DO EL PAÍS

Opinião

Volta à barbárie

Mario Vargas Llosa

FERNANDO VICENTE

O segundo homem forte da Venezuela, Diosdado Cabello, enfurecido porque, devido à vertiginosa inflação que açoita sua pátria, o bolívar desapareceu de circulação e os venezuelanos só compram e vendem em dólares, pediu a seus compatriotas que recorram ao “escambo” para desterrar do país de uma vez por todas a moeda imperialista.

É certeza que os desventurados venezuelanos não lhe farão o menor caso, porque a dolarização do comércio não é um ato gratuito nem uma livre escolha, como acreditava o dirigente chavista, e sim a única maneira pela qual os venezuelanos podem saber o valor real das coisas em um país onde a moeda nacional se desvaloriza a cada instante pela pavorosa inflação —a mais alta do mundo— à qual a Venezuela foi levada por seus irresponsáveis dirigentes, multiplicando o gasto público e imprimindo moeda sem respaldo. A alusão de Cabello ao escambo é uma diáfana indicação desse retorno à barbárie que a Venezuela vive desde que, em um ato de cegueira coletiva, o povo venezuelano levou o comandante Chávez ao poder.

O escambo é a forma mais primitiva do comércio, aqueles intercâmbios que nossos remotos ancestrais realizavam e que alguns pensadores, como Hayek, consideram o primeiro passo dados pelos homens das cavernas em direção à civilização. Certamente, comercializar é muito mais civilizado que matar-se entre si a pauladas, como faziam as tribos até então, mas suspeito que o ato decisivo para a desanimalização do ser humano tenha ocorrido antes do comércio, quando nossos antecessores se reuniam na caverna primitiva, ao redor de uma fogueira, para contar histórias. Essas fantasias atenuavam o espanto em que viviam, temerosos da fera, do relâmpago e dos piores predadores, as outras tribos. As ficções lhes davam a ilusão e o apetite de uma vida melhor que aquela que viviam, e dali nasceu talvez o primeiro impulso para o progresso que, séculos mais tarde, nos levaria às estrelas.

Neste longo trânsito, o comércio desempenhou um papel principal, e boa parte do progresso humano se deve a ele. Mas é um grande erro acreditar que sair da barbárie e chegar à civilização é um processo fatídico e inevitável. A melhor demonstração de que os povos podem, também, retroceder da civilização à barbárie é o que ocorre justamente na Venezuela. É, potencialmente, um dos países mais ricos do mundo, e quando eu era criança milhões de pessoas foram para lá procurar trabalho, fazer negócios e em busca de oportunidades. Era, também, um país que parecia ter deixado para trás as ditaduras militares, a grande peste da América Latina de então. É verdade que a democracia venezuelana era imperfeita (todas são), mas, apesar disso, o país prosperava num ritmo sustentado. A demagogia, o populismo e o socialismo, parentes muito próximos, fizeram-na retroceder a uma forma de barbárie que não tem antecedentes na história da América Latina e talvez do mundo. O que o “socialismo do século XXI” fez com a Venezuela é um dos piores cataclismos da história. E não me refiro só aos mais de quatro milhões de venezuelanos que fugiram do país para não morrer de fome; também aos roubos abundantes com os quais a suposta revolução enriqueceu um punhado de militares e dirigentes chavistas cujas gigantescas fortunas fugiram e se refugiam agora naqueles países capitalistas contra os quais clamam diariamente Maduro, Cabello e companhia.

Venezuela é, em potencial, um dos países mais ricos do mundo, milhões de pessoas iam lá a buscar trabalho

As últimas notícias publicadas na Europa sobre a Venezuela mostram que a barbarização do país adota um ritmo frenético. As organizações de direitos humanos dizem que há 501 presos políticos reconhecidos pelo regime, e, apesar disso, isolados e submetidos a tortura sistemáticas. A repressão cresce com a impopularidade do regime. Os corpos de repressão se multiplicam, e o último a aparecer agora opera nos bairros marginais, antigas cidadelas do chavismo, mas transformados, devido à falta de trabalho e à queda brutal dos níveis de vida, em seus piores inimigos. As surras e assassinatos a rodo são incontáveis e querem sobretudo, mediante o terror, fortalecer o regime. Na verdade, conseguem aumentar o descontentamento e o ódio contra o Governo. Mas não importa. O modelo da Venezuela é Cuba: um país sonâmbulo e petrificado, resignado à sua sorte, que oferece praias e sol aos turistas, e que ficou fora da história.

