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Postado em 11-07-2019
Arquivado em (Artigos) por vitor em 11-07-2019 00:15

Do Jornal do Brasil

 

Transitou por todas as mídias e foi um dos pioneiros na internet

  

Um jornalista completo

GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Paulo Henrique Amorim era um jornalista completo. Transitou por todas as mídias (talvez, com exceção do rádio) e foi um dos pioneiros na internet. Brilhou em revistas, jornal e TVs, além do seu imperdível “Conversa Afiada”. Tive o grande prazer de trabalhar com ele no JORNAL DO BRASIL, fazendo a transição da editoria de Economia, quando substituiu o Noenio Spínola, em fins de 1976, vindo de uma carreira vitoriosa na Editora Abril, onde passou pela Veja e criou a revista Exame. Já o conhecia do Colégio de Aplicação, da então UNB, no começo dos anos 60, o que foi um quebra-gelo na apresentação dele a mim pelo Noenio.

Trouxe sua equipe (Flávio Pinheiro, José Paulo Kupfer e Roberto Benevides), mas após a saída de um deles, me convidou a voltar a ser um dos subeditores. Foi um período muito interessante. Em fins de 1979 foi convidado para a Chefia da Redação e ressuscitou o orgulho de se trabalhar no JB, que tinha ido ao chão no vergonhoso episódio da bolinação do Isaac Piltcher em uma das recepcionistas do JB, num sábado, com a redação meio deserta. A redação não tinha tantas mulheres como hoje, mas a reação da Direção, demitindo as recepcionistas e preservando o Isaac, causou revolta e depressão geral.

Macaque in the trees

Paulo Henrique Amorim (Foto: Reprodução TV)

Foram vários Prêmios Esso na sua gestão. Na Economia, ganhamos, em 1980, o prêmio em equipe pela cobertura do Caso Vale (Patrícia Saboia, Octávio Costa, Ângela Santâmgelo, Terezinha Costa, Silvio Ferraz e eu, desculpem se esqueci alguém). Mais adiante veio a grande cobertura do Caso RioCentro, com o atentado de 30 de abril de 1981, quando mobilizou um grupo formado pelos saudosos Fritz Utzeri, Heraldo Dias, Sérgio Fleury e os craques da Geral do JB. Prêmio Esso com honra e a volta do orgulho.

Tinha deixado o JB em fins de 1980, por divergências com o editor de Economia (à revelia do PHA, que tentou de todos os meios me manter no JB, inclusive me oferecendo a coordenação da Economia em Brasília). Saí, fui para a Veja, no Rio, em janeiro de 1981, a convite do Silvio Ferraz, que foi ser editor de Economia, levando o Octávio Costa. No Rio, dividiria a cobertura com o Ancelmo Gois. O estilo Veja nunca me encantou. E o desencanto veio com três semanas. Pedi demissão. Silvio e Ancelmo apelaram para esperar (Ancelmo estava com viagem marcada para a Alemanha em fevereiro e pediu para eu segurar as pontas até sua volta). Me levaram para acompanhar fechamentos em São Paulo. Acabei saindo em março, recebendo tudo, como se demitido fosse. Devo a isso a piscininha lá do sítio… Fui trabalhar full time no Relatório Reservado, do Luiz Alberto Bittencourt, que nos deixou ano passado.;

No fim de 1981, Paulo Henrique (nunca o chamei de Paco, apelido que veio da Exame) é guindado a editor geral do JB, substituindo a Walter Fontoura, que vira Diretor do Jornal. Em novembro, duas semanas antes da perda dos meus pais e meu irmão mais novo, PHA me convida para voltar ao JB como editor de Economia, com a proposta de popularizar o noticiário e escrever para “a Tia do Grajaú” e traduzir o ‘economês’. Tinha acabado de casar pela 2ª vez e estava balançado entre continuar no RR, com mais profissionalismo e melhor remuneração (sugeri fechar o jornal “Repórter”, que a Margem Editora, da qual os colaboradores passaram a ter 5%, como eu, bancavam. Luizinho aceitou a sugestão, mas Marcos Dantas insistiu na candidatura a deputado federal pelo Maranhão, na chapa de Renato Archer (triturado pelo clã Sarney, em 1982).

A volta ou não ao JB foi o tema da última conversa como meu pai, no fim da manhã do dia 29 de novembro (o acidente foi por volta das 20 hs). Alguns anos depois, ao assistir, em “Cinema Paradiso”, à cena da despedida do garoto do pai adotivo na estação do trem, caía em prantos. Revi o filme no cinema mais duas vezes e em todas as exibições chorava, Até mesmo na TV, a emoção vinha à tona. Mesmo ouvindo o tema musical, não me segurava.

