para defender os valores em que acreditamos”, disse Macri aos seus correligionários depois de reconhecer sua derrota e parabenizar Alberto Fernández.

O Globo também reproduziu neste domingo áudios de Fabrício Queiroz.

Em uma das gravações, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro diz que gostaria de ajudar na investigação sobre Adélio Bispo de Oliveira:

“Se eu não estou com esses problemas aí, a gente de bobeira, podia estar aí andando e ia dar para investigar, infiltrar, botar um ‘calunga’ no meio deles, entendeu? A gente mesmo levantava essa parada aí [quem contratou Adélio].”

Ele também reclama da falta de apoio:

“O cara lá [Adélio] tá hiper protegido. Eu não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí. Vê, tal. É só porrada, cara.”

A gravação, segundo O Globo, é de junho deste ano.

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28

Do Jornal do Brasil

 

GILBERTO MENEZES CÔRTES

Trabalho feito há duas décadas pela Petrobras para identificar o DNA dos diversos tipos de petróleo que importava e facilitar a programação dos processos de refino em suas unidades, permitiu apontar que as diversas ocorrências (238 até sexta-feira) tinham óleos de três campos venezuelanos de petróleo. Isso é cristalino. Agora, explicar que esses “jabutis” foram postos em cima das árvores (ou coqueiros) de centenas de praias e arrecifes de nove estados do Nordeste é mais difícil.

Na quinta-feira estive com um dos mais respeitados ex-diretores da Petrobras, que é digno das maiores reverências dos brasileiros (não pelo fato de que não esteve arrolado em nenhum inquérito sobre falcatruas e maracutaias na estatal). Com a cautela de sua expertise, diz que não há dúvidas de que o óleo é venezuelano, como atestaram universidades brasileiras que estudaram algumas amostras.

Sua explicação para o aparecimento nas praias do Nordeste está ligada à ocorrência de um grande vazamento durante operação clandestina de transbordo em alto mar de petróleo por parte de navio venezuelano para o de outra bandeira. Situações semelhantes ocorreram no transbordo de petróleo iraniano para outros países. E também do Iraque, de Saddam Hussein, logo após a condenação do Ocidente pela invasão do Kuwait, em 1990.

Em agosto deste ano, na esperança de enfraquecer de vez o governo de Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou embargo às exportações de petróleo da Venezuela. Após uma queda de mais de 40% na produção nos últimos anos, não poder vender petróleo para os EUA (há muito o maior cliente) e ver os países importadores sujeitos a sanções comerciais e financeiras, a subida no sarrafo do embargo poderia ser fatal.

Mas mercadoria com demanda crescente como o petróleo, permite negociações paralelas (com forte deságio, claro) nas situações mais complexas. Transferir a carga de um petroleiro a outro sempre tem riscos. Por isso, essas operações, preferencialmente, são feitas em áreas de mar calmo, numa angra ou numa zona portuária. Mas numa operação clandestina e sujeita à fiscalização americana via satélite, todos os riscos têm de ser corridos.

Assim, o transbordo foi feito em alto mar, com oscilações de ondas grandes. Para que ambos os navios não fossem identificados, os respectivos transponders (aparelhos que facilitam a localização via GPS) foram desligados. Como era uma operação pirata, nenhum dos navios fez qualquer comunicação de irregularidade. Isso torna mais difícil chegar aos verdadeiros causadores. Não se sabe quem foi o receptador da carga recebida.

Ou seja, o maior acidente ambiental na costa brasileira foi decorrência final do embargo dos Estados Unidos ao petróleo da Venezuela. Uma pesquisa sobre os compradores históricos do petróleo venezuelano poderia reduzir o número de suspeitos. Mas há petroleiros de terceiras bandeiras (Libéria, por exemplo, ou algum país do Oriente) que podem ter se arriscado na operação.

Vejam o caso do petróleo produzido no Brasil e vendido pela Petrobras. No balanço do 3ª trimestre, a China levou 64% do petróleo exportado e os Estados Unidos, 13, Chile, 6% e a Índia, 4%. Nos nove meses do ano, a fatia da China foi de 72%, a dos EUA, ficou em 11% e Chile e índice dividiram uma posição de 5%. O petróleo desbancou o minério de ferro como o principal produto de exportação entre os quase US$ 100 bilhões exportados pelo Brasil à China, em 2018. Na exportação de derivados, os EUA ficaram com metade das vendas, Cingapura com 31% e a Holanda com 4%. A China absorveu apenas 1%, comprovando a preferência chinesa por comprar produtos in bruto para transformá-los no próprio território, gerando emprego e renda.

