Bolsonaro diz que Fernando Santa Cruz foi morto por ‘grupo terrorista’ de esquerda, não por militares. Segundo Comissão de Mortos e Desaparecidos, vítima teve ‘morte violenta’ em 1974.

Jornal Nacional

Por Vladimir Netto, Marcelo Parreira e Filipe Matoso, TV Globo e G1 — Brasília

Declaração de Bolsonaro sobre desaparecido na ditadura provoca reações

O atestado de óbito de Fernando Santa Cruz de Oliveira, opositor do regime militar, afirma que a morte dele foi causada pelo Estado brasileiro.

Fernando Santa Cruz é pai de Felipe Santa Cruz, atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil. Mais cedo, nesta segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro disse que, se o presidente da OAB quisesse saber como o pai morreu, ele, Bolsonaro, contaria.

Depois, em uma rede social, Bolsonaro disse que Fernando Santa Cruz não foi morto por militares, mas, sim, pela organização de esquerda Ação Popular do Rio de Janeiro, classificada pelo presidente como “grupo terrorista”.

A Comissão da Verdade, porém, diz que Santa Cruz foi morto por agentes da ditadura.

O atestado de óbito foi incluído no sistema da Comissão de Mortos e Desaparecidos no último dia 24 e será enviado à família de Fernando Santa Cruz.

Documento da Aeronáutica

A Comissão da Verdade disponibiliza na internet um documento do antigo Ministério da Aeronáutica segundo o qual Fernando Santa Cruz foi preso em 22 de fevereiro de 1974, um dia antes da data em que, segundo o atestado de óbito, ele morreu.

Reação

O presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, divulgou uma carta nesta segunda-feira após as declarações de Bolsonaro.

No documento, afirmou que o presidente da República é “cruel” e não sabe separar o público do privado.

Também nesta segunda, a própria OAB divulgou uma nota de repúdio à declaração do presidente da República.

Íntegra

Leia a íntegra do atestado de óbito de Fernando Santa Cruz:

ATESTADO DE ÓBITO

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instituída pela Lei n° 9.140, de 04 de dezembro de 1995, por sua presidente nomeada no Decreto de 25 de julho de 2014 (D.O.U. 28/07/2014), declara, nos termos da Resolução N° 2, de 29 de novembro de 2017 (D.O.U. 11/12/2017), para fins de retificação de assento de óbito lavrado com base na mesma lei acima citada, que:

– FERNANDO AUGUSTO DE SANTA CRUZ OLIVEIRA, brasileiro, casado, estudante universitário e funcionário público, residente e domiciliado em São Paulo/SP, nascido em Recife/PE, aos 20 de fevereiro de 1948, filho de Elzita Santos de Santa Cruz Oliveira e Lincoln de Santa Cruz Oliveira, conforme reconhecido às páginas 1.601/1.607, do Volume III, do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, instituída pela Lei n° 12.528, de 18 de novembro de 2011, faleceu provavelmente no dia 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro/RJ, em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985.

Brasília, 24 de julho de 2019.

(Assinado eletronicamente)

EUGÊNIA AUGUSTA GONZAGA

Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

Presidente

Observação: corpo não localizado até a data de lavratura do presente atestado.

“Y la vida va”, Susana Rinaldi: Poesia e paixão em igual intensidade no tangaço de Mario Clavel-Poupée), neste vídeo em outra maravilhosa interpretação de Susana, gravada no álbum “Vuda&Pazzia” . Ouça o tango, veja a letra e emocione~se.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

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Y la vida va (Mario Clavel- Poupée)
 
 
 

Em entrevista coletiva nesta tarde, o procurador do MPF do Amapá Rodolfo Lopes afirmou que as investigações preliminares na terra indígena Waiãpi ainda não identificaram vestígios da presença não-indígena na área em que o cacique Emyra Waiãpi foi morto.

Segundo o promotor, cerca de 25 policiais participaram da procura por vestígios hoje de manhã. Os peritos foram guiados por lideranças indígenas no terreno próximo à cidade de Pedra Branca do Amapari, no Amapá.

