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Posted on 07-04-2019
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Bolsonaro faz mira durante visita a Jerusalém, em foto publicada por seu próprio perfil no Instagram.

 Bolsonaro faz mira durante visita a Jerusalém, em foto publicada por seu próprio perfil no Instagram. Reprodução/Instagram Jair Bolsonaro
O presidente Jair Messias Bolsonaro quis fazer uma exibição de tiro de fuzil durante sua recente e polêmica visita a Israel. Segundo o ministro da Segurança daquele país, o hóspede de honra brasileiro “acertou no alvo sete tiros de longo alcance”. Não sei por que quis destacar que os disparos de Bolsonaro, que deram no alvo, foram sete. É um número, de fato, mágico desde tempos antigos, mas nunca foi um número de destruição e morte. Para Pitágoras, era o número perfeito. Roma foi edificada sobre sete colinas. Sete são as fases da lua, e sete os dias da semana.

Das sete maravilhas do mundo aos sete pecados capitais, dir-se-ia que esse número entranha um poder oculto. Também na Bíblia, o número sete domina os acontecimentos mais importantes da história de Israel. Deus descansa no sétimo dia depois de ter criado o mundo. O candelabro do templo tinha sete braços, e Salomão construiu o templo em sete anos. E sete são os selos do Apocalipse.

Os sete tiros de fuzil de Bolsonaro em Israel, que atingiram o alvo a longa distância com precisão, podem ser vistos como símbolo da polêmica presidência do mandatário brasileiro. Se o presidente tivesse querido fazer honra ao bíblico número sete, poderia ter escolhido outros campos para prestigiá-lo, em vez do gesto bélico de disparar um fuzil sete vezes.

Sete poderiam ser outros tantos projetos do presidente para transformar o Brasil, para devolver-lhe vitalidade econômica e a ilusão de uma convivência pacífica que supere ódios e discórdias. Poderiam ter sido sete anúncios de outras tantas decisões capazes de entusiasmar um país encolhido e dilacerado após tantas frustrações com seus governantes. Poderia ter pedido em Israel, terra bíblica, um projeto para reunificar judeus e palestinos em um novo horizonte de diálogo e de paz, algo que desejam sobretudo as novas gerações de ambos os lados. Poderia naquele pedacinho de terra carregado de historia milenar ter soltado sete pombas da paz, em vez de disparar uma arma que evoca guerra e destruição.

O mundo dos símbolos é antigo como o Homo Sapiens. A Humanidade se comunica de muitas formas, das palavras e da escrita aos gestos da linguagem não-verbal. Bolsonaro, desde a época da campanha eleitoral, nos revelou a evidência de sua predileção pela linguagem explícita das armas. Já fazem parte da mitologia seus gestos com as mãos imitando os tiros de um revólver. Gesto que quis ensinar a uma menina de cinco anos, profanando sua mão ainda inocente.

Em sua emblemática visita a Israel, talvez não tenha sido apenas coincidência que o presidente brasileiro, nostálgico de ditaduras e torturas, quisesse, em vez de gestos de paz e de distensão mundial, em um pedaço do mundo que é um barril de pólvora sempre pronto a explodir, fazer uma exibição simbólica de sua grande pontaria militar. Esses disparos servirão para abrir um grande diálogo com todos os brasileiros que preferem a paz à batalha, ou o impedirão de ser presidente de todos para se limitar àqueles que, como ele, têm sonhos cheios de violência e vingança?

A significativa e polêmica viagem de Bolsonaro a Israel continuará tendo consequências em seu destino como presidente da República no Brasil. Enquanto os brasileiros condenavam aqui a ditadura em seu 55º aniversário, o presidente se divertia em Israel em uma exibição de tiros de fuzil, sem que ninguém visse uma fugidia pomba de paz voar sobre sua cabeça.

A guerra, a das armas e das ideologias, é a grama que melhor parece crescer nesse jardim sombrio do capitão reformado caçador de conflitos. Em Jerusalém, antes de deixar Israel, o mandatário brasileiro quis deixar plantada uma nova espécie maligna. Afirmou, sem tremer a voz, que “o nazismo era de esquerda”. O Holocausto também?

