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Do Jornal do Brasil

 

A Pesquisa Focus que o Banco Central divulgou nesta segunda-feira. 19 de agosto, mostrou o mercado financeiro tranquilo quanto ao andar da inflação. Apesar das turbulências na taxa do dólar, com o impacto das escaramuças entre Estados Unidos e China reverberando mais, devido à crise na Argentina, com o esfarelamento político do governo Macri, o mercado não vê risco de a inflação sair do controle.

Para a mediana do mercado, o IPCA deste ano vai fechar em 3,71% (3,76% na pesquisa anterior) e em 3,90% em 2020. Com a despencada dos preços das commodities agrícolas e minerais (petróleo e minério de ferro) em função da guerra comercial sino-americana, o Bradesco reduziu a taxa deste ano de 3,8% para 3,5%, elevando a o IPCA de 2020 de 3,8% para 3,9%. Já o Itaú espera 3,6% para este ano e 2020. O Itaú calcula que a taxa do IPCA em 12 meses chegará a cair até 2,8% em outubro, subindo em novembro e dezembro a 3,60%.

Isso significa que há espaço para o Banco Central baixar fortemente os juros para tentar fazer a economia reagir e o desemprego diminuir.

O Itaú prevê, há mais de um mês, que a taxa Selic, atualmente em 6% ao ano, caia para 5% este ano e se mantenha neste patamar até dezembro do ano que vem. O Bradesco, que até duas semanas apostava na Selic em 5,50%, desde o dia 12 de agosto prevê que ela desça a 5% e até admite que possa ficar abaixo desse patamar, no menor nível histórico das taxas de juros no país.

O que muda para o investidor

Infelizmente, há sempre o outro lado da moeda. A baixa de juros que os dois maiores bancos privados estão prevendo só está ocorrendo na ponta do investidor. A taxa Selic serve de piso à captação dos bancos (aplicações do investidor). Para o tomador de crédito, as taxas estão nas alturas (até aumentando em termos reais, descontando a inflação que é declinante e está na faixa dos 3%) e seguem descendo lentamente, como algumas paradas, pela escada.

Mas o efeito para o investidor é terrível. Já faz muitos anos que não se obtém juros mensais de 1% nas aplicações do mercado financeiro, nos chamados fundos de renda fixa ou no mais popular, o fundo de DI (depósito interfinanceiro) ou na caderneta de poupança.

O Itaú tem um interessante levantamento sobre as rentabilidades médias mensais dos DIs nesta década. Na violenta recessão de 2015 (PIB encolheu 3,5%) e 2016 (-3,3%), o DI rendia, em média, 1% ao mês (com a taxa de administração o rendimento líquido ficava mais baixo, às vezes perdendo para a poupança).

Juro mensal cai de 0,8% para 0,4% em dois anos

Entretanto, com a queda na taxa Selic promovida no governo Temer, que a baixou, a partir de outubro de 2016, dos 14,25% ao ano em que estava desde julho de 2015 no governo Dilma (numa escalada iniciada em outubro de 2014, quando saltou de 11% para 11,25%, logo após o resultado da reeleição), desde março de 2017, quando a Selic já estava em 11,25%, não se obtém rendimento bruto superior a 1% ao mês no DI.

Em dezembro de 2016 era de 1,07%. Caiu para 1,01% em fevereiro de 2017 e foi baixando sucessivamente. No mês de junho era de 0,81% e em dezembro, o DI pagava rendimento bruto (fora a taxa de administração) de 0,56%.

A taxa Selic continuou caindo até março de 2018, quando estacionou em 6,50% ao ano. Enquanto estava neste patamar, o rendimento bruto do DI era de 0,52% ao mês. Mas com a queda para 6% em 31 de julho, o rendimento mensal baixou naquele mês para 0,48% e para 0,46% em agosto.

