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Postado em 03-05-2019
Arquivado em (Artigos) por vitor em 03-05-2019 00:29

O gênio da Renascença morreu em 2 de maio de 1519, na França, dedicado a uma forma de pintura que seus contemporâneos criticaram e que hoje perdura

Madri
Visitantes do Museu do Louvre, em Paris, fotografam 'A Gioconda', em imagem do ano passado
Visitantes do Museu do Louvre, em Paris, fotografam ‘A Gioconda’, em imagem do ano passado PEDRO FIÚZA GETTY IMAGES

Quer que o seu corpo seja levado em procissão, que sejam rezadas três missas principais para ele e 30 outras menos solenes, que sejam distribuídos 18 quilos de cera para iluminar as igrejas com círios e, para o seu funeral, haja 70 velas de altura levadas por 70 pobres aos quais se pagará por isso. Os últimos desejos de Leonardo da Vinci – cujo rito mortuário hoje definiríamos como uma performance típica de Santiago Sierra – cumpridos em 2 de maio de 1519, nesta quinta-feira completaram cinco séculos. Morre aos 67 anos na mansão francesa de Cloux (hoje, Clous Lucé), a serviço do rei Francisco I. Leonardo vive seu momento mais doce à beira da morte.

Pela primeira vez e graças ao monarca francês, de 21 anos, trabalha despreocupado e se vale de seu ajudante Melzi para se esquivar das doenças e concluir três obras (A Gioconda, São João Evangelista e Santa Ana com o Menino), e produzir pinturas de festejos para o rei. Três anos de paz e gratidão nos quais digere uma vida truncada pela barbárie das guerras e as censuras daqueles que não compreendem sua lentidão. Leonardo faz a mesma súplica, repetidas vezes, em seus cadernos: “Diga-me se alguma coisa foi feita”. Duvida de tudo o que fez, duvida pelo desprezo que mina sua confiança. Traz à tona este dilema – cru e cruel – diante do construído e abandonado. Se alguma vez fez algo por si foi por obsessão (e resistência).

“Essa obsessão está aí, em Leonardo e em mim. É algo alheio a você. É um monstro que adere à pele e está latente. Discuto com ele todas as manhãs e de forma acalorada. É um casamento com o meu outro eu, o que me irrita muito”, diz o artista Juan Genovés (Valência, 1930) para explicar o que acontece com um pintor que é escravo de um tema. Ele assume que a pintura é um ser vivo, feito de um material ingovernável e que, quando entra em seu ateliê –  afirma –, grita e imita animais.

Uma alma livre

“Cinco séculos não são nada. Aconteceu com Leonardo, mas também com os artistas primitivos das cavernas de Lascaux. Isso não é espontaneidade. Isso também é o resultado de uma obsessão”, diz Soledad Sevilla (Valência, 1944). Reconhece que está confortável na obsessão, até chegar o momento em que acha que o quadro está resolvido e a luta deixa de interessar. “É o que me consola. O resto, o que está fora do estudo, não tanto “, afirma. Para María Dávila (Málaga, 1990), entre as imagens processadas e as pintadas, a obsessão é mais “uma busca por algo que não sei o que é, mas é muito pessoal”.

Talvez seja esse o maior desafio do artista: assumir que a pintura não é escrava do pintor nem do mercado. “Quando se busca uma fórmula que facilita as coisas, a arte malogra em sua alma, mesmo que agrade muitíssimo. É por isso que Leonardo é uma raridade se comparado a Rafael ou Rubens. A arte deve ser assim”, explica Antonio López (Tomelloso, 1936). A arte deve ser sem pressa, sem a necessidade de terminar. Entregue à a execução. Uma pintura infinita. Nem acabada nem abandonada.

Para Miquel Barceló Leonardo assume o direito de fracassar

Dilatar o tempo eternamente e se recriar na fronteira que separa o sucesso do fracasso. Isto é o que mais chama a atenção de Miquel Barceló (Felanitx, 1957), que reconheceu certa vez que admira Leonardo por sua coragem, pelos riscos assumidos em suas experiências e, em última instância, pelo direito que se dá de fracassar. “O fracasso é um direito humano do artista”, diz Barceló, que desconfia do bom andamento da pintura. Prefere o sofrimento, porque as coisas que começam bem “acabam mal”.

Hernán Cortés (Cadiz, 1953) é um retratista veloz, em dois anos arremata suas pinturas … exceto o retrato de Gonzalo Santalucía quando Menino, com o qual passou mais de duas décadas tentando resolver o cabelo crespo. “Muito tempo depois, eu estava com outro retrato que me deu a resposta. Vinte anos de tortura, e resolvi em dois dias”, diz ele. Cortés acredita que “os bons pintores são obsessivos”, embora “a obsessão com a pintura inacabada possa levar a uma deformação monstruosa”.

Soledad Sevilla diz que o que está fora do ateliê não a consola tanto como a obsessão da pintura

Uma criatura monstruosa

A Gioconda é um monstro? É lentidão ou precisão? É obsessão ou repetição? Vasari diz que, para pintar o retrato da esposa de Francesco del Giocondo, ele trabalhou por quatro anos, “mas não o concluiu”. O Louvre esticou a data da pintura até a morte do artista após o surgimento da paisagem da Mona Lisa do Museu do Prado. Como demonstram as análises do museu francês, as variações que ele realiza ao longo desse tempo são mínimas: levanta um pouco os olhos e atrasa o nascimento dos cabelos. Sabe muito bem o que busca e não se afasta disso em 16 anos.

Esta atitude inflama seus mais ferozes detratores, como o papa Leão X, que observa como o artista começa a estudar os óleos para produzir o verniz, o que leva o pontífice a exclamar: “Ai de mim, aquele não serve para fazer nada, pois começa a pensar no final antes de iniciar a obra”. Um pintor perto da natureza é um pintor em construção. Um pintor contra o tempo é um pintor de obra inacabada. Um pintor atrás da verdade é um pintor com problemas. Um pintor incompreendido não é um pintor, é um problema.

Um pintor contra o tempo é um pintor de obra inacabada. Um pintor atrás da verdade é um pintor com problemas

Luis Gordillo (Sevilla, 1934) observa sobre Leonardo que sua diversidade de interesses hoje o levaria à fome. Mas a verdade é que o pintor renascentista foi durante toda a vida um migrante em busca de trabalho. “Minha obsessão é patológica: se eu não pintar, fico deprimido. É uma droga contra as angústias. A arte é outro eu, como se eu tivesse construído outro com o qual tenho uma relação muito intensa, para o bem e para o mal “, explica Gordillo, que conta uma experiência semelhante à do genovês.

A pintora Vicky Uslé (Santander, 1981) é uma das autoras mais interessantes da nova abstração e reflete por escrito sobre esta obsessão em que o que importa não tem fim: “Como sair de uma conversa sem perder a fluidez, para o exterior de nosso próprio mundo e pessoa. Frustrações conversam e sussurram em uma batalha de batimentos do coração onde surgem as descobertas”. Em sua conversa ela se enriquece e nutre sua experiência, ensimesmada e despojada, do inesperado. A reflexão adiada que Leonardo manteve com A Gioconda nunca terminou e só o tempo parece tê-la arrematado.

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