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Agnès Varda: “eu me preparei para dizer adeus”
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Agnès Varda, um cinema para ver, rever e recordar

 

Lucia Jacobina

 

Sem a repercussão que o seu nome merece, desapareceu no último dia 29 de março, aos noventa anos de idade, Agnès Varda. Única representante feminina numa geração de grandes cineastas que mudou o rumo do cinema francês, Agnès é tida pelo historiador Georges Sadoul como a verdadeira precursora da nouvelle vague, pois filmou La Pointe Courte, inovando  a narrativa tradicional, para introduzir num documentário sobre a vida dos habitantes de uma pequena comunidade, as inseguranças de um casal que para lá se desloca, enquanto discute sua relação pessoal, numa perspectiva puramente ficcional.

Esse seu primeiro longa-metragem data de 1954, muito antes do aparecimento de Claude Chabrol, François Truffaut e Jean-Luc Godard. Agnès era belga de nascimento e estava radicada na França, onde já realizava documentários e trabalhava como fotógrafa de uma companhia de teatro em Paris, na qual figuravam Philiphe Noiret e Silvia Monfort, atores que ela convidou para atuar nos papéis principais.

Somente sete anos depois, Agnès rodaria Cléo das 5 às 7, ainda em preto e branco, que enfoca exatamente um espaço de tempo crucial na vida de uma mulher à espera de um diagnóstico médico,enquanto perambula pelas ruas parisienses para sufocar a angústia e a apreensão.Nesse segundo longa, a câmera de Agnès descreve em uma hora e trinta minutos de duração, as variações de humor e os caprichos da vaidade feminina com uma sinceridade comovente, como somente a ótica de uma mulher seria capaz de revelar.

Realizadora de uma extensa filmografia, seu trabalho mais famoso no Brasil intitula-se Le Bonheur, traduzido para nossa língua como As Duas Faces da Felicidade, e exibido entre nós em 1967. Tenho uma lembrança muito nítida dessa película por ter suscitado uma grande polêmica em torno do comportamento masculino. E a repercussão foi tão grande que chamou minha atenção, uma adolescente de dezesseis anos,curiosa e precoce em sua devoção à sétima arte. E um detalhe importante tem de ser evocado: a censura da época da ditadura militar tinha classificado a fita como imprópria até 21 anos, quando a proibição máxima sempre alcançava a marca dos 18. Foi graças a um colega de colégio,com quem conversava frequentemente sobre cinema e a quem sou grata até hoje por sua gentileza, que montamos uma estratégia para assistir juntos e, dessa forma, burlarmos a absurda proibição. Após comprar na bilheteria um ingresso de valor integral, a fim de não ter de exibir a identidade estudantil, esperei ansiosa na porta do Cine Capri, no Largo 2 de Julho,para a sessão das 18:00 horas e, finalmente, conseguimos passar cúmplices e incólumes pelo porteiro da noite. Tal como ele já tinha descrito, pois já o tinha visto anteriormente, o filme fazia uma abordagem sutil e possuía uma beleza cromática ímpares. Impossível negar que fiquei entusiasmada não só diante da circunstância de estar assistindo a um filme proibido para minha idade, como pela riqueza das imagens projetadas na tela, ao som da música delicada e melodiosa de Wolfgang Amadeus Mozart que continua sendo até hoje o meu compositor preferido.

Naquela ocasião, confesso que ainda não tinha amadurecimento suficiente para apreciar todos os detalhes. Somente mais tarde, em 2007, consegui comprar pela internet uma coletânea de DVDs da cineasta e pude rever esse filme quarenta anos depois. Assim, verifiquei que, se não fosse o regime de exceção no qual vivíamos na época, Le Bonheur não teria sofrido esse gravame e a juventude brasileira poderia ter entrado em contato desde cedo com uma obra de arte consistente e arrebatadora. No caso particular, a isenção de Agnès ao elaborar o roteiro empresta ao filme uma dinâmica que enriquece sua estrutura e capacita a cada um dos espectadores a projetar na película seus próprios conteúdos ea responder a suas íntimas interrogações. É um filme para ser visto e revisto.

Além dos três citados, Varda filmou com igual sucesso outros tantos, pois sua dedicação ao cinema abrange os longos anos de sua existência. Dentre eles, se incluem também, Sem Teto nem Lei, duplamente premiado com o Leão de Ouro em Veneza no ano de 1985 e com o César de Melhor Atriz concedido a Sandrine Bonnaire; Jacquot de Nantes, cinebiografia de seu marido, o também famoso cineasta de vanguarda Jacques Démy;As Praias de Agnès e Os Catadores e Eu, dois interessantes documentários nos quais ela se insere como participante; e, como sua última experiência cinematográfica, exibido ano passado, Visages, Villages, um documentário na mesma linha dos anteriores, sobre dois artistas plásticos que viajam descobrindo e criando imagens, pelo interior da França, mais uma consagração de público e crítica.

Varda é tida pela imprensa como atuante feminista. Todavia, não vislumbro em sua obra a idiossincrasia entre os sexos criada por esse movimento. Ao contrário, a forma como eu a vejo é a de uma mulher que viveu com sua feminilidade e independência perfeitamente realizadas nos papéis de esposa, mãe e profissional. Casou-se, teve dois filhos e amorosamente manteve um relacionamento duradouro com Jacques Démy até ficar viúva. Como cineasta, ocupou seu lugar na nouvelle vague sem confrontos nem apelos a estereótipos e radicalizações, tendo convivido com seus companheiros de grupo cinematográfico, concorrido e vencido premiações, com o espírito aberto e com a consciência de sua importância de viver e estar no mundo, apenas guiada por sua inteligência e sensibilidade. E o que é mais importante, exerceu a faculdade de depor sobre essa experiência, descrevendo em seus filmes as parcerias entre o masculino e feminino, através de suas diversas personagens, sem rivalidades, hierarquias e preconceitos.

 

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de Aventura da Palavra.

https://youtu.be/qnsL3hzDh80

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