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Posted on 22-07-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 22-07-2019

As duas faces de Ezra Pound

Poeta e caçador de talentos literários ficou deslumbrado pelos textos de James Joyce e lhe procurou editores. Na Segunda Guerra Mundial repetiu as maldades que os nazistas atribuíam aos judeus

 Mario Vargas Llosa
As duas faces de Ezra Pound
Fernando Vicente

A biblioteca do barco que me leva a Anchorage é pequena e pulquérrima. Com exceção de uma coleção de clássicos cuja letra microscópica os coloca fora de meu alcance, seus romances de aeroporto, de autores desconhecidos, me deixam frio, tanto como suas biografias de jogadores de beisebol, ases das corridas e do ringue, os livros de autoajuda e as fofocas de Hollywood. Mas, perdido nas estantes de Current Affairs encontro um livro de um jovem professor de Harvard, Kevin Birmingham, que é de muito proveito: O Livro mais Perigoso. James Joyce e a Batalha por Ulisses.

Versa sobre muito mais do que dizem seu título e subtítulo, ou seja, os contratempos que James Joyce passou com seus livros, pela cegueira e covardia dos editores do Reino Unido e dos Estados Unidos que, temerosos pela censura, as multas e os julgamentos, não se atreviam a publicá-los. O caso de Joyce é único: foi famoso antes de ter um só livro editado.

E, em boa parte, isso se deveu a esse extraordinário caçador de talentos literários que foi o poeta Ezra Pound. É bem conhecido o que ele fez por T. S. Eliot e o tempo que dedicou (renunciando ao que lhe tomava escrever) para corrigir A Terra Sem Vida. Mas provavelmente fez ainda muito mais para que o gênio de Joyce fosse reconhecido e, sobretudo, publicado. Soube dele pela primeira vez em 1914, pelo poeta W. B. Yeats, que lhe aconselhou que pedisse uma colaboração de Joyce a uma antologia dedicada à literatura irlandesa que Pound preparava. Ele o fez e Joyce, que era totalmente desconhecido, além de sua colaboração, lhe enviou vários contos de Dublinenses e fragmentos de Retrato do Artista quando Jovem, para os quais procurava editor. O deslumbramento de Pound ao ler esses textos está documentado em suas cartas. Como homem prático que era, de imediato inundou de relatórios os melhores editores ingleses e norte-americanos, exortando-os a publicar esses primeiros livros de Joyce que, lhes garantia, eram de altíssima qualidade literária e de uma grande originalidade. As respostas que recebeu são de dar nojo: nenhuma reconhecia o menor talento literário em Joyce. Afirmavam que haviam recusado seus livros porque eram mal escritos e pior organizados, tinham estruturas deficientes, além de vulgares e ordinários. Para que se arriscar a receber uma multa e processos por esses livros que não passariam por nenhuma censura se, além do mais, eram tão medíocres?

Desde o surgimento de ‘Ulisses’ todos os romancistas contemporâneos seriam discípulos de Joyce

Pound não deu o braço a torcer. Respondeu a todas essas objeções com argumentos literários, acusando os editores de cegos e medíocres e afirmando que o jovem escritor irlandês estava revolucionando a literatura de seu tempo e, em especial, a prosa literária da língua inglesa. Seu entusiasmo contagiou duas mulheres extraordinárias: Harriet Weaver, diretora de uma pequena revista literária inglesa, The Egoist, onde apareceriam os primeiros contos de Dublinenses e capítulos de Retrato do Artista quando Jovem, e Margaret Anderson, que em 1918 começou a publicar episódios de Ulisses na revista que dirigia nos Estados unidos, The Little Review. As duas enfrentaram ações judiciais por sua ousadia. Impertérritas, continuaram empenhadas em divulgar a obra de James Joyce e, inclusive, lhe enviaram dinheiro para ajudá-lo a sobreviver apesar de suas crônicas crises econômicas e do que gastava em oculistas.

