“Mandarinas”, Victor Heredia: Bela e tocante canção do inspirado compositor portenho ( considerado por muitos o Chico Buarque da Argentina), feita em homenagem a sua irmã Maria Cristina – sequestrada em casa, em Buenos Aires, e  não mais rencontrada pela família- e em seu nome, dedicada a todos os desaparecidos políticos .

Vai aqui no BP, neste domingo, 19 de maio, dedicada especialmente à mana Mariana, na data de seu aniversário. Com afeto e admiração.

(Hugo e Margarida)

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Mandarinas

Recuerdo cuando niño robaba mandarinas redondeces de oro que una dulce vecina cuidaba de mis garras, mis garras asesinas como quien cuida al tiempo que no arruine la vida. Yo esquivaba en la siesta la leve ligustrina sobornando a su perro con sobras de cocina y entraba al terrenito de doña Catalina que dormía su sueño tras pesadas cortinas. Alzaba mi tesoro y escalaba la encina despues con un silbido le avisaba a Cristina y comíamos juntos y ella a veces reía con risa transparente y fulgor de aguamarina. Silbo de vez en cuando para ver que sucede aunque hace tantos años que talaron la encina y aunque no me lo crean a veces siento risas y un perfume en el aire como de mandarinas. Víctor Heredia

Diretor apresenta no festival ‘Dor e Glória’, diz estar ‘impressionado’ com o carinho do público espanhol por este filme e ‘aliviado’ com o resultado das eleições na Espanha

No terraço do hotel Marriott, no meio do dia em Cannes, geralmente quente, começa a esfriar. Em um dos sofás, Penélope Cruz se abriga em um cardigã. Em outra sala fechada, o restante da equipe artística e da produtora El Deseo começa a comer. Antonio Banderas se despede até a tarde. E Pedro Almodóvar (Calzada de Calatrava, Ciudad Real, 69 anos) encara a última entrevista de sua sessão matinal nesta sexta-feira. A exibição em Cannes coincide com as estreias francesa e italiana de Dor e Glória. “Não vou te dar o meu melhor, estou um tanto sem cabeça”, diz o diretor, que retorna ao festival francês, onde já chegou a presidir o júri, para competir pela sexta vez. Penélope Cruz deixa escapar um “ele nunca está sem cabeça”, o que se confirma à medida que a conversa avança.

Pergunta. Há poucos dias, um diretor francês garantiu que, para um criador europeu, a Palma de Ouro é mais importante que o Oscar, pelo que o cinema de autor significa. E para você?

Resposta. Provavelmente essa é a impressão do público e da indústria europeia. Obviamente, não ganhei a Palma de Ouro e tenho dois Oscars, o que é muito difícil. Acima de tudo, o de melhor roteiro, que em 90 anos foi conquistado apenas por três filmes que não eram de língua inglesa. Ali as corporações, como as dos escritores, se empenham muito para que seus membros ganhem.

P. Mas você é um europeu que faz cinema de autor. Esse prêmio não lhe atrai?

R. Não tenho ansiedade pela Palma porque, de outro modo, não poderia vir para competir. Estive duas vezes no júri e sei como funciona a mecânica dos prêmios, a difícil negociação. Nunca estarei mais perto do que em 1999, com Tudo Sobre Minha Mãe. David Cronenberg, presidente desse júri, vai ser perseguido a vida toda por aquela pergunta [por que o filme de Almodóvar não recebeu o prêmio]. Não acho que esta edição seja parecida. Quando você vai a uma competição, tem que mentalizar que a lista de prêmios é imprevisível, vai além da qualidade dos filmes, a qual eu pressuponho. Li que estou obcecado pela Palma. Nunca estive, e agora menos ainda.

P. Quando veio apresentar Julieta no festival de 2016, falou muito sobre o legado. Agora apresenta um filme que é puro legado.

R. Sim, lembro bem dessa conversa. Dão como certo que Dor e Glória é um filme de despedida, e não é. Na verdade, estou escrevendo dois roteiros e um será do meu próximo filme. Mas Dor e Glória, é verdade, reflete sobre mim mesmo como diretor e como pessoa, eu paro para me observar. Não sei por que isto se passou. Evidentemente, eu tinha a necessidade de fazer isso, senão não teria escrito esse roteiro. Talvez um psiquiatra me explicasse a razão, mas não vou perguntar. Embora o personagem do Antonio esteja em uma situação mais crítica do que a minha, eu sofria um medo parecido de não poder filmar por doença, de que não houvesse nenhum outro filme. Tenho uma grande dependência do cinema, é total. Este é, para mim, o tema mais pessoal de Dor e Glória. Foi … terapêutico, apesar de eu odiar essa palavra, porque ninguém dirige como terapia. Você faz filmes porque quer contar uma história. Por que escolhi me expor assim? Não sei. Mas senti um efeito balsâmico quando concluí, que eu não esperava.

