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CRÔNICA/CINEMA

 

Franco Zefirelli, um cineasta florentino

Lucia Jacobina

 

Como Dante na literatura, Leonardo na pintura, Michelangelo na escultura, Brunelleschi na arquitetura, Zefirellirepresentou a criação artística florentina, iniciada no Renascimento, no universo da ópera e do cinema, na contemporaneidade.Florença foi o celeiro que revelou ao mundo tantos geniais artistas e continua através de tantos monumentos a desafiar o tempo e a testemunhar sua opulência para as multidões de visitantes. No coração daquela cidade, há noventa e seis, nasceu Franco Zefirelli e ali mesmo repousará, após receber todas as honras fúnebres que lhe destinaram a fé católica e o governo italiano.

Foi com Visconti, na década de cinquenta do século passado, o início de sua carreira como assistente de diretor dos filmes “A Terra Treme”, “Belissima” e “Sedução da Carne”. Ao mesmo tempo que trabalhou como cenógrafo e diretor de óperas,em célebres montagens nos Teatro Alla Scala, de Milão, principalmente na época áurea, inclusive com divas como a lendária Maria Callas. Sua paixão pelo gênero foi tamanha que, além de encenar nos grandes palcos, levou alguns títulos a cenários naturais e filmou alguns deles, como fez com “Otelo” e “La Traviata”, de Verdi, “Turandot, de Puccini e “Cavalaria Rusticana”, de Mascagni e “Pagliacci”, de Leoncavallo. Essas realizações ficaram eternizadas no celuloide como espetáculos de uma beleza impressionante. Graças a essas iniciativas, plateias do mundo inteiro puderam ver e aplaudir no cinema e em outros recursos audiovisuais as interpretacões de Placido Domingo, Teresa Stratas e Eva Marton, dentre tantos outros renomados cantores líricos, com a música executada pelas famosas orquestra e coros dos teatros Scala e Metropolitan, sob a batuta dos célebres maestros James Levine e LorinMaazel. Os amantes da ópera agradecem.

Além desses registros operísticos, baseados em grandes compositores italianos, Zefirelli também assinou películas de grande sucesso, tendo elegido os dramas de Shakespeare como sua grande inspiração,nos filmes “Romeu e Julieta”, com OlviaHussey e Leonard Whiting, enfocando o clássicodrama adolescente do amor impossível. Do mesmo autor, também adaptou para o cinema “A Megera Domada”, com a dupla Elizabeth Taylor e Richard Burton, com cenários deslumbrantes e guarda-roupa da época.

A paixão pela literatura inglesa, despertada desde a infância, levou-o a filmar também o drama de Charlotte Brontë, “Jane Eyre”, um clássico que está sempre se renovando emremakes de outros diretores, em variadas épocas. Sua versão, protagonizada por William Hurt, Charlotte Gainsboroug e Joan Plowright é uma das mais belas que já assisti, tal como se poderia esperar de Zefirelli, embora não tenha tido a repercussão merecida aqui em nosso país. Por seu devotamento à língua, ganhou o título de “Sir”, outorgado pela monarquia inglesa.

Como testemunho da época em que viveu, e um tributo a sua cidade natal, filmou “Chá com Mussolini”, uma película tida como autobiográfica, na qual registra o fascismo italiano visto pela ótica de senhoras inglesas residentes e apaixonadas pela cultura e pela arte de Florença, desde os primeiros tumultos provocados pelos seguidores do Duce, até a libertação da cidade pelo exército americano.

Seu último longa-metragem, “CallasForever”, enfocou um dos episódios mais lamentados pelo público que foi a perda da voz e o exílio voluntário em Paris da célebre cantora. No papel de Callas, a francesa Fanny Ardant contracenando com os britânicos Jeremy Irons e Joan Plowright, um trio de excelentes atores,que contou com a mestria de sua direção.

A grandiosidade sempre presidiu as obras de Franco Zefirelli, tanto na ópera como no cinema. Para tanto, sua sensibilidade soube escolher textos de impacto dramático, atores expressivos, cenários deslumbrantes,cantores divinos, orquestras fabulosas e empreender reconstrução fiel de épocas. Enfim,  imenso talento e apurado senso estético, Zefirelli construiu verdadeiras obras-primas. Seu estilo ímpar dificilmente será imitado. Mas deixará saudades em todos os cultuadores da beleza.

 

Lúcia Jacobina é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

 

 

 

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Comentários

Cida Torneros on 25 junho, 2019 at 8:56 #

Parabéns pelo seu artigo, tributo merecido ao cineasta que sempre me encantou. Pra mim, Irmão Sol, Irmã Lua, sobre a história de Francisco de Assis e Santa Clara, é um dos mais emocionantes filmes dele. Um prêmio poder conviver com a obra cinematográfica e operística desse gênio florentino. Seu registro é perfeito: Deixará saudades!


Lucia Jacobina on 25 junho, 2019 at 15:55 #

Obrigada, Cida, por compartilhar comigo esse encanto por Zefirelli. Você bem destaca “Irmão Sol, Irmã Lua”, como outro momento emocionante de sua obra. Plenamente de acordo. Esse filme revela outra faceta de sua biografia, marcada também por uma profunda religiosidade.


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