Não deixe uma ligação rápida arruinar uma longa e confusa série de mensagens de WhatsApp

Para iniciar um texto, Hemingway dizia a si mesmo: “Escreva a frase mais verdadeira que você conhece”. Neste caso, seria: a psicóloga Cristina Pérez, do Siquia, respondeu por meio de mensagens de áudio às perguntas que lhe enviamos por email. Essa curiosidade metajornalística não tem importância, não altera a qualidade de suas respostas, só ilustra a variedade e fluidez de opções com as quais podemos nos comunicar hoje. Recebemos um email? Respondemos com um áudio. Chegou um áudio de WhatsApp? Respondemos com um texto. Recebemos um telefonema? Não respondemos. Esperamos. Esperamos. E escrevemos: “Você me ligou? Não posso falar, é melhor me escrever”. O paradoxo do grande vício do século XXI é que estamos presos ao celular, mas temos fobia das ligações telefônicas.

Voto de silêncio

É uma tendência mais presente entre os mais jovens, mas comum em todas as faixas etárias: só na Espanha, o uso diário de aplicativos de mensagens instantâneas como WhatsApp, Telegram e Facebook Messenger é quase o dobro do de ligações por telefone fixo e celular, segundo o Relatório da Sociedade Digital na Espanha de 2018, da Fundação Telefónica. Não só preferimos as mensagens instantâneas aos telefonemas, como também preferimos essas mensagens a interagir com outras pessoas. Ou pelo menos foi o que 95,1% da população espanhola disse preferir (o cara-a-cara só tem 86,6% de popularidade). A ligação telefônica ? que, até não muito tempo atrás, esperávamos com alegria ou tolerávamos com resignação, mas nunca evitávamos com uma rejeição universal ? se tornou uma presença intrusiva e incômoda, perturbadora e tirânica, mas por quê? “Uma das razões é que quando recebemos uma ligação, ela interrompe algo que estávamos fazendo, ou simplesmente não temos vontade de falar nesse momento”, explica a psicóloga Cristina Pérez. “Por outro lado, também exige de nós uma resposta imediata, ao contrário do que ocorre na comunicação escrita, que nos permite pensar bem no que queremos dizer. E a terceira razão seria o fato de não poder saber de antemão qual será a duração do telefonema”, acrescenta.

Introvertidos e entregues às telas

Perder tempo em um telefonema é uma perspectiva assustadora. No entanto, segundo um relatório mundial da Deloitte, consultamos nossas telas mais de 40 vezes ao dia, e uma de cada quatro pessoas faz isso entre 100 e mais de 200 vezes.

Talvez a coisa mais valiosa que nosso interlocutor exija em uma ligação não seja o tempo, e sim a concentração. Será que o ódio de falar por telefone poderia ser sintoma de um problema mais profundo, como um distúrbio de déficit de atenção? “Em princípio não”, responde a psicóloga. Mas “sim, é possível que uma pessoa com déficit de atenção tenha dificuldade para manter uma longa conversa telefônica e até mesmo que às vezes perca o fio da meada e volte sua atenção para outra coisa, assim como lhe ocorreria em uma conversa frente a frente, mas isso não quer dizer que desenvolva um ódio de falar por telefone”.

Cristina Pérez alerta: “Sim, pode ser sinal de uma personalidade introvertida. O imediatismo de um telefonema faz com que as pessoas introvertidas não se sintam confortáveis neles. São pessoas que dependem muito da observação e, por telefone, não podem examinar a expressão do interlocutor. Se uma interação social já é incômoda para elas, é muito pior quando não têm essa ajuda visual que utilizam tanto. De fato, esse tipo de personalidade prefere a comunicação escrita à falada”.

Como cortar a ligação

Infelizmente, para esses introvertidos, não há uma fórmula que os libere de todos os telefonemas, embora o identificador do número que está ligando lhes dê certa autoridade. “Quando você recebe uma ligação, é você que decide se é o momento de atendê-la ou de deixá-la para mais tarde”, assinala a psicóloga. “Se você decidir atendê-la e precisar cortá-la, a melhor maneira de fazer isso é de forma assertiva (estabelecendo limites, embora inicialmente isso nos custe um pouco, já que podemos pensar que a outra pessoa ficará chateada, mas é questão de treinamento e paciência), só que você também deve detectar qual é o momento certo para cortar.”

