jul
15

DO BLOG O ANTAGONISTA

Sergio Moro é aplaudido em voo

 

Sergio Moro, sua mulher Rosângela e a filha do casal embarcaram ontem à noite para os Estados Unidos.

A família Moro, relata Lauro Jardim, viajou de classe econômica e foi aplaudida no voo.

O apoio ao ministro da Justiça ocorre em meio aos ataques à Lava Jato e aos vazamentos de mensagens roubadas dos procuradores da força-tarefa.

Opinião
COLUNA i

A capitã e o ministro

A capitã e o ministro
Fernando Vicente

Carola Rackete, a capitã do barco Sea-Watch 3, que fazia 17 dias estava à deriva no Mediterrâneo com 40 imigrantes a bordo resgatados no mar, atracou na madrugada da sexta-feira retrasada na ilha italiana de Lampedusa, apesar da proibição das autoridades desse país. Fez bem. Foi de imediato detida pela polícia italiana, e o ministro do Interior e líder da Liga, Matteo Salvini, se apressou a advertir a ONG espanhola Open Arms, que navega pelos arredores com dezenas de imigrantes resgatados no mar, de que “caso se atreva a chegar perto da Itália terá a mesma sorte que a jovem alemã Carola Rackete”, que poderá ser condenada a dez anos de prisão e a pagar uma multa de 50.000 euros [a acusação contra Rackete foi arquivada após a conclusão deste artigo]. O fundador da Open Arms, Óscar Camps, respondeu: “Da prisão se sai, do fundo do mar, não”.

Quando as leis, como as invocadas por Matteo Salvini, são irracionais e desumanas, é um dever moral desacatá-las, como fez Carola Rackete. O que deveria ter feito, a não ser isso? Deixar que morressem esses pobres imigrantes resgatados no mar e que, depois de 17 dias à deriva, se encontravam em condições físicas muito precárias, alguns deles a ponto de morrer? A jovem alemã violou uma lei estúpida e cruel, agindo de acordo com as melhores tradições do Ocidente democrático e liberal, as quais têm como antípodas precisamente o que a Liga e seu Matteo Salvini representam: não o respeito da legalidade, mas uma caricatura preconceituosa e racista do Estado de direito. E são precisamente ele e seus seguidores (numerosos demais, aliás, e não só na Itália, mas em quase toda a Europa) que encarnam a selvageria e a barbárie de que acusam os imigrantes. Não merecem outros qualificativos os que haviam decidido que, para não pisarem o sagrado solo da Itália, melhor seria os quarenta sobreviventes do Sea-Watch 3 se afogarem ou morrerem de doenças ou de fome. Graças à valentia e decência de Carola Rackete pelo menos estes quarenta infelizes se salvarão, pois já há cinco países europeus que se ofereceram para recebê-los.

L

Contra a imigração há preconceitos crescentes que vão alimentando o perigoso racismo que explica o ressurgimento do nacionalismo em quase toda a Europa, a ameaça mais grave para o mais generoso projeto em marcha da cultura da liberdade: a construção de uma União Europeia que no dia de amanhã possa competir de igual para igual com os dois gigantes internacionais, os Estados Unidos e a China. Se o neofascismo de Matteo Salvini e companhia triunfasse, haveria Brexits por toda a parte no velho continente, e seus países, divididos e antagonizados, teriam à espera um triste porvir a fim de resistir aos abraços mortais do urso russo (veja-se a Ucrânia).

Apesar de as estatísticas e as vozes de economistas e sociólogos serem conclusivas, os preconceitos prevalecem: os imigrantes vêm tirar trabalho dos europeus, trazem crimes e violências múltiplas, sobretudo contra as mulheres, suas religiões fanáticas os impedem de se integrar, com eles cresce o terrorismo, etcétera. Nada disso é verdade, ou, se for, está exagerado e adulterado a um extremo irreal.

