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Postado em 22-10-2019
Arquivado em (Artigos) por vitor em 22-10-2019 00:19

DO EL PAÍS

Deputado fica com a liderança do partido. Crise pode se tornar oportunidade para enterrar, temporária ou definitivamente, planos do Planalto de enviá-lo a Washington

 Naiara Galarraga Gortázar

Mesmo tendo nascido e crescido em uma das cidades mais bonitas do mundo, meca de casais de turistas apaixonados, o deputado brasileiro Eduardo Bolsonaro escolheu pedir a mão de sua namorada bem longe do Rio de Janeiro. O terceiro dos filhos do presidente —conhecido como Bolsonaro 03— transformou o que costuma ser um ato íntimo em um assunto político em dezembro, dias antes da posse de seu pai. Nada incomum nesses tempos da política espetáculo e menos ainda em um clã que deve em boa medida seu inesperado sucesso político ao ativismo nas redes sociais. No palco, com o olhar voltado a uma mulher do público que participava da Cúpula Conservadora das Américas organizada por ele mesmo, Bolsonaro filho perguntou: “Heloisa Wolf, aceita oficialmente se casar comigo?”. E se ajoelhou. Ela respondeu com um eloquente “siiiim” e aparente surpresa. Antes da cena, que acabou com aliança, beijo e aplausos, o à época recém-eleito deputado havia prometido em um discurso “extinguir a esquerda” do Brasil. Aconteceu longe do Rio, em Foz do Iguaçu, ao lado das cataratas.

Desde que seu pai chegou ao poder, esse formado em Direito e policial de profissão foi ganhando espaço em relação aos seus irmãos. Bem loiros quando crianças, cresceram em um bairro de classe média no Rio, estudaram em colégios particulares. Eduardo, surfista, aprendeu inglês. Reeleito deputado em outubro como o parlamentar mais votado na história do Brasil (1,8 milhão), tem grande influência na política exterior e cresceu na nacional até se transformar rapidamente no herdeiro político da dinastia que o capitão reformado forjou com os três filhos de seu primeiro casamento.

último mandato, agora preside a comissão de Relações Exteriores na Câmara dos Deputados, com ternos bem cortados, olhos claros e uma barba bem aparada que contrasta com as entradas no cabelo, suas posições políticas não diferem das de seu progenitor: pulso firme com o crime; a esquerda é um inimigo a se derrotar, defesa da família, abertura econômica…

No dia de julho em que completou 35 anos recebeu um desses presentes que somente um pai presidente poderia dar: o cargo de embaixador do Brasil em Washington. Se o assunto dependesse somente da autorização dos EUA, estava feito porque o presidente Donald Trump o considera, como deixou claro com vários gestos públicos como convidá-lo a acompanhar seu pai no Salão Oval, deixando de fora o ministro das Relações Exteriores. O problema é que o Senado brasileiro deveria ratificá-lo e nesses meses os bolsonaristas não conseguiram garantir os votos necessários para evitar um fiasco.

Foi aí que na semana passada explodiu uma dessas crises vertiginosas tão frequentes na política brasileira. O Partido Social Liberal, com o qual o presidente Bolsonaro disputou as eleições —uma dessas siglas que no Brasil são chamadas de aluguel—, está prestes a se romper. A crise parece ter se transformado em uma oportunidade para enterrar, temporária ou definitivamente, os planos de enviar Eduardo a Washington. O presidente lutou com todas armas disponíveis para colocá-lo na liderança do PSL na Câmara. Sofreu uma derrota na semana passada, mas acabou saindo vitorioso nesta segunda.

Para Guilherme Casarões, especialista em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, acabou vencendo uma espécie de plano C para o filho do presidente. “O plano A era, até então, que ele fosse a Washington; o plano B era que Ernesto Araújo (atual ministro das Relações Exteriores, diplomata) fosse a Washington e Eduardo o substituísse no ministério; o plano C seria que se transformasse no líder do partido na Câmara, com controle sobre o grupo parlamentar”.

Não é sem custos essa escolha do deputado. Ser embaixador em Washington lhe daria “uma aura de homem de Estado”, afirma Casarões. O analista diz que o deputado “logo percebeu que as Relações Exteriores são um dos assuntos em que não existe oposição, não se considera relevante, e entendeu que era mais fácil construir aí uma reputação”. Bagagem para quem sabe suceder ao patriarca nas eleições de 2022 ou 2026…

Foi um projeto para qual Eduardo investiu. Recebeu aulas de embaixadores, estudou Relações Internacionais e com o olhar em Washington, mas sem descuidar das muitas outras frentes enquanto seus irmãos murcham politicamente. Flávio, 38 anos, senador, se mantém discreto após começar a ser investigado por corrupção, um assunto muito sensível porque foi uma das bandeiras que levaram seu pai à Presidência. Carlos, 36 anos, vereador pelo Rio de Janeiro, terminou agora uma licença de um mês sem salário. Fez a solicitação no dia seguinte à publicação no Twitter: “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos”.

Eduardo também adota o discurso revisionista de seu pai sobre a ditadura. Mas, principalmente, adora as armas, passatempo que compartilha com sua esposa. Ela pratica tiro esportivo; ele se casou com um alfinete de gravata no formato de uma pistola e posou com uma arma real na cartucheira durante uma visita a seu pai hospitalizado. O casal adotou uma cachorra vira-latas de uma favela do Rio que foi batizada como Beretta em homenagem ao fabricante italiano de pistolas. Com 36.000 seguidores, Beretta Bolsonaro é, como seus donos, uma estrela do Instagram.

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