Ao contrário dos editores da época, muitos escritores e livreiros (entre esses, a primeira editora de Ulisses, Sylvia Beach, a criadora da Shakespeare and Company, a livraria norte-americana de Paris) ficaram muito impressionados ao tomar conhecimento dos textos de Joyce. Ainda que provavelmente nenhum tenha demonstrado isso como Valery Larbaud (que seria o primeiro tradutor ao francês de Ulisses), que, após ler em The Little Review os fragmentos do grande romance de Joyce, lhe escreveu uma carta oferecendo-lhe sua casa (com uma criada) e sua grande biblioteca, além de sua célebre coleção de soldadinhos de chumbo. Joyce se mudou para lá com Norah, sua mulher, e seus dois filhos e por um bom tempo pôde continuar trabalhando com tranquilidade nesse romance que lhe tomaria mais de sete anos.

Na Itália uma das seitas mais radicais da ultradireita antidemocrática se chama nada menos do que CasaPound

Ainda que a primeira edição em livro de Ulisses tenha aparecido em Paris em 1922 graças a Sylvia Beach, somente 12 anos depois – 1934 – um juiz de Nova York – John Woolsey – em uma memorável sentença autorizou a circulação do romance, que apareceria pouco depois já na edição da Random House. A sentença de Woolsey foi reproduzida nessa nova edição e abriria desde então um precedente decisivo a todas as tentativas de proibir a circulação de obras “atrevidas e desavergonhadas” nos Estados Unidos. Uma sentença semelhante foi emitida na Inglaterra nesse mesmo ano.

Nos dois países a reação da crítica foi muito semelhante. Quase todos os que escreveram sobre o romance reconheceram – alguns a contragosto – o gênio de Joyce e as extraordinárias novidades que o livro trazia tanto no domínio da língua como na estrutura da narração desse dia tão minuciosamente descrito de Leopold Bloom. Mas quase todos eles denunciavam a vulgaridade atroz do palavreado “pestilento” com o qual se expressavam não só os personagens como o próprio narrador e, principalmente, no longo monólogo final de Molly Bloom, que alguns chamaram de “insolente” e até mesmo “demoníaco”.

Cedo ou tarde todos eles reconheceriam que o romance seria a partir de então algo radicalmente diferente graças a Joyce e a sua prodigiosa realização. Esse sucesso se deveu em boa parte ao instinto e aos esforços de Ezra Pound. No extraordinário ensaio que dedicou ao livro foi o primeiro a reconhecer que desde o surgimento de Ulisses todos os romancistas contemporâneos, incluindo os que nunca o leram, seriam discípulos de Joyce; e isso também reconheceu William Faulkner, outro romancista fora do comum que provavelmente nunca teria escrito sua saga sulista sem as lições que recebeu lendo Joyce.

O serviço que Ezra Pound prestou ao autor de Ulisses não consistiu somente em encontrar editores para seus textos; também conseguiu mecenas que o ajudaram economicamente e lhe permitiram, por exemplo, operar tantas vezes seu olho direito. Quando se conheceram pessoalmente, em Paris, em 1918, Ezra Pound já estava havia quatro anos multiplicando esforços para divulgar a quem chamaria de “o renovador da cultura do Ocidente”. Pound é a figura mais simpática que aparece no livro de Kevin Birmingham.

É difícil identificar esse homem generoso e altruísta com o Ezra Pound que, durante a Segunda Guerra Mundial, pedia na rádio italiana que os jovens soldados norte-americanos desertassem de suas fileiras e repetia todas as maldades que os nazistas atribuíam aos judeus. Por isso foi capturado pelo Exército norte-americano e levado por toda a Itália em uma jaula, como um louco furioso. Depois, nos Estados Unidos, um tribunal, para não o fuzilar por traição à pátria, o declarou louco. E passou alguns anos em um manicômio. Em nossos dias, na Itália fascista de Matteo Salvini, uma das seitas mais radicais da ultradireita antidemocrática se chama nada menos do que CasaPound. Georges Bataille escreveu que o ser humano é uma jaula onde habitam os anjos e os demônios. Em poucas pessoas isso foi tão evidente como no caso de Ezra Pound.

