Resultado de imagem para Irmã Dulce na Praça de São Pedro no Vaticano
Resultado de imagem para Irmã Dulce e Janio Ferreira Soares

Janio Ferreira Soares

Outubro chega à metade de seus dias e explode suas particularidades nas fuças deste ribeirinho de barba branca, que até hoje não se cansa de deslumbrar-se ao percebê-las. É que a peculiar atmosfera do mês 10, meu caro leitor e dileta leitora, é como se fora um coquetel composto por generosas doses de claridade, acrescido de diversas porções de amplidão e finalizado com colheradas de variadas gradações, cujos resultados estão bem ali, ó, ao alcance de quem deseja vê-los.

Em sendo assim, tome-lhe folhas de mangueiras ao vento anunciando frutos que virão; tome-lhe caraibeiras transmutando-se de seus habituais tons para um breve e lindo amarelecer; e tome-lhe um velho bougainville alaranjado que até há pouco era apenas descanso de pássaros, mas nesses dias virou point favorito para selfies adornadas de flores cor de tang.

E nesse incomum cenário proporcionado pelo mês onde o nosso São Francisco é rei, o Vaticano resolveu oficializar aquilo que, na opinião deste titubeante agnóstico, nem carecia. Falo da canonização de Irmã Dulce, que santa já era desde os tempos em que sequer passava pela cabeça do nino argentino Jorge Mario Bergoglio, a mais remota possibilidade de um dia deixar pra trás a milonga das calles portenhas, para se transformar num papa batizado justamente com o nome do rio que desde sempre margeia meus caminhos.

E exatamente hoje, um domingo que se profetiza tão feliz quanto o da canção de Ângelo Máximo, Sua Santidade fará com que o corpo franzino que se humilhava nos palácios para enaltecer os desvalidos, seja oficialmente louvado tanto nos andores das sagradas procissões, quanto nos profanos batuques dos terreiros das encostas, fato que soaria estranhíssimo em qualquer lugar do mundo, menos, é claro, na Bahia.

Mas como nem tudo é reza e louvação, semana passada fui ver o excelente Coringa, que, pra variar, anda provocando inúmeras discussões entre alguns idiotas que agora deram pra transferir sua nóias políticas para quaisquer manifestações artísticas que não combinem com o curtíssimo alcance de seus pontos de vista.

Aí, ao sair do cinema ainda anestesiado pela atuação de Joaquin Phoenix e pelo filme em si, abri um tinto e comecei a conjecturar com os botões da Ralph Lauren que nunca tive sobre o que poderia ter acontecido com Arthur Fleck, se ele, nas quebradas de Gothan City, tivesse tido a mesma sorte dos jovens que igualmente viviam excluídos nas favelas e palafitas de São Salvador, que quando se preparavam pra colocar as máscaras da revolta, conheceram aquela que lhes abriu diferentes opções à dor.

Finda a garrafa, dei uma boa cochilada e aí sonhei que Janot, usando um nariz de palhaço, me apontava uma pistola d’água e me obrigava a comprar um livro que jamais lerei. Valei-me, Irmã Dulce!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na ribeira baiana do Rio São Francisco

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Comentários

regina on 13 outubro, 2019 at 2:22 #

Como Arthur / Joker, Joaquin Phoenix é surpreendente. Phoenix habita Arthur: tendo perdido peso para o papel, ele aparece magro, frágil, com fome. Sombras esculpem seus ossos expostos. Sua fisicalidade é precisa – a maneira como ele se move, embaralha, corre, senta, fuma, encolhe. A intensidade habitual dele está em exibição total e é cativante, até avassaladora em momentos, em muitos aspectos, não é o Coringa, é Arthur.
Arthur é uma das vítimas da vida, um dos “malucos” da vida. Ele é espancado, zombado, abusado. Ele está familiarizado com o gosto de sangue na boca. Mas ele não é apenas um solitário ou incompreendido; ele não pode se envolver com o mundo. A existência cotidiana é simplesmente impossível, pois as regras e códigos que estruturam uma sociedade – mesmo uma tão quebrada e destruída quanto Gotham – permanecem desconhecidos para ele. Em vez disso, ele fica fora do mundo, em parte devido a uma condição que causa risadas incontroláveis ??(geralmente nas piores situações), com os olhos cheios de dor e tristeza quando outro ataque de riso o vence e o mundo se retira ainda mais.
A performance de Joaquim Phoenix é uma das mais incríveis que eu já vi na tela em uma década e é (sem desrespeito ao falecido ator) muito superior à versão de Heath Ledger. Ledger ganhou um merecido Oscar por interpretar o Coringa há uma década; Phoenix merece o mesmo, com o próprio Coringa, acho que também é um forte candidato a Melhor Filme e Melhor Diretor.
Pode parecer que o filme levanta a bandeira de guerreiro da justiça anti-social. Não é nada do tipo. Faz críticas sérias tanto à direita quanto à esquerda e à sociedade em geral.
O filme se enfurece com a condição humana e a escuridão que pode quebrar uma pessoa e transformá-la em um monstro. Especificamente, aponta os ricos e poderosos, que afirmam querer ajudar, mas tornam impossível que os oprimidos se recuperem.

Valei-nos, Irmã Dulce!!!!


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