ARTIGO

Uma aposta muito arriscada

Joaci Góes

Aos queridos amigos Aldira e Reverendo Edésio Chequer!

Quem vem acompanhando a transcrição de supostos diálogos, travados em 2015 e 2016, entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador da Força Tarefa da Operação Lava Jato Deltan Dallagnol, tem concordado com a avaliação segundo a qual “a montanha pariu um rato” (parturiunt montes nascetur ridiculus mus), na conhecida definição que o poeta romano Horácio (65 a.C. – 8 a.C.) fez de denúncias bombásticas, mas vazias de conteúdo. No caso, admitindo-se, como hipótese, a autenticidade da troca de informações obtidas por meios criminosos, a honradez de Sérgio Moro cresceu, ainda mais, no conceito de pessoas desapaixonadas e de bem, porque não há no Brasil ou em qualquer parte do mundo um juiz que não admita conversar com o advogado de qualquer das partes, nos termos em que tem sido tão amplamente alardeado pela mídia. De estranhar é que nada se diz ou se faz para colocar na cadeia os invasores confessos da privacidade alheia, bem tutelado pela nossa como por todas as constituições democráticas do mundo. A ponto de não serem válidas denúncias obtidas por métodos que a lei não chancela.

O grande público ignora que o advogado, além do direito indiscutível, tem, igualmente, o dever de procurar o juiz para lhe esclarecer sobre aspectos que entenda relevantes do ponto de vista que esposa, em razão, sobretudo, da complexidade crescente dos fatos que emanam de relações cada vez mais ricas em diversidade, carentes, portanto, de informações que contribuam para a percepção do magistrado sobre a matéria em exame.

No caso em tela, Moro e Dallagnol, a quem os brasileiros decentes tanto devem, dialogaram com o propósito de contornar as articulações de uma poderosa quadrilha amparada por poderosos segmentos da grande mídia, do empresariado, do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, numa macro-reprodução da luta desigual travada pelo mocinho do Oeste Americano contra o Xerife, o Juiz e os invasores das terras indígenas e de pequenos proprietários.

O alarde em torno dos presumidos diálogos tem genética facilmente identificável por qualquer observador medianamente dotado, como é o caso do autor destas linhas, que recorre a elas para convidar, para um debate público, quem quer que seja, de preferência autoridades em matéria jurídico-processual, sem descartar agentes políticos, que pensem de modo contrário. Seria uma experiência de caráter acentuadamente político-educativo.

Como todos sabem, a surpreendente eleição de Jair Bolsonaro teve, entre suas marcantes singularidades, aquela de haver investido contra os meios midiáticos mais poderosos do País, a quem ele, na campanha eleitoral, denunciou como estando a serviço de grupos econômicos e políticos que lhes enchiam as burras, fora e acima de critérios de mídia técnica, em troca de apoio incondicional para silenciarem diante do assalto que faziam aos cofres públicos. Uma vez eleito, Bolsonaro vem cumprindo o prometido, prática que reduziu drasticamente a receita desses meios de comunicação, a ponto de entrarem em crise, recorrendo a recuperação judicial, uns, busca de compradores ou associados, outros, cogitando alguns, até, de um eventual encerramento de atividades. Tomados de desespero, tornou-se imperioso lutar contra as reformas, notadamente a da Previdência e a Anticrime, visando a implosão da Lava-jato, de modo a derrubar um Presidente eleito pelo maior número de votos na História do Brasil, assegurando, também, a impunidade geral, de que o desencarceramento de Lula é o objetivo-meio primordial.

Diante da conjuntural queda de popularidade do Presidente, estes grupos, num último e desesperado esforço, decidiram assestar todas as baterias contra ele, na esperança de desestabiliza-lo, com vistas à realização de novas eleições, se a queda presidencial ocorresse, idealmente, antes de cumprida metade do mandato. O atraso na tramitação da Reforma Previdenciária e a reprovação do que quer que venha do Executivo são concebidos como medidas que enfraquecem o Governo, ensejando, quem sabe, um clima capaz de abortar, também, a agenda anticrime que, uma vez levada a efeito, tem potencial para colocar na cadeia centenas de salteadores do Erário, entre eles figuras manjadas que tremem a voz quando, da tribuna do Congresso, choram ao defender os interesses da patuleia ignara que vota nos seus saqueadores, vítima que é da Síndrome de Estocolmo.

A Reforma da Previdência vai ser aprovada por ampla margem, bem como a Reforma Anticrime. É possível antecipar os que se oporão a elas. São os mesmos que, desde sempre, fazem oposição ao Brasil e só pensam no exercício do poder como meio de extrair ilegítimas vantagens pessoais e grupais. Bolsonaro não vai cair, porque é apoiado pela maioria do povo brasileiro. Concluirá o mandato e poderá ser reeleito.

Os dois maiores partidos brasileiros são formados pelos que já aceitaram o crime como prática de vida e os que a isso se opõem. No final, quem viver verá, serão vitoriosos os que “combatem o bom combate, mantêm-se firmes na luta e preservam a fé”.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicadoo originalmente nesta quinta-feira, 27, na TB.