“El Ultimo Café”, Susana Rinaldi: No palco principal da múusica no Bahia em Pauta, uma das vozes mais expressivas do tango potenho – e um dos mais portentosos exemplares da canção das margens do Rio da Prata – para começar a chuvosa e fria semana de julho às margens da Baia de Todos os Santos.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

 DO CORREIO  DA BAHIA
(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

O presidente Jair Bolsonaro disse, neste domingo (21), que não existe constrangimento em sua visita à Bahia, marcada para esta semana, após criticar alguns governadores do Nordeste e se referir à região como “paraíba”. Em conversa com os jornalistas, na porta do Palácio da Alvorada, Bolsonaro afirmou que o Nordeste é “sua terra”.

“Bahia é Brasil, não tem problema”, disse. Está programada uma visita à cidade de Vitória da Conquista, na próxima terça-feira (23), para inaugurar o Aeroporto Glauber Rocha.  “Nordeste é Brasil, é minha terra. Eu ando em qualquer lugar do território brasileiro”, completou.

Questionado se deixaria de ir ao Maranhão, alvo principal do seu comentário que provocou polêmica, Bolsonaro disse que não. “Se tiver um evento [no Maranhão] eu vou, por que não?”.

Ancine
O presidente voltou a reforçar suas críticas ao financiamento de filmes classificado por ele como “pornográficos”. “O poder publico não tem que ficar se metendo em tudo. E outra coisa, dinheiro público para fazer filme pornô não. Não existe censura da minha parte. O que eu falei foi o seguinte: com dinheiro público não pode fazer esse tipo de filme.”

O presidente se referiu especificamente ao filme Bruna Surfistinha, lançado em 2011, e que conta a história de uma prostituta. Ele também disse que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) irá para Brasília ou será privatizada.

Bolsonaro defende o porta-voz: “Tem me tratado com muito zelo”

 

Perguntado neste domingo sobre as críticas de alguns aliados ao porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, Jair Bolsonaro disse que está satisfeito com o trabalho desenvolvido pelo general.

“Ele [Rêgo Barros] já tinha essa atividade na Secretaria do Exército. É uma pessoa que tem me tratado com muito zelo, muita preocupação”, afirmou o presidente.

Bolsonaro disse que Rêgo Barros o convenceu a participar dos cafés da manhã semanais com jornalistas.

“Tive críticas de várias pessoas, achando que eu deveria ignorar vocês. E até deveria. Você sabe o que acontece, muitas vezes não são vocês aqui na ponta, é no meio do caminho. Às vezes, a manchete é péssima, mas a matéria é boa. E estou naquela máxima: acima de tudo, vamos tocar o barco.”

Do Jornal do Brasil

 

GUSTAVO URIBE

O presidente Jair Bolsonaro voltou a criticar neste domingo (21) o diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Ricardo Galvão, e disse que não falará com ele.

Na chegada a um restaurante da capital federal, ele afirmou que escalará um ministro para tratar com o servidor sobre os dados de desmatamento que, segundo ele, não condizem com a verdade.

Macaque in the trees
Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/PR)

O presidente ressaltou que sua administração não quer fazer uma “propaganda negativa do Brasil”, já que isso prejudica a imagem do país no exterior.

“Eu não vou falar com ele. Quem vai falar com ele vai ser o ministro Marcos Pontes [Ciências) e talvez também ali o Ricardo Salles [Meio Ambiente]. O que nós não queremos é uma propaganda negativa do Brasil. A gente não quer fugir da verdade, mas aqueles dados pareceram muito com os do ano passado”, disse.

Para ele, a questão ambiental no exterior é uma “verdadeira psicose” e, em uma referência ao diretor, disse que não é justo que um brasileiro faça uma campanha contra o país.