“Não se confirma, por ora, [a acusação] de que houve invasão nessa terra. Não há vestígios de invasão nesses locais para onde os peritos foram levados por lideranças indígenas. Mas não se descarta a possibilidade de invasão.”

Bolsonaro: “É crime e ponto final”

 

Jair Bolsonaro acusou Glenn Greenwald de ter cometido um crime:

“No meu entender, isso teve transações pecuniárias. A intenção é sempre atingir a Lava Jato, o Sergio Moro, a minha pessoa, tentar desqualificar, desgastar. Invasão de telefone é crime e ponto final. Não pode se escudar: ‘sou jornalista’. Jornalista tem de fazer seu trabalho. Preservar sigilo da fonte, tudo bem. Agora, uma origem criminosa, o cara vai preservar o crime, invadindo a República, desgastando nome do Brasil, lá fora inclusive. Eu espero que a PF, não é fácil, mas chegue aos finalmentes desse crime praticado por essas pessoas.”

Jornalistas podem ter fontes criminosas e publicar o que elas lhes passam, desde que não participem da perpetração do crime. É uma questão deontológica, não penal.

Do Jornal do Brasil

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“O mandatário da República deixa patente seu desconhecimento sobre a diferença entre público e privado’

THAIS ARBEX

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz afirmou nesta segunda-feira (29) que o presidente Jair Bolsonaro demonstra “crueldade e falta de empatia” ao dizer que poderia explicar como o pai de Santa Cruz desapareceu durante a ditadura militar (1964-1985). 

Em nota, ele disse que, “goste ou não o presidente”, o que une sua geração com a de seu pai é “o compromisso inarredável com a democracia”, e “por ela estamos prontos aos maiores sacrifícios”. 

Macaque in the trees
Presidente da OAB, Felipe Santa Cruz (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

“O mandatário da República deixa patente seu desconhecimento sobre a diferença entre público e privado, demonstrando mais uma vez traços de caráter graves em um governante: a crueldade e a falta de empatia”, escreveu o presidente da OAB.

Ele também cobrou que Bolsonaro diga o que sabe sobre “todos os demais desaparecidos”. “Se o presidente sabe, por ‘vivência’, tanto sobre o presente caso quanto com relação aos de todos os demais ‘desaparecidos’, nossas famílias também querem saber.”

Na manhã desta segunda-feira, ao reclamar sobre a atuação da OAB na investigação de Adélio Bispo, autor do atentado à faca de que foi alvo, Bolsonaro afirmou: “Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB? Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele”.

“Não é minha versão. É que a minha vivência me fez chegar nas conclusões naquele momento. O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco e veio desaparecer no Rio de Janeiro”, disse o presidente.

Santa Cruz classificou as declarações de Bolsonaro como lamentáveis e afirmou “estranhar tal comportamento em um homem que se diz cristão. 

“Lamentavelmente, temos um presidente que trata a perda de um pai como se fosse assunto corriqueiro –e debocha do assassinato de um jovem aos 26 anos.”

Ele é filho de Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira, desaparecido em fevereiro de 1974, após ter sido preso junto de um amigo chamado Eduardo Collier por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, no Rio de Janeiro.

Fernando era estudante de direito, funcionário do Departamento de Águas e Energia Elétrica em São Paulo e integrante da Ação Popular, grupo marxista formado pela juventude católica em 1962. Felipe tinha dois anos quando o pai desapareceu.

No relatório da Comissão Nacional da Verdade, responsável por investigar casos de mortos e desaparecidos na ditadura, não há registro de que Fernando tenha participado da luta armada.

O documento, inclusive, ressalta que Fernando à época do seu desaparecimento “tinha emprego e endereço fixos e, portanto, não estava clandestino ou foragido dos órgãos de segurança”. 

“Meu pai era da juventude católica de Pernambuco, funcionário público, casado, aluno de direito. Minha avó acaba de falecer, aos 105 anos, sem saber como o filho foi assassinado”, disse o presidente da OAB. 