Não serei o único a pedir que seja dado a esta jovem capitã o Prêmio Nobel da Paz quando chegar a hora

A verdade é que a Europa necessita de imigrantes para poder manter seu alto nível de vida, pois é um continente em que, graças à modernização e ao desenvolvimento, um número cada vez menor de pessoas precisa manter uma população aposentada mais numerosa e que continua crescendo sem trégua. Não só a Espanha tem as mais baixas taxas de nascimento no ano. Muitos outros países europeus seguem seus passos de perto. Os imigrantes, queiramos ou não, terminarão preenchendo esse vazio. E, para isso, em vez de mantê-los à margem e persegui-los, é preciso integrá-los, removendo os obstáculos. Isso é possível com a condição de erradicar os preconceitos e medos que, explorados sem descanso pela demagogia populista, criam os Matteo Salvini e seus seguidores.

Sem dúvida, a imigração tem de ser orientada para que beneficie os países que os recebem. Convém recordar que ela é uma grande homenagem que prestam à Europa esses milhares e milhares de miseráveis que fogem dos países subsaarianos governados por gangues de ladrões e, ainda por cima, às vezes, fanáticos que transformaram o patrimônio nacional na caverna de Ali Babá. Além de estabelecer regimes autoritários e eternos, saqueiam os recursos públicos e mantêm suas populações na miséria e no medo. Os imigrantes fogem da fome, da falta de emprego, da morte lenta que é a existência para a grande maioria deles.

Não é um problema da Europa? A verdade é que é, sim, pelo menos parcialmente. O neocolonialismo fez estragos no Terceiro Mundo e contribuiu em boa parte para mantê-lo subdesenvolvido. Claro que o erro é compartilhado com os que adquiriram os maus costumes e foram cúmplices dos que os exploravam. Não há dúvida de que, em última instância, só o desenvolvimento do Terceiro Mundo manterá em suas terras essas massas que agora preferem se afogar no Mediterrâneo a serem exploradas pelas máfias, a continuar em seus países de origem, onde sentem que não há mais a esperança de mudança.

Europa necessita imigrantes para poder manter seu alto nível de vida e uma numerosa população aposentada

O fundamental na Europa é a transformação da mentalidade. Abrir as fronteiras a uma imigração que é necessária e regulá-la de modo que seja propícia, e não fonte de divisão e de racismo, nem sirva para incrementar um populismo que no passado provocou consequências tão horrendas. É preciso recordar sempre que os milhões de mortos das duas últimas guerras mundiais foram obra do nacionalismo, e que este, inseparável dos preconceitos raciais e fonte irremediável das piores violências, deixou em todas as partes rastros das atrocidades que causou e que poderá voltar a causar se não o contivermos a tempo. É preciso enfrentar os Matteo Salvini de nossos dias com o convencimento de que eles não são mais do que o prolongamento de uma tradição obscurantista que encheu de sangue e de cadáveres a história do Ocidente, e foram o inimigo mais encarniçado da cultura da liberdade, dos direitos humanos, da democracia, nenhum dos quais teria prosperado e se espalhado pelo mundo se os Torquemada, os Hitler e os Mussolini tivessem vencido os Aliados na guerra.

Escrevo este artigo em Vancouver, uma bela cidade aonde cheguei ontem. Esta manhã tomei o desjejum em um restaurante do centro da cidade no qual travei conversa com quatro “nativos” de origem japonesa, mexicana, romena e, só o último deles, gringo. Os quatro tinham passaporte canadense e pareciam estar contentes com sua sorte e se entenderem muito bem. Esse é o exemplo a seguir na Europa, o do Canadá.

Temos de estar atentos ao julgamento de Carola Rackete e exigir que os juízes salvem a honra e as boas tradições da Itália, hoje pisoteadas por Salvini e a Liga. Estou certo de que não serei o único a pedir que seja dado a esta jovem capitã o Prêmio Nobel da Paz quando chegar a hora.

“Minha”, Silvio Cesar: Joia preciosa da  MPB, em poesia e musicalidade refinadas, aqui em duas interpretações magistrais : a  primeira, de Silvio Cesar e, a segunda, do próprio autor, Francis Hime. Tem outra, sensacional, de Elis Regina, mas fica para a próxima vez. Embarque na paixão e emoção sem limites, e boa viagem!!!

