ARTIGO

Alaska e Bahia

Joaci Góes

Ao velho amigo e grande navegador, Aleixo Belov!

O conhecimento de outros povos e regiões do mundo desperta o desejo de comparações, como nos ocorre, agora, ao percorrermos a costa do Pacífico Norte, com ênfase no que estamos vendo no Golfo do Alaska, estado com cerca de um milhão e setecentos mil quilômetros quadrados, três vezes o Estado da Bahia, e mais do dobro do Texas, segundo maior estado americano. Com pouco mais de setecentos mil habitantes, tendo Anchorage como seu centro mais populoso, com pouco menos de trezentas mil almas, o Alaska é uma das áreas de menor densidade demográfica do Globo, com 0,4 habitantes por km², 65 vezes menor do que a da Bahia, com 26 habitantes por km². Apenas para efeito comparativo, Manhattan (Nova Iorque) tem uma densidade de 27 mil habitantes por km².
O rigoroso inverno do Alaska responde por sua baixa densidade populacional, apesar de ser a área de ocupação humana mais antiga do continente americano, segundo a teoria que explica a chegada do homem ao Novo Mundo, passando pelo estreito de Bering. Com todo o conforto, hoje disponível, com plena e generalizada calefação, acessibilidade midiática, de transporte e hospitalar, os que aí vivem hibernam, literalmente, ao longo dos sete meses invernais que alguns confundem com infernais. As rigorosas condições atmosféricas explicam o persistente êxodo de sua juventude. Para evitá-lo, as escolas passaram a oferecer bolsas de estudo universitário aos 10% de melhor desempenho, entre os concluintes de diploma de segundo grau que sobem a marcantes 91% da população acima de 25 anos, segundo percentual mais elevado entre as cinquenta unidades federadas do País. O Alaska desfruta, ainda, do nono mais alto IDH dos Estados Unidos.
Antes de integrar o território americano, o Alaska era parte da Rússia que o vendeu ao Colosso do Norte por pífios sete milhões de dólares, em 1867, valor que atualizado para os nossos dias, acrescido da rentabilidade financeira média do período, corresponderia a algo em torno de sete bilhões de dólares, mil vezes mais, nominalmente. Mesmo assim, essa compra foi a maior pechincha imobiliária de todos os tempos, comparável à aquisição que os americanos também fizeram do território da Luiziânia, das mãos dos franceses, então com área de 2.144.000 km², em 1804, pela bagatela de quinze milhões de dólares, e da Ilha de Manhattan, que Pierre Minuit, dirigente da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, fez por magros vinte e quatro dólares, em meados do Século XVII. Nada, porém, suplanta, no imaginário popular, o incomparável êxito imobiliário do desenvolvimento da capital do jogo, Las Vegas, num deserto do Oeste Americano.
Registre-se que, apenas, nos dois primeiros anos da corrida do ouro no Alaska, os americanos auferiram mais de dois bilhões de dólares, valores que seriam exponencialmente acrescidos com os ganhos oriundos da extração de madeira, de zinco, carvão, pedras preciosas, além de ouro e prata, gás natural e petróleo, exportação de peles, e produção de pescado, campo em que, relativamente ao salmão, o Alaska é o campeão, tendo Ketchikan como sua capital mundial. Tudo isso sem levar em conta o turismo florescente. O atual PIB do Alaska, cinquenta e dois bilhões de dólares, confere aos seus habitantes uma renda média anual de mais de setenta mil dólares per capta, dez vezes superior à renda média dos baianos.
A demorada operação de transporte de um enfermo, de alto-mar para o Continente, via helicóptero, obrigou o cancelamento da nossa primeira parada, Juneau, capital do Alaska, com pouco mais de 37 mil habitantes, cidade que disputa com Victória, no Canadá, o posto de segunda mais populosa urbe da Região. Seguimos, então, para Skagway, um pouco mais ao Norte, aldeia com menos de mil habitantes, vila museu que preserva as mesmas características do antigo centro do acampamento de cem mil mineradores que aí se instalaram, na corrida do ouro de 1898. Todas as casas da encantadora pequena aldeia, transformadas em centro de compras, a céu aberto, recebem, ao longo do ano turístico de cinco meses, 500 mil visitantes, que irrigam a economia local com cerca de duzentos milhões de dólares. No frontispício de uma delas, consta a seguinte e eufemística inscrição: House of negotiable affection! Ketchikan, parada seguinte, com dez mil habitantes, recebe dois milhões de visitantes em seu ano turístico de cinco meses! Salvador, com três milhões, recebeu no último verão oitocentos mil visitantes, e a Bahia, com quinze milhões, recebeu, apenas, dois milhões de turistas!
Na estação “quente” do verão, são poucos os que se aventuram nas mansas e límpidas águas do labiríntico e extenso Golfo do Alaska, formado por arquipélagos com centenas de ilhas dos mais diferentes tamanhos, interligadas por canais das mais variadas larguras, onde a fauna abunda, tendo a baleia como a presença mais ostensiva e encantatória, aos olhos, até, do viajor mais azarado. Ao longo dos mil quilômetros da costa baiana, o banho de mar é agradável nas vinte e quatro horas de todos os dias do ano.
Com águas tépidas e temperatura estável o ano inteiro, a Bahia, um dos territórios de mais alta claridade do Planeta, ponto de encontro da humanidade de todas as procedências, berço do Brasil em múltiplos domínios, apresenta um desempenho medíocre em qualquer de suas promissoras vertentes. Como explicar tão gritantes diferenças, entre uma Bahia que tem muito e arrecada pouco e um Alaska efetivamente rico e promissor, não obstante sua adversidade ambiental? Educação é a resposta. Excelente educação no Alaska. Péssima na Bahia.
A distância abissal entre essas duas comunidades, Alaska e Bahia, é uma prova adicional de que não avançaremos, reduzindo desigualdades, enquanto as autoridades baianas e brasileiras não se compenetrarem de que o dever principal dos governantes consiste em educar a sua juventude para os embates permanentemente postos pela sociedade do conhecimento em que estamos inapelavelmente imersos.
Fora daí é discurso populista e eleitoreiro para continuar iludindo a patuléia ignara.

Joaci Góes, escritor, é presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado originalmente nesta quinta-feira, 25, na TB.