Reforma da Previdência: Senado aprova texto-base em 1º turno por 56 votos a 19

Por Gustavo Garcia e Sara Resende, G1 e TV Globo — Brasília

O Senado aprovou em primeiro turno nesta terça-feira (1º) o texto-base da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da reforma da Previdência, por 56 votos a 19.

Até a última alteração desta reportagem, os senadores ainda analisavam os chamados destaques, possíveis alterações ao texto da proposta. A conclusão da votação dependia da análise dos dez destaques apresentados.

Defensores da reforma são contra destaques que alterem o conteúdo do texto já aprovado pela Câmara. Mudanças desse tipo fariam a PEC voltar para o reexame dos deputados, retardando a entrada em vigor das novas regras.

Após a análise dos destaques, a proposta terá de passar por um segundo turno de votação, previsto para ocorrer na próxima semana.

Assim como na votação desta terça, a alteração na Constituição precisará de pelo menos 49 votos favoráveis para ser aprovada em segundo turno.

A segunda etapa, contudo, pode ser atrasada porque alguns senadores argumentam que há um acordo não cumprido e cobram do governo federal contrapartidas ainda não foram efetivadas. É o caso de um acordo sobre divisão de recursos de leilões de petróleo.

“Nós fechamos um acordo entre o primeiro e o segundo turno da votação. Se não houver avanço nessas questões, não é só o PT, o PSB, o PDT, o PSD, mas também o MDB e a Rede, que se comprometeram a não votar em segundo turno e entrar em obstrução, se os temas relacionados à pauta federativa não caminharem na Câmara”, disse Rogério Carvalho (PT-SE).

Se aprovada, a reforma da Previdência será a maior alteração à Constituição desde 1988, quando foi promulgada. Segundo o relator Tasso Jereissati (PSDB-CE), a proposta contém mais de 10 mil palavras.

De acordo com estimativas da equipe econômica do governo, as mudanças previdenciárias podem gerar uma economia de cerca de R$ 876 bilhões em 10 anos.

Inicialmente, o governo dizia que o texto encaminhado ao Congresso em fevereiro geraria uma economia de mais de R$ 1 trilhão. Com as alterações no texto na Câmara, o impacto caiu para cerca de R$ 930 bilhões. No Senado, outras modificações reduziram a economia.

Antes de ser votada em plenário em primeiro turno, a proposta passou na manhã desta terça pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

 
Plenário do Senado debate proposta de reforma da Previdência

Plenário do Senado debate proposta de reforma da Previdência

A proposta aprovada

Entre outros pontos, a PEC da reforma da Previdência prevê:

  • idade mínima para aposentadoria de 65 anos para homens e 62 anos para mulheres. Vale para trabalhadores urbanos do setor privado e servidores públicos;
  • tempo mínimo de contribuição no setor privado urbano de 15 anos para mulheres e 15 anos para homens que já estão no mercado de trabalho (20 anos para os que ainda vão ingressar no mercado);
  • tempo mínimo de contribuição no setor público de 25 anos para homens e mulheres (com 10 anos no serviço público e 5 no cargo);
  • idade mínima de 60 anos para professores e 57 para professoras, com tempo mínimo de contribuição de 25 anos para ambos;
  • idade mínima de 55 anos para homens e mulheres da Polícia Federal, polícias legislativas, Polícia Civil do Distrito Federal e agentes penitenciários federais;
  • nenhuma pensão por morte será menor que um salário mínimo;
  • regras de transição com pedágio para trabalhadores que estão próximos da aposentadoria;
  • valor da aposentadoria será baseado na média de todo o histórico de contribuições do trabalhador, e não mais nos 80% maiores valores como é feito atualmente;
  • pensão por morte equivalerá a uma cota familiar de 50% da aposentadoria recebida pelo segurado que morreu, acrescida de cotas de 10% por dependente, até o máximo de 100%. Uma viúva, por exemplo, receberá 60% do benefício;
  • fixa o cálculo do benefício de acordo com o tempo de contribuição do trabalhador que pedir a aposentadoria;

O texto não altera regras para aposentadoria de trabalhadores rurais, tampouco para concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC), auxílio pago a idosos e pessoas com deficiência.

A aposentadoria para militares das Forças Armadas também não está na PEC. Esse assunto está em outra proposta, encaminhada à Câmara em 20 de março, mas não foi analisada pelos deputados.

