ARTIGO

Mutirão nacional pela educação

Joaci Góes

Para a querida amiga e secretária Ajurimar Moreira!

O encontro ontem realizado, na Academia de Letras da Bahia, reunindo entidades as mais representativas da sociedade civil baiana, com o propósito de extrair sugestões para melhorar o ensino brasileiro, em todos os níveis, nasceu da consciência geral de que os graves problemas que afligem a vida nacional não serão resolvidos, de modo satisfatório, sem que a educação seja encarada como a prioridade máxima do povo brasileiro. Enquanto não nos dobrarmos às evidências dessa verdade solar, estaremos apanhando água em cesto, desperdiçando esforço e recursos, frustrando esperanças na busca de soluções meramente paliativas aos graves problemas que solapam as bases da estabilidade de nossa sofrida e acidentada experiência histórica.

Neste mesmo espaço, já denunciamos o modo populista-embusteiro com que as elites têm historicamente manipulado as populações negras do Brasil, a partir da abolição, aliciando-as com promessas irrealizáveis de melhorar sua renda, o que é praticamente impossível sem que tenham acesso a educação de qualidade, único meio de ascensão econômica e social na sociedade do conhecimento em que estamos imersos. O desfecho mais dramático desse estrabismo social está presente no fato de que os 54% dos negros que compõem a população brasileira figuram com 71% dos mortos por homicídio, sem falar na chaga social expressa na presença de 83% de negros entre os contingentes mais pobres. A continuidade da opressão social sofrida pelos negros decorre da ausência de sua pauta de reivindicações de uma educação de elevada qualidade. Os negros continuam oprimidos, acima de tudo, porque a ascensão social pela educação não tem sido o elemento de proa de sua epopeia dolorosa. Clamar, apenas, por punição aos ofensores de sua dignidade é muito pouco, como se evidencia 130 anos depois da abolição.
Impressiona o número dos que ignoram, inclusive negros, o excepcional contributo de afrodescendentes ao desenvolvimento brasileiro, em múltiplas vertentes, a exemplo de Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Souza, Gonçalves Dias, Luis Gama, Tobias Barreto, Ernesto Carneiro Ribeiro, o mineiro Antônio Torres, homônimo do baiano que integra a Academia Brasileira de Letras, Juliano Moreira, Teodoro Sampaio, André e Antônio Rebouças, Marechal Rondon, Alberto Guerreiro Ramos, Conceição Menezes, Padre Sadock, Milton Santos e por aí vai, sem falar nos atletas em diferentes esportes e notáveis ícones da música. Foi educação de qualidade que elevou ao primeiro plano de suas atividades brasileiros como o jurista baiano Edivaldo Brito, a política acreana Marina da Silva e o magistrado mineiro Joaquim Barbosa. Só Deus sabe quantos de nossos jovens negros, atraídos para o crime e a morte, não têm potencial para integrar esse time de venerandas personalidades!
Não nos parece, por tudo isso, que o notável ator negro norte-americano, Morgan Freeman, tenha razão ao dizer que “O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca, e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece”. Do ponto de vista da realidade fática, mais importante do que o lento desenvolvimento de uma generalizada e incerta consciência humana será a introjeção da consciência de que, na sociedade do conhecimento, a promoção social de qualquer segmento populacional – preto, branco, vermelho ou amarelo – só se efetiva através de uma educação de qualidade, clamor entre pouco ou nada presente na pauta de reivindicação das populações negras do Brasil, predominantemente restrita a demarcação de quilombos e de financiamento de blocos e atividades lúdicas de baixo poder de transformação.
A saga vitoriosa do milenarmente oprimido e escravizado povo judeu é a maior prova do poder transformador da educação.
A Universidade Pública no Brasil tem sido uma das maiores demonstrações do chamado efeito boomerang, que ocorre sempre que se investe contra a natureza das coisas, ao se constituir num dos maiores fatores de aprofundamento das desigualdades interpessoais, na medida em que, historicamente, tem beneficiado os egressos da classe média para cima, em prejuízo da juventude oriunda das classes mais pobres, incapaz de concorrer, em pé de igualdade com alunos que tiveram acesso a um ensino fundamental e básico de qualidade. Para remediar esse mal, recorremos ao atual sistema de cotas que padece do insanável defeito de ofender o mérito. O pensador negro Thomas Sowell, reputado um dos maiores intelectuais norte-americanos, autoridade mundialmente reconhecida no campo das ações afirmativas, no seu livro Affirmative Action around the World, mostra como se frustra no médio prazo toda conquista de grupos populacionais oprimidos que comprometa critérios meritocráticos. Muito mais eficaz do que o atual sistema de cotas seria o fim do ensino público gratuito para os que podem pagar, liberando recursos para o financiamento dos cursos do alunado pobre nas instituições em que fosse aprovado.
Ao longo do redentor mutirão para elevar a qualidade da educação no Brasil, é imperioso que repitamos como um mantra que a educação é o caminho mais curto entre a pobreza e a prosperidade, o atraso e o desenvolvimento, o estado de barbárie em que nos encontramos e a sociedade próspera e fraterna a que aspiramos pertencer.

Joaci Góes, escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado originalmente na TB, nesta quinta-feira, 25/4