Como o Itaú, o Bradesco e todo o mercado prevêem nova baixa de 0,50 ponto percentual da Selic na reunião do Comitê de Política Monetária dias 17 e 18 de setembro, com a Selic a 5,50% ao ano e eventualmente nova baixa de 0,50 p.p em 30 de outubro ou duas quedas de 0,25 p.p. em outubro e 11 de dezembro. O Bradesco já acena com algo abaixo de 5% este ano (4,75%?).

A redução do rendimento a conta-gotas

Para o investidor brasileiro, que era essencialmente um rentista, usufruindo tranquilamente ganhos mensais de 1% ou mais aplicando em papéis do Tesouro (diretamente via Tesouro Direto, ou indiretamente nas carteiras de DIs dos bancos e corretoras, que são majoritariamente compostas por papéis do Tesouro, de maior liquidez), a mudança o expulsa da zona de conforto.

O Itaú está prevendo que a taxa bruta do DI caia em novembro para 0,40% ao mês e assim siga até dezembro de 2020.

Em outras palavras, quem quiser ganhar mais no mercado financeiro vai ter de correr riscos. Ou apertar os cintos nas despesas.

Ganhar mais exige correr mais riscos

Há bancos e corretoras que têm eficientes modelos de investimentos que permitem ao investidor ter ganhos mesmo quando o Ibovespa (o índice da bolsa brasileira) cai. São as chamadas operações de travas que limitam perdas nas baixas e maximizam ganhos nas altas.

É que o Ibovespa é composto por mais de 60 ações de empresas com grande movimentação e liquidez diária (facilidade de compra e venda) na B3. O maior peso é das ações do Itaú Unibanco (pouco mais de 9%), seguido por Vale (pouco mais de 8%). Nem todas sobem ou caem no mesmo dia.

Com as turbulências internacionais e a crise da Argentina (cujo mercado financeiro tem no dólar tantas transações diárias quanto com pesos), dólar e ouro estão entre as maiores rentabilidades do ano.

Mas se trata de um mercado arriscadíssimo e para peixes grandes.

Tanto se pode perder ou ganhar muito nas oscilações, como ainda há o risco de ser chamado pela Política Federal ou a Receita Federal para se explicar caso seja apanhado numa lista de investidores em doleiros como Dario Messes, o “rei dos doleiros”, preso no mês passado pela PF, em São Paulo.

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Lei de abuso pode gerar ‘temor excessivo’ da polícia, diz Moro

 

Em visita ao centro de operações da PM em Bauru, Sergio Moro disse se preocupar com “temor excessivo” de polícia, juízes e MP após a aprovação do projeto da Lei de Abuso de Autoridade, registra a Folha.

Segundo o ministro da Justiça, o texto terá de ser analisado com cautela. “É possível que possamos sugerir vetos. Quem vai decidir isso, evidentemente, é o presidente, mas ainda é cedo para informar o que exatamente vamos propor.”

Moro acrescentou: “Ainda que bem intencionado o projeto para coibir o abuso, temos que tomar cuidado para que ele não tenha efeito de gerar temor excessivo por parte da polícia, do Ministério Público e do juiz em fazer o seu trabalho”.

Do Jornal do Brasil

 

Uma vez instaurado o processo disciplinar pelo Conselho de Ética, a tramitação tem prazo máximo de 45 dias

CAROLINA LINHARES, redacao@jb.com.br

O pedido de expulsão do deputado Aécio Neves (PSDB-MG) deve chegar ao Conselho de Ética do partido nesta quarta-feira (21). Está prevista uma reunião da executiva nacional do PSDB, que enviará ao conselho o pedido feito pelo diretório municipal de São Paulo. A aproximação da data elevou a pressão interna para que Aécio peça afastamento, mas o ex-governador, ex-senador e ex-presidenciável resiste à ideia. 

Macaque in the trees
Aécio Neves (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil )

Aécio é investigado em uma série de inquéritos e se tornou réu, em abril do ano passado, sob acusação de corrupção passiva e obstrução da Justiça. O deputado ainda não foi julgado.