‘PEC paralela’

Em uma estratégia para evitar mudanças na PEC, parlamentares pró-reforma propuseram um segundo texto, que contemple modificações propostas pelo conjunto de senadores.

Esse texto, chamado de PEC paralela, prevê, entre outros pontos, uma medida para facilitar a adesão de estados e municípios ao novo regime previdenciário.

O texto autoriza estados e municípios a adotar as regras do regime próprio da Previdência dos servidores da União. Dessa forma, não há necessidade de modificação nas constituições estaduais, sendo preciso apenas aprovação de lei ordinária pelas assembleias legislativas.

Se estados e municípios adotarem as mesmas regras, a economia em dez anos seria de R$ 350 bilhões.

Além disso, a PEC paralela flexibiliza algumas regras de aposentadoria e prevê outras fontes de receitas, como a reoneração gradual do agronegócio exportador e de organizações filantrópicas, excluídas as Santas Casas e entidades assistenciais.

Com isso e com a adesão de estados e municípios, a economia prevista com a reforma da Previdência vai para cerca de R$ 1,3 trilhão em um período de dez anos.

Se aprovada pelo Senado, a A PEC paralela ainda terá de ser analisada pela Câmara dos Deputados.

Presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) disse que a PEC paralela está cerca de 20 dias atrasada em relação ao texto principal aprovado em primeiro turno nesta terça.

Líder do PDT no Senado, Weverton Rocha (MA) diz não acreditar que a PEC paralela terá andamento na Câmara. “É a PEC da balela”, protestou o pedetista.

 

Discussão

A discussão da reforma da Previdência em plenário nesta terça durou cerca de quatro horas. O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PT-PE), disse que, ao aprovar o texto, o Senado estava “perpetrando uma das maiores maldades contra a população brasileira”.

“Há o argumento de que ela precisa ser feita para promover o equilíbrio fiscal. Mas qualquer empresa, qualquer cidadão, qualquer governo que deseje equilibrar as suas contas, ele tem que trabalhar em duas pontas: conter as despesas ruins, mas buscar novos recursos. Essa proposta de reforma da Previdência somente joga a conta por esse pretenso equilíbrio para os trabalhadores e trabalhadoras”, afirmou.

Relator da proposta, Tasso Jereissati (PSDB-CE) afirmou em seu parecer que “o impacto fiscal da reforma” chegou ao Senado “concentrado naqueles que ganham mais”.

“O impacto por segurado da Previdência é 7 vezes maior para os servidores públicos do que para os trabalhadores no INSS que ganham até dois salários mínimos – na conta do pesquisador Carlos Góes, da Universidade da Califórnia em San Diego”, citou Tasso no relatório.

Linha do tempo

“Fadas”, Luiz Melodia e Elza Soares: Exuberante apresentação  ao vivo de dois monstros sagrados da música brasileira, no show para gravação do DVD “Melodia Convida” . Aqui no encontro com Elza que interpreta magistralmente a composição de Luiz Carlos dos Santos. Bravissimo!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

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Corregedoria do MP vai analisar declaração de Janot

O conselheiro Otavio Luiz Rodrigues Júnior analisou os pedidos do subprocurador e entendeu que o caso deve ser analisado pela Corregedoria.

Corregedoria do MP vai analisar declaração de Janot

 

A Corregedoria Nacional do Ministério Público vai analisar o caso de Rodrigo Janot, que declarou ter entrado armado no STF com a intenção de matar Gilmar Mendes, informa o Globo.

Em ofícios encaminhados ao Conselho Nacional do MP, o subprocurador-geral Moacir Guimarães Filho pediu que Janot seja punido com a perda da aposentadoria e censura do livro que escreveu, “Nada menos que tudo”.

O conselheiro Otavio Luiz Rodrigues Júnior analisou os pedidos do subprocurador e entendeu que o caso deve ser analisado pela Corregedoria.

