Basta de gols contra

Fernando Henrique Cardoso

Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto no dia 28 de agosto.
Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto no dia 28 de agosto.EVARISTO SA (AFP)

É difícil escrever mensalmente sem tocar em temas sensíveis que eu preferiria não abordar. É o caso agora. Foram tantos os gols contra praticados pelo Governo atual que não há modo de deixá-los de lado. Pior, passei três dias na Argentina na semana anterior e lá participei de um encontro promovido pelo jornal Clarín em que estavam presentes e em diálogo público Macri e Fernandez. Não pude fugir da imprensa local e da brasileira. Queriam saber, naturalmente, dos “temas quentes” sobre o Brasil. Como de hábito, não me furtei a responder, tomando o cuidado de lembrar que estava em país estrangeiro, embora irmão. A diplomacia a que me imponho por haver sido presidente obriga a não avançar com as velas pandas no exterior sobre temas nacionais de cá e de lá, sobretudo os que podem ser sensíveis às pessoas que lideram as duas nações.

Assim, com luvas de pelicas, de volta ao Brasil, vamos ao que interessa. É indiscutível que o Brasil, no exterior, marcha para ser a gata borralheira. Também com o desaguisado presidencial na questão do meio ambiente, nas supostas relações com as “milícias”, em casos de nepotismo, e por aí vai, é difícil contestar a avalanche de críticas e afirmações, nem sempre corretas, que desaguam nas mídias mais influentes do estrangeiro. Por que e para que isso?

Aparentemente, o presidente e seu círculo mais íntimo parecem não haver entendido que não estamos mais na Guerra Fria. Não há mais o confronto entre dois blocos ideológicos. Mesmo Trump, capitaneando uma relação comercial belicosa com a China e pensando em levantar muros na fronteira mexicana, não se pauta pela lógica bipolar de um mundo dividido entre esquerda e direita. Nem a China. E muito menos a Europa. Qual o sentido, pois, em fazer desaforos ao presidente da França e sua esposa, em ressuscitar um nacionalismo anacrônico parecido ao que aflorou (à época com maior razão) diante do projeto de um think tank americano, Hudson Institute, que nos anos 60 aventou a ideia estapafúrdia de transformar a Amazônia em um grande canal de navegação alternativo ao do Panamá?

A reação dos europeus ao aumento das queimadas na Amazônia responde a motivos distintos e não se deu de forma uniforme. Há uma preocupação genuína com questões que têm impactos globais (mudança climática e extinção da biodiversidade). Existem também razões menos universais, como a defesa de interesses protecionistas, e motivações circunstanciais, como o receio de derrotas em eleições locais a se realizar no próximo ano. Em lugar de reagir toscamente, negando dados empíricos e insultando cientistas e chefes de estado de outros países, deveríamos ter reagido prontamente para combater as queimadas e mostrar, na prática, o compromisso soberano do Brasil com a proteção do meio ambiente. Não há meio mais eficaz para desinflar a conjectura inaceitável sobre conferir um estatuto internacional à Amazônia.

Nessas horas precisamos de bom senso e racionalidade, virtudes difíceis em um país polarizado. Patriotismo não se mede por bravatas nacionalistas, sobretudo quando insultuosas. A proteção do bioma amazônico é, acima de tudo, do interesse do Brasil, um interesse coincidente com o dos demais países que compartilham esse bioma e também com o do planeta. Dadas as restrições fiscais, recursos do exterior são bem-vindos. Não nos falta capacidade para bem administrá-los, com transparência, e em parceria com a sociedade civil, que pode e deve ser aliada e não inimiga na preservação do meio ambiente e na realização de projetos de desenvolvimento.

Há queimadas que em parte são cíclicas, em parte são legais, mas em grande parte (é preciso avaliar o tamanho) são criminosas: derrubada ilegal de mata para queimá-la e transformar a floresta em pasto ou em áreas para grãos. Se nos faltasse terra, vá lá, caberia a discussão sobre o que fazer. Mas elas são abundantes e o agronegócio brasileiro, aquele que opera dentro da legalidade, não precisa depredar para ser competitivo. Ao contrário, só continuará a ser competitivo se não depredar, como prevê a Constituição e está estatuído nas leis.