Não foi por outro motivo que na sua viagem à China esta semana, o presidente Jair Bolsonaro tenha encontrado receptividade do presidente Xi Jiping ao aumento de vendas de petróleo, minério de ferro e farelo de algodão (esta foi uma conquista importante, pois o Brasil já é o 2º exportador de fardos de algodão do mundo e agora agregou a venda dos caroços, que são usados em tortas de alimentação de vacas leiteiras).

Apesar da gripe suína africana ter dizimado parte do rebanho suíno chinês (a carne de porco responde por metade do consumo de carnes no país) e ter impacto nas compras de soja e milho, que são os principais ingredientes da alimentação animal), a China pode ter olhos fechados, mas segue com boca grande. Há demanda crescente por carnes bovinas, de frango e suínas. Além de pasta de celulose (o Brasil é o maior exportador e a China o maior consumidor). O difícil vai ser a China diversificar as compras para produtos finais, como sonhava a comitiva de empresários e técnicos do governo.

Mas a realidade que Bolsonaro reencontrará na sua volta, após a eleição do filho 03 como líder do governo na Câmara e a escala no Oriente Médio, será uma América do Sul diferente. Ao Norte, a Venezuela segue mal, obrigado. Ao Sul, a Argentina elegerá amanhã Alberto Fernández, ex-chefe de gabinete de Cristina Kirchner, que virou vice na chapa que promete guinada à esquerda e a retomada do populismo peronista após o fracasso do liberalismo de Ricardo Macri – que Bolsonaro apoiava ostensivamente.

Embora tenha ganho a preferência diante do Brasil para ingresso na OCDE, a Argentina padece de um problema muito mais grave que nossas desigualdades e baixo IDH – principais fossos rumo à intenção de Paulo Guedes de ser aceito no clube dos ricos – a falta de economia de escala. Graças ao solo fértil e de ter alcançado a riqueza há mais de 100 anos, a Argentina sempre esteve à frente do Brasil, até ser superada no futebol, com Pelé e as Copas do Mundo (a prova dos nove será dia 23, em Santiago do Chile), e na industrialização.

O pequeno vizinho Uruguai, que também realiza eleições domingo, com provável 2º turno, pode mudar de rumo, embora o governista, engenheiro Daniel Martínez, da Frente Ampla de Tabaré Vásquez, lidere, com 33% das intenções de voto. A América do Sul vive duas semanas de turbulência. As eleições na Bolívia, com a contagem oficial dando o 4º mandato a Evo Morales, são contestadas na OEA, com carga do Brasil e EUA, além da União Europeia.

Chile e Equador, únicos países que não fazem fronteira com o Brasil, sentiram a reação popular ao tentarem uma guinada de 180 graus aplicando realismo nas tarifas de transporte e de combustíveis. No Equador, a insurgência ao fim de quatro décadas de subsídios fez o presidente querer mudar a capital de Quito para o litoral. No Chile, o presidente Sebastián Piñera adotou toque de recolher e agora pede renúncia coletiva dos ministros para aplacar a ira popular que levou 1,2 milhão às ruas de Santiago.

Decididamente, o liberalismo está à prova na América do Sul

SÃO PAULO (ANSA) – Favorito nas pesquisas de intenção de voto para ser o novo presidente da Argentina, o candidato peronista Alberto Fernández enviou uma mensagem de parabéns ao petista Luiz Inácio Lula da Silva, que completa 74 anos de idade neste domingo (27). O aniversário do ex-presidente brasileiro coincide com as eleições na Argentina, que ocorreram ontem. “Também hoje faz aniversário meu amigo Lula, um homem extraordinário que está injustamente preso há um ano e meio.   

Parabéns para você, querido Lula. Espero lhe ver logo”, escreveu o candidato peronista em suas redes sociais. A ex-presidente Cristina Kirchner compõe a chapa de Alberto Fernández como vice-presidente.   

