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Postado em 05-09-2019
Arquivado em (Artigos) por vitor em 05-09-2019 00:20

No Caderno B/Jornal do Brasil

 ARTIGO

DOS “QUATRO CRIOULOS” SÓ RESTA UM

   GILBERTO MENEZES CÔRTES

Macaque in the trees
Elton Medeiros no JB, em foto de Alberto Jacob: 2 de dezembro de 1964 (Foto: Reprodução)

No começo dos anos 60, quando parecia que o Samba agonizava, em função do avanço da Bossa Nova, que João Gilberto sempre disse ser uma batida de Samba, Nara Leão, que era da turma da Bossa Nova, mas sentou praça no Samba, imortalizou uma música famosa de Elton Medeiros e Joacyr Santana: “Os Quatro Crioulos”.

“São quatro crioulos inteligentes

Rapazes muito decentes

Fazendo inveja a muita gente

Muito bem empregados

Numa secretaria

Educados e diplomados em filosofia

E quando chega fevereiro

Ver os crioulos no terreiro

É sensacional

No dia de carnaval

São figuras de destaque

No desfile principal (…)”.

E os quatro crioulos eram Elton Medeiros, carioca da Glória, fundador da Tupi de Braz e Pina e que integrou a ala dos compositores da escola de Samba Aprendizes de Lucas, Anescar do Salgueiro (Anescar Pereira Filho), Jair do Cavaquinho (Jair de Araújo Costa, mestre do cavaquinho da Portela) e Nelson Sargento (Nelson Mattos).

Com a morte nesta quarta-feira, 4 de setembro, do grande sambista e estudioso da ancestralidade africana de boa parte do povo brasileiro, que veio para o Brasil Colônia de várias nações da África para atuarem como escravos nas lavouras de açúcar, café, fumo, cacau e na mineração de ouro, dos quatro crioulos resta apenas Nelson Sargento, aos 95 anos.

Elton Medeiros e seu parceiro de “Os Quatro Crioulos” se juntaram aos maiores bambas do samba do século 20. Joacyr foi parceiro do grande Silas de Oliveira, do Império Serrano. E a dupla Elton/Joacyr criou ainda “Coração de Ouro”, “Chega pra Lá” e “Chove e não Molha”, entre outros.

Essa elite do Samba criou a “resistência” cultural da época, que funcionou de 1963 a 1965 num sobrado na Rua da Carioca 53. Essa resistência, que reunia sambistas e intelectuais e gente do teatro da época, deu origem ao histórico show Opinião, que estreou em dezembro de 1964, no Teatro Opinião, inicialmente estrelado por Nara Leão, João do Vale e Zé Keti.

Num dos shows do Zicartola foi revelado mais um ícone do samba e da Música Popular Brasileira: Paulinho da Viola (o vascaíno e portelense Paulo Cesar Batista de Faria, filho do grande violonista Cesar Faria), que se destacou pelo violão e a viola na MPB e por sua voz de elegância inconfundível. Paulinho gravou também “Os Quatro Crioulos” e chegou a repetir o grupo “Cinco Crioulos”, cujo quinteto era completado por Mauro Duarte (de Oliveira), autor, junto com Paulo Cesar Pinheiro, do extraordinário “Canto das Três Raças” imortalizado por Clara Nunes.

Elton Medeiros era, sem dúvida, o mais estudioso e intelectual do grupo. Compartilhou obras primas com Cartola, como “O Sol Nascerá”, um canto de esperança para épocas de tristeza e escuridão, Mauro Duarte, Hermínio Belo de Carvalho, e Paulinho da Viola, entre outros. Um dos traços mais importantes da geração que irmanou os quatro e os cinco crioulos foi a harmonia e a defesa do samba, sem qualquer restrição quanto à Escola de Samba do coração de cada um. O Samba pulsava por todos.

Nelson Sargento e Paulinho da Viola mais do que levar adiante o legado do Elton Medeiros, devem provar que o “Samba agoniza mas não morre”, como bradou o grande Nelson Mattos.

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