P. Sentiu que recuperou o carinho do público?

R. Sim, é muito impressionante. E imprevisível. Pensei, enquanto escrevia, que o efeito seria o oposto. Porque o público espanhol vê outros filmes, comédias produzidas pelas redes de televisão ou de super-heróis. O espectador atual na Espanha é menos interessante do que há dez anos. E se voltarmos mais… Lembro de como ficavam lotados os primeiros cinemas de arte e ensaio. Enfim, esperava o contrário. E parece que o fato de me mostrar fez com que as pessoas sintam que estou mais próximo. À parte minha firme vontade de fazer esse filme, a incerteza rodeou quase todas as decisões. Recebi muito carinho, sentimento que sempre é bem-vindo.

P. Está apoiando a campanha de Manuela Carmena para ser reeleita prefeita de Madri.

R. Depois das eleições gerais, senti um enorme alívio, como voltar a respirar. Votei pelo correio porque tinha que estar em Nova York e de lá acompanhei a contagem grudado no computador. Não tinha nenhuma segurança sobre o resultado. Li a imprensa nos dias anteriores, em que diziam que o Vox subia como espuma, e eu estava com muito medo. Respirei, sobretudo porque durante a campanha não reconhecia o país em que estava vivendo. Nunca houve tamanha degradação da classe política como nos últimos meses. Em nenhuma outra profissão as pessoas se permitem esse nível de insultos, de irritação, de crispação, de mau humor, como acontecia na Câmara dos Deputados. Isso me escandalizou. Felizmente, o país tomou consciência e foi em massa às urnas. E a fumaça da extrema direita vai se acalmar. Dá-se muito ouvido a eles, são muito vocais, mas representam menos gente do que parece. Na realidade, Trump despertou o pior de cada país e os loucos de cada casa. Há um plano da extrema direita para desestabilizar a Europa. E sim, minha opção é Carmena.

P. O próximo vai ser filme ou série?

R. O que estou preparando é um filme. Estou escrevendo dois roteiros que adaptam romances anglo-saxões. E quero fazer os dois. Para uma série, há um livro de histórias de que gosto muito e esse seria o seu formato. Mas eu imporia a duração natural de cada história, os capítulos durariam de acordo com cada conto. O que os uniria é que procedem da mesma autora. Bem, estamos falando de um futuro daqui a quatro anos.

P. É uma grande mudança como roteirista. Sente-se confortável como adaptador?

R. Reduzi tanto a minha vida que, embora esteja a par da realidade espanhola, não conheço os pequenos detalhes da vida dos espanhóis, especialmente das gerações que não são a minha. Eu deveria me documentar porque não sei como são, por exemplo, nos salões de cabeleireiros. Por isso passei a adaptar obras literárias [reflete]. Algum dia gostaria de filmar um romance espanhol como A Tia Tula. Sinto grande atração por filmes que se passam nas cidadezinhas.

maio
19

DO JORNAL DO BRASIL

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou na tarde deste sábado (18) aos seus seguidores numa rede social que “somente com o apoio de todos vocês poderemos mudar de vez o futuro do nosso Brasil”. A manifestação ocorre um dia após ter compartilhado texto sobre as dificuldades de seu mandato dizendo que o Brasil “é ingovernável” sem os “conchavos” que ele se recusa a fazer.

Antes, pela manhã, o presidente não quis explicar o que quis dizer com a distribuição da mensagem em grupos de WhatsApp na sexta-feira (17). “O texto? Pergunta para o autor. Eu apenas passei para meia dúzia de pessoas”, disse, na porta do Palácio da Alvorada.

A mensagem, atribuída por ele a um autor desconhecido, diz que o mandatário estaria impedido de atuar por não concordar com os interesses das corporações.
Neste sábado, a internet ficou dividida entre apoio a Bolsonaro e a pressão pelo impeachment do presidente. À tarde, a hashtag mais compartilhada no Twitter nacional era #BolsonaroNossoPresidente. Mas, logo em seguida, estava #Impeachmentbolsonaro.