O problema não é apenas que nosso interlocutor queira falar ad infinitum. Ele muitas vezes quer de nós uma resposta rápida, se for, por exemplo, um telefonema de trabalho. O terror de não ter tempo para pensar o que devemos responder também nos impede de atender o telefone. A psicóloga também tem um truque para esses casos: “Se pedem uma resposta imediata que nesse momento você não pode dar, uma frase muito útil é ‘vou pensar com calma e amanhã conversamos’, já que se não temos certeza quanto a uma resposta, o melhor é adiá-la, porque o imediatismo nos faz agir impulsivamente e é possível que depois nos arrependamos da resposta dada”.

Adeus à dialética?

A aversão à conversa da chamada “geração muda” poderia ter mais consequências do que apenas evitar as reuniões sociais. “O preço a pagar por nascer nesta geração é, muitas vezes, a falta de habilidade na hora de iniciar ou manter uma conversa, embora essas pessoas possam passar horas e horas no celular, porque estão mais concentradas naquilo que seu dispositivo pode lhes oferecer (o que às vezes será uma conversa com outra pessoa, mas não frente a frente). São gerações nas quais o vício por novas tecnologias está na ordem do dia, e o problema não é apenas que não valorizem o quanto uma boa conversa pode ser enriquecedora. Os efeitos do uso excessivo do celular afetam também sua personalidade, já que são pessoas com baixa tolerância à frustração e com necessidade de um reforço social contínuo, que ocorre através das curtidas. Em suma, a tecnologia é boa desde que seja usada de forma compatível com a vida cotidiana da pessoa, ou seja, quando não interferir em sua vida social, trabalhista ou pessoal”, destaca a psicóloga.

Para que serve o WhatsApp

Com mais de 1,5 bilhão de usuários no mundo, não tem sentido demonizar o uso do WhatsApp. Na verdade, psicologicamente ele tem muitas vantagens. “A comunicação por escrito nos permite escolher o momento, redigir bem nossa resposta e até relê-la; verificar se está claro o que queríamos dizer e inclusive dizer coisas que não nos atreveríamos em uma conversa telefônica”, explica Cristina Pérez.

Por serem canais de comunicação diferentes, ativam regiões cerebrais distintas: “Quando temos uma conversa ou mandamos um áudio, é ativado o lobo frontal, pois está vinculado à fala. Também aumenta a atividade dos lobos temporais, encarregados de processar a informação auditiva”, prossegue a psicóloga. Por outro lado, “se decidimos mandar uma mensagem de texto, assim como em uma conversa ou uma mensagem de áudio, é ativado o lobo frontal, mas para interpretar as palavras e a linguagem que usamos tanto para escrevê-la como para lê-la, entra em ação o lóbulo parietal. A informação visual que chega até nós é recebida e processada pelo lobo parietal, e este nos ajuda a ler e a escrever, já que assim reconhecemos as palavras”.

“Os Alquimistas Estão Chegando”, Jorge Ben Jor: Tudo Ben!!! E nada melhor que este senhor do ritmo e da generosa alegria para iluminar musicalmente o domingo junino no Bahia em Pauta.

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

Do Jornal do Brasil

 

Um dia depois de questionar se “não está na hora de termos um ministro do STF evangélico”, em evento da igreja Assembleia de Deus em Goiânia, o presidente Jair Bolsonaro citou neste sábado (1º) um “Brasil de todas as religiões” nas redes sociais.

“O Brasil de todas as religiões sabe que a liberdade é o bem maior de um povo. Brasileiro, olhe o que Israel não tem e o que eles são”, publicou Bolsonaro, que visitou o país de maioria judaica em abril.

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Presidente da República, Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/PR)

“Veja o que nós no Brasil temos, e o que não somos. Juntos, com fé, muito trabalho e oração, colocaremos nossa Pátria no local destaque que merece.”

A postagem é acompanhada de um vídeo do Centro Dom Bosco, entidade de fiéis católicos, com cenas de pessoas com terços nas mãos e rezando a Ave Maria, durante uma manifestação favorável ao presidente.

