ARTIGO

Pareto e a educação pública brasileira

Joaci Góes

Para a grande profissional Ednalva Sampaio!

O seminário que a Academia de Letras da Bahia, junto com várias outras entidades, promoveu para encontrar caminhos redentores da educação pública em nosso País, chegou a conclusões já esposadas pelas nações mais desenvolvidas, adaptadas à nossa realidade social, tanto do ponto de vista material, quanto da qualidade de vida dos seus povos.
O matemático, sociólogo e economista italiano Vilfredo Pareto (1848-1923) observou a tendência de 80% dos recursos aplicados produzirem 20% dos resultados, enquanto, apenas, 20% dos recursos, bem geridos, respondem por 80% dos resultados. Esta Lei de Pareto tem influenciado pensadores do passado e do presente, como Joseph Schumpeter, Alfred Marshall, Talcott Parsons, Ralf Dahrendorf, Maurice Allais, Lionel Robbins, Carl Schmitt, George Homans, Chester Barnard, Peter Drucker, Milton Friedman e muitos outros, inclusive brasileiros, sendo estudada em universidades mundo afora e reconhecida como orientação por organizações interessadas em reduzir custos e melhorar a produtividade.

Os dados relativos ao desempenho das universidades públicas brasileiras, segundo critérios de avaliação de curso internacional, se encaixam, à perfeição, na Lei de Pareto, apontando para a imperiosa necessidade de se submeterem a uma autocrítica destinada a corrigir os graves erros de alguns dos seus setores que as rebaixam no julgamento da opinião pública esclarecida, e liberta do patrulhamento do compadrio corporativo. O absoluto predomínio do pensamento gramsciano, proscrevendo reflexões de matriz liberal, responde, em grande medida, pelas ostensivas fragilidades do ensino superior público no Brasil, de que produções bizarras, para dizer o mínimo, representam parcela lamentável que integra o anedotário da estupidez travestida de intelectualidade, como tem sido apontado por nomes tutelares de todas as mídias. A verdade é que nosso sistema universitário público produz pouco e mal, tendo em vista o valor dos recursos investidos. Os argumentos críticos são sólidos.

Com 3% da população mundial, o Brasil contribui com, apenas, 2% do total das pesquisas, quando, para ficar na média, deveria contribuir com 3% do total. Pior ainda, só participamos de 1% do comércio mundial, metade do que se esperaria de pesquisas de qualidade mediana. A Lei de Pareto aparece por inteiro em nosso sistema universitário, em que 86% das pesquisas são produzidas por 14% das unidades, ficando magros 14% pesquisados a cargo de 86% de núcleos de baixa produtividade. É inegável, portanto, que pesquisamos pouco e mal.

A exemplo do que fizeram Japão, Coreia do Sul e China, deveríamos nos concentrar, numa primeira fase, na adaptação às nossas necessidades do enorme acervo tecnológico existente no Planeta, com vistas a elevar a competitividade de nossos manufaturados na rinha internacional. Faz vergonha o pouco que realizamos nessa área, quando comparados a várias nações minúsculas, em população e território.
A histórica prioridade que a União confere ao ensino universitário, sobre o fundamental e básico, decorre do poder político das elites, fato que conduziu ao efeito boomerang de transformar nosso ensino universitário público, o mais caro do mundo, na maior causa de aprofundamento de nossa ominosa desigualdade de classes sociais, porque a ele só como exceção os pobres tiveram acesso.

A tirania do status quo, como descreveram Rose e Milton Friedman, vem impedindo que adiramos ao óbvio: o setor público priorizar o ensino fundamental e o básico profissionalizante, deixando o ensino universitário a cargo do setor privado, três vezes mais barato. Na sociedade do conhecimento em que estamos imersos, é um crime privar a juventude carente de um mínimo de especialização, já na fase de conclusão do aprendizado básico, para fazer face às demandas de um mercado de trabalho que se sofistica, consoante padrão mundial. O alunado pobre que quisesse cursar o nível superior seria financiado na unidade em que fosse aprovado, preservando-se critérios meritocráticos, rompidos pelo atual sistema de cotas que poderia beneficiar três vezes mais alunos. Deve ser extinta a gratuidade para quem pode pagar. O poder público manteria e ampliaria os centros de pesquisa abertos a quem quer que fosse dotado de vocação, não importando sua procedência. Os municípios que não alcançarem metas mínimas de desempenho escolar terão seu ensino federalizado, caput diminutio que operaria como espada de Dâmocles impendendo sobre o prestígio de gestores relapsos.

É imperioso que façamos da educação uma guerra santa, em que o objetivo a alcançar seja o bem geral de todos os brasileiros, num clima de paz e felicidade.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. O texto foi publicado originalmente na TB, nesta quinta-feira, 30/5.