Enquanto vozes lúcidas do agronegócio clamam por racionalidade, noGoverno há quem insista em distorcer os fatos. Como se fosse pouco negar a validade de dados científicos, busca-se transformar vítimas em algozes. Nessa linha, aponta-se a demarcação de terras indígenas como o grande obstáculo para o desenvolvimento da Amazônia.

É essa retórica de desinformação, insulto e incentivo a práticas ilegais, reiterada ao longo de oito meses, a principal responsável pela crise atual. De um lado, ela abriu a porteira para que os interessados no desmatamento ilegal se sentissem autorizados a tocar fogo no cerrado e na floresta. De outro, deu o pretexto para que a defesa de interesses protecionistas se revestisse com a capa de legitimidade da preocupação ambiental. A retórica oficial tem sido danosa aos interesses do Brasil. Pode colocar em risco, até mesmo, o acordo do Mercosul com a União Europeia.

De positivo nesse quadro, só há dois pontos a destacar: primeiro, a reação rápida e vigorosa de vários setores da sociedade brasileira; segundo, a prontidão das Forças Armadas em responder à situação de emergência provocada pelo descontrole das queimadas na região amazônica.

Com tanto horror perante os céus, como disse um poeta, devemos aguentar firmes (imprensa, Congresso, Judiciários, líderes empresariais e da sociedade civil) para não deixar que arroubos personalistas e interesses familiares comprometam o futuro do país.

Creio que foi Octávio Mangabeira quem disse: a democracia é como uma plantinha tenra, precisa ser regada todos os dias para crescer. Trata-se agora de preservá-la. Como mostram muitos livros recentes sobre a crise da democracia, a forma moderna de corrompê-la não passa por golpes militares, mas por atos governamentais que, quando não encontram reação à altura, pouco a pouco lhe vão arrancando as fibras.

O preço da liberdade é a eterna vigilância. É preciso nos manter atentos e fortes para que as instituições do Estado continuem a cumprir, com independência, as obrigações impostas pela Constituição

“C`est en Septembre”, Gilbert Becaud: rara e emocionante gravação (ao vivo) da extraordinária performance do imortal chansonier da França no “Becaud Concert”, no Olimpia de Paris, em 1990. Música e letra em vídeo especial e bem cuidado. Um presente do BP aos seus ouvintes e leitores no começo desta semana luminosa da chegada de setembro. Bravíssimo!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

Do Jornal do Brasil

 

Enquanto os EUA pressionam o governo Bolsonaro para barrar certos investimentos chineses no país, empresas de tecnologia da China, inclusive as banidas pelo governo americano, aumentam seus laços e suas vendas a governos do Nordeste do Brasil.

As empresas chinesas de tecnologia Huawei, ZTE, Dahua e Hikvision, todas sob algum tipo de embargo americano sob acusação de representarem ameaça à segurança nacional, estão negociando ou fornecendo serviços e produtos no Nordeste.

O intercâmbio entre a China e os nove estados nordestinos nunca foi tão intenso. Só neste ano, quatro governadores e dois vice-governadores da região estiveram no país asiático -e a peregrinação de secretários foi ainda maior. A China também mandou inúmeras comitivas para os estados.

O grupo Consórcio Nordeste, formado no início do ano por governos estaduais para promover parcerias na região, vai lançar em breve o programa Nordeste Conectado, uma PPP (parceria público-privada) para instalar milhares de quilômetros de fibra ótica e conectar os estados.

“A Huawei e a ZTE estudam as etapas de tele-educação, tele segurança e tele saúde, e estão muito interessadas no projeto Nordeste Conectado”, disse à Folha o governador do Piauí, Wellington Dias (PT). A ZTE investe no projeto Piauí Conectado, PPP para instalação de 5.000 quilômetros de rede de fibra óptica.