“Quanta alegria nesta primeira manhã após o mês de maio ver Nossa Senhora estampada na página de nosso presidente Jair Messias Bolsonaro!”, publicou o centro em seu perfil nas redes sociais.

No dia anterior, Bolsonaro participou da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil ao lado do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM).

O assunto STF foi abordado por Bolsonaro quando ele mencionou o julgamento sobre a criminalização da homofobia. “Existe algum entre os 11 ministros do STF evangélico, cristão?”, indagou.

Pedindo desculpas ao STF, a quem disse que não pretendia atacar, disse: “Desculpa o Supremo. Eu jamais atacaria um outro Poder, mas não estão legislando?”

Bolsonaro disse que o Estado é laico, mas ele, cristão. “Se me permitem plagiar a ministra Damares, eu também sou terrivelmente cristão”, falou.

Em nova crítica à imprensa, disse: “Não me venha a imprensa dizer que quero misturar a Justiça com religião”.

Ele questionou: “Será que não está na hora de termos um ministro do STF evangélico?”.

Bolsonaro encerrou o discurso de 17 minutos sob fortes aplausos e gritos de “mito”, que por algumas vezes interromperam sua fala. “A palavra, a fé, tem que estar presente em cada instituição do Brasil”, disse.

Depois da fala, o ministro do Supremo Alexandre de Moraes rebateu o presidente, num evento em São Paulo.

“Não há nada de legislar. O que há é a aplicação, a efetividade da Constituição, [que é] protetiva de uma minoria que no Brasil sofre violência tão somente por sua orientação sexual”, afirmou Moraes.

“O Brasil é o quarto país do mundo com maior índice de agressões a pessoas tão somente em virtude de sua orientação sexual. Não é possível continuar com isso”, diz o magistrado.

“Aqui não temos dúvidas sobre Lula”

 

Em sua entrevista ao La Nación, Jair Bolsonaro voltou a criticar Cristina Kirchner e lembrou da proximidade da ex-presidente argentina a Lula e Dilma Rousseff.

“Cristina Kirchner foi muito aliada de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. E o que Lula e Dilma defenderam aqui, via Foro de São Paulo, com o apoio incondicional de Hugo Chávez, Nicolás Maduro e a ditadura cubana, é uma experiência que não queremos repetir.”

Questionado sobre se acredita que Cristina seja corrupta, Bolsonaro afirmou:

“Qem dirá é a Justiça argentina. Aqui não temos dúvidas sobre Lula.”

O jornalista Gerard O’Connell cobre há mais de duas décadas o que acontece no Vaticano. Depois de anos de pesquisa, ele revela os segredos da eleição que, em março de 2013, levou pela primeira vez um arcebispo latino-americano a liderar a Igreja Católica.

Por BBC/G1

O papa Francisco foi eleito em 2013, após a súbita renúncia de Bento 16 — Foto: Getty Images via BBC O papa Francisco foi eleito em 2013, após a súbita renúncia de Bento 16 — Foto: Getty Images via BBC

O papa Francisco foi eleito em 2013, após a súbita renúncia de Bento 16 — Foto: Getty Images via BBC

Poucos previam que, no conclave de 2013, Jorge Bergoglio se tornaria papa, mas o jornalista irlandês Gerard O’Connell, que há 20 anos cobre o Vaticano e conhecia o argentino muito antes de ele se tornar pontífice, acertou o resultado.

Agora, ele revela no livro “A Eleição do Papa Francisco: Um relato íntimo do conclave que mudou a história” os segredos daquela eleição que deixou o mundo boquiaberto ao levar não só o primeiro latino-americano mas também o primeiro jesuíta a liderar os mais de 1,2 bilhão de fiéis da Igreja Católica no mundo.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Mundo: Os cardeais que participam do conclave não só ficam isolados do mundo como são obrigados a guardar segredo sobre as votações. Como conseguiu desvendar o que ocorreu na ocasião?
Gerard O’Connell: Cubro o Vaticano desde 1985 e, ao longo deste anos, criei relações pessoais de confiança com muitos cardeais de todos os continentes. Os cardeais perceberam que houve naquele conclave uma mudança equivalente a um terremoto na Igreja, e alguns deles queriam que as pessoas soubessem como isso aconteceu, então, compartilharam informações comigo para deixar isso registrado na história.