Durante o pleito deste domingo, Alberto Fernández protagonizou um episódio curioso ao comparecer à sua zona eleitoral, por volta das 12h locais. O peronista foi abordado por apoiadores, entre eles um sósia do papa Francisco, que vestia roupas brancas similares à do líder católico. (ANSA)

out
28
Posted on 28-10-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 28-10-2019



 

Sinovaldo, no

 

 

DO EL PAÍS

Ataque contra autoproclamado califa do EI coincide com retirada das tropas norte-americanas do conflito

Abu Bakr al-Baghdadi, em abril de 2019.
Abu Bakr al-Baghdadi, em abril de 2019.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou neste domingo a morte do líder do Estado Islâmico (EI), Abu Bakr al-Baghdadi, em uma operação militar no noroeste da Síria. Considerado um dos terroristas mais procurados do mundo, al-Baghdadi proclamou em 2014 o califado do EI que durante os três anos seguintes de apogeu se espalharia pelo Iraque e pela Síria, semeando o terror com execuções em massa e impondo sua versão radical do islã.

“Era um homem doente e depravado e já se foi”, disse Trump, em um pronunciamento televisionado à nação. “Morreu como um cachorro, morreu como um covarde. O mundo é hoje um lugar muito mais seguro.”

O presidente afirmou que não houve baixas norte-americanas na operação, que começou “algumas semanas atrás” e terminou no sábado com al-Baghdadi encurralado, detonando o cinto explosivo que estava usando. Por outro lado, houve um “bom número” de baixas entre os companheiros do líder do EI. As forças especiais norte-americanas se apropriaram de numerosas informações secretas relacionadas ao grupo terrorista, explicou Trump.

O assalto ao complexo residencial em que al-Baghdadi estava, localizado a menos de cinco quilômetros da fronteira com a Turquia, foi realizado por 50 a 70 membros da Força Delta e dos Rangers do Exército dos Estados Unidos. A operação também envolveu seis helicópteros de combate que partiram de Erbil, capital da região do Curdistão iraquiano.

Com a operação, Trump anota uma inquestionável vitória em política externa. O presidente, imerso em uma grande crise interna com um processo de impeachment em andamento contra ele, alcança um dos objetivos mais claros de seu primeiro mandato.

Abu Bakr al-Baghdadi liderou o Estado Islâmico desde 2010, quando o grupo terrorista ainda era um ramo clandestino da Al Qaeda no Iraque. A queda em 2017 de Mossul e Raqa, as fortalezas do grupo terrorista no Iraque e na Síria, respectivamente, despojou al-Baghdadi de seu poder e fez dele um fugitivo. Os ataques aéreos realizados pelos EUA mataram a maioria dos principais lugar-tenentes do EI e, antes de publicar uma mensagem em vídeo em abril na qual o líder terrorista aparece, havia informações contraditórias sobre se estava vivo ou não. Apesar de perder seu último território significativo, acredita-se que o EI tenha células adormecidas em todo o mundo e alguns combatentes operam nas sombras no deserto da Síria e em várias localidades iraquianas.

Trump, a noite do sábado, vendo ao vivo a operação no noroeste da Síria.
Trump, a noite do sábado, vendo ao vivo a operação no noroeste da Síria.

A operação contra al-Baghdadi acontece no momento em que os Estados Unidos mostram hesitações em sua estratégia na região. A decisão do presidente Trump, há um mês, de retirar quase a totalidade do milhar de homens que tinha na Síria, em meio à ofensiva turca contra as forças curdas, que foram aliadas dos EUA na luta contra o EI, foi corrigida nos últimos dias. Washington agora cogita manter uma presença maior do que a inicialmente estimada, para proteger os campos de petróleo sírios do EI.

O fugitivo mais procurado do planeta

Supunha-se que o fugitivo mais procurado do planeta, com uma recompensa de 25,5 milhões de dólares (cerca de 100 milhões de reais) oferecida pelos EUA por sua cabeça, estivesse escondido em algum abrigo no deserto na fronteira entre Síria e Iraque, onde as células adormecidas do EI vagam à espera de reativação por meio do terror. Mas também Osama Bin Laden foi procurado nas montanhas do Afeganistão, quando vivia placidamente com a família perto da principal academia militar do Paquistão.

A província de Idlib, o último reduto da rebelião contra o regime de Bashar al-Assad, no norte da Síria, parecia um refúgio improvável para al-Baghdadi. O objetivo dos comandos da Força Delta, a aldeia síria de Barisha, fica a apenas uma dezena de quilômetros da fronteira da Turquia, em um território no qual os grupos insurgentes islâmicos se fortaleceram durante mais de oito anos de guerra.