Infelizmente, não só a Venezuela retorna à barbárie. A Argentina pode imitá-la se os argentinos repetirem a loucura furiosa destas eleições primárias, em que repudiaram Macri e deram 15 pontos de vantagem à dupla Fernández/Kirchner. A explicação deste desvario? A crise econômica que o Governo de Macri não conseguiu resolver e que duplicou a inflação que assolava a Argentina durante o mandato anterior. O que falhou? Penso que o chamado ”gradualismo”, o empenho da equipe de Macri em não exigir mais sacrifícios de um povo extenuado pelos desmandos dos Kirchner. Mas não deu certo; mais do que isso, agora os sofridos argentinos responsabilizam o atual Governo —provavelmente o mais competente e honrado que o país teve em muito tempo— das consequências do populismo frenético que arruinou o único país latino-americano que tinha conseguido deixar para trás o subdesenvolvimento e que, graças a Perón e ao peronismo, retornou a ele com perseverante entusiasmo.

A barbárie se assenhora também da Nicarágua, onde o comandante Ortega e sua esposa, depois de terem massacrado uma corajosa oposição popular, voltou a reprimir e assassinar opositores graças a umas forças armadas “sandinistas” que já se tornaram idênticas àquelas que permitiram a Somoza roubar e dizimar esse desafortunado país. Evo Morales, na Bolívia, dispõe-se a ser reeleito pela quarta vez como presidente da República. Fez uma consulta para ver se o povo boliviano queria que ele fosse novamente candidato; a resposta foi um não taxativo. Mas não lhe importa. Declarou que o direito a ser candidato é democrático e se dispõe a se eternizar no poder graças a eleições manufaturadas à maneira venezuelana.

E o que dizer do México? Escolheu esmagadoramente López Obrador, em eleições legítimas, e no país prosseguem os assassinatos de jornalistas e mulheres a um ritmo aterrador. O populismo começa a carcomer uma economia que, apesar da corrupção do Governo anterior, parecia bem orientada.

É verdade que há países como o Chile que, diferentemente dos já mencionados, progridem a passos de gigante, e outros, como a Colômbia, onde a democracia funciona e parece fazer avanços, apesar de todas as deficiências do chamado “processo de paz”. O Brasil é um caso à parte. A eleição de Bolsonaro foi recebida no mundo inteiro com espanto, por suas saídas de tom demagógicas e suas exortações militaristas. A explicação desse triunfo foi a grande corrupção dos Governos de Lula e Dilma Rousseff, que indignou o povo brasileiro e o levou a votar numa tendência contrária, não uma claudicação democrática. Certamente, seria terrível para a América Latina que também o gigante brasileiro começasse o retorno à barbárie. Mas não ocorreu ainda, e muito dependerá do que o mundo inteiro, e sobretudo a América Latina democrática, faça para impedi-lo.

“Todas as Nossas Senhoras”, Roberto Carlos: Que todas as Nossas Senhoras da singela e amorosa canção do Rei – a começar por aquela que empresta o nome mais que feliz e apropriado à  aniversariante desta data, cunhada querida, admirada e amiga leal e generosa de sempre e de todas as horas – se voltem para abençoar Graça Tonhá neste 3 de setembro de celebrar o seu nascimento. Que abram os caminhos da felicidade mais completa para ela e os seus (que são também os nosso), ampliem seus horizontes  de viagens e andar pelo mundo (perto e longe), abram caminhos de plenitude  e zelem por sua saúde, hoje e sempre,  como todos nós que a amamos desejamos e ela é merecedora. Viva! 

Parabéns, bom dia e feliz aniversário, Graça.