BBC News Mundo: Quando os papas João 23, Paulo 6º e João Paulo 2º morreram, os cardeais buscavam há algum tempo um sucessor. No entanto, quando em 11 de fevereiro de 2013, Bento 16 anunciou sua renúncia, a notícia surpreendeu o mundo. Esse “fator surpresa” influenciou de alguma forma a eleição de Bergoglio?
O’Connell: O anúncio da renúncia de Bento 16, o segredo mais bem guardado de seu pontificado, pegou os cardeais completamente de surpresa. Eles não estavam preparados para um conclave e só tiveram 30 dias para eleger um novo papa. A súbita renúncia de Bento 16 significou que não houve tempo para as manobras de lobby que precederam o conclave de 2005 (quando Bento 16 foi eleito).

 

O'Connell trata em seu livro dos bastidores da eleição do atual líder da Igreja Católica — Foto: Arquivo Pessoal O'Connell trata em seu livro dos bastidores da eleição do atual líder da Igreja Católica — Foto: Arquivo Pessoal

O’Connell trata em seu livro dos bastidores da eleição do atual líder da Igreja Católica — Foto: Arquivo Pessoal

BBC News Mundo: O pontificado de Bento 16 foi marcado por diversos escândalos, incluindo o famoso Vatileaks. Isso contribuiu de alguma forma para os cardeais serem claros sobre que tipo de papa não queriam?
O’Connell: Quando os cardeais se reuniram para eleger o novo papa, tentaram entender o pano de fundo dos escândalos que vieram à tona durante o pontificado de Bento 16. Vários cardeais perceberam que os escândalos eram principalmente relacionados aos italianos, então, concluíram que um candidato que não fosse poderia ser mais indicado para resolver esses problemas.

Outros achavam ser necessário alguém que pudesse administrar a Cúria Romana e governar a Igreja. Mas, em nível mais profundo, muitos consideraram os escândalos como resultado de uma crise espiritual e sentiram a necessidade de escolher como papa um homem verdadeiramente santo, um “homem de Deus”, em vez de um gerente ou administrador, alguém que pudesse realizar uma reforma espiritual no Vaticano e na Igreja.

BBC News Mundo: Quando o conclave começou, as apostas apontavam como favoritos ao italiano Scola, o canadense Ouellet e o brasileiro Scherer. A possibilidade de que o arcebispo de Buenos Aires se tornasse papa nem sequer era cogitada. Quando seu nome começou a surgir como uma possibilidade?
O’Connell: Na véspera do conclave, estes três eram os grandes favoritos. No entanto, muitos cardeais sentiram que nenhum deles oferecia uma liderança verdadeiramente inspiradora e que traria uma nova visão e energia para a Igreja, então, procuraram uma alternativa capaz disso.

O nome de Bergoglio surgiu neste contexto. Dos 115 cardeais eleitores, 68 participaram do conclave de 2005, no qual Bergoglio ficou em segundo lugar, e eles sabiam que era um homem profundamente espiritual, não ambicioso, que vivia de uma forma muito simples e austera, que professava um enorme amor aos pobres e que visitava regularmente as favelas de Buenos Aires.

BBC News Mundo: Mas em que momento particular o nome de Jorge Bergoglio começou a soar como o de um possível papa?
O’Connell: Antes do início do conclave, ocorrem as chamadas congregações gerais, nas quais os cardeais se preparam para a eleição do pontífice. No penúltimo desses encontros, Bergoglio chamou a atenção de muitos com uma fala de três minutos e meio que foi considerada inspiradora, revigorante e visionária. Suas palavras tiveram um impacto enorme e, a partir desse momento, muitos começaram a vê-lo como o novo papa.

BBC News Mundo: O fato de ser latino-americano contou a seu favor?
O’Connell: Sim, por vários motivos. Primeiro, Bergoglio já havia emergido como líder da Igreja na América Latina na Conferência Episcopal Latino-Americana (Celam) realizada em Aparecida, no Brasil, em 2007. Segundo, Bergoglio foi presidente da Conferência Episcopal Argentina por dois mandatos e demonstrou ter boas habilidades de liderança. E terceiro, praticamente todos os cardeais latino-americanos falaram bem dele. Além disso, quase 50% dos católicos do mundo falam espanhol, e a grande maioria deles vive na América Latina. Já no conclave de 2005, muitos votaram em Bergoglio.