Os estados da região também querem se unir para comprar sistemas de monitoramento para segurança pública, aproveitando a experiência do país na área. Câmeras de companhias como Dahua Technology e Hikvision são usadas pelo governo chinês para monitorar cidadãos da minoria muçulmana uigure na província rebelde de Xinjian.

Segundo Lucas Kubaski, gerente da área de pré-vendas da Dahua, o Consórcio Nordeste está muito interessado nas tecnologias para segurança e câmeras que fazem reconhecimento facial.

As câmeras conseguem detectar a expressão -tristeza ou alegria, por exemplo-, além de tipo e cor de roupa usadas e a idade aparente.

Na China, segundo ele, as câmeras ficam posicionadas em entradas de metrô, aeroportos, rodoviárias e conseguem mapear quem entra e sai das cidades. “Serve tanto para segurança quanto para encontrar pessoas perdidas.”

A Dahua, que fabrica câmeras com capacidade de reconhecimento facial e que entrou em agosto na lista de empresas vetadas pelos EUA, já fornece equipamentos para os governos de Pernambuco e Bahia, além de participar de uma licitação do metrô de São Paulo.

A cidade, aliás, foi pioneira: recebeu mil câmeras em 2017.

Também no estado de São Paulo, cujo governador, João Dória, inaugurou um escritório comercial em Xangai neste mês, a Huawei anunciou o plano de abrir uma fábrica para montagem de celulares, com investimento de US$ 800 milhões.

Na Bahia, foram investidos mais de R$ 18 milhões no sistema de reconhecimento facial da chinesa Huawei. Segundo o governo, a tecnologia permite à polícia baiana comparar os rostos de pessoas que circulam nos locais onde as câmeras estão instaladas com os do banco de dados da Secretaria de Segurança Pública.

O Ceará estuda ampliar seu sistema Spia, de videomonitoramento, com parcerias com a Dahua. Em Pernambuco, foram compradas 1.380 câmeras da mesma empresa para segurança no metrô.

“As empresas chinesas de telecomunicações estão participando ativamente da cooperação de cidades inteligentes e seguras, governança eletrônica e comércio eletrônico no Nordeste”, disse à Folha a cônsul da China no Recife, Yan Yuqing.

“Estamos dispostos a contribuir para o desenvolvimento da tecnologia de informação no Brasil sob o Belt and Road Initiative [BRI ou, informalmente, Nova Rota da Seda]”, afirma ela, em referência ao maior projeto do governo chinês para ter acesso a mercados internacionais por meio de obras de infraestrutura.

Os EUA tentam convencer o presidente Bolsonaro a seguir países como Austrália, Nova Zelândia e Taiwan, que vetaram investimentos e produtos de empresas chinesas para contratos públicos, fornecedores do governo ou qualquer um que receba empréstimo do governo.

Em visita ao Brasil no início de agosto, o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, alertou, em entrevista ao jornal Valor Econômico, para o perigo de comprar tecnologias sensíveis como produtos para a rede 5G de certos países. Também afirmou que a China obriga suas empresas a cooperarem com serviços militares e de inteligência do Estado.

Em resposta, o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, afirmou que esses comentários visam a “lançar calúnias sobre produtos chineses, alegando riscos de segurança, e a atrapalhar a cooperação econômica e comercial normal entre a China e os demais países do mundo”.

Os EUA, com quem o Brasil vem estreitando laços diplomáticos, têm um apoio precioso dentro do bolsonarismo. Em janeiro, o escritor Olavo de Carvalho, guru ideológico dos Bolsonaros, criticou a ida de uma comitiva de parlamentares do PSL à China para conhecer o sistema de reconhecimento facial do país.

“Instalar esse sistema nos aeroportos brasileiros é entregar ao governo chinês as informações sobre todo mundo que mora no Brasil”, disse.