Às 14h40, o próprio presidente tuitou comentando a repercussão da hashtag favorável a ele e disse a seguidores que precisava do apoio deles para governar.
“Tomei conhecimento e agradeço imensamente a todos pela hashtag #BolsonaroNossoPresidente, que chegou a nível mundial no Twitter. Retribuo e ressalto que somente com o apoio de todos vocês poderemos mudar de vez o futuro do nosso Brasil!”, escreveu o presidente.

Às 15h47, a hashtag já não aparecia na lista dos dez assuntos mais comentados no mundo.
Apoiadores de Bolsonaro também foram às redes sociais prestar homenagem ao presidente.
“Até hoje no Brasil os grupos políticos lutavam pelo controle da máquina. O governo Bolsonaro quer desligar a máquina e jogar a chave fora. Pois essa maldita máquina só fabricou estagnação, desemprego, corrupção e descaso pelos valores do povo brasileiro”, escreveu o chanceler Ernesto Araújo.
O chefe do Ministério das Relações Exteriores disse estar fazendo a parte dele “promovendo parcerias que ajudem o povo brasileiro a renovar o seu destino”.

O empresário Luciano Hang também escreveu em apoio a Bolsonaro e convocou internautas para uma manifestação em apoio ao presidente. “Precisamos apoiar nosso presidente para mudar o nosso país. O mais difícil fizemos que foi ganhar as eleições agora precisamos fazer as grandes mudanças e a previdência é a mãe de todas. #Dia26NasRuas”.

Filho do presidente da República, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) escreveu mais cedo em alusão ao aumento do número de ministérios que acontecerá se o Congresso deixar caducar a medida provisória que estabelece a atual configuração ministerial do governo.
Bolsonaro está encurralado por uma relação desgastada com o Congresso, suspeitas que atingem um de seus filhos e manifestações populares contra seu governo.

O compartilhamento do texto elevou a tensão dentro do governo, entre aliados e representantes de outros Poderes, com interpretações divergentes sobre as intenções do presidente ao endossar a mensagem –publicada no sábado anterior (11) em rede social por um filiado ao Novo-RJ e replicada em outros grupos.
Na sexta-feira (17), ao comentar o texto por meio de seu porta-voz, Bolsonaro afirmou que, “infelizmente, os desafios são inúmeros e a mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que no passado se beneficiavam das relações pouco republicanas. Quero contar com a sociedade para juntos revertermos essa situação e colocarmos o País de volta ao trilho do futuro promissor”.

Parte dos auxiliares do presidente no Palácio do Planalto diz que ele se deixa levar por teorias da conspiração espalhadas pelo grupo que segue o escritor Olavo de Carvalho e por influência de seus filhos –o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) já havia exposto conceitos do tipo em rede social.
A mensagem chegou a motivar boatos acerca de eventual renúncia do presidente –alguns aliados viram nela um arcabouço narrativo para uma saída do cargo por culpa de resistências à suposta agenda antiestablishment de Bolsonaro.
Seria, para eles, uma espécie de “cenário Jânio Quadros” no mundo político, segundo o qual Bolsonaro poderia emular o presidente que renunciou em 1961 após oito meses de inação, colocando a culpa em supostas “forças terríveis”.
Integrantes do Judiciário e do Legislativo dizem que o presidente recorreu à estratégia do ataque ao Congresso e ao STF (Supremo Tribunal Federal) para tentar “sair das cordas” naquele que é considerado o pior momento de seu governo.
Também viram no gesto dele uma tentativa de “jogar para a plateia” e se eximir da responsabilidade de governar, transferindo para os demais Poderes a causa dos problemas enfrentados pelo país.

maio
19
Posted on 19-05-2019
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O presidente viaja a Dallas para receber um prêmio depois de ser boicotado em Nova York. Enquanto isso, seu vice-presidente visita Pequim, principal parceiro comercial do Brasil

  
Jair Bolsonaro com George W. Bush, nesta quarta-feira em Dallas, em uma foto difundida pelo presidente brasileiro em sua conta de Twitter.

 Jair Bolsonaro com George W. Bush, nesta quarta-feira em Dallas, em uma foto difundida pelo presidente brasileiro em sua conta de Twitter.