Em 30 dias: o desmonte do Brasil que a Lava Jato tentou

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Do Jornal do Brasil

 

O Logos Hope fica até domingo e depois segue para Vitória

 O navio Logos Hope, considerado a maior livraria flutuante do mundo, com seus 132,5 metros de comprimento e nove andares, vai permanecer ancorado no Píer da Praça Mauá, zona portuária da capital fluminense, até o próximo domingo (06). A embarcação chegou ao Rio de Janeiro no último dia 18, vinda de Santos (SP), onde ficou ancorada no mês de agosto, depois de visitar a Argentina.
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Esta é a primeira visita do navio Logos Hope ao Brasil (Foto: Daniela Calcia/Jornal do Brasil)

O navio pertence à organização internacional cristã Good Books for All Ships (GBA Ships), sediada na Alemanha, que já teve outros três navios livrarias com os quais começou a navegar na década de 1970. Atualmente, apenas o Logos Hope percorre o mundo oferecendo aos visitantes cinco mil títulos em inglês e português, no total de 800 mil livros, divididos entre literatura infantil, culinária, ciência, hobbies, autoajuda, liderança, dicionários, literatura cristã, entre outros segmentos literários. Há alguns títulos também em espanhol.

Para adquirir um livro, a pessoa pode pagar em dinheiro, no caso do Brasil em reais, ou em cartão de crédito com bandeira internacional Visa ou Mastercard. A livraria funciona no quarto piso da embarcação, onde há também uma cafeteria. A tripulação é formada por 400 pessoas de 60 países, que ficam embarcadas por cerca de dois anos.

A coordenadora de Projetos do Logos Hope, Raquel Menezes, disse que nos demais andares há uma escola para filhos dos tripulantes voluntários, além de escritórios, cabines, cozinha e uma clínica médica. “É uma verdadeira cidade aqui dentro”, disse Raquel Menezes. “É realmente uma casa. As pessoas moram aqui”, acrescentou.

Não é preciso agendamento prévio para visitar o navio livraria. O horário de funcionamento é de terça-feira a quinta-feira, das 10h às 20h; sexta e sábado, das 10h às 21h; e, no domingo, das 14h às 21h. A entrada custa R$ 5, mas adultos com mais de 60 anos e crianças menores de 12 anos acompanhadas por um adulto não pagam.

Neste domingo (06), a equipe internacional do navio apresentará, em português, a peça infantil O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, em duas sessões, às 14h30 e às 18h30. A peça é recomendada para maiores de 7 anos de idade. Os ingressos custam R$ 20.

Além de trabalharem na embarcação, os tripulantes saem do navio para oferecer ajuda a organizações locais que desenvolvem projetos em comunidades carentes.

Primeira visita

Esta é a primeira visita do Logos Hope ao Brasil. A última vez que um dos navios livrarias esteve no país foi há 28 anos. Depois do Rio de Janeiro, o Logos Hope visitará Vitória (ES), Salvador (BA) e Belém (PA), retornando a seguir para o Caribe, onde ficou durante 12 meses, em 2017. De lá, rumará para a Europa.

Durante os últimos 47 anos, os navios da GBA receberam mais de 47 milhões de visitantes em mais de 160 países e territórios em todo o mundo. Seu compromisso é fornecer conhecimento, ajuda e esperança às nações que visitam, além de promover a boa vontade e compreensão entre os países. Maior navio livraria da GBA Ships, o Logos Hope iniciou seu serviço em 2009.

De acordo com informação da GBA Ships, ninguém no Logos Hope recebe salário, independentemente da posição que ocupar a bordo. Cada membro da tripulação levantou patrocínio para cobrir os custos de seu período de dois anos de serviço.

Do Jornal do Brasil

 

A Polícia Federal emitiu nesta terça-feira (1º) uma certidão à Justiça para atestar que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem bom comportamento carcerário – requisito para ele progredir do regime fechado ao semiaberto. O documento, assinado pelo superintendente da PF no Paraná, Luciano Flores, e anexado ao processo de execução penal do petista, afirma ainda que não existem anotações de falta disciplinar contra Lula, preso no local desde abril de 2018.

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Condenado na Lava Jato, Lula já tem apoio de 600 mil à sua candidatura ao Nobel (Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação)

A certidão de conduta carcerária de Lula havia sido requisitada pela juíza Carolina Lebbos na segunda-feira (30).

O despacho ocorreu depois que, na semana passada, o Ministério Público Federal recomendou que o ex-presidente seja encaminhado ao regime semiaberto, pois já cumpriu um sexto da pena a que foi condenado no caso do tríplex de Guarujá (SP).

Na mesma decisão, a magistrada determinou que a defesa do ex-presidente também se manifeste sobre o pedido.

A certidão é exigida por lei para comprovar o bom comportamento de presos para que tenham acesso à progressão de regime.