Na luta pela hegemonia na rebelião salafista e jihadista, os herdeiros da Al Qaeda, dos quais al-Baghdadi se separou há seis anos para empreender a fundação do califado, haviam finalmente arrinconado ao EI em Idlib há um ano. A poderosa milícia Hayat Tahrir al-Sham controla a maior parte da província rebelde, cercada por forças sírias e russas, e onde o Exército turco estabeleceu uma dúzia de “postos de observação militar”. A presença do califa fugitivo em Idlib é interpretada como um sinal da fraqueza do EI na região do Eufrates, diante do assédio do Exército iraquiano e do avanço das tropas de Damasco e de suas agora milícias curdo-árabes aliadas da Frente Democrática Síria.

O líder do Estado Islâmico reapareceu em 16 de setembro em uma fita de áudio na qual exortava seus seguidores a libertar os prisioneiros jihadistas nas mãos das milícias curdas no nordeste da Síria. As fitas de áudio divulgadas em portais digitais de propaganda jihadista eram seu meio habitual de comunicação. Desde que proclamou o califado na grande mesquita de al-Nuri, em Mossul (norte do Iraque), em 2014, al-Baghdadi nunca mais foi visto. Em abril, quando caiu seu último feudo territorial na fronteira síria do rio Eufrates com o Iraque, reapareceu em um vídeo pela primeira vez em cinco anos.

A aniquilação do EI foi o único objetivo compartilhado pelos beligerantes enfrentados no tabuleiro global do conflito sírio, como Rússia e Irã, aliados de al-Assad; a Turquia, associada à rebelião islâmica, e os EUA, que bombardearam as bases do Califado durante mais de quatro anos. Antes mesmo da confirmação oficial da operação pela Casa Branca, das milícias curdas da Síria, agora aliados dispensados por Washington, aos serviços de inteligência militar do Iraque, tentaram anotar o tento de sua colaboração na operação ordenada por Washington.

Embora todos os indícios apontem para a Turquia como ponto de partida para a ação violenta norte-americana, Ancara mantém uma reserva oficial. Uma fonte do Governo de Recep Tayyip Erdogan consultada pelo EL PAÍS se limitou a apontar que “al-Baghdadi chegou ao local (Barisha) 48 horas antes do ataque”, informa Andrés Mourenza. A Turquia foi informada “com antecedência” e esteve “coordenada” com os EUA, acrescentou, sem confirmar ou desmentir a eventual colaboração dos serviços de espionagem turcos, que mantêm contatos estreitos com grupos rebeldes em Idlib.

“Congratulamo-nos com o que aconteceu; é um bom dia para os bons”, concluiu a fonte oficial turca, que pediu para não ser identificada, antes de afirmar que “a cooperação com os EUA e outros aliados” continuará na luta contra o EI. A intervenção de um comando aerotransportado norte-americano no noroeste da Síria só parece factível por duas vias: uma improvável cumplicidade da Rússia e da Síria ou a anuência da Turquia. A área base de Incirlik, no sudeste próximo de Anatólia, ou um porta-aviões ancorado no Golfo de Alexandreta parecem os pontos mais previsíveis para que a Força Delta possa lançar uma operação secreta em Idlib, onde mais de 30.000 insurgentes islâmicos radicais estão entrincheirados com artilharia e mísseis terra-ar.

Se, como apontaram fontes de Washington aos meios de comunicação norte-americanos, o presidente Trump deu a ordem de agir contra al-Baghdadi há uma semana, parece plausível que os serviços de inteligência de Ancara puderam informar os EUA sobre o paradeiro do chefe do EI durante a reunião que o vice-presidente Mike Pence e o secretário de Estado Mike Pompeo (ex-diretor da CIA) fizeram nos último dia 17 com o presidente Erdogan para conter a intervenção da Turquia na Síria.

Dado por desaparecido várias vezes, al-Baghdadi era sobretudo um símbolo político e religioso mais do que um chefe e estrategista militar. Sua morte não terá um impacto importante na ameaça jihadista global. O califa que chegou a reinar sobre 11 milhões de pessoas em um território do tamanho do Reino Unido já representava a imagem da derrota na última vez em que foi visto com vida. Cercado por seus comandantes no vídeo divulgado seis meses atrás, sua presença era apenas uma demonstração de que estava vivo para dezenas de milhares de membros e filiados do EI no Oriente Médio, Ásia, África e Europa. Liquidados o califado e o califa, o EI ainda aspira a continuar atingindo com o terror por meio de grupos de radicais e fanáticos que o reverenciam em meio mundo.

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