Bolsonaro e suas milícias do Governo, sempre em pé de guerra contra a evidência da História, passarão, e a realidade brasileira ressuscitará. Se o presidente alardeia ter adotado como lema as palavras do Evangelho de João: “A verdade vos libertará” (Jo 8,31ss), o que estamos vendo, ao contrário, é que a sua verdade, vendada e negada pela ideologia, o está deixando cego.

“Cantando”, Paulinho da Viola: Samba primoroso gravado no álbum “Memórias Cantando”, de 1976. E o comentário do temido crítico musical, José Ramos Tinhorão (recolhido na área de comentários do You Tube)  sobre o disco duplo lançado por Paulinho da Viola, na época: “Após alguns anos de carreira, qualquer cantor, músico ou compositor começa a pensar seriamente na possibilidade de produzir pelo menos um disco perfeito. Pois Paulinho da Viola acaba de conseguir dois — de uma só vez!”.

Salve Paulinho, sempre!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

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Posted on 07-04-2019
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Recurso de ex-presidente deve ser analisado pelo tribunal em breve, com poucas possibilidades de soltura. Partido tenta reavivar o “Lula Livre” e adia eleição do comando da legenda para o segundo semestre

São Paulo / Brasília

A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva completa um ano neste domingo, 7 de abril, com o PT tentando reanimar a militância com atos pelo “Lula Livre” e adiando apenas para o segundo semestre a troca de poder na legenda, que ainda disputa espaço para se firmar como protagonista na oposição ao presidente Jair Bolsonaro (PSL). O consenso no partido é o de que as condenações por corrupção passiva e lavagem de dinheiro nos casos envolvendo o triplex do Guarujá e o sítio de Atibaia — 12 anos e 11 meses em ambos os casos — foram injustas e de que a prisão do ex-presidente é política. Na sigla, os atos pelo ex-presidente são uma forma não só de manter a pressão sobre o Judiciário como também de manter petistas e os movimentos sociais mais próximos unidos sob um rara bandeira comum.

Homem segura cartaz pedindo liberdade para o ex-presidente Lula, no dia 31 de março.
Homem segura cartaz pedindo liberdade para o ex-presidente Lula, no dia 31 de março. Leo Correa AP

Da cadeia em Curitiba, Lula acompanha as discussões no partido, cuja eleição interna adiada tem potencial para, pela primeira vez, não corresponder com a vontade do ex-presidente, que já demonstrou seu desejo em manter a deputada federal Gleisi Hoffman na liderança. Com Gleisi na presidência, a influência de Lula nas decisões do partido estariam garantidas. Ao EL PAÍS, a deputada diz que o ex-presidente recebe informes das reuniões do partido. “Ele é o nosso presidente de honra. É natural e importante que ele receba as informações.Quando eu posso, escrevo cartas, porque essas ele pode receber. Trato das reuniões dos diretórios, das reuniões que fazemos, das decisões que tomamos”, contou Gleisi.

No plano legal, as esperanças de uma absolvição e soltura do petista são escassas. O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Antonio Dias Toffoli, decidiu adiar o julgamento sobre a constitucionalidade da prisão após a condenação em segunda instância, que estava marcada para a quarta-feira dia 10 e teria repercussão no caso. Agora, residem no recurso levado pela defesa ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ), o primeiro tribunal superior que analisará a sentença em segunda instância do caso Triplex — o caso do sítio Atibaia só foi julgado em primeira instância. Tanto o STJ como o STF só analisaram até o momento pedidos de soltura do ex-presidente, mas não a condenação em si. Ainda não há uma data marcada para que a 5ª turma do STJ se reúna, mas a defesa espera que isso ocorra em breve. Segundo o advogado Cristiano Zanin, a defesa pede e enfatiza no recurso a anulação do processo nas instâncias inferiores ou uma absolvição. Também apresenta argumentos auxiliares que poderiam levar a uma revisão do tamanho da pena — o que pode resultar, por exemplo, em prisão domiciliar — ou a prescrição do caso.

