ARTIGO

Por que a Bahia não decola?

Joaci Góes

Para a empresária Virgínia Paschoal!

O estadista baiano Otávio Mangabeira, de biografia marcante como orador e pela retidão de conduta, foi, igualmente, um grande aforista. Entre as frases famosas que deixou, repetem-se, à saciedade, as seguintes: “Pense num absurdo: na Bahia há um precedente”; “O baiano gasta cem cruzados para o vizinho não ganhar cinquenta” e “Enigma baiano”, para nomear as misteriosas razões que levavam o nosso Estado a continuar pobre, sem alcançar o mínimo de industrialização de sua economia, não obstante o conjunto das grandes riquezas que possuía no plano cultural e da natureza. A partir da mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763, a Bahia não parou de descer, ladeira abaixo.
Lomanto Júnior, eleito em 1962, o mais jovem governador, pelo voto majoritário, antes de completar 38 anos, criou o Centro Industrial de Aratu, rompendo, como orgulhosamente repetia, o paralisante enigma, ensejando que avançássemos, nos governos que o sucederam, para a criação de um vigoroso polo industrial petroquímico e automobilístico, sem falar na indústria de celulose, do vinho, de calçados e outras, além de sensível modernização de parcela ponderável de seu setor agrícola, centrado no Oeste do Estado, de parelha com o avanço do setor de serviços, com ênfase no turismo que se expandiu de Salvador para o Extremo Sul, a Chapada Diamantina e o Litoral Norte. A oferta de leitos em hotéis, no eixo comandado por Porto Seguro, é o terceiro maior do País, abaixo, apenas, de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Eis que, senão, quando, as coisas começaram a desandar e a Bahia vem perdendo musculatura, diminuindo sua participação percentual na formação do PIB Nacional, com perda de competitividade na indústria e nos serviços, resultando na queda de sua renda per capita, com inevitável consectário de redução da receita tributária, fato comprometedor da capacidade do setor público de investir na infraestrutura básica, física e espiritual, das quais a educação e o saneamento básico são os que mais se ressentem. Basta que se diga que metade dos quinze milhões de baianos, como ocorre com a população brasileira, não tem acesso a saneamento básico, elemento de fundamental importância para o bem-estar das pessoas, por comprometer, seriamente, sua saúde, longevidade e produtividade. Ao invés da inauguração de novos, assistimos a uma sucessão de fechamento de hotéis tradicionais, crise que se precipitou com o encerramento das atividades do centro de convenções, sem que tivesse havido a tempestiva compensação desse importante equipamento. Só em 2020, teremos o início das operações do novo Centro que a PMS constrói, à beira-mar, no terreno do antigo Aeroclube de Salvador.
Como explicar este preocupante declínio, se a Bahia possui tantos recursos para liderar o crescimento e prosperidade nacionais? As pessoas perguntam por que as oposições baianas parecem ignorar que estamos perdendo substância, enquanto cresce a criminalidade e cai o nível de nossa educação. Chegam a questionar se não estaríamos diante de uma síndrome de Estocolmo, em massa, a ponto do Governador do Estado, depois de vencer as eleições, do ano passado, com 75% dos votos, figurar como um dos nomes cogitados para disputar a Presidência da República, nas próximas eleições. Não que a ele, isoladamente, caiba a responsabilidade por esse galopante declínio, mas pelo fato de ser um importante elo na cadeia sucessória dos governos em que a Bahia, de modo acentuado, perdeu posição no quadro republicano. Penso que honestidade passou a figurar como moeda tão rara nos governantes, que a boa reputação do Governador Rui Costa neutraliza os efeitos desse acentuado declínio no IDH de nossa sofrida população, na parte da responsabilidade que lhe cabe.
Não creio que haja tema de tamanha atualidade e importância sobre o qual se debruçarem nossas elites do que o desvendamento do ressurreto enigma proposto pelo engenheiro Otávio Mangabeira (1886-1960), caçula dos famosos irmãos, o médico Francisco Mangabeira, morto aos 25 anos (1879-1904) e o jurista João Mangabeira (1880-1964), patrono de nossa turma de Direito, em 1963.
Chego a pensar que foi em homenagem ao legendário ex-governador que se mudou o nome do Estádio da Fonte Nova, de Otávio Mangabeira, para o da cerveja Itaipava. Querem precedente melhor e maior, para algum absurdo futuro?

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia. ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado originalmente nesta quinta-feira, 26, na TB