(Vitor Hugo e Margarida)   

Números alimentam xadrez da corrida precoce para 2020, que tem a volta de Huck ao debate

O que se anunciava nos últimos meses tomou forma explícita no fim de semana. Expoentes da centro-direita brasileira selaram seu divórcio de Jair Bolsonaro e recolocaram na praça o projeto de se reaglutinar em torno do apresentador Luciano Huck, num precoce movimento rumo a 2022. As declarações do apresentador ao Estado de S. Paulo ao lado da entrevista a O Globo do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga se complementam numa campanha para retomar um difícil lugar do espectro político, mais próximo do ponto médio. Num país que dizimou o centro nas últimas eleições e com Bolsonaro firmemente disposto a segurar seu bastião de fiéis por meio da radicalização, Huck surge como esperança de ser um puxador de voto para as ideias liberais na economia sem ser conservador nos costumes.

A fotografia atual das pesquisas vale pouco para prever algo tão adiante como as próximas presidenciais, mas ajudam a entender as atuais articulações. Os números da consultoria Atlas Político mostram, na mesma linha do Datafolha, como avança a rejeição de Bolsonaro —ultrapassou 50% os que dizem que ter uma imagem negativa do ocupante do Planalto. As cifras do Atlas, no entanto, mostram que não foi só o presidente que viu minguar a simpatia do eleitorado. As imagens de todos os políticos avaliados pioraram, com exceção nada desprezível do ministro da Justiça, Sergio Moro, que se manteve na liderança do ranking de imagem, com mais de 50% opinando positivamente sobre ele.

Chama atenção, por exemplo, a performance ruim do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), outro nome da direita que tenta se descolar de Bolsonaro após a união superexplorada na campanha. O tucano outsider viu sua imagem negativa disparar no último mês. Entre julho e agosto, a visão negativa do governador passou de 42,5% para 58,3%, segundo a pesquisa. O Atlas Político ouviu 2.000 pessoas recrutadas aleatoriamente na Internet, com amostra rebalanceada por meio de um algoritmo para ter representatividade nacional. A margem de erro é de 2 pontos percentuais.

Rodrigo Maia, herói do mercado financeiro por ter liderado a aprovação da reforma da Previdência, também viu sua imagem negativa avançar, de 60,7% para 66%, também em um mês. Maia é um dos símbolos em Brasília da ideia de que é preciso preencher um espaço que fuja do radicalismo e de “propostas exageradas”, como o retrocesso dos direitos da mulher, ou a abertura escancarada para a venda de armas. A rejeição ao extremismo adotado por Jair Bolsonaro vem tanto de nomes como o presidente da Câmara como de integrantes do próprio partido do presidente. “Estamos trabalhando na construção de uma candidatura de centro direita”, disse um deputado do PSL, pouco antes de se encontrar com Maia, que também enxerga nessa via o caminho natural para encontrar um candidato que venha a presidir o Brasil em 2022.

O presidente da Câmara, que costuma dizer sem delongas que ele próprio não seria um alavancador de votos, é um dos poucos que falam abertamente que Bolsonaro é de extrema direita, um rótulo que o mandatário refuta. Na semana passada, quando se viu numa disputa verbal com o presidente francês, Emmanuel Macron, por causa das queimadas na Amazônia, Bolsonaro se autointitulou de centro-direita. “Essa inverdade do Macron ganhou força porque ele é de esquerda, e eu sou de centro-direita”, disse Bolsonaro. Dias antes o Palácio do Eliseu afirmara que Bolsonaro mentiu para Macron durante a cúpula do G-20, em Osaka, quando disse que se comprometia com compromissos ambientais para fechar o acordo Mercosul- União Europeia.

Nenhum avanço da oposição tampouco

“O centro está abandonando o Bolsonaro, mas a base bolsonarista é ainda bastante coesa. A centro-direita sofre com a polarização política igual à centro-esquerda”, analisa Andrei Roman, diretor do Atlas Político. “Outro aspecto surpreendente da queda de popularidade do presidente é que ela não resulta tampouco no avanço de nenhuma figura da oposição à esquerda. Os níveis de aprovação e desaprovação de Lula, Haddad e Ciro estão estagnados”, segue Roman.

