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 ARTIGO

A Espanha e a Catalunha

Joaci Góes

Aos queridos netos Maria Eduarda e Daniel que desejam a continuidade de uma Espanha unida, que adotaram como sua segunda Pátria!

A Espanha é uma das mais sólidas democracias existentes, enriquecida com uma diversidade cultural que fascina o Mundo, de que são prova as crescentes ondas de turistas que a visitam a cada ano. Nela, história, geografia, clima, arquitetura, música, pintura, dança, literatura e o caloroso acolhimento de sua população se mesclam para compor um todo homogêneo que a tornam cada vez mais o objeto do desejo dos que querem usufruir, plenamente, as múltiplas possibilidades da vida.

A Espanha, somada a Portugal para compor a Península Ibérica, é cada vez mais reconhecida como o padrão de desenvolvimento ideal, em razão do seu mais do que necessário conforto fundamental poder ser distribuído por todos os sete bilhões de seres humanos, sem o comprometimento da higidez ambiental do Planeta, contrariamente ao que ocorreria se essa distribuição fosse realizada, por exemplo, a partir do padrão de vida de norte-americanos ou alemães. O domínio que exerce no mais popular dos esportes, o futebol, encanta, também, os segmentos mais pobres de todos os países, com as marcantes atuações do Real Madri e do Barcelona.

É natural, portanto, que a controvertida questão em torno da propalada independência da Catalunha seja cada vez menos um problema nacional, espanhol, para se converter em tema de interesse internacional, em geral, e europeu, em particular. Na hipótese, aparentemente impossível, de ser alcançada a independência da Catalunha, estima-se que o movimento independentista que dorme em banho-maria em praticamente todas as nações europeias, ganharia força, podendo resultar na fragmentação do pujante Continente em centenas de nações entre pequena e nenhuma expressão.

A verdade é que cada dia mais se evidencia a fragilidade dos argumentos dos que defendem a separação, como os que se seguem, amparados em elaborações inconsistentes, distribuídas como fake news para ilaquear a boa-fé da maioria ingênua das populações dos quatro cantos da terra:

1- A Espanha rouba a Catalunha;
2- A Espanha não deixa a Catalunha votar as grandes questões;
3- A Espanha não deixa a Catalunha votar a autodeterminação;
4- A Constituição espanhola hostiliza a Catalunha;
5- A independência da Catalunha não contraria a União Europeia;
6- A ONU reconhece o direito dos povos à autodeterminação;
7- À Catalunha é negado o direito de governar-se;
8- A Catalunha independente será superavitária;
9- A Catalunha já é uma nação;
10- A Espanha oprime a Catalunha desde 1714;
11- A autonomia da língua catalã atesta sua independência;
12- A maioria dos catalães quer a independência;
13- Na Espanha não há liberdade de expressão;
14- A democracia espanhola é capenga;
15- Na Espanha não se respeitam os direitos civis;
16- Cresce o número de políticos espanhóis que busca exílio;
17- É precária a garantia dos direitos na Espanha;
18- Na Espanha ainda vigoram instituições medievais, de feitio inquisitorial;
19- O Ministério Público Espanhol é de intolerante extrema direita;
20- O movimento independentista catalão é pacífico;
21- Os catalães tinham direito a votar no referendo de independência convocado pela Generalitat, e o Estado espanhol atuou de forma antidemocrática para impedi-lo;
22- A polícia espanhola usou da força para impedir os catalães de votar, pacificamente;
23- A violência policial espanhola produziu mais de mil feridos;
24- Na Espanha não há separação de poderes;
25- A violência policial no movimento do 1° de outubro ficou impune;
26- O referendo de 1° de outubro gestou um mandato democrático pela independência da Catalunha;
27- Pessoas foram presas, só por terem colocado urnas para a população votar;
28- Ninguém pode ser preso por ter sido eleito, democraticamente;
29- Os independentistas presos são presos políticos;
30- Os independentistas presos não podem ser julgados pelo cometimento de delitos próprios dos militares;
31- O Supremo Tribunal Espanhol tem recusado observadores internacionais, o que prova a falta de transparência dos julgamentos;
32- Sem a independência da Catalunha, a língua catalã desaparecerá;
33- O referendo é um direito dos catalães que o Estado Espanhol tenta negar;

E por aí segue a propaganda independentista, carregada de má-fé. A fácil negação de cada um desses argumentos, tarefa a que o Governo Espanhol ora se dedica, com a indispensável participação de sua rede diplomática, mundo afora, é tarefa que transborda os limites de um artigo de jornal.