BOM D!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

 

 

jul
15

Os rastros do hacker

 

Os traques de Glenn Greenwald estão se esgotando.

A questão fundamental, agora, é prender os criminosos que roubaram as mensagens de Deltan Dallagnol.

A última reportagem da Folha de S. Verdevaldo pode ser útil para a PF, porque o jornal publicou mensagens trocadas entre 5 de dezembro de 2018 e 3 de março de 2019.

A invasão do telefone celular do procurador deve ter ocorrido imediatamente depois disso.

Em entrevista ao jornal ‘Clarín’, presidente disse que a postura adotada por Alberto Fernández é um sinal ‘de que teríamos um atrito’ no caso de sua eleição

Às vésperas de uma nova viagem para a Argentina, o presidente Jair Bolsonaro afirmou em entrevista ao jornal argentino Clarín que espera que o país vizinho “reflita muito” sobre a visita do candidato apoiado por Cristina Kirchner, Alberto Fernández, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Curitiba.

“O candidato de Cristina Kirchner não conhece a realidade brasileira. Aqui confiamos em nossas instituições. Lula foi condenado em três instâncias. Espero que a Argentina reflita muito sobre essa visita de seu candidato a Lula”, declarou o presidente ao jornal.

Alberto Fernández visitou Lula na Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba, no começo de julho. Em sua passagem pelo Brasil, ele disse que o recém-anunciado acordo de integração entre Mercosul e União Europeia (UE) pode ser revisto caso seja eleito. Também criticou a prisão do líder petista, afirmando que se trata de uma “mácula ao Estado de Direito”.

Bolsonaro deu entrevista ao Clarín no Palácio do Planalto. O presidente vai à Argentina na quarta-feira, 17, para participar de uma reunião do Mercosul.

Ao jornal argentino, o líder brasileiro voltou a reforçar seu apoio à reeleição do atual mandatário Mauricio Macri. O primeiro turno das eleições está marcado para 27 de outubro.

“O candidato de Cristina Kirchner disse que revisaria (o acordo)Mercosul-União Europeia . Isso vai trazer problemas econômicos para Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai”, afirmou.

“Eu não quero que a Argentina siga a linha da Venezuela. Por isso que apoio a reeleição de Macri. Na verdade, apoio apenas que Cristina Kirchner não volte ao poder” completou, garantindo que não irá interferir na eleição do país vizinho.

Bolsonaro disse ainda que a postura adotada até agora por Alberto Fernández , é um sinal “de que teríamos um atrito com Argentina que não queremos ter”. Segundo o presidente, as declarações do candidato de Cristina Kirchner sobre o acordo Mercosul-União Europeia e sua visita à Curitiba são sinais de que podem haver conflitos.

Perguntado sobre as consequências de uma piora nas relações com a Argentina no caso da derrota de Macri, Bolsonaro adotou outra postura e declarou que “a única rivalidade que Brasil tem com Argentina é no futebol. Somos irmãos”.

Fernández é pré-candidato do Partido Justicialista (PJ) e encabeça a chapa que tem Cristina como vice. A ex-presidente, que governou a Argentina entre 2007 e 2015, tornou-se senadora e responde a processos de corrupção.

jul
15
Posted on 15-07-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 15-07-2019

Do Jornal do Brasil

 

Estudo aponta que o limite máximo de turistas no local é de 89 mil por ano; Em 2018, local chegou a receber 103 mil

  O presidente Jair Bolsonaro disse que taxa cobrada para frequentar as praias de Fernando de Noronha é um roubo praticado pelo governo federal. 

A declaração foi dada em rede social na noite deste sábado (13). Bolsonaro postou um vídeo que mostrava a praia do Sancho, tida como uma das mais bonitas do mundo.

