Por Camila Pimentel, TV Bahia

Vereadores de Salvador aprovam projeto de lei que acaba com o arrastão.

Vereadores de Salvador aprovam projeto de lei que acaba com o arrastão.

O prefeito ACM Neto (DEM) disse nesta sexta-feira (13) que não acredita que o arrastão da quarta-feira de cinzas do carnaval ofende as tradições religiosas da capital baiana. Na última quarta-feira (11), um projeto de lei que proíbe o tradicional evento foi aprovado pela Câmara de Vereadores.ntenda projeto de lei que proíbe arrastão na quarta de cinzas no carnaval de Salvador

O projeto foi votado na quarta-feira (11) e recebeu 38 votos a favor, 2 contra e 1 abstenção. O motivo seria a incompatibilidade com o início da quaresma, período que antecede a páscoa cristã.

“Nós vamos aguardar o projeto chegar na prefeitura e vamos examiná-lo. Tanto do ponto de vista jurídico como também no mérito para avaliar uma sanção ou veto. O que eu posso assegurar desde então é que, na nossa análise, não vai pesar o aspecto religioso. Eu sou católico, praticante, mas acho que o arrastão da quarta-feira de cinzas não agride e não ofende todo o respeito à tradição religiosa da cidade do Salvador”, disse ACM Neto.

O Projeto de Lei (PL) 45/16 prevê uma multa de R$ 500 mil em caso de descumprimento da determinação por artistas, grupos musicais ou quem organizar o arrastão. Segundo o texto, o dinheiro arrecadado servirá para conservar, recuperar e melhorar prédios religiosos do município.

“Esse argumento não cola. Não será levado em consideração. Sou católico praticante. Eu tenho uma relação muito próxima à Igreja Católica. Mas o arrastão da quarta-feira de cinzas, que já é uma tradição da cidade, ele nunca feriu aos princípios religiosos. Ele nunca atrapalhou o calendário de Salvador”, explicou o prefeito.

 

ACM Neto ainda vai analisar projeto de lei — Foto: Egi Santana / G1 BA ACM Neto ainda vai analisar projeto de lei — Foto: Egi Santana / G1 BA

ACM Neto ainda vai analisar projeto de lei — Foto: Egi Santana / G1 BA

O prefeito ainda questionou a falta de diálogo com a sociedade e amplo debate sobre o projeto.

“Eu fiquei surpreso com a votação na Câmara Municipal. Eu acho que ela podia ter sido discutida, podia ter sido debatida, não houve um debate amplo com a sociedade, não houve um questionamento às pessoas envolvidas na organização do carnaval né? A Câmara simplesmente votou o projeto, eu diria que de surpresa, né. O que, é claro, gera toda essa repercussão agora”, comenta.

Segundo ACM Neto, a análise do projeto de lei será feita levando em consideração as questões econômicas do carnaval de Salvador.

“A gente transformou o carnaval num produto importante pra cidade de Salvador. O carnaval de Salvador não é apenas a festa pro baiano. É um produto econômico, que gera emprego, né, que movimenta toda a economia da nossa cidade. E ajuda a projetar Salvador no Brasil e no mundo. E é sob essa perspectiva também que nós vamos analisar o projeto de lei que foi aprovado pela Câmara Municipal”, contou o prefeito.

O texto está em processo de redação final e deverá ser remetido para a Prefeitura na próxima semana. Após o recebimento, o prefeito ACM Neto terá 15 dias para decidir se veta ou sanciona a lei. Se for sancionada, a determinação já deve valer para o carnaval de 2020.

Ao ser questionado sobre se vai ou não sancionar o projeto de lei, o prefeito informou que vai usar o prazo disponível para se posicionar.

“Bom, vamos aguardar. Eu tenho um prazo pra examinar o projeto. Como todo projeto que sai da Câmara, primeiro há uma análise jurídica para depois eu me posicionar no mérito. Agora, faremos isso no prazo e eu espero poder apresentar essa resposta o quanto antes”.

Em nota, a Arquidiocese de Salvador disse que defende o direito de seus membros de defender valores que consideram importantes, em qualquer ambiente ou setor em que atuam. A instituição informou que neste caso, preservar o início da Quaresma é um desses direitos.

De acordo com a Arquidiocese, por mais que o carnaval seja uma festa importante na vida de uma pessoas ou de um grupo, ela não pode durar “sempre ou indefinidamente”, pois há outros valores que devem ser preservados.

Arrastão

 

Festa reúne milhares de pessoas na orla de Salvador. Foto tirada em 2019 — Foto: Max Haack Festa reúne milhares de pessoas na orla de Salvador. Foto tirada em 2019 — Foto: Max Haack

Festa reúne milhares de pessoas na orla de Salvador. Foto tirada em 2019 — Foto: Max Haack

O tradicional arrastão da quarta-feira de cinzas do carnaval foi criado em 1995 pelo cantor Carlinhos Brown. O evento surgiu para possibilitar que as pessoas que trabalhassem no carnaval pudessem curtir após a festa. No entanto, ao longo dos 24 anos de existência, o evento agregou os foliões, que esperam para aproveitar até o final.

O arrastão acontece no circuito Barra-Ondina, na orla de Salvador, o principal circuito da festa. Além de Brown, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Claudia Leitte, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Márcio Victor com a banda Psirico e Alinne Rosa já participaram da folia. Porém, nos últimos anos, os artistas mais tradicionais se afastaram.

Nas últimas duas edições, a festa foi comandada pelo cantor Léo Santana, que, junto com Danniel Vieira, agitou milhares de pessoas.

Além de Daniela Mercury, o G1 procurou alguns dos artistas citados no texto para saber o posicionamento sobre o projeto, mas alguns preferiram não se posicionar e outros ficaram de dar retorno, mas não responderam até a publicação desta reportagem.

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