Ontem, porém, dia 14/10, como era esperado, o Tribunal Supremo da Espanha condenou nove dos 12 líderes separatistas, que foram a julgamento, a penas que variaram de nove a treze anos de prisão.
Vale lembrar a lição de Ulysses Guimarães, pai da Constituição Cidadã Brasileira: “A Constituição, certamente, não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a sua reforma. Discordar dela, sim! Divergir, sim! Descumpri-la, jamais! Afrontá-la, nunca. A fidelidade à Constituição é a sobrevivência da Democracia”.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna. Artigo publicado originalmente nesta terça-feira, 15 , na TB

“Suspiros de Espanha”, Rocio Jurado: “En mi soledad suspiro por ti,/Espana, sin ti me muero,/Espana, sol y lucero./ Muy dentro de mi te llevo escondida;
quisiera la mar inmensa atravesar,/Espana, flor de mi vida”.

Viva Espanha e Catalunha. Inseparáveis!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

Por G1 BA

Apresentadora e culinarista Bela Gil recebe Comenda 2 de Julho na Assembleia Legislativa da Bahia — Foto: Divulgação Apresentadora e culinarista Bela Gil recebe Comenda 2 de Julho na Assembleia Legislativa da Bahia — Foto: Divulgação

Apresentadora e culinarista Bela Gil recebe Comenda 2 de Julho na Assembleia Legislativa da Bahia — Foto: Divulgação

A apresentadora e culinarista Bela Gil, filha do cantor Gilberto Gil, recebeu da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) a Comenda 2 de Julho, na tarde desta quarta-feira (16). A Comenda é a mais alta condecoração entregue pela casa legislativa e é dedicada a cidadãos que prestam serviços considerados relevantes ao estado da Bahia.

A honraria foi entregue a Bela pelo deputado Marcelino Galo (PT).

Bela Gil é chef de cozinha natural, ativista e escritora. Em sua carreira, busca destacar a importância da alimentação saudável e consciente através de diversos projetos.

Ela ainda é apresentadora de programas de TV que costuma receber celebridades, pequenos produtores e especialistas em alimentação natural.

Apresentadora e culinarista Bela Gil recebe Comenda 2 de Julho na Assembleia Legislativa da Bahia — Foto: Divulgação Apresentadora e culinarista Bela Gil recebe Comenda 2 de Julho na Assembleia Legislativa da Bahia — Foto: Divulgação

out
17
Posted on 17-10-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 17-10-2019

Aras fora do debate da segunda instância

 

Por Claudio Dantas

Augusto Aras ainda está em Roma e só retorna ao Brasil amanhã.

A previsão é que esteja em Brasília na sexta-feira, o que significa que não participará da primeira sessão do STF que vai rediscutir a prisão em segunda instância.

A assessoria da PGR diz que o procurador-geral ainda não preparou nenhum memorial sobre o tema para levar ao debate no Supremo.

Justiça espanhola calcula em 6.550.179 reais os 37 quilos da droga encontrada na bagagem do sargento Manoel Silva Rodrigues

Os 39 quilos de cocaína encontrados na mala do sargento Manoel Silva Rodrigues, de 38 anos, em Sevilha.
Os 39 quilos de cocaína encontrados na mala do sargento Manoel Silva Rodrigues, de 38 anos, em Sevilha.

A justiça espanhola quantificou definitivamente o valor da cocaína apreendida em 25 de junho no aeroporto de Sevilha com o sargento Manoel Silva Rodrigues, membro da tripulação de uma das aeronaves da delegação com a qual o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, viajava naqueles dias para uma reunião de cúpula em Osaka (Japão). Os 37 quilos da droga que a Guarda Civil encontrou em sua bagagem durante uma busca foram avaliados exatamente em 1.419.262,22euros (6.550.179,03 reais), conforme especificado na declaração da Procuradoria à qual EL PAÍS teve acesso.

Nesse documento, no qual o representante do Ministério Público pede que o único réu preso por esse confisco seja condenado a oito anos de prisão e uma multa de quatro milhões de euros (18,2 milhões de reais), aponta para a realização em breve do julgamento do militar brasileiro, encarcerado na prisão de Sevilha desde sua detenção.