A defesa contesta as acusações e considera que não há provas suficientes de que a OAS presenteou o ex-presidente com um triplex no Guarujá como pagamento de propina por contratos na Petrobras. Apresenta ainda um leque de argumentos, como uma suposta falta de imparcialidade do juiz Sergio Moro — hoje ministro da Justiça de Bolsonaro — ou a negativa de que uma prova pericial no processo fosse produzida. Segundo Zanin, a defesa também contesta a competência da Justiça Federal para tratar do caso com base em suas decisões do Supremo. A primeira, de 2015, resultou no fatiamento da Lava Jato e deixou nas mãos da força tarefa de Curitiba apenas os casos relativos a corrupção na Petrobras. A defesa acredita que o caso não tem relação com o escândalo envolvendo a petroleira, embora a sentença condenatória estabeleça uma relação entre os contratos entre empreitas e a Petrobras com o triplex reformado que a OAS teria repassado para Lula. A segunda e mais recente decisão do STF, por seis votos a cinco, determinou que cabe a Justiça Eleitoral julgar crimes comuns, como os de corrupção e lavagem de dinheiro, conexos com delitos eleitorais de caixa 2.

“A jurisprudência do STJ é incompatível com a condenação do ex-presidente. Então, estamos pedindo que a Corte reafirme sua própria jurisprudência”, explica Zanin ao EL PAÍS. O problema é que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Corte com base nos julgamentos de 69.000 recursos entre 2015 e 2017, apenas 0,62% dos casos julgados no STJ reverteram totalmente as decisões das instâncias inferiores e resultaram na absolvição do réu. A mesma pesquisa indicou que em 1,02% dos casos os ministros da 5ª e 6ª turma reverteram a pena de prisão por uma pena “restritiva de direitos”, como a prestação de serviços comunitários. Em 0,76% dos casos foi reconhecida a prescrição. Para Zanin, contudo, o caso do ex-presidente é peculiar. “Estamos vendo ao longo do tempo a ocorrência de diversas ilegalidades e abusos que precisam ser coibidos”, diz ele, no momento que a o entorno de Lula se queixa da falta de recursos para tocar a própria defesa. Há bens e contas bancárias do ex-presidente bloqueados por ordem de Moro e, por isso, há ações que buscam arrecadar dinheiro para a causa. Nesta semana, um grupo de fotógrafos anunciou ter arrecadado mais de 600.000 reais leiloando fotos históricas do petista.

Um PT em busca de protagonismo

No campo político os obstáculos não são menores. O PT tem a maior bancada na Câmara, com 55 deputados — um a mais que o PSL de Bolsonaro —, e é a maior força de oposição ao Governo. Mas, por ora, continua apostando suas energias na campanha pelo “Lula Livre” enquanto que as pesquisas indicam uma cristalização do apoio popular à prisão do ex-presidente — segundo o Atlas Político, cerca de 57,9% do eleitorado. “O partido ficou muito preso a isso. Não sei se dentro do partido existe consenso sobre o que fazer. Enquanto isso, o ‘Lula Livre’ dá certa unidade de ação para a máquina partidária. É algo que mantém todos unidos”, explica o sociólogo Celso Rocha de Barros.

Para ele, a “atualização” do PT ainda depende de como o Governo Bolsonaro, que completa cem dias nesta semana com a popularidade em queda, vai se sair. Ainda assim, ele chama atenção para o fato de que, embora numericamente maior, é mais comum ver lideranças de outros partidos progressistas, como os deputados Alessandro Molon (PSB), Tabata Amaral (PDT) ou Marcelo Freixo (PSOL), na linha de frente da oposição. “O partido ainda não assumiu uma liderança lá dentro, porque está preso a essas questões”, explica. Em jogo está também uma disputa também no campo progressista pela hegemonia, ocupada pelo PT há 30 anos.  “Se eles querem substituir o PT, precisam atrair as pessoas que gostam o PT. O Ciro Gomes, por exemplo, pela suas declarações e posturas, acaba sendo antipático para os eleitores PT. Além disso, essas pessoas foram coadjuvantes durante muito tempo e não precisaram se posicionar sobre questões econômicas e políticas de governo. Isso ficava na conta do PT”, pondera Rocha de Barros. “No mínimo”, explica ele, “a competição vai fazer bem e vai obrigar os petistas a se mexerem”. 

