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CRÔNICA

Carlucho, Bolsonaro e a diversidade

 

Janio  Ferreira Soares

 

Tarde de Outono caindo e acomodo minha carcaça na velha cadeira de balanço, cujo encosto me abraça como se eu fora um Tony Stark sendo recebido pela armadura do Homem de Ferro. No lago novamente cheio, sapos e agregados cantarolam suas toadas como se não houvesse amanhã e me lembro de Rãnilda, uma ranzinha que minha mãe criava atrás de um pote de barro, que além de prever chuvas adorava dormir em seu ombro no embalo de dengos e carícias.

Na TV as chamas lambem a Catedral de Notre-Dame, mas a igreja que arde em meu peito é a de Santo Antônio da Glória, de há muito submersa nas águas da barragem que lhe tirou a vida e, no embalo, afogou centenas de pedacinhos de mim. Fosse hoje, onde as tragédias passam ao vivo enquanto acontecem, e certamente assistiria ao rio da minha infância subindo degrau por degrau como uma cobra líquida rastejando a caminho do altar da minha primeira hóstia, ocasião em que mordi com força o corpo de Cristo, só pra ver se Ele – que me observava de soslaio com olhinhos de ximbra e usando uma terrível peruca feita com os cabelos da beata Raimunda – esboçava alguma reação de agonia ou dor.

O vento da noite demora e as muriçocas zunem sons parecidos com os das moscas sobre a sopa de Raul, enquanto se alimentam da seiva dos delírios que herdei dos ancestrais. SBP findando e dou uns assovios à la Caymmi pra ver se alguma brisa se habilita, mas meus silvos só atraem Edgar e Julio, coitados, que chegam com focinhos de surpresa, como se dissessem: “já a gororoba, patrão?”. Decepcionados, eles partem atrás de uma moto roncando longe, diversão atípica de quem passa os dias ouvindo pássaros e, em noites raras pós-chuva como agora, essa incrível sonoridade anfíbia que a genialidade de Jackson do Pandeiro imortalizou como: “Tião! Oi? Foste? Fui! Compraste? Comprei! Pagaste? Paguei! Me diz quanto foi? Foi quinhentos réis!”.

Nos jornais vejo uma pesquisa dizendo que as pessoas estão mais fechadas para conceitos diferentes, mais cheias de certezas sobre todos os assuntos e mais intolerantes com quem não concorda com suas opiniões. A propósito, o nosso Jair, “em nome da família”, demitiu um diretor do BB por anúncio pró-diversidade. Tem pai que se faz de cego, hein, Carlucho?

Os cachorros retornam da excitante caça ao veloz bicho Honda e os primeiros bocejos me avisam que a hora do casulo se aproxima. Antes de apagar as luzes, me lembro de um tempo em que, se eu amasse Roberto e você, Belchior, beberíamos nossas diferenças numa mesa de bar e depois sairíamos pelas ruas totalmente convencidos de que, tanto no carro sobre o trevo a cem por hora, como no carango descendo as curvas da estrada de Santos, cabiam todas as diversidades que quisessem ver pelo espelho o preconceito na distância se perder.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beirada baiana do Rio São Francisco, onde ruge a hidrelétrica que ilumina o Nordeste há mais de meio século.

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