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CRÔNICA/ Mãos cheias

                                            Franciely, Pedro Malazartes e Diadorim

 

                                      Janio Ferreira Soares

 

A inauguração de uma biblioteca pública repleta de obras palpáveis em plena era digital é um acontecimento que merece loas e salamaleques, principalmente por parte deste velho escriba, que teve a sorte de crescer numa cidade onde boa parte dos habitantes tinha pelos livros o respeito que eles merecem.

Glória era o nome do lugar e lá, meu querido professor Nelson Pretto, as rodas de leitura aconteciam embaixo dos tamarineiros que sombreavam praças e quintais, conduzidas por pessoas que sabiam que, somente através dos livros, crianças ávidas por fantasias poderiam idealizar o Nego D’água e a Mãe D’água sob o rio que passava perto; caiporas correndo no topo da serra aonde o sol sumia; ou reinos encantados além dos cometas, que em noites sem nuvens se postavam bem no meio dos sinos que lhes luziam.

Minha mãe, por exemplo, era uma dessas fabulistas que não se cansava de nos levar pra passear com Pedrinho e Narizinho no sítio de seu Monteiro Lobato, ocasião em que muitos juravam ver o pica-pau amarelo pousado no seu ombro, enquanto outros chegavam a babar sentindo o cheiro das delícias de Tia Anastácia vadiando pelo céu.

Pois bem, esta semana a população de Paulo Afonso ganhou sua nova biblioteca e eu, que fujo de um microfone como o Tinhoso da cruz, tive que falar. E nessas ocasiões, a vontade que tenho é de incorporar o saudoso Alfredo Campos, um comerciante que adorava o rebuscado das palavras e que, nos seus longos discursos, encantava os glorienses quando mandava um: “neste instante, na medula do meu pensamento…”.

Mas aí, pra não complicar muito, preferi homenagear uma garotada que faz parte de alguns programas bacanas que acontecem por aqui, a exemplo do Arte Mambembe, instituto musical idealizado e bancado pelo mecenas Djalma Félix; dos Aventureiros da Leitura, coordenado pela professora Maria Lucia, que envolve os alunos da Escola Municipal Manoel Nascimento; e do projeto Leitor Número 1, que a cada ano premia o aluno da rede municipal que lê o maior número de livros.

A vencedora de 2018 foi Franciely Oliveira da Silva, nove anos de idade, aluna da Escola Rivadalva de Carvalho, que durante os 365 dias da saudável competição leu, “apenas”, 105 livros. Resfriada, Infelizmente ela evitou a noite chuvosa e não pôde ir à inauguração.

Ontem lhe liguei e ela me disse que já estava quase boa. “E os livros?”, perguntei. “Essa semana terminei mais um”, respondeu. “Quais as suas preferências?”, indaguei. Ela disse que eram as fábulas infantis. Aliviado, percebi que, assim como as turmas dos tamarineiros, ela não tem nenhuma pressa em pular de Pedro Malazartes pra Riobaldo e Diadorim. Afinal, apesar de aventureiros, eles estão lá, bem quietinhos e enfileirados, só esperando Franciely adolescer.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beirada baiana do Rio São Francisco.

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