 

Em seu livro, O'Connell revela algumas das reuniões secretas em que a eleição de Bergoglio foi discutida — Foto: Divulgação Em seu livro, O'Connell revela algumas das reuniões secretas em que a eleição de Bergoglio foi discutida — Foto: Divulgação

Em seu livro, O’Connell revela algumas das reuniões secretas em que a eleição de Bergoglio foi discutida — Foto: Divulgação

 BBC News Mundo: Já na primeira votação do conclave, houve uma grande surpresa. O italiano Scola, favorito em quase todas as apostas e considerado o preferido de Bento 16, não conseguiu o número de votos que esperava receber. Por quê?

O’Connell: Houve várias razões. A primeira é que os cardeais italianos (que constituíam o maior bloco do conclave com um total de 28 votos) estavam profundamente divididos em relação a Scola. Alguns se opunham fortemente à sua eleição. Vários cardeais também se sentiram desconfortáveis por causa dos laços que Scola mantinha com o movimento conservador Comunhão e Libertação.

Além disso, muitos cardeais sentiram que Scola tinha problemas para se comunicar com as pessoas, porque usava uma linguagem complicada. E uma outra razão foi ele ser visto como o preferido de Bento 16, com quem ele estava muito alinhado teologicamente. Muitos cardeais pensaram que, se Scola fosse eleito papa, do ponto de vista teológico, seria mais do mesmo.

BBC News Mundo: A noite após a primeira votação parece ter sido fundamental, porque, no dia seguinte, Bergoglio já era o mais votado. O que aconteceu naquela noite?
O’Connell: Na primeira votação, enquanto Scola obteve 30 votos (muito menos do que o esperado), Bergoglio surpreendeu muitos cardeais ao receber 26. A julgar pelos resultados, ficou claro que uma grande número de eleitores não sabia em quem votar, mas, quando Bergoglio emergiu tão fortemente, muitos interpretaram como um sinal de Deus e o apoiaram na segunda votação, colocando-o na liderança e dando-lhe uma vantagem que ele nunca perdeu.

BBC News Mundo : Seu livro fala sobre jantares secretos que fizeram a balança pender a favor de Bergoglio. Quais jantares foram esses?
O’Connell: Como mostra a história dos conclaves do século 20, cardeais com a mesma opinião ou que falam a mesma língua frequentemente se reúnem em jantares ou reuniões privadas em lugares longe do público para discutir os nomes dos potenciais candidatos a serem o próximo papa e os desafios a serem enfrentados. Tais reuniões ou jantares são chamados de “secretos” porque geralmente são desconhecidos pela mídia e até mesmo pelos cardeais que não estão neles. São eventos importantes, porque oferecem aos cardeais a oportunidade de debater livremente e compartilhar confidências.

Em meu livro, menciono especificamente uma reunião, não um jantar, na véspera do conclave, no apartamento do Vaticano de Attilio Nicora, um cardeal italiano que trabalha na Cúria Romana, no qual muitos cardeais de diferentes continentes se reuniram para discutir a situação, e lá todos pensaram que Bergoglio seria o melhor candidato e o apoiaram.

BBC News Mundo: Em todos os conclaves existem os “kingmakers”, os “fazedores de rei”, cardeais que guiam os outros e indicam em quem devem votar. Quem foram os “kingmakers” do conclave que elegeu Bergoglio?
O’Connell: Como a maioria dos cardeais que participam de um conclave não se conhecem bem, eles dependem dos “fazedores de rei” para obter orientação sobre possíveis candidatos. São cardeais que conhecem muitos cardeais (talvez todos) e nos quais seus colegas confiam para fornecer informações sobre os candidatos. Havia vários desses cardeais no conclave de 2013, incluindo Bagnasco (Itália), Maradiaga (Honduras), Murphy-O’Connor (Reino Unido), Gracias (Índia), Monswengo (República Democrática do Congo), Turkson (Gana) e Hummes (Brasil).