A China se destaca entre o elenco de inimigos comunistas que Jair Bolsonaro prometeu combater durante a campanha eleitoral. Como presidente, esse tom diante do principal parceiro comercial do Brasil desapareceu. O ultradireitista parece enfrentar o dilema clássico entre o que o coração pede e o que o bolso dita; entre o seu instinto de alinhar-se completamente com os EUA e, seguindo seus passos, virar as costas à China ou adotar uma posição pragmática perante o regime comunista. O mandatário esteve nos EUA nesta quarta-feira (para receber um prêmio que, em face dos protestos, teve que ser transferido de Nova York para Dallas) e seu vice-presidente, o general da reserva Hamilton Mourão, aterrissa neste domingo na China. Ambas as viagens permitirão ver onde o Brasil se posiciona ante as duas potências globais e na disputa comercial entre os dois gigantes.

A segunda viagem do presidente brasileiro aos Estados Unidos — depois da frutífera visita a seu homólogo, Donald Trump, em março — tem um gosto amargo. Suspendeu a visita a Nova York para receber o prêmio de Personalidade do Ano, concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, depois que sua política para a Amazônia se deparou com fortes protestos de cidadãos que resultaram em um boicote de empresas (incluindo a Delta Airlines e o Financial Times) e uma guerra verbal com o prefeito, o democrata Bill de Blasio.

A cerimônia foi transferida para Dallas, onde foi fotografado ao lado de George W. Bush. Bolsonaro foi acompanhado por cinco ministros, incluindo os de Relações Exteriores, Economia e Minas e Energia. Outro objetivo da visita era atrair investimentos, embora esta seja uma tarefa cada vez mais complicada porque as últimas previsões indicam que o crescimento do Brasil será menor do que o esperado quando ele assumiu o poder.

O novo Governo brasileiro, que tomou posse em janeiro, continua sua aproximação de Washington, mas sem a ruptura que pareciam pressagiar gestos como a visita que o ultradireitista fez durante a campanha a Taiwan, para irritação de Pequim. Ou quando, para criticar a voracidade chinesa, proclamou que “a China não compra no Brasil, está comprando o Brasil”.

Mas, no terreno, uma realidade diferente se impõe. O general Mourão está há meses repetindo a seus interlocutores que “o Brasil não vê a China como uma ameaça, mas como um parceiro estratégico, o que o levou a desativar a bomba armada pelo capitão” Bolsonaro, de acordo com Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. Bolsonaro anunciou que viajará para Pequim no segundo semestre do ano. Além disso, o presidente Xi Jinping virá a Brasília em novembro para a cúpula dos BRICS.

Este especialista explica que dois fatores influenciaram Bolsonaro para que pusesse de lado seu discurso antichinês. Um, a mobilização do setor agropecuário e da ministra da Agricultura, Teresa Cristina Dias, para deixar claro, segundo Stuenkel, que “uma posição anti-China tem um custo econômico significativo que uma aproximação dos EUA não será capaz de compensar”.

Há uma década, a China ultrapassou os Estados Unidos como o principal parceiro comercial do Brasil. O superávit da balança comercial com o gigante asiático foi no ano passado de 29,5 bilhões de dólares. Com os EUA houve um déficit de 193 milhões, segundo cifras oficiais. E, apesar da guerra comercial em que ambos os gigantes estão engajados, as exportações brasileiras para a China dispararam, passando a 64 bilhões. O país vende para Pequim principalmente matéria-prima, com a soja bem destacada, e compra produtos manufaturados.

De acordo com o especialista da Fundação Getúlio Vargas, o outro fator para que o presidente brasileiro abaixasse o tom é que atacar os chineses não gera créditos políticos na base bolsonarista, ao contrário do que acontece entre os trumpistas. É politicamente muito mais lucrativo para o Trump tropical atacar os progressistas ou as universidades.

Bolsonaro precisa parar com xaropada e focar no trabalho’, diz Janaina

 

Em sua entrevista à BBC Brasil, Janaina Paschoal afirmou que Jair Bolsonaro precisa “urgentemente trocar seus assessores diretos”, que atrapalham a comunicação do governo.

“Somente o presidente pode identificar quem o está estimulando em teorias crescentemente conspiratórias. Precisa parar com tanta xaropada e focar no trabalho. Eu não vou abandonar o presidente, vou exigir que ele trabalhe e cumpra suas promessas de campanha.”

DO JORNAL DO BRASIL

Ouvindo: Cristina Kirchner concorrerá como vice em corrida presidencial na Argentina http://www.jb.com.br – Internacional 80.0% 100% Audima

Cristina Kirchner anunciou que irá concorrer como vice na corrida presidencial deste ano na Argentina, num passo surpreendente da combativa ex-presidente, que era amplamente cotada como principal desafiante ao postulante à reeleição, Mauricio Macri.