Um executivo de uma empresa chinesa afirma que, com a desconfiança do governo federal, a China aposta cada vez mais na relação com os estados.

A relação de Jair Bolsonaro com governadores da região, a maioria deles de oposição, é tensa. O presidente já os ofendeu, chamando-os de “governadores de Paraíba”, termo pejorativo para se referir a nordestinos, e chegou a ameaçar restringir recursos federais para os estados.

“Não vou negar nada para esses estados, mas se eles quiserem realmente que isso tudo seja atendido [verbas federais], eles vão ter que falar que estão trabalhando com o presidente Jair Bolsonaro. Caso contrário, eu não vou ter conversas com eles”, disse.

Em carta de resposta a Bolsonaro, os governadores nordestinos afirmaram ter recebido “com espanto e profunda indignação a declaração do presidente da República transmitindo orientações de retaliação a governos estaduais.”

Para governadores do Nordeste, os investimentos chineses são vistos como a salvação, em meio à penúria orçamentária da maioria dos estados e a economia anêmica no país.

“O único país que investe maciçamente é a China, que ainda oferece empréstimos do banco de desenvolvimento com juros subsidiados”, diz o vice-governador do Maranhão, Carlos Brandão (PRB), que foi seis vezes à China desde 2016.

“O Brasil está em recessão, e os estados brasileiros migraram para a China, já que no Brasil não conseguimos investimento. Aqui as empresas estão esperando a reforma tributária, da Previdência.”

Para Brandão, essa briga deve ter final semelhante à iniciativa de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Após forte reação negativa, foi engavetada.

“Vamos trabalhar com todos os países que aqui queiram investir, e a China é quem tem melhores condições; os interesses do povo brasileiro vão prevalecer, independentemente das ideologias”, diz Dias, governador do Piauí.

Para Camilo Santana (PT), governador do Ceará, a China, com a Huawei, oferece o que há de melhor em tecnologia. “É um equívoco do Brasil manter essa postura, precisamos é ampliar nossas relações com a China”, afirma.

Questionada sobre a possibilidade de a pressão americana prejudicar os negócios das empresas chinesas no Brasil, a cônsul Yan Yuqing afirma que “todos os estados do Nordeste criaram oportunidades para as empresas progredirem”.

“A China e o Brasil possuem amplos interesses em comum. Acreditamos que o governo brasileiro, juntamente ao chinês, poderá defender o sistema de comércio multilateral e as regras do comércio mundial.”

Para o advogado Walfrido Warde, presidente do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa , com esses investimentos, o governo chinês está demonstra que tem interesse duradouro no Brasil, e não quer apenas acesso a matérias primas.

“Cabe ao governo Bolsonaro saber explorar a guerra comercial entre EUA e China.”

– Confira lista de grandes investimentos e projetos chineses no Nordeste

Maranhão

• Construção do porto de águas profundas no Porto de São Luís pela China Communications Construction Company (CCCC)

• Negociações para compra de câmeras de reconhecimento facial

Piauí

• Investimento em energia eólica e solar pela CGN Energia

• Fornecimento para o projeto Piauí Conectado, com 5.000 km de rede de fibra ótica, pela ZTE

Bahia

• Participação do projeto da ponte Salvador-Itaparica por CCCC, CR20 (Railway 20 Bureau Group) e China Tiesiju Civil Engineering Group

• Investimento em energia renovável da CGN Energy

• Investimento de mais de R$ 18 milhões no sistema de reconhecimento facial da Huawei para videomonitoramento

• Projeto do veículo leve de transporte (VLT) do consórcio Skyrail Bahia, composto pela chinesa BYD e Metrogreen

Pernambuco

• Metrô de Pernambuco instalou 1.300 câmeras Dahua de alta resolução

• Governo negocia câmeras da Dahua com reconhecimento facial

• Compra de parte de uma empresa de distribuição de combustível pela Petrochina

Paraíba

• Prevê licitação para compra de câmeras com reconhecimento facial

• Participação da chinessa IMC-YY no estaleiro em Lucena

Ceará

• Construção de 5.800 km de fibra óptica, realizada pela China Unicom

• Ampliação do sistema de videomonitoramento Spia com possível participação de empresas chinesas como a Dahua