Apesar disso, o ex-presidente resiste em progredir de pena. Em carta divulgada nesta segunda, ele afirma que não vai “barganhar” seus “direitos e liberdade” diante das “arbitrariedades” cometidas no processo contra ele.

Os defensores do ex-presidente pedem que o Supremo Tribunal Federal analise os pedidos de suspeição do ex-juiz Sergio Moro e dos procuradores da Lava Jato.

Dissolução do Parlamento está prevista em lei e foi decretado pelo presidente para evitar a nomeação de mais juízes pelo fujimorismo

Seguidores de Martín Vizcarra em frente ao Congresso na noite de terça-feira.
Seguidores de Martín Vizcarra em frente ao Congresso na noite de terça-feira. (REUTERS)

O choque entre instituições mergulhou o Peru em uma profunda crise política. A disputa entre o presidente Martín Vizcarra e o Congresso, dominado por uma maioria oposicionista, precipitou-se na noite da segunda-feira. O bloqueio do Parlamento levou o mandatário a dissolvê-lo e a convocar novas eleições legislativas. Invocou para isso um mecanismo previsto no artigo 134 da Constituição, que pode ser ativado quando a Câmara se recusa a considerar dois projetos de lei do Governo. O Exército se alinhou com Vizcarra, enquanto a bancada partidária fujimorista e seus aliados da direita votaram por suspender o presidente de suas funções.

A decisão de Vizcarra procurava, basicamente, impedir a oposição de nomear mais juízes para o Tribunal Constitucional e de controlar essa instância judicial. Foi tomada, além disso, após meses de bloqueio legislativo. Entretanto, as forças da oposição não acatam o fechamento do Congresso e chegaram a qualificar a medida como “golpe de Estado”, nas palavras do presidente do Congresso, Pedro Olaechea.

A pressa dos partidos Força Popular e Aprista em assegurar a maioria de votos no Tribunal Constitucional se deve ao fato de seus principais líderes estarem sendo investigados por dois grandes casos de corrupção. O primeiro é vinculado a pagamentos ilegais da empreiteira brasileira Odebrecht na forma de recursos de campanha e subornos. E o segundo tem relação com uma trama ilegal apelidada de Colarinhos Brancos do Porto.

Keiko Fujimori, a líder da oposição, está em prisão preventiva desde outubro de 2018 enquanto é investigada por lavagem de dinheiro, como consequência de supostos subornos da Odebrecht à sua campanha eleitoral de 2016. A defesa de Fujimori espera uma decisão do Tribunal Constitucional para anular a prisão preventiva, mas também o resto da oposição pretende recorrer a esse tribunal para poder continuar fazendo política e evitando as investigações tributárias.

O Executivo apresentou na segunda-feira ao Congresso uma moção de confiança sobre um projeto de lei. Tratava-se de acrescentar a uma norma existente os critérios de transparência, pluralidade e participação popular na seleção de candidatos ao Tribunal Constitucional, já que a oposição convidou 11 postulantes – 10 deles seus simpatizantes – para formarem a lista tríplice que seria posteriormente votada em plenário. O Parlamento, entretanto, não votou a moção de confiança e submeteu a escolha dos magistrados a votação. Conseguiu nomear um, já que horas mais tarde Vizcarra deu por rechaçada a confiança, dissolveu do Legislativo e convocou novas eleições.

Mobilizações populares encheram as ruas de 15 cidades para respaldar a decisão do presidente. Entretanto, seus rivais não se deram por vencidos, e já na noite de segunda o presidente do Congresso nomeou como a vice-presidenta Mercedes Aráoz como chefa interina do Poder Executivo. Antes disso, os deputados destituíram o mandatário através de uma moção. Na prática, a Câmara suspendeu Vizcarra de suas funções e enviou a ordem ao Palácio do Governo, mas o documento não foi recebido.

Na manhã de terça, Olaechea informou que a oposição realizava consultas jurídicas sobre os passos a seguir. “No momento sou presidente da comissão permanente”, afirmou. Segundo a Constituição, esse órgão do Congresso permanece ativo até que sejam escolhidos os novos deputados. Segundo o decreto de dissolução publicado na noite de segunda-feira pelo Diário Oficial, o pleito ficou marcado para 26 de janeiro.

