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Do Jornal do Brasil

 

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Pouco depois de encerrar sua campanha presidencial (finalizada com votação que lhe garantiu o quinto lugar no primeiro turno), João Amoêdo voltou à estrada.

Presidente do Novo, ele tem andado pelo Brasil para divulgar o partido liberal que ajudou a fundar. No horizonte, a busca por cadeiras de prefeito e vereador em 2020.

Macaque in the trees
João Amoêdo (Foto: Divulgação)

Eleitor de Jair Bolsonaro (PSL), que incorporou na campanha o liberalismo de Paulo Guedes (Economia), Amoêdo critica o governo pelo excesso de polêmicas. À reportagem, diz que os ruídos comprometem a medida mais urgente para o país avançar, a reforma da Previdência.*

Pergunta – O Novo se posicionou contra os atos pró-governo deste domingo (26). Por quê?

João Amoêdo – Nossos filiados e apoiadores são livres para escolherem o que fazer. Eu não pretendo ir. Nós, como instituição, não iremos participar e não vemos muito sentido nessa manifestação.

Primeiro porque ela tem pautas muito difusas: apoio à reforma da Previdência, defesa de Bolsonaro, contra o Supremo, contra o Congresso. Segundo que o apoio popular o governo já tem. Conquistou nas urnas. O que falta é capacidade de coordenação e de interlocução para avançar nas principais medidas.

Pesquisas vêm mostrando uma corrosão no apoio ao governo.

JA – Sempre se cria uma expectativa muito maior do que a capacidade de entrega. Então é natural que haja uma queda da popularidade. E esse governo em especial acabou se envolvendo em muitas polêmicas desnecessárias.

Com isso, na atividade econômica, houve uma certa frustração em relação à velocidade das mudanças e da nossa retomada de crescimento.

O sr. foi um dos que se frustraram?

JA – Não, porque na verdade eu nunca alimentei grandes expectativas em relação ao governo. No fundo, tinha-se uma demanda muito grande pela retirada do Partido dos Trabalhadores.

O sr. declarou voto em Bolsonaro porque ele era o candidato anti-PT?

JA – Certamente. Era melhor arriscar alguma coisa que tivesse mudança.

Eu não tinha convicção do presidente quanto às pautas liberais nem sobre a capacidade de liderar um time. É claro que, passada a eleição, a gente quer trabalhar para as coisas darem certo. A bancada do Novo, por exemplo, tem sido muito atuante na defesa da reforma da Previdência. Mais até que a do PSL.

Se o sr. estivesse no lugar dele, enfrentaria obstáculos semelhantes, como a falta de um partido forte para sustentá-lo. O que faria de diferente?

JA – A primeira coisa seria selecionar as pautas prioritárias. Colocaria a Previdência como a número um, estaria falando a todo momento, mostrando que o sistema, além de insustentável, é injusto.

O segundo ponto seria ter uma equipe alinhada, sem desavenças, em que a gente não ficasse falando de coisas que não interessem, não ficasse ouvindo opiniões de pessoas que não estão participando do governo e estão dando palpites a todo momento.

Em terceiro, diálogo com o Congresso. O tamanho da resistência você só sabe na prática, né? Mas acho que esse roteiro parece ter mais chance de sucesso do que abrir tanta polêmica. Eu não teria aberto uma polêmica na área da educação contra a parte ideológica nesse primeiro momento.

Abriria em algum momento?

JA – A gente sabe que há uma certa doutrinação em alguns níveis no ensino. Mas essa não deve ser a prioridade do governo enquanto a educação no nível básico é péssima.

O texto compartilhado pelo presidente que fala sobre um Brasil ingovernável sem conchavos foi escrito por um filiado do Novo no Rio de Janeiro. O sr. concorda com essa ideia?

JA – Não acho que seja [ingovernável]. Alguém que está dentro das instituições não deveria comungar dessa ideia. Quando o presidente dissemina isso, dá um caráter oficial. Não é razoável para alguém que precisa ter responsabilidade institucional. E as pessoas mais próximas, os filhos, infelizmente não ajudam nesse processo.

Qual é o gargalo da relação do governo com o Congresso e o que precisa ser feito?

JA – Falta maior diálogo e faltam líderes do governo que façam a ponte. Um partido precisa ter alguma unidade interna. Sinto falta disso na bancada do PSL. Volta e meia, você vê discussões em redes sociais, polêmicas entre eles, intrigas.