Santa Cruz também afirmou que Bolsonaro se incomoda com “a defesa que fazemos da advocacia, dos direitos humanos, do meio ambiente, das minorias e de outros temas da cidadania que ele insiste em atacar”. “Temas que, aliás, sempre estiveram -e sempre estarão- sob a salvaguarda da Ordem do Advogados do Brasil.”

O presidente da OAB disse que a principal missão da entidade é a defesa das prerrogativas da advocacia brasileira.

“Asseguro que permaneceremos irredutíveis na garantia do sigilo da comunicação entre advogado e cliente. Garantia que é do cidadão, e não do advogado. Vale salientar que, no episódio citado na infeliz coletiva presidencial, apenas o celular de seu representante legal foi protegido. Jamais o do autor, sendo essa mais uma notícia falsa a se somar a tantas.”

jul
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Posted on 30-07-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 30-07-2019


 

Miguel, no

 

Do Jornal do Brasil

 

Presidente tentou diminuir tom de sua crítica e disse que não foram os militares quem desapareceram com Felipe Santa Cruz.

GUSTAVO URIBE

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O presidente Jair Bolsonaro tentou, na tarde desta segunda-feira (29), diminuir o tom de sua crítica e disse que não foram os militares quem desapareceram com o pai do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz.

Em live nas redes sociais, feita enquanto cortava o cabelo em horário de expediente, ele disse que, pelos relatos que obteve durante a ditadura militar, foram integrantes da própria Ação Popular, grupo de esquerda do qual Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira fazia parte, que desapareceram com ele.

Macaque in the trees
Presidente Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

O militante de esquerda desapareceu em fevereiro de 1974, após ter sido preso junto de um amigo chamado Eduardo Collier por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, no Rio de Janeiro.

“Não foram os militares que mataram, não. Muito fácil culpar os militares por tudo o que acontece”, disse. “Até porque ninguém duvida, todo mundo tem certeza, que havia justiçamento. As pessoas da própria esquerda, quando desconfiavam de alguém, simplesmente executavam”, acrescentou.

Após a repercussão negativa de sua declaração, de que sabia como ele havia desaparecido, Bolsonaro disse que não pretendia “mexer com os sentimentos” de Felipe e que não tem nenhum problema pessoal em relação a ele. O presidente, no entanto, acrescentou que ele está equivocado em acreditar apenas em uma versão.

“Não quero polemizar com ninguém, não quero mexer com os sentimentos do senhor Santa Cruz, porque não tenho nada pessoal no tocante a ele. Acho que ele está equivocado em acreditar em uma versão apenas do fato, mas ele tem todo o direito de me criticar”, disse.

Bolsonaro disse que recebeu detalhes de oficiais militares que atuavam nas regiões de fronteira sobre o desparecimento de Fernando. Segundo ele, a chegada do militante no Rio de Janeiro causou um mal-entendido na própria organização de esquerda.

“O pai dele, bastante jovem, foi ao Rio de Janeiro. Eu obtive essas informações com quem conversei na época, oras bolas. Eu conversava com muita gente na fronteira. E o pessoal da Ação Popular no Rio de Janeiro ficou estupefato. ‘Como pode esse cara vindo do Recife se encontrar conosco aqui?'”, questionou.

Fernando era estudante de direito, funcionário do Departamento de Águas e Energia Elétrica em São Paulo e integrante da Ação Popular Marxista-Leninista, dissidência do grupo de esquerda Ação Popular. Felipe tinha dois anos quando o pai desapareceu.

No relatório da Comissão Nacional da Verdade, responsável por investigar casos de mortos e desaparecidos na ditadura, não há registro de que Fernando tenha participado da luta armada.

