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CRÔNICA/ COISA DE CINEMA

 

 

                                                                    Um Bacurau com sabor de mucunã

                                                                    Janio Ferreira Soares

Não sou nenhum crítico de cinema, apesar de já ter escrito centenas de resumos de filmes, que serviam como trailers datilografados para animar os sócios do Vídeo Clube da Esquina (uma locadora que tive nos anos 80) a levarem pra casa desde os primeiros rambos e braddocks, até uns inéditos de Woody Allen e que tais, remetidos diretamente da pauliceia pra esse sertão das migrantes ribaçãs que ora chegam para perpetuar a espécie.

E toda vez que o carteiro chegava e meu nome gritava com os filmes nas mãos, pegava umas garrafas de vinho e partia para assisti-los exatamente no lugar em que me encontro agora, onde uma Mitsubishi de 26 polegadas me esperava sem nenhum cabo a conectá-la com o mundo, fato que traduz à perfeição uma época em que as urgências da vida trafegavam no ritmo de um filme de Bergman.

Dito isso, me atreverei aqui a falar sobre Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, logicamente de uma forma bem diferente de quando, por exemplo, tinha que escrever um resumo de uma fita que chegava só com um adesivo escrito The Purple Rose of Cairo, ocasião em que tinha a dura missão de fazer com que os apaixonados por Chuck Norris e Stallone, também provassem da doçura de Mia Farrow.

Pois bem, estivesse este locutor n’algum lugar do passado, abriria um Almaden Riesling e, depois de brindar a Christopher Reeve, escreveria na velha Olivetti Praxis 201 sobre a expectativa diante de Bacurau, tanto pelo histórico de Kleber Mendonça e seus ótimos O Som ao Redor e Aquarius, como, é claro, pela minha proximidade com a ave que o nomeia, que todo finalzinho de tarde fica aqui ao lado piando e dando seus pulinhos, como se participando de uma prova de soluço e canto sincronizados.

Mas aí, enquanto umas 10 pessoas que pareciam chegadas de Woodstock batiam palmas ao final da sessão, confesso que fiquei com cara de “requeijão fresco”, cujo episódio, acontecido há quase um século, até hoje é motivo de risos nos almoços em família, sempre que a beleza de um prato não corresponde à expectativa de seu sabor. Explico.

Conta minha tia Aldinha, na lucidez de seus quase 93 anos, que num jantar na casa de seu tio Artur, tinha um padre que mais comia do que rezava e que, salivando no prato, disse: “esse requeijão fresco deve tá uma delícia!”. E aí, depois de uma bela colherada, ficou uns bons minutos remoendo na boca, ô decepção!, um insosso bolo de mucunã, que seu guloso olhar raciocinou como o delicioso queijo. Depois disso, sempre que alguém mastiga uma comida sem prazer, ela diz: “ôxe, tá comendo requeijão fresco, é?”.

Em tempo: ao contrário do queijo fake do padre, Gal cantando Objeto Não Identificado, no começo do filme, tem, sim, gosto de beijo de filho numa manhã de setembro.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco

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