O texto do promotor detalha que o sargento Silva Rodriguez era um dos 21 tripulantes do avião da Força Aérea Brasileira BRS08 que fez uma escala naquele dia no aeroporto de Sevilha. Quando desceu da aeronave e passou pelo controle alfandegário, “foi apreendida com o culpado, por membros da Guarda Civil, em sua bagagem, uma mala, um porta-terno com um uniforme e uma mochila com pertences, 37 blocos retangulares de uma substância”. Após a análise dos mesmos, os investigadores certificaram que se tratava de cocaína com uma pureza de 80’14% e que era transportada pelo detido “para ser vendida a terceiras pessoas” que as investigações policiais não foram capazes de identificar até o momento. A Promotoria considera que esses fatos são constitutivos de um crime contra a saúde pública, com a agravante da “notória importância da substância confiscada”, razão pela qual pede oito anos de prisão e uma multa milionária.

Trecho da denúncia do Ministério Público espanhol contra o sargento Manoel Silva Rodrigues, obtido pelo EL PAÍS.
Trecho da denúncia do Ministério Público espanhol contra o sargento Manoel Silva Rodrigues, obtido pelo EL PAÍS.

No dia seguinte à detenção, Silva Rodriguez entrou na prisão, onde permanece. Os investigadores consideram que o militar brasileiro era uma simples mula ou correio humano, e que tinha um encontro no hotel, para o qual se dirigia tanto ele como o restante da tripulação do avião para descansar durante a escala em Sevilha, com uma pessoa que iria se encarregar do estupefaciente. As circunstâncias em que a droga foi localizada –na mala sem ser ocultada entre as roupas, como pode ser vista nas imagens que EL PAÍS antecipou com exclusividade– sugerem aos responsáveis pelas investigações que o sargento acreditava que não seria submetido a nenhum tipo de controle aduaneiro por fazer parte da delegação do presidente brasileiro em viagem oficial.

A prisão na Espanha de um membro da comitiva de Bolsonaro causou uma enorme controvérsia no Brasil. Durante a campanha que o levou à Presidência, ele prometeu combater o crime e as drogas como nunca antes no país. O Ministério da Defesa brasileiro rapidamente se apressou em emitir um comunicado no qual “repudiava” as ações do militar e mostrava sua disposição de colaborar com as autoridades espanholas para esclarecer o ocorrido. O próprio presidente brasileiro descreveu o evento, em sua conta no Twitter, como “inaceitável” e exigiu “investigação imediata e punição severa ao responsável”. Seis militares brasileiros se trasladaram para a capital andaluza na semana passada para interrogar o prisioneiro sobre suas supostas conexões com traficantes de drogas do Brasil e do próprio Exército brasileiro.

out
17
Posted on 17-10-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 17-10-2019


 

Iotti, NO jornal

 

DO EL PAÍS

 

Senadora esquerdista se torna o alvo dos ataques no debate e permite que Joe Biden e outros concorrentes de centro brilhem mais

A senadora Elizabeth Warren, durante o debate.
A senadora Elizabeth Warren, durante o debate.CNN

O debate desta terça-feira entre os aspirantes à candidatura presidencial democrata em 2020, o mais numeroso da história, com 12 participantes, demonstrou como uma mudança nas pesquisas pode alterar o jogo dramaticamente. A esquerdista Elizabeth Warren, cuja trajetória ascendente cristalizou-se nas últimas semanas em seu momento estelar, liderando as pesquisas com a ajuda da perda de fôlego de seus principais rivais, descobriu naquela noite o que significa ser a favorita. Os golpes que em debates anteriores eram dirigidos a Joe Biden desta vez caíram sobre Warren vindo de todos os lados.

A senadora evitou cair na provocação e conseguiu se centrar na sua mensagem. Mas quando essa mensagem, radical para os padrões do Partido Democrata, passa a ser o foco do debate e é submetido a escrutínio, aumenta também o desejo de uma alternativa centrista. E lá estavam Pete Buttigieg, Beto O’Rourke, Kamala Harris e Amy Klobuchar, atacando Warren para tentar oferecer essa alternativa até agora monopolizada por Joe Biden. “Prezo o trabalho de Elizabeth, mas, de novo, o que diferencia um plano de um sonho impossível é que é algo que de verdade dá para realizar”, resumiu a senadora Klobuchar.