“Se o dado fosse alarmante, ele deveria, por questão de responsabilidade e patriotismo, procurar o chefe imediato, no caso o ministro”, disse. “E não de forma rasa como ele faz, simplesmente coloca o Brasil numa situação complicada”, acrescentou.

Os dados preliminares de satélites do Inpe mostram que mais de 1.000 km² de floresta amazônica foram derrubados na primeira quinzena deste mês, aumento de 68% em relação a julho de 2018. 

O presidente afirmou que os dados do Inpe não correspondiam à verdade e sugeriu que Galvão poderia estar a “serviço de alguma ONG.”

Após o almoço, na chegada ao Palácio do Alvorada, Bolsonaro disse que enviará um projeto de lei ao Congresso Nacional para legalizar a atividade do garimpo no país. Ele, no entanto, não deu maiores detalhes.

“O garimpeiro é um cidadão que merece respeito, consideração, e obviamente a gente vai casar a exploração com a questão ambiental e botar um ponto final no mercúrio”, disse.

Do Jornal do Brasil

 

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, manifestou em mensagens receio de comentar o caso Flávio Bolsonaro para não desagradar o governo Jair Bolsonaro.

As mensagens trocadas entre membros da Lava Jato foram reveladas neste domingo (21) pelo site The Intercept Brasil. Elas fazem parte de um pacote que o site afirma ter obtido de uma fonte anônima e inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no aplicativo Telegram.

Macaque in the trees
O procurador Deltan Dallagnol (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Flávio é investigado no Rio de Janeiro devido a movimentações atípicas suas e de seu ex-assessor Fabrício Queiroz identificadas pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) no âmbito da Operação Furna da Onça, que mirava deputados estaduais.

A reportagem deste domingo mostra troca de mensagens entre Deltan e colegas em dezembro passado, quando a movimentação financeira de Queiroz veio a público, incluindo um repasse de R$ 24 mil para a atual primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Com o também procurador da Lava Jato Roberson Pozzobon, Deltan discute de que maneira deve se pronunciar a respeito do caso.

“Não podemos ficar quietos, mas é neste momento um pouco como com RD [Raquel Dodge, procuradora-geral]. Vamos depender dele pra reformas… Não sei se vale bater mais forte.”

A conversa não deixa claro se Deltan se refere a Jair Bolsonaro ou a Sergio Moro, que à época já tinha sido indicado para o Ministério da Justiça e sofria críticas por não se manifestar a respeito do caso Queiroz.

Pozzobon responde: “Pois é. Estou na msm dúvida”.

As mensagens são reproduzidas tal qual aparecem nos arquivos obtidos pelo Intercept, mantendo eventuais erros de digitação e normas da língua portuguesa.

Momentos antes, em chat coletivo com outros procuradores da força-tarefa de Curitiba, Deltan havia analisado o impacto do caso Queiroz sobre a Lava Jato e sobre Moro.

Disse que certamente seria questionado a respeito do caso Flávio em entrevistas e que não teria como desviar do tema, embora pudesse tratar do assunto em “diferentes graus de profundidade”.

“É óbvio o q aconteceu… E agora, José?”, escreveu Deltan, após enviar no grupo o link de uma reportagem na qual o presidente Bolsonaro justifica o cheque de R$ 24 mil repassado por Queiroz para Michelle como pagamento de uma dívida pessoal.

“Moro deve aguardar a apuração e ver quem será implicado. Filho [Flávio] certamente. O problema é: o pai vai deixar? Ou pior, e se o pai estiver implicado, o que pode indicar o rolo dos empréstimos? Seja como for, presidente não vai afastar o filho. E se isso tudo acontecer antes de aparecer vaga no supremo?”, disse Deltan, em referência à possibilidade de Moro ser indicado a uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal).