É neste cenário que a resiliência da base bolsonarista chama atenção ao passo que a busca de um nome como Huck cobra lógica na ótica dos expoentes da centro-direita bem vistos pelo empresariado e pelo mercado financeiro, como Armínio Fraga e o ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung. Fraga enviou recado ao empresariado e aos investidores: Bolsonaro já danifica a democracia e, portanto, é uma ameaça para os negócios, disse ao Globo. Aos solavancos da retórica do presidente, como na crise da Amazônia, não há blindagem de projeto liberal que resista, enunciou. Ao mesmo tempo, na contramão dos movimentos de polarização do eleitorado que não são vistos apenas no Brasil, o apresentador da TV Globo buscou um posicionamento clássico contra os rótulos ideológicos: “O povo está cada vez com mais dificuldade em rotular as posturas e pensamentos entre direita, esquerda ou centro”, disse ao Estado. É preciso, pregou, “chutar com as duas pernas”.

“Em contextos de polarização política muito forte, os candidatos de centro tendem a ser dizimados — veja a Marina Silva nas últimas duas eleições, por exemplo—, a não ser que os polos ideológicos estejam tão desgastados que possa surgir uma nova alternativa centrista, como aconteceu na França com o Macron, um candidato carismático que conseguiu fazer uma síntese de uma pauta econômica liberal com valores progressistas”, diz Roman. “Huck é provavelmente um candidato mais frágil do que o Macron era e as condições estruturais do país são muito diferentes”, segue o diretor do Atlas.

Uma das perguntas também é quanto tempo Huck, agora tão explicitamente no jogo político, resistirá à frente de uma vitrine imbatível como o seu Caldeirão do Huck. Às vésperas da campanha de 2018, circulou que a Globo fez o apresentador saber que um salto ao mundo político seria um ponto de não retorno. Qualquer que seja o desfecho, já estará feito o trabalho de imagem de décadas, onde ele combina a aparição das celebridades do momento com quadros sociais/assistenciais pelo país. Uma de suas bandeira é nada menos do que a educação pública.

Seja como for, no momento Bolsonaro ainda exibe uma base firme e fiel que dará trabalho para um futuro competidor. Um observador atento ao jogo político do Brasil lembra que a construção de uma candidatura leva tempo – e por ora o nome de Huck parece forte por contar com uma elite articulada e recursos para se expor – e que, por isso, é muito cedo para fazer prognósticos seguros. “Há muita água para passar por baixo da ponte e 2020 é primeiro teste. Mas nada é decisivo, como mostrou a eleição de 2016, quando Geraldo Alckmin saiu como o grande vitorioso por ter apostado em João Doria para a Prefeitura de São Paulo, que ganhou em primeiro turno”, diz. “Dois anos depois, Alckmin não era ninguém”, pondera ele, lembrando os ínfimos 5% que o tucano levou na corrida presidencial vencida por Bolsonaro.

O Planalto tampouco assiste aos movimentos de braços cruzados. Bolsonaro, que se engajou num jogo de desgaste com Sergio Moro, já havia partido para as críticas a Doria e até mesmo a Huck, lançando-se à reeleição sem maiores disfarces, numa aceleração explícita do calendário eleitoral. Em 2018, o capitão reformado do Exército se impôs ao sistema partidário tradicional, concorrendo a bordo do minúsculo PSL —a mesma elite partidária que expeliu o ultradireitista, aliás, também não acolheu Huck, preferindo Alckmin. Agora Bolsonaro não só tem a máquina da presidência como seu PSL é de dono de um montante relevante do fundo partidário rumo às municipais. Poderá um Governo voltado a uma minoria radicalizada se perpetuar? Depois de rever muitos de seus dogmas no ano passado, a ciência política brasileira também aguarda para escrever a quente esse novíssimo capítulo.

DO CADERNO B/ JORNAL DO BRASIL

Julie Andrews, a estrela dos filmes de sucesso “Mary Poppins” e “A Noviça Rebelde”, disse nesta segunda-feira que foi “abençoada” por ter tido uma longa e ilustre carreira no cinema, ao receber um prêmio pelo conjunto da obra no Festival de Cinema de Veneza.
Macaque in the trees
Julie Andrews recebe Leão de Ouro (Foto: Reuters/Piroschka van de Wouw)

A atriz de 83 anos, que ganhou um Oscar em 1965 por interpretar a babá rígida, mas bondosa, Mary Poppins, levantou e beijou a estatueta do Leão de Ouro, diante de aplausos do público.

“Eu me considero muito abençoada por ter passado grande parte da minha vida profissional na arte do cinema”, disse. “Ainda me surpreendo com o fato de ter sido a menina de sorte que foi convidada a desempenhar esses papéis maravilhosos”.

