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CRÔNICA

 

 A morte seria um bom dia pra se viver?

 

Janio Ferreira Soares

 

Recentemente me vi diante de um outdoor que divulgava a infindável saudade de uma família por um de seus membros, morto há nove anos. Péssimo em memorizar datas – mas conhecendo a figura -, exclamei: “poxa, tudo isso!”.

Em seguida comecei a matutar sobre essa assombrosa velocidade que o tempo anda infligindo na gente e constatei que, nessa pisada, em breve estaremos todos navegando sob o remo da velha ceifadora – se isso consola -, uma democrática anfitriã sem predileção de cor, credo ou euro, que conduz em seu imenso barco tanto as pecadoras almas que leem Paulo Freire, quanto os inocentes anjinhos que preferem Cebolinha, coitados, agora sem a proteção das cadeirinhas no banco traseiro por ordem do malvado titio “Bolsonalo”, que parece não mais querê-los com suas mamães e vovós nas manifestações dominicais.

Falando nisso, por esses dias a médica e escritora Ana Claudia Arantes deu uma palestra para os atores que irão participar da próxima novela das 19h da Globo, cujo tema será a morte, assunto que ela domina com maestria. Geriatra e especialista em Cuidados Paliativos, Dra. Ana é a autora do livro “A Morte é um Dia Que Vale a Pena Viver”, que narra não só os caminhos que podem possibilitar aos que estão prestes a partir a oportunidade de irem na paz, como também a chance de uma maior compreensão da perda para os que ficam. Afinal, diz ela, a morte deveria ser assunto corriqueiro, já que de Cristo a Buda, de Jair a Lula, do Papa a prostituta, todos terão que encará-la um dia, como diz o nosso sábio Gil, tendo que morrer vivendo, no derradeiro ato seu. E é nessa hora que surgem questionamentos sobre religião, fé e afins, com revelações que podem surpreender os fervorosos.

Diante de tão fascinante assunto, impossível não lembrar dos meus últimos dias ao lado de Cecília, ocasião em que, sem nem saber que existia essa especialidade médica, pintamos, bordamos, rimos e choramos, como se estivesse implícito entre nós, que teria de ser assim. É tanto que no segundo ou terceiro dia dos quase 30 que ficamos juntos, depois que serviram sua comida ela começou a rir e disse que muita gente ali devia morrer antes da hora só por causa daqueles temperos. Tempos depois, enquanto cochilava sob o efeito de sedativos, ela, certamente sonhando com a nutricionista do hospital, receitava: “primeiro você corta a cebola roxa. Depois mistura o tomate, o coentro e as verduras de sua preferência, e só depois coloca o bode bem sequinho. Mas cuidado com o sal pra não estragar!”.

Sem querer apelar à dramaticidade de um folhetim barato, acho que se todo filho tivesse a sorte de sentir o cheiro da comida de sua mãe enquanto ela se prepara para a mais temível das viagens, a morte seria, sim, um belo dia pra se viver.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, nas  barrancas baianas do Rio São Francisco.

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