Uma populista de esquerda e personalidade polêmica no país, que é a segunda maior economia sul-americana, Cristina disse em um vídeo publicado nas redes sociais neste sábado que será candidata a vice de Alberto Fernández, ex-chefe de gabinete da presidência.

Macaque in the trees
Cristina Kirchner (Foto: Presidência da Argentina)

Os argentinos irão às urnas em outubro, com Macri cada vez mais sob pressão em meio a uma crescente recessão e uma inflação em alta, o que têm prejudicado o desempenho do líder pró-mercado nas pesquisas.

Com uma robusta base de seguidores, Cristina Kirchner era vista como principal ameaça a Macri, embora muitos argentinos continuassem receosos com seu retorno à presidência, que ela ocupou entre 2007 e 2015.

Alberto Fernández serviu como chefe de gabinete do ex-presidente Nestor Kirchner, o já falecido marido de Cristina, e continuou na posição por alguns meses após ela assumir o governo. Ele é considerado um moderado dentro do amplo espectro político do flanco peronista.

(Reportagem de Adam Jourdan)

maio
19
Posted on 19-05-2019
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 Sinovaldo, no (RS)

 

maio
19
Posted on 19-05-2019
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A tumba de Kafka

O autor de ‘A metamorfose’ escreveu sem parar, embora suas obras tenham passado praticamente desapercebidas e só postumamente se notou que foi um dos grandes autores de todos os tempos

A tumba de Kafka
 
Fernando Vicente

Está no novo cemitério judaico de Praga, no bairro de Strasnice, enterrado junto a seus pais e suas três irmãs, que morreram nos campos de extermínio nazistas. Na verdade, esta bela cidade é praticamente um monumento ao mais ilustre de seus escritores. Toma todo um dia visitar as esculturas a ele dedicadas, as casas onde viveu, os cafés que frequentava e o magnífico museu, e em todos estes lugares coincido com bandos de turistas que tiram fotos e compram seus livros e souvenires. Eu também o faço: dos escritores que admiro, colecionaria até seus ossos.

Comove-me ver, no Museu Franz Kafka, muitas páginas da sua Carta ao Pai, que nunca enviou. Tinha uma letra arrevesada e saltitante, que, às vezes, pareciam desenhinhos de HQs. Essa enorme carta foi a primeira coisa que li dele, quando era adolescente. Eu me dava muito mal com meu pai, de quem tinha um medo pânico, e me senti totalmente identificado com esse texto desde as primeiras linhas, sobretudo quando Kafka acusa seu progenitor de tê-lo tornado inseguro, desconfiado de todos, de si mesmo e da sua própria vocação. Recordo com um calafrio aquela frase em que Kafka explica sua insegurança a ponto, diz, de não confiar em mais ninguém e mais nada, exceto o pedacinho de terra que seus pés pisam.

Este museu, diga-se de passagem, é o melhor que já vi dedicado a um escritor. Sua penumbra, seus corredores labirínticos, seus hologramas, os filmes arruinados da Praga do seu tempo, as grandes gavetas misteriosas que não podem ser abertas, e até a tenra canção em iídiche entoada por uma moça que parece de carne e osso (mas não é) não podem ser mais kafkianos. Tudo o que se sabe dele está exposto ali, e de maneira sutil e inteligente. As fotos mostram a trajetória fugaz dos quarenta e um anos que viveu; aparece quando menino, quando jovem e quando adulto, a figurinha estilizada, o olhar penetrante e suas grandes orelhas curvas de lobo da estepe.

Está enterrado em Praga, junto a seus pais e suas irmãs, que morreram nos campos de extermínio nazistas

Há um texto maravilhoso escrito quando, recém-formado advogado, acaba de começar a trabalhar numa companhia de seguros (de oito a nove horas por dia, seis dias por semana), afirmando que esse trabalho matará sua vocação, porque como poderia chegar a ser um escritor alguém que dedica todo seu tempo a um estúpido afazer alimentício? Exceto os rentistas, todos os escritores do mundo se fizeram perguntas parecidas. Mas este fez o que a maioria deles não costuma fazer: escrever quase sem parar, em todos os momentos livres que tinha, e, embora tenha publicado muito pouco em vida, deixar uma obra que, incluídas suas cartas, é de longuíssimo fôlego.

