Do Jornal do Brasil

 

Obra foi lançada semana passada. O preço é salgado como a fama leblonina: R$ 120,00

   ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, redacao@jb.com.br

RIO DE JANEIRO – Talvez por ser o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro: R$ 20,5 mil, mais do que o dobro da média municipal. Ou pela facilidade de encontrar babás negras uniformizadas empurrando carrinhos com herdeiros brancos da alta classe local.

Macaque in the trees
O Leblon virou sinônimo de riqueza (Foto: reprodução/Prefeitura)

Quem sabe pelo overbooking de celebridades, que fazem a alegria dos papparazi e ajudam a alimentar sites com chamadas do tipo “Carolina Ferraz passeia com visual despojado” ou a já clássica “Caetano Veloso estaciona carro”. 

Fato é que o centenário Leblon, no imaginário do brasileiro, virou sinônimo de riqueza. Um livro homônimo ao bairro da zona sul carioca, contudo, busca desconstruir essa imagem, mostrando que há mais diversidade do que se imagina nas ruas por onde tantas personagens de nome Helena zanzaram a mando da imaginação do morador e novelista Manoel Carlos.  

“No Leblon tem de tudo”, diz o urbanista Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, um dos organizadores da obra, lançada na semana passada numa livraria do bairro. O preço é salgado como a fama leblonina: R$ 120 por 240 páginas, recheadas com um bom acervo fotográfico. 

O Leblon tem bares com pratos feitos para trabalhadores e bufês para a classe média que não é endinheirada o bastante para frequentar o Celeiro, onde o quilo sai por R$ 186,40 (um quinto do salário mínimo), um menu que vai de pappardelle ao molho de limão a salmão com mel, linguine e ervas.

Um aluguel no Jardim Pernambuco, perímetro de mansões, pode sair por R$ 30 mil. Caso do endereço que, na descrição de um site de imóveis, possui “degraus de travertino navona bruto que definem uma entrada social apoteótica” (a de serviços não é especificada). Isso não impede que uma classe média ali resista, em prédios velhos de três, quatro pavimentos, afirma Pinheiro.

Coexistem no Leblon vias vedadas com cancelas e duas comunidades nas pontas do bairro, a Chácara do Céu e a Cruzada São Sebastião. O urbanista lembra que já foram cinco as favelas na área, sendo a maior delas a Praia do Pinto, com 15 mil pessoas. Ela foi removida nos anos 1970, e parte de sua população vive hoje num conjunto habitacional da Cruzada.

Com dez autores, “Leblon” faz um apanhado histórico do bairro, e impossível passar batido pela superpopulação de artistas flagrados por paparazzi, “não poucas vezes em arranjo combinado”, escreve o arquireto Lauro Cavalcanti. “Não era raro, tampouco, ver Antônio Callado, Rubem Fonseca ou Lúcio Costa passeando nas calçadas da Ataulfo de Paiva, Caetano Veloso pegando um ônibus ou Tom Jobim fazendo suas compras matinais na Farmácia Piauí.”

Outro morador ilustre, Chico Buarque, tem um truque desbaratado no livro: “Ele chegou a inventar uma técnica para aparecer desinteressante aos paparazzi. Fazia suas caminhadas com o mesmo calção e camiseta –forçava a barra para que parecesse sempre a mesma foto, e o profissional não conseguisse vendê-la a nenhum editor de novidades”. 

São várias as curiosidades históricas no capítulo assinado por Augusto Ivan e a esposa e coorganizadora do livro, a também urbanista Eliane Canedo de Freitas Pinheiro. Exemplo: o canal do Jardim de Alah, que funciona como fronteira entre Leblon e Ipanema, foi assim chamado em homenagem ao filme estrelado por Gary Cooper e Marlene Dietrich. 

A primeira notícia do Leblon refere-se a uma aldeia indígena que, acredita-se, foi dizimada em 1575. Desses tempos ficaram nomes de ruas como a Sambaíba (planta tipo cipó), vizinhas a outras batizadas com nomes de militares estrangeiros, como os argentinos generais Urquiza e San Martín.

O resgate da memória leblonina coincide com os cem anos da data de fundação do bairro, completados no dia 26 de julho de 1919. Antes de virar o Leblon que conhecemos hoje, a região era pouco habitada, quadro que mudou com a chegada de linhas de bonde que faziam a conexão com o centro da cidade.

Era até então um território subdividido em áreas de grandes chácaras. A mais famosa se chamava Chácara das Camélias, de um rico comerciante que abrigava escravos perseguidos no Alto Leblon, a parte do bairro onde atualmente mora Chico Buarque.

Discutidas com visitantes como Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, ideias abolicionistas floresciam lado a lado ao cultivo de flores. O quilombo burguês nunca chegou a ser investigado, e a princesa Isabel não deixou de receber “seus ramalhetes de camélias subversivas”, rememora o livro.

O Leblon já era, então, flor que se cheire.

Jornal do Brasil

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