 

O arcebispo de Milão, Angelo Scola, era um dos favoritos para suceder Bento 16 — Foto: AFP O arcebispo de Milão, Angelo Scola, era um dos favoritos para suceder Bento 16 — Foto: AFP

O arcebispo de Milão, Angelo Scola, era um dos favoritos para suceder Bento 16 — Foto: AFP

BBC News Mundo: Como Bergoglio reagiu a tudo isso? Ficou nervoso ao ver que poderia se tornar papa? Ele fez campanha de alguma forma?
O’Connell: Não houve campanha a favor de Bergoglio naquele conclave. Além disso, ele nunca teria concordado com uma campanha assim. Seu nome como candidato surgiu lentamente e apenas nos dias antes de os cardeais entrarem na Capela Sistina para votar.

O nome de Bergoglio surgiu porque muitos dos cardeais estavam à procura de uma mudança radical e perceberam que os três favoritos nunca fariam isso. Bergoglio, por sua vez, nunca pensou que seria papa. Havia comprado uma passagem de avião para voltar a Buenos Aires e preparado a homilia para a missa da Quinta-Feira Santa, por isso estava tranquilo. Só percebeu que poderia se tornar papa após a terceira votação.

BBC News Mundo: No conclave, também houve vários cardeais que se opuseram à eleição de Bergoglio e que conseguiram divulgar falsas notícias sobre ele para tentar impedir que se tornasse papa. O que eles detestavam em relação a Bergoglio?
O’Connell: Houve alguma oposição a Bergoglio no conclave por parte daqueles que não gostavam de seu estilo de vida simples e austero e seu compromisso com os pobres e de outros que não gostavam de sua atividade como missionário, sua ideia de uma Igreja que vai às periferias, e por ser alguém que instruiu os padres em Buenos Aires a batizar os filhos de mães solteiras.

BBC News Mundo: Os inimigos de Bergoglio durante o conclave são hoje inimigos do papa Francisco? Quem são e o que querem?
O’Connell: Vários participantes do conclave me disseram que a oposição a Bergoglio no último conclave foi muito mais fraca do que a Ratzinger no conclave de 2005. Embora a oposição a Francisco tenha sido uma minoria em 2013, ganhou força desde então devido à sua abertura a pessoas divorciadas e que se casaram novamente, às pessoas LGBT, sua atenção aos pobres, sua crítica à economia, sua posição sobre imigração, sua oposição às armas nucleares, ao comércio de armas e à pena de morte. No entanto, hoje, apesar das aparências, a oposição vem de uma minoria relativamente pequena entre cardeais, bispos e leigos.

 

A eleição de Francisco, o primeiro papa latino-americano, pegou muitos de surpresa — Foto: Reuters/Yara Nardi A eleição de Francisco, o primeiro papa latino-americano, pegou muitos de surpresa — Foto: Reuters/Yara Nardi

A eleição de Francisco, o primeiro papa latino-americano, pegou muitos de surpresa — Foto: Reuters/Yara Nardi

 

BBC News Mundo: O senhor fala de Francisco como um homem santo. No entanto, vítimas de abuso sexual por padres reclamam que ele não está fazendo o suficiente para acabar com esse flagelo.
O’Connell: Acho importante entender que o problema do abuso infantil por padres existia na Igreja Católica muito antes de Francisco ser papa. Como vários estudos mostram, a maioria dos abusos ocorreu entre os anos 1950 e 1990, especialmente nos anos 1970 e 1980, durante o pontificado de João Paulo 2º. O número de novos casos diminuiu significativamente durante o pontificado de Bento 16, e, desde que Francisco foi eleito, a grande maioria dos casos que vieram à luz são antigos, ocorridos décadas atrás.

BBC News Mundo: Mas Francisco está fazendo o suficiente para acabar com isso?
O’Connell: É difícil dizer o que seria fazer o suficiente para eliminar os abusos contra menores, uma vez que é algo difundido na sociedade, mas muitas vezes não falamos disso. Francisco fez muitas coisas para tentar erradicar esse problema da Igreja. Ele se encontrou pessoalmente com mais vítimas do que qualquer antecessor, e praticamente toda semana se encontra com alguma. É algo que muitas pessoas não sabem. Em 2016, ele introduziu uma legislação na Igreja que torna possível remover um bispo que oculta abusos ou não protege menores.