E há uma questão subliminar no Congresso que é: esses representantes que estão eleitos estão se sentindo responsáveis por colocar o Brasil nos trilhos ou há negociações paralelas e a melhora do país não é uma prioridade? Isso é muito ruim para outras coisas, né? Essa morosidade dá uma insegurança em relação aos outros temas.

O sr. tem arrependimento ou faria algum mea-culpa por ter votado em Bolsonaro?

JA – Não, porque a permanência do PT seria muito ruim para o Brasil. A gente vinha de anos de recessão, muitos esquemas de corrupção.

E as denúncias que envolvem o senador Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidente?

JA – A melhor forma era que isso fosse investigado o mais rápido possível. O ministro do Turismo [Marcelo Álvaro Antônio, investigado no escândalo de candidaturas laranjas] acho que deveria ter sido afastado. São polêmicas que ele [Bolsonaro] não precisa ter.

O Novo é contrário ao Estatuto do Desarmamento, mas o sr. faz reparos à política de desarmamento do atual governo.

JA – Nós não entendemos que o porte ou a posse de arma seja um projeto de segurança do país. O presidente deveria ter deixado essa discussão para depois. E realmente não vejo necessidade nenhuma de um cidadão comum precisar comprar um fuzil. Tanto é que o governo voltou atrás.

O sr. tem ido a Minas pelo menos uma vez por mês para monitorar a gestão de Romeu Zema, que é considerada uma vitrine para a legenda, por ser o primeiro governo estadual do Novo. Que avaliação faz até agora?

JA – Acho que está avançando, mas sempre há um processo de aprendizado. Agora ele tem um grande teste, que é passar o plano de recuperação fiscal na Assembleia.

Que receita ele deve adotar nessa negociação?

JA – Ele sempre divide os méritos das conquistas com o Legislativo e tem grande diálogo com o presidente da Assembleia [do PV]. O que o diferencia do governo federal é realmente ter claras as prioridades.

Então Zema é o anti-Bolsonaro?

JA – [risos] Não, eu diria que o Zema é um ótimo gestor. E outra coisa é que ele tem uma equipe de secretários muito unida. Ele é um exemplo a ser seguido, de mais diálogo e menos polêmica.

No rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, Zema chegou à cidade e disse que ali seriam resgatados somente corpos. Foi um erro?

JA – Faz parte do aprendizado. Era um momento delicado, provavelmente ele estava muito impactado. Foi um pequeno deslize.

Quando o vice-governador Paulo Brant (Novo) usou um helicóptero do Estado após uma folga em um spa de luxo para ir a um compromisso, o sr. reclamou que não havia “nenhuma nota” sobre iniciativas positivas do partido e que bastou um episódio para o Novo ser chamado de “igual aos demais”. Culpar a imprensa não é retórica dos políticos tradicionais?

JA – Não. A imprensa tem seu papel, mas, assim como os políticos e os gestores, também deve receber críticas, até para melhorar. Era uma coisa pequena, e várias coisas maiores e produtivas que o Novo faz não vejo noticiadas. Meu pedido é: a gente pode errar, mas estamos fazendo muitas coisas certas.

Ficou algum aprendizado desse caso?

JA – Existe um peso grande em cima do Novo, porque a gente é diferente. Mas não acho ruim essa vigilância extrema. Faz com que o partido cresça mais sólido.

Que metas o Novo tem para a eleição do ano que vem?

JA – Pretendemos lançar candidaturas em todas as cidades onde o partido tenha pelo menos 150 filiados ativos até o dia 15 de junho deste ano. O que será positivo é que poderemos, com certeza, participar dos debates na TV e continua havendo uma demanda por gente nova na política. Acho que a gente será competitivo.

O sr. será candidato novamente?

JA – Em 2020, não pretendo de forma nenhuma. E 2022 ainda não pensei sobre o assunto.

O sr. pedirá recontagem de votos, como sugerem as piadas na internet, depois que diversos eleitores arrependidos de Bolsonaro passaram a dizer que votaram no sr.?

JA – [risos] Isso eu levo na esportiva, né? Do ponto de vista prático, eu não tenho dúvida de que perdi uma quantidade muito grande de votos porque transformaram o primeiro turno num segundo turno.

JOÃO FILGUEIRA BARRETO AMOÊDO, 56

Candidato a presidente da República pelo Novo em 2018, em sua primeira eleição, conquistou 2,6 milhões de votos (2,5% do total) e ficou em quinto lugar. Ex-banqueiro, com patrimônio declarado de R$ 425 milhões, ajudou a fundar o partido e é o atual presidente da legenda

(JOELMIR TAVARES)

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