O documento, inclusive, ressalta que Fernando à época do seu desaparecimento “tinha emprego e endereço fixos e, portanto, não estava clandestino ou foragido dos órgãos de segurança”.

jul
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Posted on 30-07-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 30-07-2019

Para Governo, disputa entre facções é raiz do massacre. Aos menos 16 vítimas foram decapitadas, na maior matança do ano em cadeias. Grupo de detentos será transferido

Gil Alessi

Ao menos 57 presos morreram nesta segunda-feira durante rebelião no Centro de Recuperação Regional de Altamira, a cerca de 800 quilômetros de distância de Belém (Pará). De acordo com a Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe), ao menos 16 deles foram decapitados durante o conflito entre facções rivais, a maior matança do ano nas cadeias do país. Os detentos chegaram a fazer agentes penitenciários como reféns, mas eles foram liberados após negociações com as autoridades. Parte das vítimas foi asfixiada depois que os presos atearam fogo a colchões dentro das celas, de acordo com as autoridades. A Susipe informou que a confusão começou por volta das 7h, durante o café da manhã. O Centro tem capacidade para 208 internos, mas contava com 311 pessoas presas no local.

Na tarde desta segunda-feira, o Ministério da Justiça e Segurança Pública ofereceu ao Governo do Pará vagas em presídios federais para a transferência dos líderes da rebelião. “O ministro Sergio Moro lamentou as mortes e determinou a intensificação das ações de inteligência e que a Força Nacional fique de prontidão”, informou o ministério em nota. Na mesma mensagem, Moro ressalta acompanhar a situação de perto e diz que conversou com o governador Hélder Barbalho “ainda na manhã desta segunda”. No início da tarde foi realizada uma reunião de emergência para tratar do assunto com o secretário Nacional de Segurança Pública Adjunto, Freibergue Rubem do Nascimento, entre outras autoridades. Segundo as autoridades paraenses, 46 presos vão ser transferidos, incluindo 16 detentos apontados como líderes das facções criminosas.O secretário do Sistema Penitenciário, Jarbas Vasconcelos Carmo, afirmou após o ocorrido que a unidade abriga duas facções, o Comando Vermelho, originário no Rio, e o Comando Classe A, um grupo local, que segundo Ponte Jornalismo é aliado da facção paulista PCC. Segundo ele, este último “rompeu seu pavilhão e rompeu o do Comando Vermelho, foi um ataque rápido e dirigido com o objetivo de exterminar os rivais”. Carmo lamentou o ocorrido, e chamou o ataque de “inesperado”: “Nós não tínhamos relatório da nossa inteligência aportando um possível ataque, desta magnitude”, completou o secretário.

Relatos iniciais dão conta de que a maioria das vítimas seria integrantes da facção fluminense. O secretário disse ainda que foram encontrados “corpos decapitados e também outros mortos por asfixia”. “Não tiramos todos [os cadáveres] porque o local ainda está quente. É uma unidade antiga, em formato de contêiner”, informou. Por fim, ele afirmou que uma vistoria preliminar na unidade realizada após o massacre não encontrou armas de fogo no local, apenas “estoques”.

Nos últimos anos a região Norte se tornou uma das principais linhas de frente de embate entre facções rivais, como o Primeiro Comando da Capital, criado em São Paulo, o Comando Vermelho, originário do Rio, e a Família do Norte, manauara. Como consequência, a disputa pelo domínio de rotas de tráfico e o recrutamento de novos filiados dentro dos presídios acabam levando a confrontos atrás das grades, que envolvem também grupos menores, como o Comando Classe A, do Pará. Há pouco mais de dois meses outro massacre prisional deixou 55 mortos no Amazonas em quatro unidades distintas. Não foi a primeira vez que o Estado viu um banho de sangue em seus presídios: em janeiro de 2017 foram assassinados 56 detentos no Complexo Penitenciária Anísio Jobim (Compaj), em Manaus.

A violência atrás das grades contrasta com a queda dos índices de letalidade fora delas. Nas ruas, acordos de paz firmados entre estes grupos criminosos na maioria dos Estados levaram à redução dos índices de homicídio no país, algo que já era verificado em São Paulo, onde o PCC tomou para si o papel de regular os assassinatos nas periferias do Estado. De acordo com dados do Monitor da Violência, a letalidade violenta no Brasil caiu 10% já em 2018, ano em que foram registrados 57.117 homicídios.

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