Os meses passam e os candidatos mais atrasados precisam de um momento de glória para levantar a cabeça entre a multidão ou, simplesmente, sair de uma irrelevância já muito longa. Buscando o contraste com Warren, os candidatos reivindicavam um posto destacado no centro. Klobuchar e Buttigieg brilharam nessa tentativa, chegando a explicar Biden melhor que o próprio Biden.

Mas, ao ceder a Warren a posição de alvo, o ex-vice-presidente destacou-se mais que em todos os debates anteriores. Quanto mais Warren subir, mais os moderados precisarão de uma figura em torno da qual cerrar fileiras, e esse pragmatismo é o jogo de Biden desde o começo.

O favorito dos moderados saiu-se bem, nos primeiros compassos do debate, com as previsíveis pergunta sobre seu filho Hunter. Os negócios dele na Ucrânia, que o presidente Trump pediu que fossem investigados, numa conversa telefônica com seu colega Volodimir Zelenski que motivou o início do processo de impeachment, colocaram em uma situação incômoda o ex-vice-presidente e até agora favorito na corrida democrata. Hunter Biden publicou recentemente um comunicado, citado por seu pai, que assim encerrou o assunto — no que seus rivais, convencidos da irresponsabilidade que seria lançar dúvidas ou mostrar divisões sobre o impeachment, tampouco quiseram insistir.

Superado esse apuro, o ex-vice de Barack Obama conseguiu jogar suas cartas e deixar clara sua mensagem: o valor da experiência. Seja na política externa — “Sou o único deste palco que já conversou com [o presidente russo Vladimir] Putin e com [o turco Recep Tayyip] Erdogan” — ou no tema do controle de armas – “Sou o único que enfrentou e derrotou a Associação Nacional do Rifle”. “Todos temos boas ideias”, disse Biden. “Mas quem está mais bem preparado? Quem pode realizá-las?”. Inclusive se permitiu, ele também e contrariando seu costume, criticar Warren, cujos planos de saúde universal tachou de “vagos”.

Sua tática de questionar a experiência lhe serviu também para superar a pergunta sobre sua idade avançada num eventual mandato (tem 76 anos). Uma pergunta que também foi formulada a Warren (70) mas que, claro, estava dirigida sobretudo ao senador Bernie Sanders, de 78, para quem o debate representava a volta à campanha após sofrer um enfarte.

“Estou são, encontro-me ótimo”, disse Sanders. E depois agradeceu “do fundo do coração” as manifestações de apoio recebidas, incluídas as de seus adversários de debate, em um gesto que humanizou um candidato que carrega certo estigma de estar sempre zangado. Apesar disso, o debate confirmou que, hoje em dia, não é mais ele, e sim Warren, quem reina no setor esquerdista. Embora o senador, que já enfrentou Hillary Clinton nas primárias de 2016, tenha recebido um valioso apoio de fora do set de Ohio onde o debate ocorria: a equipe da popular deputada Alexandria Ocasio-Cortez informou que ela aproveitará o comício de Sanders em Nova York neste fim de semana para oficializar seu apoio a ele nas primárias.

Os temas foram os habituais na dialética democrata, mas o padrão sobre o qual se mediam era desta vez o programa de Warren, que falou por quase 23 minutos, seis a mais que Biden, o segundo que mais tempo teve. Assim, no tema da reforma da saúde, os candidatos moderados pressionaram Warren com perguntas sobre como pensa em financiar sua proposta de cobertura pública universal. Ao contrário de Sanders, que defende uma elevação geral dos impostos para custear sua dramática reforma da saúde, Warren evitou responder claramente se para financiar seu plano teria que aumentar os impostos da classe média. Sua posição de favorita complica a manutenção da ambiguidade, e Buttigieg não tardou a deixar isso em evidência. “Escutamos esta noite: uma pergunta de ‘sim’ ou ‘não’ que não foi respondida com ‘sim ou ‘não’”, afirmou.

Outros temas candentes e nos quais os democratas mais se chocam com a Administração Trump, como a imigração e a mudança climática, brilharam por sua ausência em um debate que durou três horas. Um total de 180 minutos em que, aliás, o presidente não dedicou nenhum tuíte às 12 pessoas que procuram substituí-lo na Casa Branca em 2020.