Para tucanos ouvidos pela reportagem, a expulsão é o resultado mais provável após a tramitação do caso no Conselho de Ética. Apenas aliados próximos de Aécio creem que o partido não chegará a tanto. 

Líderes do PSDB, contudo, apostam que uma solução política, ou seja, algum entendimento com Aécio, será alcançada antes de uma medida extrema como a expulsão.

Segundo as normas do partido, a executiva nacional é responsável por reconhecer a admissibilidade do pedido de expulsão. Essa primeira análise será feita pelo deputado federal Celso Sabino (PSDB-PA), que é aliado de Aécio. Admitido o pedido, ele é encaminhado ao Conselho de Ética.

Uma vez instaurado o processo disciplinar pelo Conselho de Ética, a tramitação tem prazo máximo de 45 dias. Mas existe a possibilidade de a questão ser levada à Justiça, o que alongaria o processo. 

No caso de se afastar de forma voluntária, Aécio manteria seu mandato, mas seria desligado do partido até que suas acusações de corrupção fossem julgadas pela Justiça. Se absolvido, poderia retornar ao PSDB.

Aécio é réu no processo relativo ao episódio em que foi gravado, em março de 2017, pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, da JBS. O valor foi entregue em parcelas a pessoas próximas ao tucano, segundo a acusação. A Polícia Federal chegou a filmar a entrega de dinheiro vivo a um primo dele.

O deputado nega a prática de crimes e diz que o dinheiro era um empréstimo pedido a Joesley.

O código de ética do PSDB, aprovado em maio, prevê expulsão em caso de condenação por corrupção transitada em julgado, o que não é o caso de Aécio. Mas tucanos veem brechas para que ele seja enquadrado por outras infrações. 

O texto também prevê a expulsão, por exemplo, daquele que “usar os poderes e prerrogativas do cargo de direção partidária para constranger ou aliciar filiado, colega ou qualquer pessoa sobre a qual exerça ascendência hierárquica, com o fim de obter qualquer espécie de favorecimento ou vantagem”.

Parlamentares próximos a Aécio dizem que, como o deputado não foi condenado, é improvável que seja expulso.

Além disso, a ala mineira do PSDB é contra uma eventual expulsão sumária, feita por decisão do presidente do partido, como defendem alguns paulistas –mesmo que isso gere desgaste por ser algo antidemocrático. 

“Creio sinceramente que o partido terá a responsabilidade de seguir o que está previsto no seu código de ética […], que prevê sanção a qualquer membro do partido somente após condenação judicial, o que não aconteceu em relação ao deputado Aécio e confiamos que não acontecerá”,  diz o deputado Paulo Abi-Ackel, presidente do PSDB em Minas. Abi-Ackel disse que o partido deve se ocupar de temas realmente relevantes.

“O tempo mostrará que Aécio atuou em defesa dos interesses do partido conforme previa a legislação à época. E não é demais lembrar que qualquer arbitrariedade cometida contra um membro do partido obrigatoriamente alcançará todos aqueles que estiverem na mesma situação jurídica. É hora de mais sensatez e menos oportunismo.”

O presidente do PSDB, Bruno Araújo (PE), tem dito que o código de ética será seguido, com prazos e direito de defesa respeitados. A análise do caso pelo conselho, porém, pode se tornar um imbróglio -algo que o afastamento voluntário de Aécio procuraria evitar. 

Os meandros jurídicos do caso ficarão a cargo de César Colnago (ES), que presidirá o conselho. O colegiado também é composto pelo deputado federal Marco Tebaldi (SC), pela deputada federal Bia Cavassa (MS), pelo ex-deputado federal Raimundo Gomes de Matos (CE) e pelo deputado estadual Paulo José Araújo Corrêa (MS).

A ofensiva do diretório municipal de São Paulo contra Aécio tem o aval do governador paulista, João Doria (PSDB). O tucano, que quer ser candidato à Presidência em 2022 e hoje é o principal líder nacional do PSDB, já defendeu inúmeras vezes que o mineiro se afaste da sigla. 