Vizcarra já tinha advertido na tarde de segunda que talvez dissolvesse o Congresso. A Defensoria do Povo disse que a interpretação da lei feita pelo chefe do Governo “se afasta da Constituição”, dado que o plenário não chegou a votar contra a questão de confiança, apenas a discutiu.

Depois das 22h de segunda-feira (hora local), os comandantes gerais das Forças Armadas, o chefe do Comando Conjunto e o diretor-geral da Polícia Nacional se reuniram com Vizcarra para lhe manifestar seu respaldo e divulgaram um comunicado em que o reconheciam como “chefe supremo” dessas corporações.

A primeira reação de uma entidade multilateral sobre a crise política no Peru foi a da Organização de Estados Americanos. “É um passo construtivo que as eleições tenham sido convocadas conforme os prazos constitucionais e que a decisão definitiva recaia sobre o povo peruano, no qual radica a soberania da nação. É conveniente que a polarização política que o país sofre seja resolvida pelo povo nas urnas”. Mas a OEA espera que o Tribunal Constitucional se pronuncie “em relação à legalidade e legitimidade das decisões institucionais adotadas, assim como sobre as diferenças que pudessem existir na interpretação da Constituição”.

Enquanto no Peru continua uma batalha de opiniões sobre o atual cenário político, Vizcarra nomeou o deputado governista Vicente Zeballos para presidir o Conselho de Ministros. Zeballos já era o ministro da Justiça e um dos mais importantes conselheiros políticos do presidente.

Nas próximas horas o chefe de Estado dará posse a alguns novos ministros. Zeballos voltará a prestar juramento na pasta da Justiça, e foi confirmado que os titulares de Relações Exteriores, Néstor Popolizio, e Economia, Carlos Oliva, não permanecerão no gabinete, porque estavam em desacordo com o fechamento do Parlamento e têm mais afinidade com a maioria opositora

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Posted on 02-10-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 02-10-2019


 

Edu, no jornal gaúcho

 

 

A China celebra o septuagésimo aniversário da Revolução. Será que sofre de males similares aos que causaram a queda de Gorbachov?

Vista da exposição em Pequim que comemora o 70º aniversário da Revolução.
Vista da exposição em Pequim que comemora o 70º aniversário da Revolução.Jason Lee (Reuters)

A República Popular da China celebrou neste 1º de outubro seu 70º aniversário com a pulga atrás da orelha. No imaginário cultural oriental, tal efeméride não tem um significado substancial equivalente, por exemplo, ao sexagésimo aniversário, que fecha, este sim, um círculo. No entanto, sua relevância pontual vem do fato de estar a apenas quatro anos de superar a longevidade da União Soviética, em tempos passados seu rival mais direto na liderança comunista. Assim como a URSS, será que a China atingiu sua data de vencimento aos 70 anos?

Os 70 anos da URSS e da República Popular da China têm semelhanças e contradições evidentes. Em 1987, Mikhail Gorbachov, no comando da perestroika e da glasnost, reconhecia as enormes dificuldades encontradas para implementar seu projeto regenerador tanto no plano interno como no externo. Aquele foi um ano marcado pela avaliação histórica, de Stalin a Brejnev, mas também pelos primeiros resultados efetivos em matéria de direitos humanos, de liberdade de expressão, de conscientização em relação à deterioração ambiental e, principalmente, dos primeiros sinais de tensões políticas profundas que, no final, seriam determinantes para o fim precipitado da URSS: o irredentismo nacionalista e o racha no Partido Comunista, devido ao confronto entre Gorbachov e o primeiro-secretário de Moscou, Boris Yeltsin.

O estado geral apresentado pela China na mesma idade política que a URSS tinha em 1987 tem pouco a ver com aquilo. Para começar, a experiência de reforma não é um fato extraordinário, ela representa um estado permanente há décadas. Além disso, embora reconheça as dificuldades, Pequim oferece um balanço de mudanças que, globalmente, pode ser considerado muito mais bem-sucedido. O colapso que ameaçava o projeto de Gorbachov e a própria URSS não se compara à situação da China hoje. Enquanto Moscou usava o adjetivo “radical” para impulsionar as mudanças, Pequim continua apostando em uma transformação gradual e sem confusões.

