Do Jornal do Brasil

 

MARINA DIAS E TALITA FERNANDES

WASHINGTON, EUA, E BRASÍLIA (DF) – Aliados de Jair Bolsonaro estudam alternativas para que o presidente viaje aos EUA na próxima semana e receba o prêmio de Pessoa do Ano concedido pela Câmara de Comércio Brasil-EUA.

Neste fim de semana, o Itamaraty entrou em contato com interlocutores do Planalto em Nova York e Washington para saber sobre a viabilidade de mudar o evento para Dallas, no Texas.

Na sexta-feira (3), após pressão de políticos e ativistas americanos, a Presidência anunciou por meio de nota que Bolsonaro não viajaria mais a Nova York para ser homenageado em um jantar de gala marcado para o dia 14 de maio, no hotel Marriott Maquis, na Times Square.

A decisão, porém, dividiu o governo. Enquanto há um grupo -formado principalmente por militares do primeiro escalão- que defende que Bolsonaro não vá aos EUA, a ala ideológica, liderada pelo chanceler Ernesto Araújo, busca opções, como Dallas, para que o presidente não deixe de receber o prêmio.

Há ainda quem defenda a ideia de que Bolsonaro deve manter a ida a Nova York e enfrente possíveis protestos contra ele que sejam feitos na cidade.

Neste domingo (5), o presidente disse a jornalistas: “vou aos EUA”, ao ser questionado sobre polêmicas que envolveram o evento em sua homenagem, mas o Planalto não confirmou a viagem e não se posicionou oficialmente sobre o assunto até a manhã desta segunda (6).

O prefeito de Nova York, o democrata Bill de Blasio, foi um dos principais articuladores da pressão contra Bolsonaro. Após o anúncio da desistência do presidente em viajar aos EUA, Blasio chamou o brasileiro de “valentão” e disse que “seu ódio não é bem-vindo aqui”.

“Bolsonaro aprendeu do jeito difícil que nova-iorquinos não fecham os olhos para a opressão. Nós expusemos sua intolerância. Ele correu. Não fiquei surpreso, valentões geralmente não aguentam um soco”, escreveu Blasio no Twitter.

O prefeito de Dallas, Mike Rwalings, também é do Partido Democrata, mas o Estado do Texas é tradicionalmente conservador. Ted Cruz, senador republicano, já recebeu a visita de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e uma espécie de chanceler informal do governo.

O cancelamento irritou aliados do presidente nos EUA, que estavam convidados para uma série de compromissos com presença prevista de Bolsonaro e seus principais ministros.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, auxiliares de Bolsonaro atribuem à ala militar do governo e à atuação de executivos da Câmara de Comércio Brasil-EUA o cancelamento da viagem do presidente.

Do lado americano, as tratativas estavam sendo conduzidas pelo diretor-executivo da câmara, Ted Helms, e pelo presidente do conselho, Alexander Bettamio, em contato direto com o Planalto. No alto escalão do governo brasileiro, era o general Augusto Heleno (GSI), um dos principais conselheiros do presidente, quem estava analisando as informações que chegavam dos EUA sobre a viagem.

A avaliação de bolsonaristas é que aquilo que consideram “excesso de zelo’ dos militares foi fundamental para a decisão do presidente. Segundo esses aliados, Bolsonaro tem personalidade forte e, se não fosse influenciado pelos auxiliares fardados, não teria problemas em enfrentar protestos e manifestações.

A mudança do jantar de gala de Nova York para Dallas, porém, enfrenta problemas, no mínimo, de logística. Previsto para cerca de mil convidados, caso ocorresse no Texas seria bastante difícil que as pessoas se locomovessem a Dallas, que fica a pelo menos três horas de avião de Nova York.

A Câmara de Comércio, que havia emitido nota na sexta para afirmar que o evento estava mantido como programado, mesmo sem a presença de Bolsonaro, não se pronunciou até o fechamento deste texto sobre uma possível mudança de local.

Desde que, no mês passado, o Museu de História Natural de Nova York se recusou a receber o evento, uma série de manifestações pressionava os patrocinadores a não vincular seu dinheiro -nem suas marcas- ao jantar de gala que, além do presidente brasileiro, homenagearia o secretário de Estado americano, Mike Pompeo.

Desde terça-feira (29), ativistas ligados à causa LGBT e ao meio ambiente nos EUA pressionavam empresas patrocinadoras. Doze grupos iniciaram esta semana manifestações diárias que deveriam seguir até 14 de maio.

Entre os que permaneciam no rol de patrocinadores do evento estavam instituições financeiras como Merrill Lynch, Credit Suisse, Morgan Stanley, Citigroup, Itaú, Bradesco e HSBC.

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