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CRÔNICA

 

                                                   O jardim secreto de Lennon e os nossos

 

                                                   Janio Ferreira Soares

 

O Sol que finda setembro clareia as primeiras floradas e em meio à saraivada de balas que dilaceram e de discursos que idiotizam, leio uma notícia que me remete ao silêncio da casa paroquial, onde as ondas curtas de um velho rádio Transglobe Philco me levavam para muito além das andorinhas que moravam em suas telhas. A nota dizia que na semana passada foi aberto ao público o portão do Strawberry Fields, jardim imortalizado por John Lennon, numa de suas mais geniais canções.

Localizado em torno de um orfanato mantido pelo Exército da Salvação no bairro de Woolton, em Liverpool, conta Allister Versfeld, responsável pelo lugar, que Lennon costumava pular a cerca que ficava atrás da casa de sua tia pra brincar com as crianças e depois, presumo, subia em alguma árvore para observar coisas que só a curiosidade infantil percebe e que mais tarde são processadas em forma de músicas, de textos ou, quando se tem a chance, em longos papos com descolados terapeutas (tipo Selton Mello).

“Todas as crianças têm o seu jardim secreto, talvez um esconderijo embaixo da escada ou nos galhos de um grande carvalho. Pelo que fala essa música parece que, para John, era aquele o seu lugar”, diz sua meia-irmã de 72 anos, Julia Baird. Bingo!

Não sei você, mas este velho escriba ainda rega diariamente os jardins que fertilizaram sua infância e que, graças aos cataventos que continuam bombeando o enferrujado aspersor fincado no topo da neblinada serra, continuam produzindo a doçura exata que costuma me escudar sempre que a maldade ameaça expandir o fel que nutre as feridas.

Um deles, como disse lá em cima, era a casa paroquial, lugar onde eu passava horas ouvindo o ranger da rede em sintonia com o mundo. O outro ficava nos galhos das goiabeiras do quintal de minha avó, que em dias ameaçando chuva serviam-me como mirantes ao vento, enquanto o escuro sorvete de nuvens se preparava pra se liquefazer sobre o manto turquesa que vestia o rio.

E são nesses jardins exalando viço que até hoje colho frutas com gosto de Bias, Iaiás e Cecílias; de Aldas, Letícias e Fernandinas; de Lindemás, Pedros e Zés das Silvas. Neles também ouço buzinas de uma Rural trazendo brinquedos e apressando saudades; mugidos de vacas ruminando pastagens; e Hey Jude tocando na difusora e nos bailes, cuja letra, na época, soava como uma espécie de: “ei, Janio, pegue sua peteca e saia por aí, que os passarinhos lhe esperam lá perto do campo de futebol. Mas vá sem pressa, cara, que a asa do tempo é lenta, e na volta sempre haverá um pão quentinho pra você comer vendo o entardecer”.

Em seguida vinha a Ave Maria, toda plena e cheia de graça, como era a vida nos tempos em que a gente pensava que nossos jardins jamais deixariam de ser Strawberry Fields Forever.

Jânio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beirada baiana do Rio São Francisco.

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