Na postagem, apresentou os valores cobrados para turistas brasileiros e estrangeiros, R$ 106 e R$ 210, respectivamente, válidos para dez dias. “Isso explica porque quase inexiste turismo no Brasil”, disse. No vídeo, um homem diz que a praia ficava vazia mesmo quando chegava ao limite permitido de turistas. 

“Vamos rever isso”, afirmou o presidente. Bolsonaro também pediu que práticas semelhantes em outros locais fossem denunciadas. 

Ele já havia afirmado que pretende ampliar a visitação turística em unidades de conservação do país.

Em fevereiro, o presidente do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), Adalberto Eberhard, exonerou o chefe do Parque Nacional Marinho do arquipélago, Felilpe Mendonça. 

Ao longo de 2018, Mendonça criticou o aumento vertiginoso no número de turistas em Fernando de Noronha, assim como a concessão de alvarás pelo governo de Pernambuco para a ampliação de pousadas. 

O arquipélago registrou novo recorde de visitantes no ano passado, chegando a 103 mil pessoas. Até 2013, o número não havia ultrapassado da casa dos 60 mil. 

O estudo de capacidade de carga do parque feito em 2009 aponta como limite máximo de turistas no arquipélago de 89 mil por ano. O governo de Pernambuco, contudo, vem ampliando ano a ano a autorização de voos diários a Noronha.

Do Jornal do Brasil

 

Em  novembro de 2017, a passagem por SP da filosofa e escritora americana Judith Butler, um dos principais nomes da atualidade na área de estudo de gênero, foi tumultuada.

Com cartazes pedindo “Menos Butler, Mais Família” e “Xô, Judith”, manifestantes se postaram em frente ao local onde a professora da Universidade de Berkeley participava de um debate e queimaram um boneco dela vestida de bruxa. Também foram protestar contra a acadêmica no aeroporto de Congonhas.

As manifestações, em parte, foram estimuladas por uma petição online que teve 300 mil assinaturas pedindo o cancelamento do evento. Quem organizou foi a CitizenGo, entidade pouco conhecida do grande público, mas bastante influente em círculos conservadores.

Surgida na Espanha em 2013 e com atuação em 50 países, a CitizenGo é uma entidade independente, mas próxima de movimentos de direita e da Igreja Católica.

No Brasil, é comandada pelo professor de História mineiro Guilherme Ferreira de Araújo, que tem relações com o Centro Dom Bosco, entidade de fiéis católicos.

Ele diz que, no episódio com Butler, não tem como se responsabilizar pelo tom agressivo dos manifestantes. “Os protestos não foram planejados nem coordenados pela CitizenGo. Ao que tudo indica, foi uma reação espontânea de grande parcela de um público que não aceita as ideias que ela promove”, afirma.

A CitizenGo é uma organização especializada em fazer pressão on-line em defesa de uma agenda conservadora, estratégia que sempre foi mais utilizada pela esquerda.

Promove petições em defesa da família e contra a chamada “agenda LGBT”, além de fazer oposição ferrenha a temas progressistas como teoria de gênero e ampliação do direito ao aborto. Também atua na defesa de cristãos que vivem sob ameaça em países em que essa fé é minoritária.

Sua carta de princípios tem 11 mandamentos. Entre eles, estão “direito à vida desde o momento da concepção”, “direito ao casamento, compreendido como a união entre um homem e uma mulher” e “direito a honrar Deus em público e em privado”.

O modus operandi da organização é bastante controverso, como mostra o episódio com Butler. Não foi o único caso polêmico recente.

Em abril deste ano, durante reunião da Comissão da ONU para Mulheres, em Nova York, a diplomata queniana Koki Grignon, uma das coordenadoras das discussões, reclamou de sofrer bullying virtual, ao receber milhares de mensagens de texto em seu celular. Era uma ação com a participação da CitizenGo, para que a comissão não tomasse decisões contrárias a valores da família.

