ARTIGO

Artigo publicado na Tribuna da Bahia em 16/05/19

O bebê e a água suja

Joaci Góes

Para o amigo e confrade Astor Pessoa, Presidente da Academia Baiana de Educação!

Impressiona a velocidade com que o Governo Federal vem dissipando seu capital político, numa verdadeira hemorragia de popularidade, tão necessária para vencer as resistências de um Congresso, fisiológico em sua essência. Tudo isso vem acontecendo por questões formais que a opinião pública pouco esclarecida tende a confundir com o conteúdo, como dissertamos em artigo aqui mesmo publicado em 21/02 último.

A verdade é que os aloprados que fazem oposição ao Brasil, a pretexto de se oporem ao Governo Bolsonaro, de tão desacreditados, não causam a menor mossa aos que administram o País, tarefa que vem sendo cumprida a regulares e contundentes fogos amigos, inclusive partidos do núcleo afetivo que cerca o Presidente. O anúncio do corte de verbas destinadas às universidades públicas se inscreve nessa toada de tiros no pé.

A necessidade de dizer-se que o rei está nu, apontando e buscando corrigir os erros que vêm comprometendo a qualidade de nossa universidade pública, não justifica a criação de um ambiente de insegurança que pode agravar, ainda mais, o desempenho de um setor de importância tão vital para a elevação da qualidade de vida do povo brasileiro, como o universitário. Para melhorar a eficiência de nossas universidades públicas é imperioso reconhecer que suas pesquisas estão abaixo da média mundial, tanto em quantidade, como em qualidade, segundo os critérios comparativos utilizados, de curso internacional. Tanto é que a USP, considerada a melhor universidade brasileira, figura, predominantemente, entre o tricentésimo e o quadricentésimo lugares, não conseguindo assento permanente entre as melhores duzentas do mundo. Com 2,8% da população mundial, o Brasil só produz 2,0% do total das pesquisas, 40% abaixo da média, e só participa com 1,0% do comércio global, 50% abaixo do percentual esperado de boas pesquisas. É inegável, portanto, que precisamos melhorar em ambos os aspectos.

No plano do pensamento, a universidade pública brasileira é inteiramente dominada por uma ultrapassada ideologia autodenominada de esquerda, quando, na verdade, de esquerda não é, porque sem semelhante no mundo mais avançado, na medida em que defende que Stalin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro e Hugo Chávez lideraram governos democráticos, fazendo corar em seus túmulos pensadores como Sócrates, Platão, Aristóteles, Francis Bacon, Rousseau, Kant, Hegel, Max Weber, Stuart Mill, Nietzsche, Friedrich Hayek e o próprio Marx. Os defensores de teses acadêmicas, a partir de uma perspectiva liberal, só como exceção conseguem orientadores e quase nunca são aprovados. Tanto é que não chegam a 5,0% os mestres e doutores de pensamento liberal que conseguem vencer o patrulhamento ideológico atuante na Universidade Pública Brasileira, em que alguns reitores confundem autonomia com soberania, agindo como se fossem chefes de Estado dentro de um estado chamado Brasil.

Nada disso, porém, justifica o desorganizador choque do imprevisto corte de verbas que compromete o funcionamento de nossa Universidade. Em seu lugar, o melhor será o implemento de mudanças negociadas que visem a elevação do desempenho e eliminação de grotescas práticas que comprometem a imagem e credibilidade de nosso ambiente universitário aos olhos da sociedade brasileira e do mundo.

Como exemplo do desmantelo que o indiscriminado corte pode gerar, examinemos o caso da Universidade Federal da Bahia, que tem como Reitor o filósofo João Carlos Salles, vice-presidente da entidade nacional dos reitores de universidades, personalidade respeitada pela inteligência, saber, moderação e espírito público.

Os 37,3 milhões bloqueados na UFBA correspondem a despesas essenciais para o seu funcionamento, como consumo de água, energia, telefone, manutenção de espaços e equipamentos e pagamento de pessoal terceirizado, a exemplo da vigilância do Campus, dentre outros. Como operar sem esses serviços? Observe-se, ainda, que declinante até algum tempo, a UFBA vem apresentando sensível elevação do seu desempenho, nos últimos anos.

 

Seus 105 cursos, com 37.985 alunos matriculados, apresentaram uma elevação de 40% para 96% dos que evoluíram a nota obtida de 4 para 5. No Enade, a média geral melhora, regularmente, desde 2006, subindo, nos dois últimos triênios de 3,89 para 4,05. Um total de 136 cursos de pós-graduação – 82 de mestrado e 54 de doutorado-, tem 7045 matriculados. A UFBA, 1ª do Nordeste, 10ª brasileira e 30ª da América Latina, na classificação do Times Higher EducationaI (THE), da revista Times, ocupa a 12ª posição entre as vinte universidades que lideram a produção de conhecimento, a 9ª com mais artigos publicados na plataforma Scopus, como em colaboração internacional. Em parcerias com o setor privado, figura na 11ª posição. Entre as 196 universidades brasileiras, a UFBA subiu de qualidade da 15ª para a 14ª posição, entre 2017 e 2018.

Por derradeiro, observe-se que o povo baiano, pela marcante singularidade de sua herança antropológica, representa o contingente humano mais diversamente rico do Planeta, nessa cadeia sucessória quase infinita, em que cada um dos seus membros é herdeiro genético e cultural da espécie. Isso porque, além da herança genética e cultural, de matriz greco-romana, com os contributos de origem asiática e médio-oriental, filtrados pelos diferentes povos europeus, os baianos são, também, herdeiros diretos dos africanos e das populações nativas do Brasil. Caldo de cultura genético-cultural não há sobre a face da terra! A UFBA forma a elite pensante desse complexo melting-pot. É imperioso levar esses fatores em conta para evitar o comprometimento de sua estrutura.
Não há justificativa para o erro de jogar fora a água suja junto com a criança!

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia da Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado originalmente na TB, nesta quinta-feira, 16.