Do Jornal do Brasil

Em entrevista à Veja, presidente aponta sabotagens ao seu governo, mas diz que tem uma ‘missão’ e que “Deus’ deu a ele o milagre de estar vivo

  Em entrevista à revista Veja, publicada nesta sexta-feira (31), o presidente Jair Bolsonaro (PSL) falou sobre as angústias do cargo, a nomeação equivocada do ex-ministro da Educação, a bronca em Olavo de Carvalho, a prisão de Lula, o escândalo dos laranjas e a bancada de parlamentares do PSL, entre outros temas.

Sobre o cargo, Bolsonaro compara a cadeira no Planalto à criptonita para o Super-­Homem. A seguir, alguns dos trechos da entrevista.

Macaque in the trees
Presidente Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Pressão na Presidência

“Já passei noites sem dormir, já chorei pra caramba também. Angústia, né? Tá faltando o mínimo de patriotismo para algumas pessoas que decidem o futuro do Brasil. O pessoal não está entendendo para onde o Brasil está indo. Não preciso dizer quem são essas pessoas. Elas estão aí. Imaginava que ia ser difícil, mas não tão difícil assim. Essa cadeira aqui é como se fosse criptonita para o Super-­Homem. Mas é uma missão, entendo que Deus me deu o milagre de estar vivo. Nenhum analista político consegue explicar como eu cheguei aqui, mas cheguei e tenho de tocar esse barco.”

Vélez e Olavo de Carvalho

“Errei no começo quando indiquei o Ricardo Vélez como ministro. Foi uma indicação do Olavo de Carvalho? Foi, não vou negar. Ele teve interesse, é boa pessoa. Depois liguei para ele: “Olavo, você conhecia o Vélez de onde?”. “Ah, de publicações.” “Pô, Olavo, você namorou pela internet?”, disse a ele. Depois, tive de dar uma radicalizada. Em conversas aqui com os meus ministros, chegamos à conclusão de que era preciso trocar, não se pode ter pena, e trocamos.”

Ministério da Educação e sabotagens

Bolsonaro também disse na entrevista que integrantes do seu partido, o PSL, chegaram ao Congresso completamente inexperientes e que alguns acreditavam que ele iria resolver o problema “no peito e na raça”, mas que a situação “não é assim”. “Hoje, cinco meses depois, eu sinto que a maioria dos parlamentares entendeu o que está acontecendo. Muitos apoiam a pauta do governo. E esse apoio está vindo por amor à pátria, por assim dizer. A gente não pode continuar fazendo a política como era até pouco tempo atrás. Estávamos no caminho da Venezuela”, disse.

O chefe do Executivo apontou “sabotagens” dentro do governo de onde não se imagina, e disse que a pressão do cargo é muito grande, afirmando ter mudado o “jeito de conduzir os destinos do Brasil”. “É uma luta de poder. Há sabotagens às vezes de onde você nem imagina. No Ministério da Defesa, por exemplo, colocamos militares nos postos de comando. Antes, o ministério estava aparelhado por civis. Havia lá uma mulher em cargo de comando que era esposa do 02 do MST. Tinha ex-deputada do PT, gente de esquerda… Pode isso? Mas o aparelhamento mais forte mesmo é no Ministério da Educação.”

O presidente também afirmou que o povo não seria favorável a uma mudança do sistema de governo para o parlamentarismo, caso ocorresse um plebiscito. Ele disse que considera natural, ao ser perguntado se uma eventual proposta como essa tem por objetivo esvaziar o poder de presidente. “A luta pelo poder existe até dentro de casa”, justificou.

Lula

“Costumo dizer muitas vezes: se você está comendo coisa não muito boa e passa a comer uma coisa boa, legal. Mas, quando você está comendo bem e volta a comer uma coisa ruim, você sente. Ele saiu de uma situação de líder para a de um cara preso, condenado por corrupção. Apesar disso, não tenho nenhuma compaixão em relação a ele. Ele estava trabalhando para roubar também a nossa liberdade.”

PSL

“É um partido que foi criado, na verdade, em março do ano passado e buscava pessoas, num trabalho hercúleo no Brasil. Então nós fomos pegando qualquer um: “Quebra o galho, vem você, cara, vamos embora”. E tem muita gente que entrou e acabou se elegendo com a estratégia que eu adotei na internet.”

Laranjas

“Veja o caso do ministro Marcelo Álvaro Antônio [Turismo, pivô do escândalo], investigado por irregularidades eleitorais. Eu tenho um compromisso com o Moro. Tem de ter algo de concreto. Só em cima de denúncias fica complicado. Ele nem é réu ainda, não foi denunciado. Deixa apurar um pouquinho mais.”

Previdência

Bolsonaro afirmou que o país ficará ingovernável em até três anos sem a aprovação da reforma da Previdência, e justificou o fato de sempre ter sido contra a reforma quando deputado federal afirmando que muitas vezes só tinha “informação de orelhada”. “Se a reforma da Previdência não passar, o dólar pode disparar, a inflação vai bater à nossa porta novamente e, do caos, vão florescer a demagogia, o populismo, quem sabe o PT, como está acontecendo na Argentina, com a volta de Cristina Kirchner. O Brasil não aguentaria outro ciclo assim”, disse.

O presidente afirmou que a cabeça de um parlamentar é uma coisa, e a do presidente, que tem “acesso aos números”, é outra. “O que faz a gente mudar? A realidade. O Brasil será ingovernável daqui a um, dois, três anos”, afirmou. Segundo Bolsonaro, passada a reforma da Previdência, que classificou como a “mãe das reformas”, o governo vai partir para a reforma tributária e para as privatizações. O presidente disse, inclusive, já ter dado sinal verde para a privatização dos Correios.

Questionado sobre quando espera a diminuição do nível atual de desemprego, Bolsonaro disse que uma parte dos milhões de desempregados não se encaixa mais no mercado de trabalho por falta de qualificação. Ele admitiu que a “situação não está bacana”. Nesta sexta-feira, o IBGE divulgou a taxa de desemprego em 12,5% nos três meses até abril.

Flávio Bolsonaro

O presidente reconheceu estar preocupado com a quebra dos sigilos do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), seu filho, requerida pelo Ministério Público. “Se alguém mexe com um filho teu, não interessa se ele está certo ou está errado, você se preocupa”, disse, ao citar que uma das operações investigadas pelo MP –de um financiamento bancário de 1 milhão de reais– está registrada em cartório.

Bolsonaro repetiu que cabe ao ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Fabrício Queiroz explicar as operações suspeitas, mas insinuou haver um aumento da exposição do caso por se tratar do filho do presidente.

“Teve um episódio dele com o meu filho em Botafogo, um assalto na frente de casa, e o Queiroz, impetuoso, saiu para pegar o cara. Então existe essa amizade comigo, sim. Pode ter coisa errada? Pode, não estou dizendo que tem. Mas tem o superdimensionamento porque sou eu, porque é meu filho. Ninguém mais do que eu quer a solução desse caso o mais rápido possível”, disse.

O presidente também disse estar convicto de que a facada que levou durante a campanha eleitora foi um crime encomendado. “Não quero me vitimizar nem inventar um culpado para o episódio, mas isso não saiu da cabeça dele”, disse Bolsonaro sobre o autor da facada, Adélio Bispo, que foi considerado pela Justiça inimputável –quando não pode responder penalmente por um crime– ao ser diagnosticado com um transtorno mental.

Com Reuters e Folhapress

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