Os temas das campanhas globais são variados (dentro, obviamente, do universo conservador). Vão desde uma petição para que o governo britânico proteja pregadores de rua cristãos até o apoio ao ensino domiciliar na Islândia. Uma das mais chamativas no momento pede o fim da “doutrinação LGBT na Disneylândia”, que já passa de 393 mil assinaturas.

A principal estrutura da CitizenGo fica na Espanha, onde tem cerca de 40 pessoas. Segundo balanço financeiro da entidade, sua receita global em 2017, último ano disponível, foi de R$ 9,1 milhões, toda reunida a partir de doações. A entidade diz ter 10,6 milhões de associados globalmente.

No mundo, sua principal liderança é o advogado espanhol Ignacio Arsuaga, que tem laços com a ultradireita em seu país.

No Brasil, o grupo tem como principal interlocutor na Câmara a deputada federal Chris Tonietto (PSL-RJ), advogada católica em primeiro mandato que em 2017 participou de uma ação contra o site humorístico Porta dos Fundos por um esquete em que satirizava a religião.

Apesar disso, diz Araújo, o CitizenGo “não tem políticos de estimação” e é uma entidade independente, seja de governos, empresários ou Igreja Católica.

“Entre os milhares de pessoas que apoiam as nossas campanhas, há quem professe outras crenças e até não crentes que defendem a vida, a família e as liberdades fundamentais”, declara.

No Brasil, já houve cerca de 120 campanhas online. Atualmente, são três as principais. Uma apoia o projeto de lei 4754/16, que visa coibir o ativismo judicial (visto como um indutor de ideias progressistas). Tem 23 mil assinaturas online.

Outra pede que o jesuíta José de Anchieta seja o patrono da educação brasileira, no lugar de Paulo Freire. Nesta, a meta é conseguir 20 mil assinaturas, e a CitizenGo já reuniu mais de 14 mil.

A mais popular é contra o projeto 672/19, que, segundo seus apoiadores, criminaliza a homofobia –mas que, na visão da entidade, promove uma “ditadura de gênero”. Mais de 34 mil pessoas já assinaram.

Segundo Araújo, a CitizenGo defende valores que têm ampla representatividade na sociedade. “Pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros é a favor da vida, da família e das liberdades fundamentais”, afirma.

Mas, prossegue ele, mesmo que não houvesse tanto apoio, a entidade seguiria fazendo campanha por valores conservadores. “Eles correspondem à própria dignidade da natureza humana”, diz.

jul
15
Posted on 15-07-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 15-07-2019



 

Ricardo Manhães, no jornal

 


Brasília
Logotipo do Telegram, o sistema utilizado pela força-tarefa da Lava Jato e que teve as mensagens vazadas pelo 'The Intercept Brasil'.
Logotipo do Telegram, o sistema utilizado pela força-tarefa da Lava Jato e que teve as mensagens vazadas pelo ‘The Intercept Brasil’. Wikipedia

Há uma máxima no jornalismo: “se alguém diz que está chovendo, e outra pessoa diz que não está, não é trabalho do jornalista citar as duas, é ir olhar lá fora”. Desde que o The Intercept Brasil liberou a primeira série de reportagens baseadas na troca de mensagens no Telegram entre membros da força-tarefa da Lava Jato, que revelaram o relacionamento no mínimo questionável entre o procurador Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro, a veracidade dessas informações vem sendo contestada.

De um lado, o site The Intercept afirma ter certeza de que o material é original, mesmo não divulgando a fonte do vazamento; do outro, procuradores que tiveram suas mensagens vazadas afirmam que elas podem ter sido adulteradas e que não têm mais acesso aos originais para poder checar. No meio deste impasse, restam dúvidas: é possível provar a veracidade das conversas divulgadas pelo The Intercept? Por que continuar publicando arquivos que não se pode comprovar?O EL PAÍS testou este impasse. Com o auxílio de uma fonte externa ao The Intercept, que prefere preservar sua identidade, tivemos acesso a parte de um arquivo de mensagens de um dos chats mencionados nas reportagens e comparamos seu conteúdo com o material disponibilizado pelo site. O conteúdo é idêntico. À parte imagens, que não estavam disponíveis nos documentos consultados, as informações são as mesmas em ambos os chats e mostram o dia a dia de conversas de trabalho entre procuradores, assessores de imprensa e jornalistas. A partir deste material, identificamos outras conversas com potencial de verificação.

