Artistas ressaltam que, sempre atrás do novo, Antunes renovou o teatro brasileiro

A despedida a Antunes Filho foi como deveria ser. O corpo foi velado no palco, cercado por atores.

Portas abertas para o último ato. Gente da plateia foi se despedir, gente acostumada a expressar a dor nos palcos e que lá não tinha motivo para interpretar.

“Uma perda terrível. Eu perco um dos meus melhores, senão o meu melhor amigo. E o meu grande diretor. Ele conseguiu estabelecer um nível excepcional do ponto de vista de encenação e sobretudo do ponto de vista de interpretação”, disse o ator Juca de Oliveira.

“Tudo o que o Antunes deixou para todo mundo de conhecimento de técnica, de aprendizado sobre o ser humano, sobre a filosofia, sobre a relevância da vida. Ele sempre ensinou todo mundo a voar”, contou Felipe Hofstatter, ator e assistente de direção.

O velório foi no Teatro Anchieta, que os amigos descrevem como a casa de Antunes Filho. No mesmo prédio, funciona o Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, que ele dirigiu por 37 anos, o lugar onde pesquisava técnicas de atuação e ensinava que “o ator é o senhor do palco”.

“A mágica não está na luz, a mágica não está na projeção, a mágica não está na sonoplastia. A mágica está no ator, porque ele é o ser humano contando a história em cima do palco”, lembrou o produtor e diretor Emerson Danesi.

“Isso aí é um legado importantíssimo, porque vai além da questão puramente do teatro, é a questão da cidadania”, afirmou Danilo de Miranda, diretor do Sesc de São Paulo.

“Era o maior e o melhor, que sabia tudo sobre teatro. O amor pelo teatro, a cultura, o profissionalismo, a honestidade com a sua profissão”, disse emocionada a atriz Laura Cardoso.

Entre abraços, os colegas lembram do professor.

“Acabei vindo fazer dramaturgia aqui para aprender, para conviver com esse grupo. Era um cara inquieto”, contou o escritor Marcelo Rubens Paiva.

“Ele era rigoroso, mas era um cara com muito humor, muito humor”, lembrou o jornalista Marcelo Tas.

Antunes buscava atores sem vícios.

“Ele me fez. Eu entrei em 82, no final do ano. Sai em 85 e ele está no meu DNA, nas minhas células, em tudo o que é meu”, ressaltou a atriz Giulia Gam.

“E ele influenciou a todos. Ele era aquilo que nós chamamos de um homem do teatro. É um nome que a antiga geração conhecia muito bem e a nova geração sempre vai aprender com ele”, disse a atriz Irene Ravache.

Perfeccionista, o diretor renovou o teatro brasileiro.

“Um homem de teatro muito fértil, muito poderoso e que teve a capacidade exatamente de trazer o que nós todos queríamos naquela época, um teatro – não de um brasileiro, nacionalista -, mas com encenadores do Brasil, fazendo um teatro do mesmo nível que se faz no mundo inteiro”, declarou o também diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa.

Sobre o último roteiro, Antunes Filho não teve controle. Há dez dias, passou mal, foi internado e descobriu um câncer de pulmão em estágio avançado. No último encontro, só pensava na grande paixão.

“Estive com ele um pouco antes de ele ir embora. E ele estava com a cabeça ainda no teatro, é incrível”, contou o ator Marcelo Szpektor.

No meio da tarde desta sexta (3), atores, amigos do teatro, pessoas que estavam na plateia foram convidadas ao palco para uma homenagem com alegria, uma espécie de “grand finale” para Antunes Filho. Juntos, todos fizeram uma oração, seguida de três minutos de aplausos.

Os atores dançaram ao som de “Danúbio Azul”, valsa que marcou a carreira de Antunes Filho. Emocionados, eles lembraram frases que o mestre usava.

“Se quer mudar a sua vida, mude uma de suas gavetas”.

“O ator é um mago. O ator é um mago”.

“A morte é a cena final”, frase dita por Antunes há quatro dias.

O adeus foi recitando versos.

“Que um dia a nossa loucura seja perdoada, porque metade de mim é a arte e a outra metade também. Viva Antunes Filho”.

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