O coordenador da força-tarefa disse ainda que uma possibilidade seria Bolsonaro aparelhar a Procuradoria-Geral da República e especulou sobre qual seria a reação do atual presidente: “o quanto ele vai bancar a pauta Moro Anticorrupcao se o filho dele vai sentir a pauta na pele?”.

Pozzobon, nessa conversa, afirma: “Acho que Moro já devia contar com a possibilidade de que algo do gênero acontecesse. A questão é quanto ele estará disposto a ficar no cargo com isso ou se mais disso vir”.

Em outra conversa, em janeiro passado, Deltan encaminha um pedido de entrevista feito a ele pelo Fantástico, da TV Globo, sobre o foro especial. Dois procuradores falam sobre o problema de uma “bola dividida”, em referência a declarações sobre o caso do filho do presidente.

“O ruim é a bola dividida. Mas não dividir pode ser pior. Fica seletivo”, disse Antonio Carlos Welter.

Mensagens

Em 9 de junho, o site The Intercept Brasil divulgou pela primeira vez mensagens que mostram colaboração entre o então juiz Sergio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol quando ambos integravam a força-tarefa da Operação Lava Jato. 

Moro, que hoje é ministro da Justiça do governo Bolsonaro, foi o juiz responsável pela operação em Curitiba. Ele deixou a função ao aceitar o convite do presidente, em novembro, após a eleição.

O site informou que obteve o material de uma fonte anônima, que pediu sigilo. O pacote inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no aplicativo Telegram, de 2014 a 2018.

Em 23 de junho, a Folha começou a publicar, em parceria com o The Intercept Brasil, material com base nas mensagens trocadas entre os membros da operação.

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Posted on 22-07-2019
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Ricardo Manhães , no jornal mineiro

 

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Operação Unfair Play mira rota dos subornos após ex-governador Sérgio Cabral confessar que comprou votos para cidade sediar os Jogos Olímpicos em 2016

São Paulo

Mais de 40 bilhões de reais gastos com operação, obras de mobilidade urbana e a construção de arenas. Isenção fiscal para entidades privadas organizarem a Olimpíada. Subvenção de emergência do Governo federal para realização dos Jogos Paralímpicos. Quase 100 milhões de reais de custo anual para manutenção de instalações esportivas, parte delas com baixa utilização ou até mesmo abandonadas. A conta para que o Rio de Janeiro abrigasse o maior evento do esporte mundial segue em aberto, com mais da metade de seu rombo bancada pelos cofres públicos. Porém, além dos números oficiais, a fatura começou a ser paga bem antes da cerimônia de abertura em agosto de 2016 – mais precisamente, há uma década.

Essa é a suspeita levantada pela Operação Unfair Play (Jogo Sujo), um desdobramento da Lava Jato em parceria com autoridades francesas que apura indícios de corrupção na candidatura da cidade a sede olímpica. No início deste mês, o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que já foi condenado a 198 anos de prisão em nove processos criminais, admitiu pela primeira vez ter participado do esquema de compra de votos para que a capital fluminense ganhasse o direito de sediar a Olimpíada. “Pagamos pra ter a garantia dos votos”, revelou Cabral aos agentes encarregados da operação no Brasil.

De acordo com as investigações do Ministério Público Federal (MPF), endossadas pelo relato do ex-governador, Carlos Arthur Nuzman, que presidiu o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) por 22 anos e chefiou o Comitê Organizador Rio 2016, foi o elo entre políticos e dirigentes subornados do Comitê Olímpico Internacional (COI). O dirigente chegou a ficar preso por 15 dias em outubro de 2017, na primeira batida da Operação Unfair Play. Réu por corrupção passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, ele responde ao processo em liberdade, mas está proibido de deixar o país

Nuzman é acusado de mediar o acordo de repasse de propina com o senegalês Lamine Diack, então presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), que teria cobrado 2 milhões de dólares para assegurar nove votos ao Rio de Janeiro na disputa com Madri, Chicago e Tóquio. Segundo Sérgio Cabral, em agosto de 2009, Nuzman o informou que Diack seria um dirigente que “se abre para vantagens indevidas”. Pelo trato inicial, o senegalês compraria de cinco a seis votos – incluindo o dele próprio – subornando membros africanos do COI e outros ligados ao atletismo por 1,5 milhão de dólares. A partir daí entraria em cena o suposto operador financeiro do esquema, Arthur César de Menezes Soares Filho, o Rei Arthur.