Andrews começou sua carreira como atriz infantil nos teatros do West End de Londres, antes de ir para a Broadway.

“Mary Poppins” a transformou em uma estrela internacional, e a atriz também estrelou filmes como “Victor ou Vitória?” e “O Diário da Princesa”. Mais recentemente, ela emprestou sua voz ao sucesso de bilheteria de 2018 “Aquaman”.(Helena Williams/Reuters

set
03
Posted on 03-09-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 03-09-2019

No velório de Alberto Goldman, Fernando Henrique Cardoso afirmou que o ex-governador deixa um legado de seriedade e correição, características que “fazem falta na política”, informa o Valor.

Geraldo Alckmin elogiou a postura de Goldman na política: “Uma luz para orientar os novos tempos.”

set
03
Posted on 03-09-2019
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Iotti, no jornal

 

GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

No começo do governo Lula o Brasil era autossuficiente na produção de álcool de cana-de-açúcar e queria conquistar o mercado internacional. O Protocolo de Kyoto, de 1998, exigia que os países signatários reduzissem os níveis de emissão de gás carbônico (CO2) na atmosfera em níveis progressivos até 2020. Uma das maiores fontes de emissão de CO2 são os motores de automóveis. Misturar álcool anidro (etanol) à gasolina (índice que no Brasil chega atualmente a 27%) era uma das saídas para cumprimento do acordo.

Com base nisso, Lula andou querendo forçar o presidente George W. Bush a abrir o mercado americano à exportação do álcool brasileiro. Foi à ONU jactar-se da produção brasileira de biocombustíveis (havia uma campanha para a produção de óleo de mamona no Nordeste e no cerrado, que foi um dos motes de sua reeleição), além de outras lavouras exóticas, como o pinhão branco e a palma (da qual se extrai o dendê), mote para o ministério do Desenvolvimento Agrário abrir as burras para projetos de agricultura familiar..

O fiasco do biodiesel

A Petrobras chegou a montar usinas de beneficiamento da mamona em Quixadá (CE), Candeias (BA) e Montes Claros (MG), além de participar como acionista (50%) de duas usinas: em Marialva (PR) e Passo Fundo (RS). Mas o programa da mamona (para o qual se inauguraram até agrovilas no projeto da fracassada Brasil Ecodiesel) foi um fiasco completo.

A Embrapa ainda não havia desenvolvido espécies de mamona com alta produtividade e o óleo tinha rápida oxidação. Tinha de ser misturado ao diesel em menos de 24 horas. A mamona tornou-se ótimo aditivo para ser adicionado aos combustíveis para motores de navios (bunker), mas a Petrobras desfez-se ou fechou todas as unidades e parcerias. A produção de biodiesel há muito tempo depende do óleo de soja (mais de 80%), da gordura animal (sebo de boi, suínos e frangos), que responde por mais de 12%, e do óleo de caroço de algodão e palma.

A derrocada do álcool

Já o caso do álcool foi mais complexo. O mercado americano, que seria um filão (se fosse aberto), foi tomado pela produção doméstica de álcool de milho, que se tornou muito produtiva. No Brasil, o populismo de segurar os preços de combustíveis (diesel, GLP e gasolina, que é concorrente direto do etanol), que foi outro fator importante na reeleição de Lula, paralisou vários projetos (um deles, o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do presidente).

Com a descoberta do pré-sal, a política de segurar os preços dos combustíveis (que trouxe prejuízos bilionários à Petrobras) estagnou a produção de álcool, ao engavetar projetos que nem saíram do papel e deixar parte do setor arruinado e altamente endividado. O resultado é que o Brasil está há dois anos importando etanol dos EUA.

Foi focando nas metas do Protocolo de Kyoto que a Petrobras fez os investimentos nas refinarias de Pasadena (EUA) e Okinawa (Japão) em 2006 e 2007, quando Dilma Roussef presidia o Conselho de Administração da estatal e José Sérgio Gabrielli era o presidente. A primeira custou mais de US$ 1 bilhão (após uma participação inicial de 50%, devido a problemas judiciais com o sócio, a belga Astra Oil) e a japonesa, US$ 350 milhões.

