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ARTIGO/ CULTURA

Vermelho Brasil, O Romance da Conquista do Brasil pelos Franceses

Lucia Jacobina

 

O título dessa narrativa romanceada é da autoria de Jean-Cristophe Rufin, escritor francês que lançou em 2001 seu romance histórico “Rouge Brésil”, pelas Edições Gallimard e com ele ganhou o Prêmio Goncourt, uma láurea que lhe assegurou fama e certamente depois o conduziu a uma cadeira na Academia de Letras Francesas.

Este livro, traduzido para o português por Adalgisa Campos da Silva e lançado em 2015, pela Editora Objetiva, com o título de “Vermelho Brasil, O Romance da Conquista do Brasil pelos Franceses”,refere-se ao Brasil colonial que se tornou conhecido em toda Europa como a terra do pau-brasil. Essa é a denominação da madeira que possui um pigmento rubro e servia para tingir tecidos além de outros utensílios e foi muito valiosa naqueles tempos dos descobrimentos.

A exemplo do chá, da seda e de outras especiarias, os exploradores visitantes vinham para o litoral em busca dessa riqueza e muitos países europeus pretenderam se apossar dessas terras, mesmo que tal atitude significasse desobediência à encíclica papal que dividia o continente americano entre os ibéricos.François I, rei da França, chegou mesmo a lançar dúvidas acerca dessa autoridade, ao inquirir sobre que poderes tinha lhe dado a divindade para dividir o novo continente entre Portugal e Espanha.

O princípio da primazia não serviria como justificativa pois numerosos depoimentos já existiam sobre o conhecimento que detinham os navegadores de diversas nacionalidades europeias das terras ditas recém-descobertas por aqueles dois países. Essa atribuição encarada como discriminatória foi ignorada pelos franceses que cobiçavam a nova terra e com ela pretendiam enriquecer. E nesse processo de conquista, utilizavam todos os meios disponíveis para realizar seus objetivos, a despeito das notícias de canibalismo que circulavam. É seguindo esse foco que Rufin vai descrever o engodo sofrido por duas crianças órfãs que para aqui foram transportadas com o objetivo de servir de turgimães.

Essa era a denominação decorrente da prática cruel de abandonar crianças pobres e sem parentes no litoral brasileiro, no desiderato de que recolhidas e poupadas pelos indígenas fossem por eles criadas e aprendessem sua língua,v isando delas se servir no futuro como intérpretes para facilitar suas negociações comerciais.

O episódio conhecido como a invasão francesa no Rio de Janeiro foi comandado por Nicolas de Villegaignon, cujo objetivo era fundar a França Antártica e aqui se estabelecer definitivamente.Vários testemunhos foram escritos no passado e no presente sobre o ocorrido, mas restaram desconhecidos tanto na história da França como na do Brasil. E seu enfoque é importante para aquele paíse uropeu porque mostra que a primeira luta religiosa entre huguenotes e católicos antecedeu a parisiense sangrenta Noite de São Bartolomeu e se deu fora do território francês. E para os brasileiros, a narrativa revelou que os próprios franceses se engolfaram numa luta demolidora que culminou com o abandono do projeto de ocupação pela maioria dos invasores que retornou à França desiludida com o comportamento de seus compatriotas.

Na mesma oportunidade, os remanescentes terminaram por se destruir e à feitoria erigida no litoral fluminense, na ilha denominada como Villegaignon, de tal forma que a esquadra portuguesa que para aqui se dirigia, incumbida de retomar o território invadido, ao aportar só encontrou os destroços da luta fraticida. Todo esse relato é desenvolvido em cerca de quatrocentas páginas de envolvente enredo que oscila entre a vigorosa descrição da natureza virgem do litoral brasileiro e a fecunda exposição apoiada em dados históricos, a qual o consagrado escritor francês deu tratamento ficcional.

Desde o descobrimento, o território brasileiro foi alvo de cobiça pelas potências europeias. Nossa história registra alguns episódios de invasão, uma francesa e duas holandesas, na costa leste. Em todas elas, as ocupações foram temporárias. E além de Portugal, também a Espanha exerceu seu domínio, durante o período em que os reinos permaneceram unificados, devido a problemas decorrentes da sucessão dinástica.

Além da revelação histórica, o lançamento dessa obra no Brasil deve ser aproveitado para auxiliar seus leitores a refletir sobre os métodos empregados naquela ocasião, na tentativa de apropriação de nossas riquezas.Tanto no passado como no presente, os indígenas têm sofrido assédio em seu próprio território. Sobre o passado, o estado brasileiro já não tem ingerência alguma. Atualmente, sob sua exclusiva guarda e vigilância, já não pode fugir a suas responsabilidades. O motivo agora declarado sugere altruísmo por ser a preservação ambiental e a sobrevivência da vida sobre a terra. Todavia, esses defensores da preservação alheia obstinam-se em desconhecer que o povo brasileiro também possui o mesmo zelo e o mesmo instinto de qualquer mortal.Por isso mesmo,deve ficar alerta para não admitir que interesses estrangeiros se sobreponham ao seu na administração e domínio do próprio território, a qualquer pretexto.

 

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”

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Comentários

vitor on 22 agosto, 2019 at 18:27 #

Do: editor do BP
Para Lucia Jacobina
Postado mais cedo na reprodução do belo e expressivo texto no espaço do Bahia em Pauta no Facebook:
(Um texto que honra a inteligência, sensibilidade e talento da autora e deixa feliz quem tem o prazer e privilégio de edita-lo.História, cultura e informação.Leitura que o Bahia em Pauta recomenda, com entusuasmo). Parabéns, Lúcia.


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