Essa renovação depende também da liderança do partido, hoje nas mãos de Gleisi Hoffmann, apesar das ressalvas de alguns petistas. A política paranaense é considerada uma das responsáveis por manter como prioridade do partido a pauta do “Lula Livre”, enquanto há pouco debate sobre renovação partidária e outras questões programáticas a um ano e meio das eleições municipais. “Nós consideramos o Lula um preso político. Lula é a grande liderança política e popular desse Brasil. Depois dele não surgiu mais ninguém com essa envergadura, com essa grandeza, com esse poder de mobilização”, reafirma Gleisi.

abr
07
Posted on 07-04-2019
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Do Jornal do Brasil

 

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do meio do presidente Jair Bolsonaro, criticou na tarde deste sábado (6), o acesso irregular a dados sigilosos da família por funcionários da Receita Federal.

“E assim vão devassando nossas vidas ilegalmente, vazam propositalmente para a imprensa e aí a narrativa já está pronta. Sabíamos que seria assim, mas é preciso fazer esses maus funcionários sentirem o peso da lei! Ninguém está acima e nem abaixo da lei”, escreveu o deputado em uma postagem.

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Presidente Jair Bolsonaro ao lado do filho Eduardo durante “Live” (Foto: reprodução redes sociais)

Na postagem, ele replicou ainda a mensagem que o pai havia escrito no Twitter na noite anterior sobre o caso.

“Desde o início do ano passado 2 funcionários da Receita acessaram ILEGALMENTE informações fiscais de minha pessoa e familiares. Procuravam algo para vazar e me incriminar por ocasião da eleição. Sindicância da Receita concluiu não haver ‘legalidade para acesso’ e notificou a PF”, disse o presidente na sexta-feira.

A tentativa de acesso aos dados dos familiares de Bolsonaro veio à tona na sexta-feira (5).

A Receita abriu sindicância depois de a corregedoria ter sido informada que dados confidenciais do presidente e de vários CPFs relacionados à família Bolsonaro estavam sendo acessados – os sistemas do órgão são monitorados e cada consulta é registrada.

Em depoimento à Polícia Federal, um dos servidores investigados, Odilon Alves Filho, disse que fez apenas um acesso e consultou apenas dados cadastrais, por curiosidade. Ele é irmão da deputada Norma Ayub (DEM-SP).

“A rede social não tumultua, quem tumultua são algumas pessoas”

 

Em entrevista ao Globo, o ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, minimizou os efeitos dos desencontros entre governo e Congresso que são, em sua visão, amplificados pelas redes sociais.

“Tem que ver quem é que tumultua, né? A rede social, ela não tumultua, quem tumultua são algumas pessoas que usam a rede social. Qualquer um que não tiver bom senso em utilizar esses mecanismos, ele acaba às vezes criando um pouco de tumulto. Porque hoje em dia é muito fácil de você emitir sua opinião, quase sem consequência”, disse sem citar nomes.

“Isso aí que parece às vezes tumultuado, em termos administrativos para a gente às vezes não significada nada. A vida administrativa continua normal. A rede social às vezes está só na superfície, e, na essência, as coisas estão caminhando. Não dá para você se basear só em rede social como um termômetro.”

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Posted on 07-04-2019
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Do Jornal do Brasil

 

O ex-presidente Lula completa neste domingo, 7, um ano na prisão da Lava Jato. Mais magro, ou ‘enxuto’, segundo a definição dos investigadores, o petista ocupa, desde 7 de abril de 2018, uma sala especial na sede da Polícia Federal em Curitiba, base e origem da grande operação.

O Comitê Lula Livre programa manifestações em protesto contra o encarceramento ‘político’ do ex-presidente. Movimentos populares e entidades de 16 países deverão realizar ‘ações articuladas’ na Jornada Internacional Lula Livre.

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Lula no enterro do neto (Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP)

Na capital paranaense a caravana de manifestantes será engrossada por milhares de apoiadores do petista. Estão marcados dois grandes atos nacionais ‘em defesa da democracia e pela liberdade de Lula’, um em Curitiba, outro em São Paulo.

Nesse um ano, Lula deixou a prisão uma única vez, para acompanhar o velório do neto Arthur, de 7 anos, em Santo André, na Grande São Paulo.

Um ano depois da prisão, a defesa aposta em um recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Lula tenta reverter sua condenação no processo do triplex. O ex-presidente também está condenado em outra ação, do sítio de Atibaia, a 12 anos e 11 meses de reclusão, sentença imposta pela juíza federal Gabriela Hardt.

