Artigo

O grande débito com a negritude

Joaci Góes

Ao eminente amigo, Almirante Marcelo Campos, que deixa a Bahia!

Basta consultar uns poucos dados estatísticos para se perceber, com translúcida nitidez, o quanto a sociedade brasileira deve à nossa população negra. Representando cerca de 54% dos brasileiros, os negros figuram com o elevado percentual de 72% das mortes por homicídio e, igualmente, da população carcerária, além de 80% dos desempregados e um pouco mais ainda, entre os que vivem em sub-habitações. É preciso dizer mais para chegar-se à conclusão de que a abolição da escravatura ultrapassou muito pouco os limites da liberdade formal?

No último 25 de julho, Salvador, a maior cidade negra fora do continente africano, com 82% de afrodescendentes, sediou o Encontro Internacional de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, conforme data cívica criada em 25 de julho de 1992. No Brasil, a quilombola Tereza de Benguela, líder negra que ofereceu notável resistência à escravidão, no Século XVIII, é a personalidade homenageada. Sob o seu comando, os negros, associados aos indígenas, resistiram por duas décadas à opressão dos senhores. Setenta e nove negros e trinta índios massacrados foram o preço pago naquela luta heroica e desigual.

O encontro de Salvador, apesar da razoável cobertura midiática, não passou, na prática, de mais um ato de resistência simbólica à mascarada discriminação sofrida pela população negra do Brasil. A dura verdade que não quer calar é que, a continuar nessa toada histórica, sem o exercício da coragem necessária ao enfrentamento da questão, do ponto de vista substantivo, décadas ou séculos passarão sem que os negros alcancem o patamar de dignidade material que legitimamente aspiram. Sem falar no imponderável significado da superação do indefensável e abjeto status da escravidão, a condição material dos negros, pós-escravidão, tem oscilado entre nenhum e pouco avanço. Quem conhece a tese de doutorado, na Sorbonne, da saudosa historiadora grega radicada na Bahia, Kátia Queirós Mattoso, intitulada, Bahia, Uma Província no Século XIX, sabe que o bem-estar material dos escravos era superior ao da maioria da população negra do Brasil de nossos dias.

Em inúmeras ocasiões, temos acentuado que os negros continuam oprimidos, acima de tudo, porque a ascensão social, pela educação, não tem sido o elemento de proa de sua caminhada histórica, e que a mera denúncia repetitiva dos maus tratos sofridos, com a exigência da necessária punição dos infratores, não tem melhorado sua posição na escala social, cento e trinta anos decorridos da Abolição.

Indo diretamente ao cerne da questão, a população negra, como outro segmento humano qualquer – branco, vermelho ou amarelo, – só avançará quando introjetar a consciência de que na sociedade do conhecimento em que estamos imersos, a sólida e duradoura promoção social só ocorrerá através de uma educação de qualidade, clamor entre pouco ou nada presente na pauta de reivindicação das populações negras do Brasil. O oprimido e escravizado povo judeu superou os maiores obstáculos e hoje figura na linha de frente do desenvolvimento mundial, graças ao valor que historicamente tem dado ao papel redentor da educação.
Os negros brasileiros e baianos avançarão muito pouco e continuarão sendo objeto da exploração eleitoral-populista da direita, da esquerda ou do centro, enquanto priorizarem, como reivindicação, a pauta pobre e surrada da demarcação dos quilombos e do financiamento de blocos afro, em prejuízo da exigência de acesso a educação de alta qualidade – da creche ao ensino universitário -, em nível mais amplo e eficaz do que a bitola estreita do sistema de cotas, em vigor. Quem duvidar, consulte o livro Affirmative Action around the World, do negro norte-americano Thomas Sowell, considerado um dos maiores intelectuais vivos, e autoridade mundialmente reconhecida no campo das ações afirmativas. Não se investe, em vão, contra sistemas meritocráticos. Os negros precisam de muito mais do que sua inegável superioridade nos esportes e na música.

A negritude brasileira, mais do que a de outro povo qualquer, tem modelos nacionais de desempenho que podem e devem servir de inspiração, sobretudo para a juventude, no planejamento e construção do seu futuro. O que a grande maioria não sabe é que nomes tutelares do povo brasileiro, em múltiplos domínios, foram ou são negros, a exemplo de Cruz e Souza, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Lima Barreto, Tobias Barreto, Cora Coralina, Marechal Rondon, e os baianos Luis Gama, Ernesto Carneiro Ribeiro, Teodoro Sampaio, André e Antonio Rebouças, Manoel Quirino, Juliano Moreira, o Padre Sadoc, Conceição Menezes, Milton Santos, Alberto Guerreiro Ramos. Entre os vivos, Juarez Paraíso, Edvaldo Brito, Marques Neto, Joaquim Barbosa e Marina da Silva, para ficarmos nos exemplos de maior nomeada. Só Deus sabe quantos dos nossos jovens negros, tragados pelos polos ativo e passivo da criminalidade galopante, não estariam integrando essa plêiade de personalidades venerandas, se tivessem tido acesso a educação de qualidade.
É preciso repetir, incansavelmente, como um mantra, o que os povos maduros sabem de sobejo: a educação é o caminho mais curto, entre a pobreza e a prosperidade, o atraso e o desenvolvimento, o estado de barbárie em que nos encontramos e a sociedade próspera e fraterna que aspiramos.

Joaci Góes, escritor, é presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicaco originalmente na TB, na quinta-feira, 1/8.