• Fornecimento de tecnologia na área da saúde pela empresa chinesa Meheco

Rio Grande do Norte

• Investimento de US$ 2 bilhões da State Power Investment Corporation (SPIC) em energia eólica e solar

• Negocia investimentos em tecnologia por empresas chinesas

Alagoas

• Investimento na fábrica de embalagens da chinesa GsPak

 

Jornal do Brasil

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) terá que fazer uma nova cirurgia em consequência da facada que sofreu durante a campanha eleitoral, em setembro do ano passado. A necessidade da intervenção foi confirmada em avaliação médica neste domingo (1°).

Macaque in the trees
Jair Bolsonaro vai fica dez dias afastado do Planalto (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

A data da operação não foi divulgada, mas Bolsonaro indicou em uma rede social que deve ficar cerca de dez dias afastado do Planalto para se submeter ao procedimento e se recuperar.

O médico Antonio Luiz Macedo, membro da equipe que tratou o presidente no hospital Albert Einstein após o atentado, fez a avaliação no paciente no aeroporto de Congonhas, logo após Bolsonaro desembarcar na capital paulista, por volta das 8h.

O motivo da cirurgia não foi confirmado, mas na sexta-feira (30) Macedo afirmou à Folha que havia o risco de Bolsonaro ter hérnia na região atingida pela facada e depois submetida a três cirurgias.

O problema é considerado normal em um quadro clínico como o dele, que passou por um trauma de grande dimensão e sucessivas operações na área.

O surgimento de hérnias era esperado porque a parede abdominal do presidente ficou fragilizada após tantos cortes e procedimentos cirúrgicos.

Como o tecido fica menos resistente, pode acontecer que parte de algum órgão abdominal rompa a parede muscular, criando um volume sob a pele. A operação de hérnia é considerada de médio porte, sem grandes riscos.

Em postagem nas redes sociais, Bolsonaro escreveu: “Pelo que tudo indica curtirei uns 10 dias de férias com eles brevemente”. Ele publicou uma foto ao lado de Macedo e do médico Leandro Santini Echenique, que também fez a avaliação.

Macedo e Echenique integraram a equipe responsável por cuidar de Bolsonaro no Einstein, para onde ele foi transferido após receber o atendimento emergencial na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora (MG).

Em julho, após mais de 40 anos no Einstein, Macedo migrou para a Rede D’Or São Luiz. A nova operação no presidente deverá ser feita no Hospital Vila Nova Star, na Vila Nova Conceição (zona sul), que faz parte da rede.

A cirurgia mais recente de Bolsonaro ocorreu no Einstein, em janeiro, para reconstruir o trânsito intestinal, afetado pelo trauma, e retirar do abdômen a bolsa de colostomia (recipiente externo para armazenar fezes).

Os médicos consideraram bem-sucedida a recuperação, apesar de complicações que surgiram ao longo do processo, mas foram rapidamente contornadas.

“A condição física ajudou muito, porque ele foi atleta e possui uma musculatura forte. Isso tudo ele usou agora, no trauma”, disse Macedo, relembrando o passado de militar do presidente.

Como mostrou a Folha, o ataque que o então candidato sofreu em Juiz de Fora completa um ano no dia 6 de setembro e virou trunfo político para o presidente. Ele busca manter o assunto em evidência, mencionando, sempre que pode, o crime perpetrado por um “representante da esquerda”.

Adélio Bispo de Oliveira, o autor, que está preso na penitenciária federal de Campo Grande (MS), foi filiado ao PSOL entre 2007 e 2014. Declarado inimputável, por sofrer de problemas mentais, ele foi absolvido pela Justiça em junho.