DO EL PAÍS

OPINIÃO

 
 
Temer na convenção na qual o PMDB voltou a sigla original MDB.
Temer na convenção na qual o PMDB voltou a sigla original MDB.Filipe Cardoso (PMDB Nacional)

Uma das mais astutas peças da engenharia política colocada em operação pela ditadura militar consistiu na produção de sua própria oposição. Dificilmente encontraremos uma ditadura que, logo ao ser implementada, não anulou toda a oposição, mas na verdade criou seu próprio partido de oposição. Ou seja, o MDB é um produto da ditadura, talvez seu produto mais impressionante. O que demonstrava como, desde o início, tratava-se de uma ditadura que não se via como uma operação de intervenção cirúrgica, mas como um movimento de reformulação profunda da vida nacional feito para durar mesmo depois do seu fim.

Produzir sua própria oposição, definir as modalidades de sua própria resistência é a forma mesma de um “poder perfeito”. Pois o poder se exerce não exatamente quando definimos as normas a serem seguidas. Ele se exerce principalmente quando definimos as margens, quando organizamos as posições e as formas de resistência que os descontentes poderão ocupar. Um poder perfeito é aquele que é, ao mesmo tempo, a norma e a resistência.

Assim, ao definir as condição de sua própria oposição, ou seja, ao construir o próprio ator que a sucederia depois de seu término, a ditadura brasileira encontrou uma maneira de fazer, da Nova República, apenas a ocasião de seu próprio desdobramento. Como se disse várias vezes antes, o MDB era sobretudo um modelo de paralisia, uma forma de travar as lutas e dinâmicas de conflitos sociais próprios à realidade brasileira. Esta paralisia acabou por levar a Nova República ao colapso e, ironia maior da história, ao restabelecimento de novos representantes do setor mais violento da ditadura militar.

Um processo similar está em curso atualmente, a saber, as forças em torno do governo, ou que um dia giraram em torno do governo, estão a construir sua própria oposição. Neste sentido, é digno de nota a maneira com que o espaço da oposição é atualmente ocupado, principalmente, por antigos aliados, por apoiadores ocasionais ou ainda por atores de espectros políticos próximos àquele assumido pelo governo. Isto é parte fundamental de uma operação de restrição e gestão do horizonte de debate nacional. Não por acaso, o discurso oposicionista começa a se configurar como um discurso de crítica à política ambiental, às “derrapadas” do governo, a sua “insensibilidade” para com setores historicamente violentados, mas que sempre termina por lembrar: “embora tudo isto ocorra, sua política econômica é boa”. Como se estivéssemos a ver a gestação de novos candidatos a gerentes de uma política econômica aparentemente consensual, a despeito de seus resultados catastróficos. Assim, da mesmo forma como em Aristóteles a atualidade é a situação atual mais a soma de seus possíveis, constrói-se paulatinamente horizonte dos possíveis deste atual governo.

Como a outra face necessária dessa moeda, vemos desenhar-se no Brasil um tipo de movimento que parece querer repetir o que se passou na Itália nas últimas décadas. Desde o fim da Segunda Guerra, a Itália despontou como um país de esquerda em ebulição. O maior partido comunista da Europa, movimentos autonomistas extremamente dinâmicos e contestadores, movimentos sociais múltiplos. No entanto, não há sequer sombra disto atualmente. Simplesmente não há mais esquerda italiana. O que aconteceu?

Se quisermos fazer a arqueologia de Bolsonaro chegaremos necessariamente a Silvio Berlusconi, certamente o primeiro da série de líderes populares de extrema-direita que dão o tom da política mundial. Quando Berlusconi emergiu, todo o resto do espectro político foi paulatinamente se configurando em enormes “frentes de resistência”. Ou seja, a política se resumiu a Berlusconi e as resistências a ele. Essas grandes frentes, no entanto, quando conseguiam desalojá-lo não eram capazes de realmente governar. Pois não havia nada que os uniam a não ser a recusa a Berlusconi. Principalmente, tais frentes tendiam a anular as forças de esquerda no interior de dinâmicas gerenciais de poder. Sem espaço para impor suas dinâmicas de ruptura, a esquerda era convocada à responsabilidade de sustentar governos com a paralisia das coalizões heteróclitas. Assim, no interior desta dinâmica de frente ampla, todos se enfraqueceram, pois a única força política real era Berlusconi. A única força política real, que pregava a ruptura, estava fora da frente. Todo o resto era a expressão da ordem, de uma ordem que ninguém queria mais. O resultado final demonstrou-se absolutamente inefetivo. Quando Berlusconi enfim caiu em definitivo, seu lugar foi ocupado não por atores dessa frente ampla, mas por alguém ainda pior que ele, alguém cujas simpatias fascistas eram ainda mais evidentes, a saber, Matteo Salvini. Mesmo fora do governo depois de uma manobra desastrada, Salvini permanece o político mais popular da Itália, prestes a retornar ao poder na próxima eleição.