Mesmo que de forma indireta, o esquema era irrigado com dinheiro público. Por meio das empresas de Soares Filho, que, em conluio com Cabral, fraudava licitações para fechar contratos bilionários com o Estado em favor de seus negócios, a propina chegaria às mãos de Lamine Diack. O ex-governador do Rio relatou que Leonardo Gryner, diretor de operações da Rio 2016, teria intermediado o pagamento a Papa Diack, filho do dirigente senegalês. “Se houve compra de votos, ele não participou”, afirma a defesa de Gryner, que, assim como Rei Arthur, considerado foragido pela Justiça brasileira, também é réu no processo. “Trata-se de uma organização criminosa extremamente complexa”, afirmou Fabiana Schneider, procuradora do MPF, ao detalhar a primeira fase da operação. “Cada passo foi cuidadosamente planejado para que os Jogos Olímpicos viessem para o Brasil.”

Nuzman e Cabral ao lado do ex-presidente da FIFA, João Havelange, na festa dos guardanapos.
Nuzman e Cabral ao lado do ex-presidente da FIFA, João Havelange, na festa dos guardanapos. Reprodução

Na noite de 14 de setembro de 2009, aconteceu em um salão nobre de Paris a festa que ficou conhecida como a “Farra dos Guardanapos”. Para investigadores da Unfair Play, aquela seria uma celebração antecipada pela escolha do Rio como sede da Olimpíada. Cabral, que havia desembarcado na capital francesa quatro dias antes do jantar de gala, conta que foi chamado por Carlos Arthur Nuzman e Leonardo Gryner após uma reunião no luxuoso Le Bristol, o hotel onde estavam hospedados, para falar sobre o acordo da propina. A novidade era que Lamine Diack pedia mais 500.000 dólares para conseguir até nove votos. O então governador não hesitou em dar seu aval. Passada a negociação, ele se esbaldaria na festa, ao lado de Nuzman, empresários e políticos, em que a empolgação dos convidados levou alguns de seus secretários de governo a desfilar pelo salão e posar para fotos com guardanapos amarrados na cabeça.

Lula fingiu que não ouviu

A confiança de que o Rio de Janeiro seria escolhido pelo COI ganharia ainda mais corpo quando uma transferência de 1,5 milhão de dólares e outra de 500.000 provenientes de uma conta internacional da empresa de Rei Arthur para contas de Papa Diack foram confirmadas, em 29 de setembro. Três dias depois, Sérgio Cabral estava presente na assembleia que definiria a sede dos Jogos, em Copenhague. Respirou aliviado ao perceber que o Rio havia sobrevivido à primeira etapa de votação, eliminando Chicago. Teve uma crise de choro e, ao ser amparado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Lula, diz ter confidenciado ao mandatário da República sobre o “arranjo político” para passar daquela fase. Segundo seu depoimento, Lula “fingiu que não ouviu” e tentou acalmá-lo. Cabral contou que o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, também soube do acordo, mas nenhum deles participou do esquema de suborno.