BBC News Mundo: Mas as vítimas de abuso reclamam que ainda é muito difícil levar um padre acusado disso aos tribunais comuns. Como o senhor avalia isso?
O’Connell: Isso foi especialmente verdade no passado, mas a situação mudou consideravelmente com Francisco. Ele permitiu que o cardeal George Pell voltasse à Austrália para ser julgado, ainda que, como funcionário do Vaticano, pudesse ser reivindicada imunidade diplomática. Ele tirou Theodore McCarrick do colégio de cardeais e do sacerdócio. Permitiu que o cardeal Philippe Barbarin fosse julgado na França por supostamente encobrir abusos. E, em um novo decreto executivo de 9 de maio, diz claramente que os líderes da Igreja devem seguir as leis de seus respectivos países e que, se a lei exigir, denunciem aqueles que abusam de crianças para autoridades civis.

 

BBC News Mundo: O papa Francisco tem 82 anos. O senhor já pensa em quem pode ser seu sucessor?
O’Connell: O papa Francisco goza de boa saúde. Desfruta de uma grande paz interior e tem uma energia extraordinária para um homem da sua idade. Não há um conclave no horizonte. Além disso, não se pode saber quem serão os candidatos reais até que haja uma lista final de cardeais eleitores. Dos cardeais que escolherão seu sucessor, 47% foram nomeados por Francisco, e ele nomeará mais antes do final do ano. Portanto, é bem possível que seu sucessor ainda não seja cardeal.

BBC News Mundo: Acha possível que Francisco siga os passos de Bento 16 e renuncie em algum momento?
O’Connell: É possível, mas não acho que isso aconteça a menos que tenha uma doença grave. Estou convencido de que ele morrerá como papa.

jun
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Posted on 02-06-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 02-06-2019
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Jornal de charges – O melhor do humor gráfico brasileiro na Internet – ano XXII – Sábado 01/06/2019

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Son Salvador, no Estado de Minas

Egípcio marcou de pênalti logo aos dois minutos e o belga fechou o placar no fim do segundo tempo. Equipe inglesa vence torneio europeu pela sexta vez

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Henderson ergue o troféu da Champions League. Mike Hewitt Getty Images

O Liverpool venceu o Tottenham por 2 a 0 neste sábado, em Madri, e conquistou pela sexta vez o título da UEFA Champions LeagueSalah e Origi marcaram os gols da partida, que também teve o goleiro Alisson como personagem fundamental para a vitória vermelha. Com 24 segundos de jogo, Mané recebeu pela esquerda e viu seu cruzamento ser desviado pelo braço de Sissoko, dentro da área: pênalti. Salah converteu a penalidade e abriu o placar. O gol cedo mudou o primeiro tempo, que teve o Tottenham com mais posse de bola, mas sofrendo com a marcação intensa do Liverpool e sem conseguir incomodar a defesa adversária. A única outra chegada perigosa da etapa inicial foi da equipe vermelha, quando Robertson, disparando pela esquerda, arriscou de fora da área e Lloris espalmou.

O Tottenham voltou mais incisivo para a segunda etapa, trazendo o talismã Lucas Moura para o jogo no lugar do volante Winks. Foi então que apareceu a qualidade de Alisson. Seguro durante todo o jogo, o brasileiro fez pelo menos três defesas difíceis impedindo que os Spurs empatassem o jogo e coroando sua primeira temporada na Inglaterra. Aos 42 minutos, depois de escanteio cobrado por Milner, ela sobrou para Origi pela esquerda, que levou para a canhota e fuzilou o canto esquerdo de Lloris. O belga, que entrou no lugar de Roberto Firmino e já havia sido herói ao marcar dois gols contra o Barcelona na semifinal, viu a bola entrar e saiu para comemorar com a metade vermelha do estádio.

O 2 a 0 garantiu ao Liverpool o sexto título da Champions League na sua história em uma temporada em que, mesmo fazendo 96 pontos, não venceu o campeonato inglês, onde não levanta a taça há 29 anos. A conquista é a primeira do time inglês treinado pelo alemão Jürgen Klopp, que, além do vice da Premier League, também havia perdido a final da Liga Europa para o Sevilla e da própria Champions no ano passado, para o Real Madrid.

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