Nada me parece mais triste que alguém que sentia intensamente essa vocação e que, como Kafka, foi capaz de escrever tantos livros jamais tenha sido reconhecido enquanto vivia, e só postumamente se notasse que foi um dos grandes escrivinhadores de todos os tempos (W.H. Auden o comparou a Dante, Shakespeare e Goethe e disse que ele, como aqueles, era a síntese e o emblema de sua época). As coisas que publicou em vida passaram praticamente despercebidas, e isso que entre elas figurava A Metamorfose. O pedido a seu amigo Max Brod para que queimasse seus inéditos revela que acreditava ter fracassado como escritor, embora talvez restasse alguma esperança, porque, do contrário, ele mesmo os teria queimado.

A propósito de Max Brod, um dos poucos contemporâneos que acreditavam no talento de Kafka, há agora, por motivo da aparição do livro Kafka’s Last Trial, de Benjamin Balint, uma ressurreição dos ataques que já lhe fizeram no passado, inclusive críticos e intelectuais tão respeitáveis como Walter Benjamin e Hannah Arendt. Que injustiça! O mundo deveria estar para sempre grato a Max Brod, por ter, em vez de acatado a decisão do amigo a quem estimava e admirava, salvado para os leitores do futuro uma das obras mais originais da literatura. Em sua biografia e em seus ensaios sobre Kafka, Brod pode ter exagerado a influência que o misticismo judaico exerceu sobre ele, e talvez tenha se equivocado ao deixar em seu testamento à senhora Esther Hoffe os inéditos que ainda restavam, razão pela qual o Estado judaico e a Alemanha passaram muitos anos litigando por aqueles textos (finamente foi Israel que ficou com eles), tema sobre o qual versa o por outro lado estrambótico livro de Benjamin Balint. Ninguém que desfrute verdadeiramente lendo Kafka deveria lê-lo. Os que o atacam teriam que estar conscientes de que nada do que dizem em suas análises sobre Kafka seria possível sem a decisão extraordinariamente sagaz de Max Brod de resgatar esta obra essencial.

Seu amigo Max Brod foi um dos poucos contemporâneos que sempre acreditou em seu talento

Hermann Kafka, o destinatário da impressionante carta que seu filho nunca lhe enviou, era um judeu humilde, que não teve contato nenhum com a literatura. Dedicou-se ao comércio, abrindo lojinhas de armarinhos que tiveram certo êxito e elevaram os níveis de vida da família. Mas havia nele algum germe de excentricidade kafkiana, porque como é possível que passasse a vida mudando de apartamento, inclusive dentro de um mesmo quarteirão? Os guias dizem que se mudou doze vezes de residência, e que não menos mudanças experimentaram suas lojas. A família se considerava judia e falava alemão, como a maioria dos tchecos de então, e não era particularmente religiosa. Kafka tampouco o foi, pelo menos até que chegasse a Praga aquela companhia de teatro em iídiche que tanto o impressionou. O museu documenta muito bem os efeitos dessa experiência, o empenho com que se pôs a estudar hebraico (que nunca chegou a aprender), a ler livros sobre o hassidismo e outros movimentos místicos, assim como o belíssimo texto que escreveu sobre aqueles atores e atrizes que faziam teatro em iídiche, sobrevivendo com as miseráveis gorjetas que o público lhes atirava na rua ou nos cafés onde atuavam.

O museu também dá detalhes sobre as quatro namoradas que Kafka chegou a ter e sobre como eram complicadas suas relações sentimentais. Apaixonava-se, sem dúvida, e era um amante tenaz, monopolizador, e lhes propunha casamento. Mas, assim que aceitavam, recuava, aterrorizado por ter chegado tão longe. A insegurança o perseguia também no amor. Pelo menos três dessas namoradas sofreram com esses desplantes; com uma delas, Felicia Bauer, celebrou o noivado com uma festa, poucos dias antes de rompê-lo. Com a amizade era muito mais constante. Seu melhor amigo foi sem dúvida Max Brod, que, naqueles anos, já tinha um nome literário e havia publicado alguns livros. Foi um dos primeiros em perceber o gênio de Kafka e o estimulou sem trégua a escrever e a acreditar em si mesmo, algo que efetivamente ocorreu, pois Kafka, pelo menos quando escrevia, perdia a insegurança da qual sempre padeceu e se tornava um insólito e seguro fazedor de pessoas e histórias. Uma tuberculose galopante acabou com sua existência, no começo da maturidade. Hitler deu cabo do resto da família.

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