Isto apenas demonstra como, em política, resistir é perder. Resistir é apenas confessar que não é você quem controla a agenda política, quem tem a força de produzir a agenda. Você simplesmente responde negativamente a uma agenda decidida por outro. A política de frente ampla, de todos contra Bolsonaro será impotente diante de uma “oposição consentida” que está a ser gestada atualmente e que visa garantir a proliferação de atores dispostos a perpetuar as políticas do atual governo, apenas com diferentes graus de temperatura e pressão.

Neste ponto fica claro o que falta a uma oposição real no Brasil. Falta-lhe a capacidade de impor no debate público os tópicos de outra agenda. Quando a finada Margareth Thatcher estabeleceu seu braço de ferro contra os mineiros britânicos em greve, ela durante meses repetia o mantra: “Não há alternativa”. O que sempre foi a estratégia clássica do autoritarismo neoliberal, a saber, querer vender a ideia de que o “remédio amargo” é o único remédio (diga-se de passagem, amargo apenas para alguns, pois há sempre os que lucram muito com o amargor de outros). Mas mostrar a existência de alternativas, impor outra agenda, não pode em absoluto significar tentar reeditar o que já foi tentado.

Por exemplo, em seus últimos trabalhos, o economista Thomas Piketty mostrou aquilo que muitos críticos da política econômica do governos petistas já perceberam: que não houve política de combate à desigualdade realmente eficiente. Seus estudos mostram como a participação, na renda total, dos 1% mais ricos cresceu no período do antigo governo e que o crescimento da renda das classes mais pobres foi, na verdade, feita em detrimento da faixa entre os 50% mais pobres e os 10% mais ricos, ou seja, em detrimento da classe média. Já havíamos percebido a ineficácia da política em questão quando ficou claro que tudo o que ela havia conseguido produzir fora levar o índice Gini (que mede a desigualdade) aos patamares do início dos anos sessenta. Agora, fica claro em números como ela foi também uma política de preservação e crescimento dos ganhos da elite rentista brasileira, devido à ausência de qualquer reforma fiscal que de fato transferisse a conta para os setores mais ricos da sociedade. Tirar as consequências das ilusões de “todos ganhando” que alimentou as políticas anteriores é condição necessária para que possa aparecer uma oposição que faz minimente jus ao seu nome. Há um longo debate a ser feito que, infelizmente, continuamos a nos recusar a fazer enquanto “resistimos”.

“Homeward Bound” , Simon e Garfunkel. Empolgante performance no show  histórico da  dupla imbatível realizado no Central Park, de New York. Inesquecível!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

Letra: Homeward bound

“I wish I was Homeward bound Home where my thought’s escaping Home where my music’s playing Home where my love lies waiting Silently for me”.

 

out
16

Celso de Mello condena irmãos Vieira Lima por organização criminosa

Celso de Mello concluiu hoje seu voto para condenar Geddel e Lúcio Vieira Lima por associação criminosa e lavagem de dinheiro.

O ministro considerou que o ex-ministro cometeu o crime 8 vezes, por esconder R$ 51 milhões num apartamento em Salvador e investimentos fraudulentos no mercado imobiliário.

O ex-deputado Lúcio Vieira Lima também foi considerado culpado, por 2 vezes no crime de lavagem. Junto com o irmão, é acusado de desviar dinheiro da Caixa, receber propina da Odebrecht e recolher parte do salário de ex-secretários parlamentares.

O julgamento foi suspenso e será retomado na próxima terça com os votos de Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia. Relator, Edson Fachin já votou pela condenação

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