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), que busca a reeleição no ano que vem, foi além e disse “ou eu ou ele” para defender a expulsão de Aécio.

Já o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reagiu a favor do mineiro: “Jogar filiados às feras, principalmente quem dele foi presidente, sem esperar decisão da Justiça, é oportunismo sem grandeza”.

Tucanos afirmam, no entanto, que FHC defendia uma solução política e respeitosa, e não que o caso fosse empurrado para debaixo do tapete.

Alguns líderes do PSDB entendem que o jogo ainda não começou para valer e que, se não houver entendimento político, a briga jurídica no Conselho de Ética será fratricida. Por isso, acham que a elevação da temperatura pode convencer Aécio a ceder. 

Apesar de ter respeito e admiração de muitos tucanos, a leitura é a de que Aécio é quem perde ao se manter exposto na mídia enquanto o conselho analisa seu caso.

Todas as pesquisas internas do PSDB hoje, em nível municipal, estadual e federal, mostram desgaste por causa de Aécio.

O partido amargou grande derrota eleitoral em 2018, com redução de sua bancada na Câmara e o pior resultado em disputas presidenciais: Geraldo Alckmin terminou com menos de 5% dos votos. Nesse contexto, tucanos veem o caso do mineiro como determinante para o sucesso eleitoral da sigla em 2022. 

O caso de Aécio também tem levado preocupação a outros tucanos que respondem a acusações de corrupção. Eles temem que Aécio abra precedentes para que sejam levados ao Conselho de Ética ou até expulsos. 

A avaliação da maior parte dos líderes ouvidos pela reportagem, no entanto, é a de que o caso de Aécio não tem igual e não serve de precedente a outros.

Isso porque Aécio quase alcançou a Presidência da República, é figura conhecida em todo o país e foi o único a ser gravado falando em “tem que ser um que a gente mate antes de fazer delação”.

 DO JORNAL NACIONAL(TV GLOBO)

Por Juliana Lima, Filipe Matoso e Guilherme Mazui, TV Globo e G1 — Brasília

Bolsonaro assina MP que transfere Coaf da Economia para o Banco Central

 

O Banco Central divulgou uma nota nesta segunda-feira (19) na qual informou que o presidente Jair Bolsonaro editou a medida provisória (MP) que transfere o Coaf do Ministério da Economia para o BC.

De acordo com a nota, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras passará a se chamar Unidade de Inteligência Financeira e terá “autonomia técnica e operacional”.

Mais cedo, nesta segunda, a colunista do G1 e da GloboNews Julia Duailibi informou que o texto da MP deve ser publicado nesta terça (20) no “Diário Oficial da União”.

Medidas provisórias têm força de lei assim que publicadas. A partir daí, o Congresso Nacional tem até 120 dias para votar a MP, aprovando o texto como o governo o enviou ou modificando o conteúdo. Se nesse prazo a medida não for aprovada, perderá validade.

Quando assumiu o mandato, em janeiro, Bolsonaro transferiu o Coaf do extinto Ministério da Fazenda para o Ministério da Justiça. Ao analisar a MP que reestruturou o governo, em maio, o Congresso desfez a mudança, levando o Coaf para o Ministério da Economia.

Na semana passada, porém, Bolsonaro informou que iria transferir o Coaf para o Banco Central para tirar o órgão do “jogo político”.

 
‘Transferência do Coaf para o BC enfraquece o ministro Moro’, diz Natuza

‘Transferência do Coaf para o BC enfraquece o ministro Moro’, diz Natuza

A polêmica

De acordo com o colunista do G1 e da GloboNews Valdo Cruz, aliados de Bolsonaro vinham pressionando o presidente a demitir o chefe do Coaf, Roberto Leonel.

Isso porque Leonel, indicado para o cargo pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, criticou uma decisão do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal.

