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CRÔNICA

 

 

                                                                               Junho

 

                                                                             Janio Ferreira Soares

Depois de vários dias de uma chuva fina molhando roças e pardais, a aridez de minha aldeia finalmente adquire as cores das matas que me encantavam nos velhos filmes de Mazzaropi.

Nas águas frias do lago em frente patos se divertem e me lembro do “quém, quém, quém” daquele outro que, alegre e cantante, atraiu um marreco sorridente, um cisne e um ganso, formando assim um desafinado quarteto que até hoje acompanha a voz nasalada de um certo João pelos alto-falantes do mundo.

Daqui de onde estou – exatamente em cima do Riacho da Morena, divisa de Paulo Afonso e Nova Glória -, tanto posso escutar foguetes explodindo em homenagem aos santos de junho, quanto acompanhar o helicóptero da Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco) sobrevoando lentamente algumas partes do rio, acredito, avaliando se o ataque das baronesas também pode prejudicar o desempenho das barragens, já que, aos ribeirinhos, só resta manter a esperança nos deuses dos ventos do Norte e torcer para que eles mandem suas raras aragens que, por sorte, libertarão nossas margens dessa cruel e asfixiante dor.

O termômetro pendurado no armador da rede marca 19 graus e o Sol começa a mostrar sua ponta lá pras bandas das Alagoas. Ao redor, sons de machados cortando lenhas sinalizam que, em breve, as primeiras fogueiras já estarão queimando em homenagem a São João. Escaldados, Júlio e Edgard começam a rebeirar pelos cantos, como se adivinhando os estampidos dos fogos que logo mais os farão amuar. Já a infante Amora, coitada, enfim padecerá sob as águas do rio Jordão.

Os jornais do dia se abrem na tela e me dizem que o Irã derrubou um drone americano e que isso pode mudar o mundo; que Flávio, um dos filhos de Maluf, foi condenado a oito anos de reclusão por lavagem de dinheiro em 2006; que outro Flávio, o Bolsonaro, continua tentando impedir que seu sigilo bancário seja quebrado; e que Moro e Neymar seguem encrencados por atos que eles imaginavam sigilosos, o que prova que nenhum dos dois conheceu a genialidade do profeta Belchior, que ainda nos tempos em que a Apple era apenas uma banda de maçã rodando no meio dos discos dos Beatles, já dizia que nada é secreto, nada é misterioso.

Pra terminar, aproveito o silêncio que precede os pipocos e, antes do forró de Luiz, coloco Jorge Mautner declamando os versos de A Guerra dos Meninos – com o nanananana de Nando Reis ao fundo -, provando que certas canções de Roberto funcionam melhor se narradas pela inconfundível voz deste genial filho do holocausto, ainda mais quando acompanhadas por solos de trompetes me jogando num galope ligeiro ao lado do bom, do mau e do feio nos ensolarados cânions da vida.

A pamonha, a canjica, o quentão e, claro, o pantoprazol de 40 mg são por minha conta. Anarriê!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na barranca baiana do Rio São Francisco

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