O presidente viajou à capital paulista neste domingo para participar de culto celebrado pelo bispo Edir Macedo, no Templo de Salomão, no Brás (região central).

O líder da Igreja Universal do Reino de Deus, que também é dono da TV Record, apoiou a campanha de Bolsonaro em 2018 e mantém boas relações com o governo.

Segundo a agenda oficial de Bolsonaro, o presidente passa o dia em São Paulo e retorna a Brasília às 18h45. Não foram informados compromissos dele na capital paulista no período da tarde. (Joelmir Tavares/FolhaPress SNG)

Como registramos mais cedo, Jair Bolsonaro passará por uma cirurgia de hérnia incisional na semana que vem.

Em entrevista ao Globo, o médico Leandro Echenique disse que a hérnia no abdômen do presidente chega a ficar visível sob a roupa.

“É uma hérnia incisional, ou seja, na região da cirurgia anterior. Isso pode ocorrer com todo mundo que faz cirurgia do abdômen. É bem mais simples que as cirurgias anteriores. Não é um caso de aderência, de rompimento interno de alguma estrutura, nada disso. É uma hérnia na parede abdominal. A hérnia que ele tem é como se fosse um abaloamento. A pessoa percebe uma ondulação no abdômen.”

set
02
Posted on 02-09-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 02-09-2019



 

Sinovaldo, no

 

 
DO EL PAÍS

O agosto horrível da Argentina

Macri vive um fim de mandato agônico, com depreciações contínuas da moeda e risco de suspensão de pagamentos

 

“Vamos viver de novo a mesma história”, disse um importante intermediador financeiro em um restaurante em Buenos Aires. “Outra vez o mesmo”, suspirou uma empregada doméstica enquanto passava roupa em um apartamento no bairro da Recoleta. “Nós, argentinos, nunca aprendemos”, murmurou um garçom. Entre a angústia e a resignação, a Argentina enfrenta sua enésima crise. Os elementos são os de sempre: inflação alta, falta de crescimento, depreciação do peso, necessidade de dólares e incapacidade de pagar as dívidas. A semana que terminou no sábado foi de dar vertigem. Agosto foi um mês horrível. E se espalha um sentimento de que o pior ainda está por vir.

Hernán Lacunza assumiu a pasta da Fazenda em 17 de agosto. Só onze dias depois, na quarta-feira passada, se viu obrigado a despertar os piores fantasmas do passado: anunciou que a dívida seria “reperfilada” (cada crise tem seu neologismo), ou seja, que não seria paga na data devida, com o objetivo, disse, de poupar reservas, sustentar o peso, tranquilizar os mercados e reduzir o risco-país. Dois dias depois, o risco-país (o sobrepreço que um credor exigiria) tinha pulado de 2.100 para 2.500, o dólar tinha passado de 60 para 62 pesos, os mercados continuavam em alerta vermelho e as agências de classificação de dívida começavam a mencionar a palavra mais temida: default, ou suspensão de pagamentos. Outra vez.

Todo o mês de agosto foi um pesadelo para a economia argentina. O momento-chave aconteceu com as eleições primárias do dia 11, aquelas que, segundo o presidente Mauricio Macri, definiriam “os próximos 30 anos”: Macri sofreu uma derrota monumental (49% contra 33%) e ficou claro que o próximo presidente não seria ele, mas o peronista Alberto Fernández, acompanhado na vice-presidência pela muito amada e odiada ex-presidenta Cristina Kirchner. Os indicadores financeiros despencaram no dia seguinte, segunda-feira. O drama de agosto se resume em alguns poucos números: a Bolsa de Valores caiu 72%, o peso depreciou 38%, o valor da dívida em títulos foi reduzido em 55% e a inflação saiu de controle. Ainda não há números oficiais, mas se estima que os preços tenham subido ao menos 5% em um mês. Isso coloca a inflação dos últimos 12 meses em torno de 60%.