Na editoria de Economia mudamos o conceito da cobertura. Criamos a seção Derrote a Inflação e veio a grande crise da dívida externa, a partir de setembro de 1982. Nunca me esqueço quando entrei na sala do Paulo Henrique e lhe disse: “nunca imaginei que tyeria essa manchete, mas ‘O Brasil quebrou” (quebraria muitas vezes mais…). Ele me disse que tinha havido um acerto dos donos de jornais (salvo raras exceções) com o governo Figueiredo para segurar o noticiário, não dando manchetes em off até as eleições de outubro de 1982. Delfim era ministro do Planejamento, Galvêas, da Fazenda, e Langoni, presidente do Banco Central. Foi o que fizemos, com o trabalho incansável de Kristina Michaelles, escolhida por mim para cuidar exclusivamente da crise da dívida, já que a Ângela teria muito trabalho com outros ajustes exigidos pelo FMI. Dávamos manchetes da renegociação do México (que declarara moratória em fins de agosto) e colocávamos manchete de Brasil na metade da página (deixando as conclusões aos leitores).

Caso Proconsult e as Diretas Já

Aqui um parêntesis especial para a clarividência do Paulo Henrique Amorim em preparar o JORNAL DO BRASIL para a eleição de 1982. Seria a primeira, sob o regime militar, com eleição direta para governador. E o Colégio Eleitoral, formado por deputados federais, senadores eleitos e biônicos e prefeitos de grandes capitais também escolhidos indiretamente, iria escolher, por voto indireto, o sucessor do general João Batista Figueiredo.

Muita gente credita quase 100% à Rádio Jornal do Brasil AM, na época dirigida pelo Pery Cotta, e com Procópio Mineiro no comando da redação, a denúncia do Caso Proconsult, a tentativa de fraudes na eleição de Leonel Brizola. É quase 100% verdade. Aqui vai um pouco dos bastidores do que aconteceu no JORNAL DO BRASIL.

PHA montou uma força tarefa especial para a cobertura das eleições, com gente da Política, da Geral e me requisitou a Ângela Santâmgelo (era subeditora, junto com Luiz Gonzaga Larqué e Jefferson Barros) e ainda agregou o jornalista Pedro do Couto para acompanhar as pesquisas contratadas previamente com o Gallup, de Geraldo Mateus.

Com base nessas pesquisas, encerradas dois ou três dias antes da votação, sabíamos que Brizola ganharia de Moreira Franco por 32% e uns quebrados a 28% e uns quebrados para o candidato do PDS, Moreira Franco. Cumprindo o esquema, jornalistas foram espalhados na sexta-feira nas principais zonas eleitorais da capital, Baixada Fluminense e Interior. E os digitadores da Informática do JB iriam processar as informações a partir das 18 horas, como acertado previamente.

Mas a liberação dos subtotais atrasou (a gestão do caso Proconsult, de Simão Brayer, já estava em curso, com a liberação mais aceleradas dos dados do interior onde Moreira era mais forte e o retardo da liberação da votação na capital e municípios onde Brizola era líder disparado). O diretor de Informática do JB, Tadeu Lannes, libera os digitadores entre 18:15 e 18:30. Quando os resultados parciais começaram a ser repassados pela equipe de repórteres presentes nas Zonas Eleitorais, não havia quem processasse as informações.

Paulo Henrique ficou possesso. Todo o trabalho de quatro ou cinco meses iria por água abaixo. Desesperado, soube que a Rádio JB, cuja redação ficava no mesmo 6º andar da redação do jornal, estava processando as informações em calculadoras de mão, não teve dúvidas. Passou a processar as informações nas mesmas calculadoras. Para resolver a questão, marcou-se reunião extraordinária na manhã de sábado na sede da Avenida Brasil, 500, com a presença do Tadeu Lannes e diretores do JORNAL DO BRASIL.

Nas bancas, as manchetes dos jornais eram contrastantes: enquanto o JB apontava, junto com a Rádio JB AM, Brizola na frente, O Globo e O Dia davam os resultados do esquema Proconsult, com o tal do “diferencial Delta” que atribuía mais peso aos votos do interior e punha Moreira na liderança. Enquanto a reunião transcorria, na qual Tadeu Lannes dizia que o JB estava cometendo grande erro (depois, descobriu-se que ele estava dentro do “esquema Proconsult”) Brizola dava entrevista à Rádio JB AM e o economista Cesar Maia (que viria a ser secretário de Fazenda de Brizola) confirmava os cálculos.

No final daquela tensa apuração, a pesquisa Gallup/JB errou apenas nas casas decimais. Paulo Henrique Amorim tinha introduzido o sistema de correções de erros no noticiário do jornal com certo destaque. Sugeri uma publicação para zoar a concorrência: “O JORNAL DO BRASIL Errou”. Tinha previsto (não lembro mais os números corretos) Brizola 32,68% X Moreira 28,70%. Deu Brizola 32,40% e Moreira 28,98% (como disse não lembro os números, mas a margem de erro foi menos de um ponto percentual). Foi um sucesso, ganhamos até o prêmio de marketing de oportunidade dos publicitários cariocas.

