ARTIGO

Artigo publicado na Tribuna da Bahia em 22/08/19

O Brasil e uma possível recessão mundial

Joaci Góes

Ao eminente amigo e pensador Tarcísio Roberto de Souza Barbosa!

“Os fatos, como são teimosos os fatos”, aforismo reconstruído de diversos modos por vários pensadores, no tempo e no espaço, a que aderiu a legendária Agatha Christie. A inequívoca verdade factual demonstra que o modo de governar de uma esquerda que vigorou até o colapso da União Soviética, em 1990, jamais trouxe o bem-estar prometido, sem falar no custo brutal de vidas ceifadas em nome de princípios utópicos. A soma das vítimas fatais na Rússia de Stalin e na China de Mao Tsé-Tung oscila, a depender de quem faça a conta, entre sessenta e cento e sessenta milhões de pessoas. Se compusessem um país, estas vítimas representariam a sexta maior população do Planeta.

Enquanto a esquerda, no mundo desenvolvido, evoluiu para compreender o Estado como uma grande agência reguladora de interesses privados, minimizando abusos dos poderosos e fomentando a elevação do bem-estar dos segmentos menos favorecidos, via destinação dos recursos oriundos da arrecadação tributária, sobretudo pelo acesso universal a educação de qualidade, a velha esquerda brasileira parou no tempo, continuando a entoar a mesma ladainha que conduz ao atraso e à miséria, de que é o maior exemplo a linha bolivariana liderada pelo fantasma de Hugo Chaves, empunhada pelo genocida Nicholas Maduro, que reduziu a trapos a, até há pouco, riquíssima Venezuela.

A recentemente anunciada desaceleração da economia mundial, na esteira da guerra tarifária entre grandes potências industriais, produziu os efeitos esperados, em toda parte, como no Brasil: queda das bolsas e valorização das moedas fortes, com o Dólar e o Euro à frente. É verdade que o sinal ainda é, apenas, amarelo, coloração suficiente para empalidecer o ânimo das populações periféricas como, desgraçadamente, permanece a brasileira, em face da dependência de sua economia da dinâmica da economia global. A maior parcela da participação do Brasil no mercado internacional decorre da exportação de matérias primas, ativos produzidos pelo acaso, sendo modesta a competitividade de nossos manufaturados, em razão da baixa qualidade da educação aqui praticada, como tem sido reiteradamente destacado pela Federação Nacional das Indústrias. Ao tempo em que a população brasileira corresponde a 3% da população mundial, nossa participação no quadro das pesquisas globais cai para 2%, baixando para, apenas, 1% nossa participação no comércio internacional.

Sinal mais do que evidente da imperiosa necessidade de elevarmos o nível de desempenho de nossa Universidade Pública, a mais cara do Globo, sem falar no caráter urgente de nossa necessidade de melhorarmos, significativamente, nosso padrão educacional, de um modo geral. Uma das dez maiores economias, o Brasil figura, em matéria educacional, no 80° lugar, o que é muito grave na sociedade do conhecimento em que estamos imersos. Sem dúvida, a redução do dinamismo da economia global representa poderoso entrave ao Governo Bolsonaro a quem cabe a ingente responsabilidade de provar que há alternativas melhores do que o desgoverno que se abateu sobre o País nos quatro mandatos petistas.

O noticiário que nos chega da Argentina aponta para o retorno do populismo peronista, uma pedra no sapato na potencial prosperidade dos irmãos portenhos, embora ali não tenha ocorrido o assalto aos cofres públicos, como ocorreu no Brasil, em extensão e intensidade nunca vistas na história da humanidade. De qualquer modo, pobre Argentina! Além disso, o atual governo imprime celeridade às medidas que melhoram, sensivelmente, o ambiente de negócios no Brasil, habilitando-nos a abiscoitar, a título de investimento, parcela ponderável dos abundantes ativos financeiros, estocados mundo afora, num momento de juros cada vez mais baixos.
Um importante dado que milita em favor do prognóstico de que atravessaremos bem a crise que se avizinha reside na aparente disposição de o Congresso Nacional encarar com responsabilidade a necessidade de imprimirmos celeridade às reformas adicionais, em curso. Basta a demora excessiva que sofreu a aprovação da imprescindível Reforma da Previdência, quando vimos passageiros irresponsáveis do avião Brasil torcerem pela queda da aeronave por antipatia ao piloto. Curtos de inteligência e sensatez, não compreendem que é preciso que o avião faça um bom pouso, para, então, reclamar a substituição do comandante.

As eleições municipais do próximo ano serão um bom termômetro para aferir se os brasileiros persistirão no espírito de mudança que os empolgou nas eleições presidenciais do ano passado, ou se querem voltar a viver sob a síndrome de Estocolmo, festejando os seus velhos algozes.

Joaci Góes, escritor, é presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado originalmente na TB, nesta quinta-feira,22.