Em julho, Toffoli suspendeu investigações baseadas em dados compartilhados pelo Coaf sem autorização judicial. A decisão foi tomada atendendo a um pedido dos advogados do senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo o Coaf, foram encontradas movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, motorista de Flavio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro quando o senador era deputado estadual. Conforme o órgão, Queiroz movimentou de maneira atípica R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017.

Como será o funcionamento do novo Coaf?

De acordo com a Subchefia de Assuntos Jurídicos:

  • a Unidade de Inteligência Financeira responderá à Diretoria Colegiada do Banco Central;
  • o Ministério da Economia e o Ministério da Justiça e Segurança Pública prestarão “apoio administrativo” à unidade durante o período de transição;
  • o Conselho Deliberativo continuará responsável por definir a diretrizes estratégicas do órgão e julgar processos administrativos sancionadores.

Íntegra

Leia a íntegra da nota divulgada pelo Banco Central:

MEDIDA PROVISÓRIA TRANSFORMA COAF NA UNIDADE DE INTELIGÊNCIA FINANCEIRA VINCULADA AO BANCO CENTRAL

Medida Provisória editada hoje (19/08) transformou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) na Unidade de Inteligência Financeira (UIF), órgão vinculado administrativamente ao Banco Central e dotado de autonomia técnica e operacional. Trata-se de medida proposta pelo Ministério da Economia e pelo Banco Central dentro de projeto amplo para o aperfeiçoamento institucional do sistema regulatório brasileiro.

Em conformidade com a Medida Provisória, compete ao Presidente do Banco Central indicar o Presidente e os Conselheiros da UIF. O Banco Central será responsável pela aprovação da estrutura de governança do novo órgão, observando-se o alinhamento às recomendações e melhores práticas internacionais.

 

A autonomia do Banco Central, que se encontra em discussão no Congresso Nacional, confere respaldo à autonomia técnica e operacional da UIF, assegurando o foco de sua atuação na capacidade para a produção de inteligência financeira, com base em critérios técnicos e objetivos.

Assessoria de Imprensa do Banco Central

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Posted on 20-08-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 20-08-2019

Duke, no jornal mineiro O Tempo

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DO EL PAÍS

Os protestos em favor da democracia na antiga colônia refletem a transformação da identidade honconguesa, que deseja manter seus direitos e liberdades frente ao controle ditatorial de Pequim

Manifestantes no protesto em Hong Kong neste domingo
Manifestantes no protesto em Hong Kong neste domingoGregor Fischer/dpa (Gregor Fischer/dpa)

Hong Kong é uma anomalia histórica. Não só por causa de suas ruas dedicadas à monarquia britânica, povoadas de rostos asiáticos, ou suas famosas construções verticais; mas porque Hong Kong é uma cidade livre, aberta e moderna, apesar de ser controlada pelo regime chinês, a ditadura mais poderosa do mundo. As 11 semanas de protestos pró-democracia ilustram o choque entre dois sistemas políticos, um confronto que cresce sob a ameaça de uma intervenção militar de Pequim.

A semente do conflito remonta ao momento em que Hong Kong se tornou o que é. Em 1997, 156 anos depois, a colônia britânica voltou a fazer parte da China. No acordo assinado por Zhao Ziyang e Margaret Thatcher em 1984 havia apenas uma condição, que foi redigida da seguinte forma: “Os atuais sistemas sociais e econômicos permanecerão inalterados, assim como seu estilo de vida”. Esta cláusula tomou forma no princípio yiguo liangzhi, um país, dois sistemas, segundo o qual Hong Kong, ao contrário do continente, desfrutaria de um regime de “direitos e liberdades (…) garantido por lei” e equiparáveis a qualquer democracia ocidental. Mas essa exceção tinha um horizonte: 2047, apenas 50 anos. Desta forma, o futuro irremediável do modelo chinês pairava como uma forca sobre esse pequeno território de modos ocidentais. A primeira colisão entre esses sistemas políticos teria lugar nesta ilha: hoje.