Depois da eleição, com as urnas fechadas, Galvêas anuncia na Suíça que o Brasil iria ao FMI. Fui cobrir a reunião com mais de 300 banqueiros credores no Hotel Plaza, na véspera do Natal de 1982 (dia 20), dividindo a cobertura com o Fritz Utzeri, que tinha virado correspondente em Nova Iorque em maio-junho daquele ano. Meus textos foram comprados pelo Estadão, dirigido pelo Miguel Jorge, amigo do PHA, já que o Pimenta Neves, então correspondente em Washington, tinha sido assaltado à mão armada com a família, em casa, e não foi à reunião, na segunda-feira.

O resultado é que o JB (em duas linhas na capa) e o Estadão saíram com manchetes de “Renegociação”, enquanto os demais falavam em “refinanciamento da dívida”, eufemismo usado pelo Delfim. Fritz e eu soubemos de tudo só no dia seguinte, quando PHA contou do apelo do Miguel para comprar nosso material e pediu ampliação, que o Estadão também daria. Não deu. Soube ao voltar ao Rio, dia 23, que o Delfim pressionou o Estadão para manter a versão do refinanciamento e fez o mesmo com o JB, chegando a pedir minha cabeça. Paulo Henrique Amorim e o Dr. Brito, me seguraram.

A “malufada” derruba PHA

Essa grande fase do JB acabou em setembro de 1983, quando ele foi demitido. Praticamente todos os editores rodaram e o JB malufou, perdendo credibilidade. Fui para O Globo, que começou uma discreta oposição ao Figueiredo e foi “trocando de farda”. PHA foi brilhar na Globo, sendo depois correspondente em Nova Iorque.

Esse período da “malufada” do JB dá início à campanha das Diretas Já, que a Folha, que era mais à direita e sem o prestígio do Estadão, soube explorar muito bem. Isso mudou a política e o jornalismo brasileiro. A mudança de protagonismo dos quatro grandes jornais brasileiros tem muito a ver com o posicionamento de cada um deles na eleição de 1985.

Pelas regras do Colégio Eleitoral, criado no Pacote de Abril de 1977, o partido oficial, o PDS, tinha ampla maioria e Maluf ou o então ministro do interior, que era o coronel Mário Andreazza, ex-ministro dos Transportes de Costa e Silva e Médici, estaria eleito. Mas o PDS rachou e surgiu o PFL, com o ex-presidente do PDS, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães à frente.

Em seguimento à campanha da “Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita” surge a campanha das “Diretas Já”. Nunca tive a ilusão de que votaria para presidente, mas tive o pressentimento que Paulo Salim Maluf não chegaria lá. Enquanto Estadão e JB ficaram mais com Maluf, O Globo se despia da farda e apoiava discretamente Aureliano Chaves, vice de Figueiredo e não dava espaço à campanha das Diretas Já (sem imagens de comícios na TV) e com discreta cobertura na editoria de Política, comandada por Luiz Alberto Bittencourt, que fora convidado por Evandro Carlos de Andrade para a guinada discreta de o Globo.

Estive em O Globo, como subeditor de Economia e depois como responsável pela Coluna Panorama Econômico, que fazia praticamente sozinho, de fins de 1983 a março de 1986. Entrei de férias e pedi demissão em março de 1986, em pleno Plano Cruzado, porque já tinha um programa exibido na TV Bandeirantes, que exigia mais dedicação “Ação e Investimento” e voltei a colaborar mais diretamente com o Relatório Reservado, que larguei definitivamente em 1988. No fim desse ano retornei ao JB como editorialista, ficando até maio de 2001, paralelamente à Globonews.

A Folha de S. Paulo soube fazer muito bem o marketing da redemocratização do país. As crises do JB e do Estadão começaram aí.

Devo, por último, agradecer as generosas declarações que Paulo Henrique Amorim escreveu em seu depoimento sobre a volta do JORNAL DO BRASIL, às bancas, em fevereiro de 2018, quando Omar Resende me chamou para ser diretor de redação e montar a equipe (em abril, muito cansado, passei o bastão a Toninho Nascimento, ficando na condição de vice-presidente editorial e responsável pela editoria de Economia). Escolhi PHA e Alberto Dines (que era editor chefe do JB quando lá iniciei a carreira de foca, em agosto de 1972), por serem dois paradigmas, ao lado de Wilson Figueiredo, de jornalistas que me inspiraram nessa carreira de 47 anos, que vai sendo pavimentada de grande saudade.

Nosso último encontro, emocionado, foi na sala do Catito, na redação do novo-velho JB, na Rio Branco, 157, quando veio acompanhado da Geórgia.

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