ARTIGO

O brasilianista Javier Moro

Joaci Góes

Aos queridos e eminentes amigos Sílvia e Marcelo Zarif!

O espanhol Javier Rafael Moro Lapierre, universalmente conhecido como Javier Moro, é um dos mais aclamados escritores da atualidade, com obras traduzidas em dezessete idiomas que cobrem quase toda a população mundial. Os baianos terão a rara oportunidade de ouvi-lo falar, às 18:30hrs de hoje quinta-feira, 24), na Academia de Letras da Bahia, sobre seu processo criativo. Sua presença entre nós resulta de uma parceria da Academia de Letras da Bahia com a Abresco, a Air Europa e o Consulado Espanhol.

Nascido em Madri, de mãe francesa e pai espanhol, em 1955, a rica biografia de Javier Moro faz dele um exemplar cidadão do mundo, despertando tanto interesse quanto os instigantes livros que escreveu, ambientados em países tão distintos, como a própria Espanha, França, Estados Unidos, Camboja, Índia, México, Cuba e Brasil, berço de sua obra inaugural, Caminhos de liberdade (Senderos de libertad), de 1992, em que esgota a temática da iníqua exploração sofrida por índios e seringalistas, culminando com a morte de Chico Mendes, aos 44 anos de idade, em 1988, episódio que constitui um marco na consciência ambiental de todos os povos. Os três anos que viveu enfurnado na Amazônia valeram o sacrifício, na medida em que lhe proporcionaram inaugurar sua luminosa carreira literária com um clássico que de imediato o elevou aos olhos da mais exigente crítica internacional. É de sua lavra, também, o romance histórico O Império é você (El império eres tu), tendo o inquieto Imperador Pedro I como a personalidade central. Nos dois casos, o vasto e preciso conhecimento que revela da sociedade brasileira, em diferentes épocas, faz dele um dos mais completos brasilianistas, a um só tempo corajoso e veraz em suas abordagens, liberto de qualquer preconceito, postura que lhe permitiu a produção do melhor que temos, nos temas abordados.

Ninguém encarna tão bem o aforismo de Buffon, segundo o qual “o estilo é o próprio homem”, quanto Javier Moro. Os diferentes componentes de seu talento poliédrico se juntam para formar um todo sinérgico, orquestrado por um padrão literário de excelência que tem tudo para habilitá-lo ao Nobel de Literatura. Nele o historiador, o antropólogo, o sociólogo, o psicólogo, o paisagista, o jornalista, o cineasta, o Marco Polo redivivo, que faz do mundo a sua casa, se fundem para a produção de uma obra de qualidade incomparável no modelo romance de não ficção, iniciado pelo norte americano Truman Capote, com o romance best-seller A sangue frio, de 1965. O irredento repórter que domina sua alma vai em busca do episódio que interessa a toda a humanidade, esquadrinha-o em suas mais íntimas e minuciosas peculiaridades, base da narrativa ficcional, enquanto o historiador exigente não se conforma com nada menos do que a inquestionável verdade documental dos fatos e sua repercussão no universo em que ocorrem.

A partir daí, história, com H maiúsculo, e ficção, da mais alta qualidade, caminham de mãos dadas para despertar no leitor um sentimento de suspense que perdura da primeira à última página, apanágio dos grandes mestres da literatura universal. A narrativa de Javier Moro é altamente visual, cinematográfica mesmo, de tal modo se materializa diante de nossa imaginária visão o conjunto dos elementos de que se compõe seu texto superior. Esta é a marca presente em cada uma de suas grandes produções.

É verdade que a providência elegeu Javier Moro para lhe dar um grande adjutório. Sua mãe, a francesa Bernadette Lapierre, tradutora por vocação, que viria a traduzir vários dos seus livros, e o seu tio Dominique Lapierre, conhecido e festejado escritor de best-sellers, lhe proporcionaram um ambiente altamente favorável ao culto das coisas do espírito, ao lado do seu pai, Julio, executivo de uma grande companhia aérea que lhe permitiu conhecer países da Europa, América, Ásia e África, até os 12 anos de idade, quando veio a falecer, precocemente. A partir de então, mãe e filho construíram frutuosa parceria afetiva e literária.

O espaço é pequeno para falar de seus vários outros livros, como O pé de Jaipur, As montanhas de Buda, Era meia-noite em Bhopal, este último em parceria com o Tio Dominique, Paixão Índia, O sári vermelho, a Flor da pele, Meu pecado e criações cinematográficas.
A Bahia se engalana para receber um dos maiores escritores contemporâneos.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex diretor da Tribuna da Bahia. Texto puclicado  na edição desta quinta-feira, 23, da TB.