Uma economia desigual

A decrepitude e o caos da economia soviética tampouco têm qualquer semelhança com a economia da China atual, a segunda maior do mundo. A reforma de Moscou se concentrava no fomento das empresas de economia mista, uma etapa que já foi amplamente superada na China. O grande acerto das autoridades orientais foi incorporar o mercado de maneira gradual e aceitar a diversificação controlada das formas de propriedade. Além disso, apostam na inovação. Neste ano, a China subiu três posições no ranking de países mais inovadores do mundo, alcançando o 14º lugar de um total de 129. Nada a ver, portanto, com o panorama decepcionante oferecido pela economia soviética. Mesmo assim, em ambos os casos, as mudanças no modelo de desenvolvimento excluem as reformas do sistema. No caso de Gorbachov, o processo acabou saindo do seu controle. Xi Jinping tem isso em mente quando promove campanhas ideológicas como a de “permanecer fiel à missão institucional”.

O calcanhar de aquiles territorial

Os nacionalismos periféricos desempenharam um papel muito relevante na crise da URSS. As complexas entranhas do “povo soviético” iam de algumas minorias, como os tártaros da Crimeia, até os povos bálticos e à guerra entre Armênia e Azerbaijão pelo controle de Nagorno-Karabakh. Na China, as tensões que detectamos no Tibete, em Xinjiang e, em outro nível, em Hong Kong e em relação a Taiwan indicam que o problema nacional-territorial tem uma intensidade semelhante e que, assim como na URSS, é periférico e, ao mesmo tempo, central. Uma diferença substancial, entretanto, é que essas crises atingiram a URSS com um nacionalismo russo em decadência, que teve de ser amplamente reconstruído depois da dissolução soviética. Já o nacionalismo Han, baseado em uma demografia avassaladora, desempenha uma função catalisadora essencial. Mas sem dúvida a trajetória da URSS representa uma advertência que a China leva muito a sério, principalmente pelo fato de que seu modelo de autonomia foi importado de lá.

O estado geral que a China exibe na mesma idade política tem pouco a ver com o da URSS em 1987

O mundo exterior

As realidades chinesa e soviética são igualmente assimétricas. A abertura da China ao mundo externo está anos-luz à frente da limitada estrutura de interdependência estabelecida pela URSS com o exterior e inclusive com os outros países socialistas. Além disso, Pequim pretende liderar a globalização quando seu principal rival estratégico, os Estados Unidos, adere ao protecionismo. Inversamente, no campo político, os compromissos internacionais da China e seu papel na governança global dão a ela uma dimensão notavelmente inferior à desempenhada pela União Soviética, que ainda era uma referência inquestionável da bipolaridade mundial.

A defesa e a segurança

Gorbachov vivia como um pesadelo a situação de confronto com os países ocidentais. A assinatura do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário em 1987, para eliminação de mísseis desse tipo, foi um alívio para Moscou, como o próprio líder soviético chegou a confessar em suas memórias. A importância do complexo militar-industrial na URSS e na China também não tem comparação, embora hoje os chineses já superem os russos em gastos militares. A defesa é um setor de atenção preferencial, mas Pequim descarta ter qualquer interesse em uma corrida armamentista como a que, no final, dilapidou enormes recursos da economia soviética até provocar, em parte, sua ruína.

E o partido

Será que a China pode entrar em uma espiral de deterioração semelhante à vivida na URSS a partir de 1987? Há fatores nada desprezíveis de crise na China, que vão dos problemas econômicos aos territoriais, mas no momento eles não têm a gravidade sistêmica que apresentavam na URSS de 1987, quando o regime soviético completou 70 anos.

A chave do desenlace está na saúde política do partido. Por isso, é compreensível a insistência de Pequim de preservar a unidade desse “país interno” que são os mais de 90 milhões de militantes do Partido Comunista da China, revestindo-se obsessivamente de lealdade e disciplina.

Gorbachov queria salvar o socialismo e a URSS e fracassou nos dois objetivos. Xi Jinping quer perpetuar o mandato do partido e projetar a China como a potência central do sistema internacional no século XXI, sem abdicar de seu peculiar socialismo. A via asiática tem, no entanto, mais envergadura como projeto nacional, diferentemente da ambição global que a URSS projetava.

Neste aniversário persiste, porém, o desafio que o então líder chinês Zhao Ziyang e Gorbachov discutiram em um encontro no Jardim da Alegria Geral de Zhonanghai: é possível desenvolver a democracia em um sistema unipartidário? Uma questão central que preocupava naquela época os dois líderes e que hoje, desaparecida a URSS, também desapareceu da agenda chinesa.

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