Para Macri, evidentemente chocado com as primárias, e para o conjunto da coalizão no Governo, o colapso se deve ao medo dos investidores de um regresso do kirchnerismo. Esse fator conta, sem dúvida. Mas também contam os erros de Macri, que perdeu o controle da dívida (razão pela qual foi obrigado a buscar ajuda contraindo uma dívida adicional de 57 bilhões de dólares — cerca de 236 bilhões de reais — com o Fundo Monetário Internacional), não foi capaz de domar a inflação, provocou uma recessão com sua política de austeridade e, principalmente, não soube perceber o mal-estar que se sentia nas casas de um país em que mais de um terço da população vive na pobreza e quase 10% sofre deficiências alimentares severas.

Aprofundamento da fratura política

Oprimido pela situação, e depois de uma declaração delirante após a derrota nas primárias (acusou os argentinos de haver votado mal), Mauricio Macri ofereceu diálogo ao seu adversário Alberto Fernández. Diálogo, consenso, acordo mínimo: os políticos recebem essa reivindicação de quase todas as áreas.

Mas o sistema eleitoral está mostrando seu lado mais perverso. Fernández só venceu as primárias, e não as eleições reais, que ainda estão muito distantes (em 27 de outubro), e para consolidar sua vantagem e ter as mãos livres quando ocupar a Casa Rosada, precisa se desvincular da política de Macri. Macri, por sua vez, precisa reduzir as diferenças para que sua coalizão, Juntos pela Mudança, vá para a oposição com números dignos, o que exige atacar Fernández e o kirchnerismo. Algo que seu candidato a vice-presidente, o ex-peronista Miguel Ángel Pichetto, e sua inefável aliada Lilita Carrió fazem com ferocidade. Resultado? A fratura política está mais profunda do que nunca, justamente quando seria necessário o contrário.

Manifestação contra a política econômica do Governo de Macri em 22 de agosto.
Manifestação contra a política econômica do Governo de Macri em 22 de agosto.

Fernández pareceu quebrar o acordo na sexta-feira, quando disse ao Wall Street Journal que a Argentina estava “em suspensão de pagamentos virtual”. Já havia dito isso em junho, mas o abismo não estava tão próximo e suas palavras não eram ouvidas com tanta atenção. Nem o FMI, o único credor efetivo que resta à Argentina fora de suas fronteiras, mostrava então os atuais rancores.

O empréstimo de 57 bilhões concedido em setembro de 2018, o maior da história do organismo, foi uma aposta pessoal da então diretora Christine Lagarde, apoiada por Donald Trump, amigo pessoal de Macri. Trump agora prefere não falar sobre a Argentina, Lagarde foi para o Banco Central Europeu e os técnicos do Fundo, que sempre tiveram dúvidas, comprovam que as condições nas quais a ajuda foi concedida deixaram de ser cumpridas (Macri adotou várias medidas de tom populista para reduzir sua impopularidade) e que em Buenos Aires se considera a necessidade de renegociar porque, do modo em que estão as coisas, o empréstimo não poderá ser pago nos prazos acordados. Por enquanto se fala em adiamento. No mercado de títulos, no entanto, os investidores já começam a descontar algum tipo de default e de calote na dívida.

A segunda-feira voltará a ser crítica. Macri e seu ministro Lacunza decidiram que para evitar o colapso o essencial é sustentar o peso. Parecem dispostos a colocar sobre a mesa todas as reservas do Banco Central, pouco mais de 50 bilhões de dólares, e vender qualquer quantia necessária de moeda norte-americana para manter a cotação em torno dos 60 pesos. Ao longo de agosto, o Banco Central gastou 13 bilhões de dólares para fortalecer o peso, sem grande sucesso. A aposta de Lacunza é tudo ou nada. Se a moeda continuar se desvalorizando, algum tipo de controle cambial precisará ser imposto, algo que esta semana já foi estabelecido para as grandes operações bancárias. Para além disso, se abre o desconhecido. Ou o demasiado conhecido. Porque a Argentina já sabe o que é a quebra.

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