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CRÔNICA

 

A menina Valéria não apagou suas velinhas

Janio Ferreira Soares

Começo este texto antes das 5 de manhã de quinta-feira, 18 de julho, e enquanto a descompassada polifonia de pardais não invade a calmaria, aproveito para ouvir uma afinada corujinha-do-mato, cujo canto só cessará quando a claridade revelar suas penas e, por tabela, esquentar meus dedos, coitados, mais uma vez em busca das palavras certas para seguir em frente.

Com o fuso horário de 3 horas a menos, é madrugada em San Salvador (capital de El Salvador), e deduzo que dona Rosa Ramírez deve estar tendo mais uma noite de agonia, ainda mais porque hoje, exatamente hoje, ela acordaria toda feliz, compraria um bolo e o enfeitaria com as duas velinhas que representariam a nova idade de sua netinha Valéria, que as apagaria de um sopro só. Mas, infelizmente, a vela que dona Rosa sempre acenderá nesta ex-data querida, terá uma finalidade oposta à celebração da vida. Explico.

No começo de abril, seu filho Óscar, de 25 anos, resolveu pedir asilo aos Estados Unidos. E aí, com uma carta de autoridades locais colocando-o como um perseguido pelas gangues do bairro, ele, esposa e filha pegaram a estrada, levando apenas uma pequena mala, documentos e uns trocados.

Depois de quase um mês de viagem, os três chegaram à fronteira de Tapachula, sul do México, onde receberam um visto que lhes permitiam viver por lá, até que o pedido fosse julgado. Como a decisão não saía, Óscar resolveu prosseguir, e em meados de junho eles chegaram a Matamoros, norte do México, a apenas uma ponte do Texas. Com a fronteira fechada e cansado de esperar, Óscar calculou a largura do rio e achou que acomodando a pequena Valéria dentro de sua camiseta, poderia, enfim, alcançar seu sonho a nado.

O tronco de algaroba que sustentava a base da fogueira acesa na noite de São João ainda fumaçava, quando vi a foto dos dois, afogados nas águas que apartam mundos. Imediatamente recordei Aylan, o menino sírio de 3 anos, morto em 2015 no mar Mediterrâneo. As coincidências das cores das roupas, a posição dos corpos e a semelhança dos sapatinhos são tantas que, fosse dado a crendices, diria tratar-se da segunda mensagem, das três que a humanidade tem direito antes do apocalipse.

A propósito, amanhã Juca faz 23. E como sua mãe também se chama Valéria, toda vez que vejo a foto de sua xarazinha dentro da camiseta do pai, me lembro do tempo em que, ainda adolescentes, sempre que parávamos o jipe nas madrugadas frias, eu a colocava dentro do meu surrado blusão atoalhado, e aí ficávamos aquecendo peles e chocando sonhos. A grande diferença é que, apesar dos ventos e redemoinhos, ainda estamos aqui, baleados, é verdade, mas suficientemente vivos, para poder ter a indescritível sensação de ver nossos filhos apagando as velas que enumeram os anos de suas vidas.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na ribeira baiana do Rio São Francisco

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