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CRÔNICA

                         Caymmi é doçura, Nana é porrada

 

Janio Ferreira Soares

 

Dois fatos distintos, porém conectados, dizem um pouco do que anda rolando neste velho Brasil.

Começo pela famosa entrevista de Nana Caymmi, onde ela, talvez motivada pelas possibilidades bélicas agora oficialmente incentivadas, destravou a língua e apertou o gatilho de sua conhecida metralhadora verbal, disparando não um, nem dois, muito menos três, mas 89 palavrões de variados calibres, nove a mais do que os 80 tiros desferidos pelos soldados que mataram o músico carioca que ia com a família para um chá de bebê.

Nela, Nana (que cantando continua genial) defendeu Bolsonaro e aproveitou para ridicularizar os “comunistas” Gil, Caetano e Chico Buarque, acusando-os de “chupadores do pau de Lula”. Até aí tudo bem, embora eu não consiga imaginá-los em posições de felatio com o líder petista, principalmente por acreditar que se os velhos compositores realmente fossem dados a essa prática milenar de prazer oral, optariam por bilaus, digamos, mais esotéricos (no caso de Gil) ou mais odaras (no caso de Caetano), ou ainda um que fizesse Chico se sentir como quem partiu ou morreu.

Não satisfeita em provocar o trio de fornecedores de alguns de seus grandes sucessos, Nana recarregou a pistola e também mirou em suas netas – por elas terem ido assistir a um show de Belo; em sua sobrinha, Alice Caymmi – por ela não ser a cantora que a titia desejava que fosse; na Bahia – que em suas palavras está acabada por culpa dos governos do PT; e no mundo em geral, por ninguém mais se lembrar de seu pai, surpreendentemente a poucos dias do lançamento do mais novo documentário sobre ele, cujo título deveria servir de inspiração a todos e todas (ui!).

“Dorival Caymmi: Um Homem de Afetos”, da cineasta Daniela Broitman, foi baseado numa entrevista inédita que o velho “Buda nagô” (como carinhosamente o batizou o “boquinha de veludo”, Gilberto Gil) deu em 1998 e que, segundo registros dos cadernos culturais, proporcionou um filme cheio de pequenas maravilhas cometidas pelo maior gênio musical que a Bahia já produziu.

Uma dessas pérolas se deu exatamente quando ele foi acomodar-se para a entrevista e disse: “Sentar é um gesto de grande dignidade. Exalta a preguiça”. Em seguida, narra um diálogo travado com um amigo. “O que você está fazendo? Nada. E você? Nada”. E conclui dizendo que não acrescentou um “também” à sua resposta, pra não sobrecarregar o “nada”.

Por fim, em mais uma dessas armadilhas do destino, o filme traz belos depoimentos de Gil e Caetano, além da própria Nana cantando uma canção do pai, à capela.

Já Chico, coitado, dizem que não participou das filmagens porque estava numa cela em Curitiba, todo dia acordando às seis horas da manhã, sorrindo um sorriso pontual e com a boca cheirando a curimatã. Que maldade.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na ribeira baiana do Rio São Francisco 

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