A China respeitou o acordo durante a primeira década, mas logo depois iniciou um processo de erosão de direitos e liberdades explicitado em um livro branco publicado em junho de 2014. “Nesse documento estratégico, o Partido Comunista da China expressava seu ponto de vista sobre o funcionamento de um país, dois sistemas”, explica a este jornal Antony Dapiran, um advogado residente no território e autor do livro City of Protest: A Recent History of Dissent in Hong Kong (Cidade de protestos: uma história recente sobre a dissidência em Hong Kong). “A linguagem empregada era bem estrita e priorizava um país acima dos dois sistemas. Naquele momento, ficou claro que Pequim estava começando a apertar o controle.” Em setembro do mesmo ano, desencadeou-se a chamada revolução dos guarda-chuvas, uma mobilização que por mais de dois meses bloqueou o centro da cidade para exigir a instauração de um sufrágio universal efetivo, em vez de o chefe de Governo ser escolhido pelo Partido Comunista da China.

“A partir daí, vimos nos últimos cinco anos muitos passos adiante neste caminho, como o sequestro de livreiros, a desqualificação de parlamentares pró-democracia, o veto de candidatos às eleições e a prisão dos líderes da revolução dos guarda-chuvas”, acrescenta Dapiran. Esse é o pano de fundo dos atuais protestos, que alcançaram marcos históricos, como levar quase dois milhões de pessoas à rua em um território de pouco mais de sete milhões de habitantes, a ocupação do Parlamento, a primeira greve geral em cinco décadas ou transformar o centro da cidade em palco de uma batalha campal.

O gatilho nesta ocasião foi a proposta de uma lei de extradição que permitiria que cidadãos de Hong Kong fossem julgados em solo continental, onde o mandato do Partido se sobrepõe ao domínio da lei, como a tudo mais. “Para os manifestantes, é uma batalha pela liberdade; para o Governo chinês, é uma batalha pelo controle ”, sentencia Willy Lam, professor de História e Economia da Universidade Chinesa de Hong Kong, em entrevista a EL PAÍS.

Mas a passagem do tempo joga contra Hong Kong: quanto mais a China cresce, maior a sombra que paira sobre a ex-colônia. Nos anos da transferência, a China era um país pobre. Em 1993, Hong Kong representava 27% do seu PIB. A partir daí começou uma queda livre que reduziu essa cifra para menos de 3% no ano passado. “Hoje, a cidade ganha dinheiro graças aos turistas chineses, aos investimentos chineses e às empresas chinesas. Ao mesmo tempo, os centros urbanos chineses se transformaram: Pequim, Xangai, Shenzhen e Cantão (Guangzhou) não têm nada a lhe invejar”, diz Dapiran. Em paralelo a esse processo, a identidade de Hong Kong se transformou: não é mais construída em torno de sua modernidade e prosperidade, mas do fato de ser um povo livre. “O que os torna especiais agora são seus direitos e liberdades, algo que não só a China não possui, mas tampouco maioria dos lugares na Ásia; o que para Hong Kong é uma fonte de orgulho e personalidade.”

Os dados sociológicos corroboram essa teoria. O Programa de Opinião Pública da Universidade de Hong Kong periodicamente prepara uma pesquisa que contrasta a identificação popular entre as identidades “chinesa” e “honconguesa”. A série histórica reflete como nos anos após a transferência de soberania, durante os quais a China respeitou o princípio de um país dois sistemas, a primeira foi se impondo até alcançar 38% em 2008, em comparação com 18% da honconguesa. Naquele ano, os Jogos Olímpicos com os quais Pequim se apresentou ao mundo foram vividos com furor em todo o país, e também na ilha. Mas depois disso a relação se inverteu. Os dados mais recentes, publicados no final de junho deste ano, mostravam que o número de cidadãos que se identificam como honcongueses está em um máximo histórico, 53%. O índice chinês, por sua vez, é menor do que nunca: 11%. “Por causa dessa evolução identitária, a interferência da China foi recebida como um ataque direto ao núcleo social”, acrescenta Dapiran. Ao protestar, os manifestantes conferem a essa identidade uma dimensão performativa, uma dupla reafirmação do que são e que os torna ainda mais relutantes em aceitar o que o Partido Comunista lhes oferece.