Inclusive, mensagens do EL PAÍS com pedidos de informações enviados à Lava Jato puderam ser identificadas. É o caso de um pedido feito pelo repórter Gil Alessi por email no dia 2 de março de 2017 para a assessoria do Ministério Público Federal do Paraná (MPF-PR), e que foi compartilhado em um dos chats do Telegram por um assessor de imprensa.

14:46:37 [encaminhado por] um dos assessores para um dos chats da comunicação

Caros, boa tarde. Estou escrevendo sobre os acordos de colaboração firmados no âmbito da Lava Jato, e alguns especialistas que eu ouvi criticaram alguns pontos dos acordos que têm sido firmados. Gostaria de uma posição da Procuradoria com relação a eles. – As penas aplicadas aos delatores têm sido, em alguns casos, inferiores à redução de 2/3 prevista na lei de colaborações. – Especialistas criticam as cláusulas de desempenho e a manutenção dos ativos obtidos de forma ilegal pelos colaboradores. Meu deadline é hoje até às 18h. Obrigado! Gil Alessi EL PAÍS

Ao ter acesso aos arquivos do The Intercept, vemos que a consulta ao material é artesanal, e depende de busca por termos em diversos chats – o site não mapeou o número total de documentos nem de chats disponíveis. A quantidade do material faz com que o processo de entrevista dos dados seja lento e bastante trabalhoso. A maioria das conversas traz apenas conteúdos corriqueiros que, certamente, não geram interesse público, logo, não haveria motivo para terem sido inventadas.

O EL PAÍS acompanhou o percurso de algumas destas conversas, cujo conteúdo foi possível checar com fonte externa ao The Intercept, para tentar verificar possíveis fraudes. Por exemplo, quando a Lava jato fez quatro anos, o procurador Deltan Dellagnol conversou com assessores de imprensa da força tarefa sobre material a ser divulgado. Um esboço de texto foi preparado e compartilhado em alguns chats com pessoas de interesse, como assessores e jornalistas.

11 Mar 18

* 20:52:36 Enviado por Dallagnol para um dos chats da assessoria de imprensa:

Ajustei 4 para 400 caracteres. Envio em ordem de preferência, caso possam fazer só um. Se puderem fazer os 4 e me mandarem, ainda que não postem, agradeço: 1) A corrupção bilionária na Petrobras é a ponta do iceberg que a Lava Jato descobriu: políticos e partidos desonestos escolhem para chefiar órgãos federais, estaduais e municipais pessoas incumbidas de arrecadar subornos. Elas fraudam licitações em favor de empresas que pagam propinas. O dinheiro enche os bolsos e financia caras campanhas eleitorais, garantindo a reeleição dos corruptos. É um círculo vicioso […] 3) No dia em que Paulo Roberto Costa sentou na nossa frente, a Lava Jato se transformou. Ao mesmo tempo, mudou o modo como nós víamos o mundo. A corrupção política não era um desvio do sistema, mas era o modo de fazer o sistema operar. O desafio que estava se colocando, para nós e para a sociedade, era muito maior do que qualquer um poderia ter imaginado.

No dia 29 de novembro de 2018, o texto discutido entre o procurador e a assessoria de imprensa se tornou um artigo na Folha de S. Paulo. Com o título “Deltan Dallagnol: Quatro anos de Lava Jato e eleições de 2018”, o início do artigo é praticamente idêntico a um trecho que foi discutido no chat com a comunicação. “No dia em que Paulo Roberto Costa sentou-se em nossa frente, em agosto de 2014, a Lava Jato se transformou. Ao mesmo tempo, mudou o modo como víamos o mundo. A corrupção política não era um desvio do sistema, mas o modo de fazer o sistema operar. Ficou claro que parte relevante das oligarquias política e econômica se uniu para saquear os brasileiros. O desafio, para nós e para a sociedade, era bem maior do que poderíamos imaginar”.