Ambas tinham capacidade média de refino de 100 mil barris/dia de petróleo. Mas a do Japão só podia produzir 50 mil, por restrições do governo local. Elas iriam usar a capacidade de tancagem para estocar álcool brasileiro a ser misturado à gasolina. Nada deu certo. Faltou escala à produção brasileira e o país perdeu a condição de exportador de excedentes, tornando-se importador. A Petrobras vendeu as refinarias com prejuízo somado de quase US$ 1 bilhão.

Olho grande na China

O velho ditado de que não se dá bem quem tem olho grande na China cabe mais uma vez na intenção brasileira de exportar álcool para o maior importador de produtos brasileiros que aderiu ao Protocolo de Kyoto e pretende cumprir a meta de misturar 10% de etanol à gasolina. Estudos do governo americano acham a meta inviável. Seria difícil a implantação em todo o território chinês.

Mais plausível aplicar nas cidades mais poluídas e em percentuais de 3% a 5%. Já seria um mercado formidável. A questão é que a política realista dos preços dos combustíveis da Petrobras, iniciada na gestão de Pedro Parente, no governo Temer, ainda não revigorou o mercado brasileiro de açúcar e álcool. Os investimentos que ficaram pelo caminho com o populismo da era PT estão fazendo falta. E a oportunidade da China pode ser desperdiçada em boa parte. Vai demorar mais tempo. Assim como atrasou a produção de petróleo do pré-sal.

O ano do porco.

Desculpem os palmeirenses, mas não é gozação de palmeirense. A questão é que a tragédia da peste suína africana, que dizimou boa parte do rebanho suíno, cuja carne é a principal fonte de proteína animal consumida pelos chineses, trouxe oportunidades para o Brasil, no aumento do suprimento de substitutivos, como a carne bovina, a carne de frango e, é claro, a própria carne de porco.

De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as exportações de carne suína no 1º semestre tiveram crescimento de 23,4% na receita cambial sobre o mesmo período de 2018. Principal destino das exportações, a China comprou o total de 91,2 mil toneladas.

Como diz o velho ditado chinês, a crise é sinônimo de oportunidade.

O lobby da AGU para a vaga no STF

Quem observa a profusão de releases que a Advocacia Geral da União vem distribuindo há pouco mais de um mês não tem dúvidas: o advogado André Luiz de Almeida Mendinça, que comanda a AGU, é mesmo candidato à primeira vaga que for aberta para o Supremo Tribunal Federal .

Quando o se iniciou o governo Bolsonaro, dava-se como certa que a primeira vaga seria do ex-juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, nomeado ministro da Justiça e da Segurança Pública. Mas os atritos envolvendo as investigações de subordinados ao ministério de Moro sobre a movimentação financeira do gabinete do atual senador Flavio Bolsonaro, quando era deputado estadual no RJ, desgastaram as relações entre Moro e o presidente Jair Bolsonaro.

O presidente, aliás, já falou bem várias vezes de André Luiz, mencionando em cultos evangélicos a possibilidade de “nomear um evangélico para o Supremo”. Pois a AGU não vem perdendo tempo. Diariamente, são dois a três releases louvando as ações da autarquia.

Nesta segunda-feira, 2 de setembro, o release diz que a “AGU conseguiu impedir a liquidação de uma sentença judicial e evitar que o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), controlado pela União, fosse obrigado a pagar indevidamente mais de R$ 1 bilhão à Fibrasa Indústria e Comércio”. Como dizia meu falecido pai, procurador público aposentado, quando lhe dizia ter tirado 8: “Não faz mais que obrigação”.

Mas a AGU, em outro release, lembra que os valores das ações de recuperação de recursos para a União executadas por seus procuradores (que advogam em nome da União) vêm crescendo exponencialmente desde 2017, após a criação do Laboratório de Recuperação de Ativos (Labra). Antes, a média de recuperação de recursos em lides judiciais oscilava entre R$ 100-200 milhões /ano. No ano passado cresceram para R$ 462 milhões. Este ano, de janeiro a julho, ultrapassaram os R$ 472 milhões.

Mais uma vez digo que meu pai tinha razão. É obrigação dos advogados da União (dos estados e dos municípios) defenderem o Erário.

Quando fazem corpo mole ou defendem mal, ou é prevaricação (crime) ou incompetência, diante do poderio das bancas dos contribuintes.

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