O contrato social do Partido Comunista se baseia na troca de prosperidade econômica por liberdade individual. Erradicar a pobreza absoluta até 2020 frente a um milhão de uigures em campos de concentração: estes são os dois extremos do Zhongguomeng, o “sonho chinês” capitaneado por Xi Jinping. Seu modus operandi começa por rejeitar o universalismo de “valores ocidentais”: democracia, pluralismo, direitos humanos. Hong Kong desempenha um papel fundamental neste processo. Não só porque é parte da China, mas porque é uma sociedade estruturada de acordo com esses princípios. O Governo não consegue seduzir os honcongueses, e o Partido lembrou em repetidas ocasiões nas últimas semanas que a alternativa é a força.

O artigo 14 da Lei Básica que rege a ex-colônia estabelece que, em caso de emergência, o Governo central pode mobilizar o Exército Popular de Libertação, se isso for pedido pelo Executivo local. Uma intervenção militar é algo que todas as partes –Pequim, Hong Kong e manifestantes– querem evitar, mas o bloqueio parece inquebrável e a cada dia que passa o uso da força ganha em probabilidade. Na semana passada, Carrie Lam, a chefa do Executivo de Hong Kong, se recusou a responder a uma jornalista que questionava sua capacidade de retirar a lei de extradição, uma das cinco exigências dos manifestantes –as outras são a anistia para todos os detidos, uma investigação independente sobre a ação policial, a revogação do termo “revoltas” e a instauração de um sufrágio universal efetivo. Sua evasiva reafirma a ideia de que Lam se tornou uma intermediária sem margem para ação, e que do outro lado da mesa, diante dos manifestantes, se senta o Governo chinês. E o Governo chinês não negocia.

Na semana passada, Pequim começou a sentar a base retórica para uma ação direta ao se referir aos protestos como “terrorismo”. A repressão aos protestos da Praça Tiananmen em 1989, o último desafio social que o Partido Comunista Chinês enfrentou, e seus milhares de mortos estão muito presentes na memória coletiva. “A intervenção do Exército seria muito traumática, os honcongueses a veriam como uma invasão”, diz Willy Lam.

O terremoto também seria econômico: apesar de seu pequeno percentual, Hong Kong ainda é o enclave onde a China encontra o mundo. Mais de 60% de seu investimento estrangeiro direto, por exemplo, chega ao continente através da ilha. Isto é possível, em parte, graças a ata política promulgada pelo Congresso dos EUA em 1992, pela qual Hong Kong é reconhecida como um território formalmente independente, com todos os direitos de uma economia aberta. A retirada desta normativa representaria um movimento de grande profundidade, pois forçaria o sistema chinês a se reformar. “Portanto, não acredito que a China vá empregar as forças armadas, mas optará por mobilizar a polícia paramilitar da província vizinha de Guangdong: esses agentes falam cantonês e usarão o uniforme da polícia de Hong Kong para passar despercebidos.”

“O contrato social chinês não funcionará em Hong Kong”, conclui Lam, com pessimismo. “A absorção total chegará antes de 2047, no final dos anos 30. O primeiro passo será aumentar a imigração chinesa. Dos 7,5 milhões de habitantes de Hong Kong, 1,8 milhão é cidadão do continente. Esta cifra continuará a crescer nos próximos anos, até os 3,5 milhões, o que alterará o tecido social. É a mesma solução que o Governo adotou em Xinjiang, onde os uigures não são mais a maioria, e no Tibete. Ao mesmo tempo, haverá um êxodo em massa de cidadãos de Hong Kong para o exterior. As políticas serão cada vez mais repressivas. Hong Kong se tornará uma cidade chinesa a mais.”

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