Umtrecho, o artigo destaca que “a corrupção bilionária na Petrobras é apenas a ponta do iceberg que a Lava Jato descobriu: políticos e partidos desonestos há anos têm escolhido pessoas incumbidas de arrecadar subornos para chefiar órgãos federais, estaduais e municipais. Elas fraudam licitações em favor de empresas que pagam propinas”.

Auxílio-moradia

Também acompanhamos um debate ocorrido em um momento anterior, no dia 5 de março de 2018, entre membros da força-tarefa, que movimentou nove chats de conversas aos quais o EL PAÍS teve acesso. Naquele dia, a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo afirmou que Dallagnol recebia 6.659,73 reais de verbas indenizatórias por mês, incluindo auxílio-alimentação, auxílio-transporte e auxílio-moradia.

Apresentamos trechos das conversamos a dois profissionais que debateram o assunto com Dallagnol:   Bruno Brandão, diretor executivo da Transparência Internacional Brasil e Michael Freitas Mohallem, professor da FGV Direito Rio. Por decisão editorial, não publicaremos os diálogos, apenas um recorte do que foi falado pelo procurador (veja abaixo), para preservar a privacidade das pessoas que tiveram informações vazadas.

5 Feb 18

Enviado por Dallagnol para Michael Freitas Mohallem, da FGV Rio, sobre conversa com Bruno Brandão, da Transparência Internacional

* 21:45:24 Deltan: Michael, segue msg qwue mandei pro Bruno, para delimitar o debate em termos que me parecem mais justos.

* 21:45:24 Deltan: Bruno, consegui a nota técnica que aponta o valor dos subsídios reajustados pela inflação (IPCA). Seriam hoje de R$ 46 mil. Envio a nota que demonstra ano a ano a seguir. Então, é sim possível reconhecer que o caminho que foi encontrado para assegurar a garantia de irredutibilidade de subbsídio e reajuste anual pela inflação, ambas constitucionais, é questionável. Mas, caso reconheça esse direito constitucionalmente estabelecido – que me parece um direito republicano e democrático, como colocou Moro -, o subsídio hoje deveria ser de 46 mil, quando é de 33,7 mil – uma diferença de 12,3 mil. Ainda que descontado o imposto de renda, que é deve ser descontado evidentemente, e aí que fiz o raciocínio hoje, a defasagem de valor material é de 8.9 mil (líquido, após descontado o IR), quando o auxílio moradia (líquido, pois não há IR) é de 4,3 mil. Assim, ainda que tomado o auxílio-moradia e outros benefícios do MPF, eles estão aquém do direito assegurado.

Brandão informou por mensagem: “com respeito especificamente ao diálogo enviado, confirmo que ocorreu”. Já Mohallem afirma que tentou baixar suas mensagens antigas do Telegram – tanto em seu celular, quanto no computador –, para comparar os conteúdos, porém, as conversas com Dallagnol já não existiam. Sua hipótese é que conversas particulares foram apagadas, quando o interlocutor deletou a conta. “Eu tive várias conversas com Deltan e outros procuradores, porque escrevi artigos sobre a inconstitucionalidade do auxílio moradia. Mas não tenho como confirmar que este diálogo foi feito, ao menos, não num contexto importante como este, de investigação. O que eu posso dizer com toda certeza é que já tive conversas com ele. Ele foi um dos 200 colaboradores em um projeto acadêmico importante que eu fiz”, afirma.

O professor alerta, no entanto, que tentativas de checar essas informações podem criar conflitos de interesse. “Não acredito que a privacidade se sobrepõe ao interesse público, mas o fato desse material ser repassado para terceiros, mesmo que a finalidade seja nobre, pode ter um custo para a privacidade”, diz. “Ter minhas conversas particulares circulando entre jornalistas mostra falha no compromisso assumido por quem detém essas informações.”

  • Arquivos