Hoje réu confesso e ouvido como testemunha nas investigações, Cabral mudou o discurso em relação ao adotado assim que a operação divulgou sua participação na compra de votos, em 2017. Na época, o ex-governador, que já estava preso, negou a existência do esquema, argumentando que a diferença de votos do Rio (66) para Madri (32), a outra finalista no processo seletivo, foi tão expressiva a ponto de transformar a acusação de pagamento de propina em “história fantasiosa”. No entanto, não fossem os nove votos comprados via Lamine Diack, a Cidade Maravilhosa, que somou 26 na rodada inicial de votação, poderia ter sido eliminada no lugar de Chicago, que levou apenas 18 votos. Depois de resistir à primeira fase, a que mais preocupava os mentores da candidatura brasileira, o Rio eliminou Tóquio – que futuramente seria escolhida sede dos Jogos de 2020 e também é investigada por suspeita de compra de votos – e, em seguida, Madri

A corrida pela propina repartida por Diack, de acordo com Cabral, teria beneficiado pelo menos dois campeões olímpicos: o ucraniano Serguei Bubka, do salto com vara, e o russo Alexander Popov, da natação. Em 1999, ambos passaram a integrar a comissão de atletas com direito a voto no COI, em um movimento da entidade para tentar tornar a eleição de sedes da Olimpíada mais transparente, que tinha sido afetada por denúncias de corrupção envolvendo a escolha de Salt Lake City para os Jogos de Inverno de 2002. Depois de se aposentarem do esporte, eles investiram na carreira como dirigentes. Bubka, inclusive, foi vice de Lamine Diack na IAAF, cargo que segue ocupando. “Rejeito completamente as falsas alegações do ex-governador do Estado do Rio de Janeiro, que atualmente cumpre uma longa pena de prisão por corrupção”, escreveu o ucraniano em suas redes sociais após o depoimento de Cabral. Ele alega nunca ter comentado sobre seu voto com Diack.

Já Popov afirma que não votou no Rio na assembleia de 2009. “Alguém está mentindo. E isso é muito grave”, disse o ex-nadador. Em 2017, a Comissão de Ética do COI afastou o namibiano Frank Fredericks, lenda do atletismo em seu país, sob o pretexto de “proteger a reputação do movimento olímpico”. Ele é suspeito de ter sido um dos votos comprados por Lamine Diack. Autoridades francesas rastrearam pagamento de 299.300 dólares feito por Papa Diack para uma conta vinculada a Fredericks em um paraíso fiscal. A transferência foi realizada no mesmo dia da eleição do Rio como sede olímpica, na capital da Dinamarca. O COI informou que está levantando mais informações sobre a denúncia, mas não respondeu se a Comissão de Ética, tal qual no caso de Fredericks, pretende abrir procedimento disciplinar para apurar eventuais desvios de conduta por parte de Bubka e Popov.

Negando ser o distribuidor da propina, Lamine Diack está em prisão domiciliar na França, enquanto seu filho, Papa, permanece foragido no Senegal. Ele presidiu a IAAF por 20 anos. Só deixou o cargo em 2015, ano em que a investigação francesa o apontou como figura central em outro escândalo, a tentativa de abafar o doping de atletas russos. Tão longevo quanto o senegalês, porém à frente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman continua afirmando inocência. “Ele [Nuzman] não pode se responsabilizar por ação autônoma de terceiros”, diz João Francisco Neto, um dos advogados do ex-dirigente, ressaltando que em nenhum momento Cabral menciona qualquer tipo de pagamento indevido a seu cliente. As defesas de Lula e Eduardo Paes também rechaçam a hipótese de que eles teriam conhecimento do esquema de compra de votos.

Em busca de novos indícios que reforcem o modus operandi detalhado por Sérgio Cabral, a Operação Unfair Play tentou revogar por duas vezes em instância superiores a soltura de Nuzman, mas não obteve sucesso. O MPF entende que a prisão preventiva do ex-presidente do COB se justifica pelo fato de ele já ter tentado, segundo interpretação dos procuradores, obstruir as investigações de ocultação de patrimônio com a declaração atrasada de bens encontrados em sua casa no dia da batida policial, incluindo 16 quilos de ouro e quase meio milhão de reais em espécie. De acordo com um cruzamento de dados da Receita Federal obtido pelas autoridades, o patrimônio de Nuzman apresentou crescimento de 457% ao longo de sua última década no comando do Comitê Olímpico.

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