A saga do petista na maior investigação contra a corrupção já deflagrada no País começou bem antes daquela noite de 7 de abril de 2018 quando foi levado para a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde cumpre pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex.

Dois anos antes de ir para a cadeia da Lava Jato, Lula foi conduzido coercitivamente pela Operação Aletheia ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Em uma sala no Terminal, o petista prestou longo depoimento à Polícia Federal e negou que fosse dono do imóvel no Guarujá.

Relembre o passo a passo do cerco da Lava Jato a Lula:

– Sexta-feira, 4 de março de 2016

A primeira ação ostensiva da Lava Jato contra Lula foi deflagrada às 6hs de 4 de março de 2016. Naquele dia, a Operação Aletheia, 24.ª fase da investigação, foi ao apartamento do petista em São Bernardo do Campo cumprir mandados de busca e apreensão e de condução coercitiva ordenados pelo então juiz federal Sérgio Moro.

Lula foi levado a uma sala da PF no Aeroporto de Congonhas, onde começou a falar ao delegado Luciano Flores de Lima às 8h. O depoimento durou horas e foi marcado por forte tensão.

Na ocasião, o petista comparou o triplex na praia das Astúrias às unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida tocado pela Caixa e se irritou ao responder a uma série de indagações sobre o apartamento do Guarujá. Lula insistiu que não era dono do imóvel.

“Quero saber quem vai pagar essa porra desse apartamento. Eu quero saber”, disse. “Eu acho que eu estou participando do caso mais complicado da história jurídica do Brasil, porque tenho um apartamento que não é meu, eu não paguei.”

– Quarta-feira, 16 de março de 2016

 

Menos de 15 dias depois da Operação Aletheia, Lula foi anunciado como ministro da Casa Civil da então presidente Dilma Rousseff. Após a nomeação do petista ao cargo, Sérgio Moro remeteu as conversas telefônicas do ex-presidente interceptadas pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal e levantou o sigilo dos áudios.

“Observo que, apesar de existirem diálogos do ex-presidente com autoridades com foro privilegiado, somente o terminal utilizado pelo ex-presidente foi interceptado e jamais os das autoridades com foro privilegiado, colhidos fortuitamente”, afirmou na ocasião o então magistrado, agora ministro da Justiça.

“Diante da notícia divulgada na presente data de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria aceito convite para ocupar o cargo de Ministro Chefe da Casa Civil, deve o feito, com os conexos, ser remetido, após a posse, aparentemente marcada para a próxima terça-feira (dia 22), quando efetivamente adquire o foro privilegiado, ao Egrégio Supremo Tribunal Federal.”

Foram grampeadas ligações de Lula com Dilma e também com o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes, o ex-presidente do PT Rui Falcão, o presidente da CUT, Vagner Freitas, o irmão Vavá, o ex-governador da Bahia Jaques Wagner (PT) e seu advogado e compadre Roberto Teixeira.

Dilma não era alvo da investigação, mas caiu na interceptação ao ligar do Palácio do Planalto para seu antecessor.

“Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada”, disse Lula a Dilma em um dos áudios. “Eu estou, sinceramente, estou assustado é com a república de Curitiba porque a partir de um juiz de primeira instância tudo pode acontecer nesse País, tudo pode acontecer.”

– Quarta-feira, 14 de setembro de 2016

 

A primeira acusação formal da Lava Jato do Paraná contra Lula foi protocolada na Justiça Federal do Paraná às 15h26. Também foram acusados a ex-primeira dama Marisa Letícia, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, o empresário Léo Pinheiro, da OAS, dois funcionários da empreiteira e outros dois investigados.

A denúncia apontou que Lula havia recebido ‘benesses’ da empreiteira OAS – uma das líderes do cartel que pagava propinas na Petrobrás – em obras de reforma no triplex 164-A do Edifício Solaris.

O prédio foi construído pela Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo), que teve como presidente o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto – preso desde abril de 2015. O imóvel foi adquirido pela OAS e recebeu benfeitorias da empreiteira.

A acusação da Lava Jato foi recebida por Moro em 20 de setembro. Lula e Okamotto e os empresários foram colocados pela primeira vez no banco dos réus da Lava Jato do Paraná.

Marisa morreu aos 66 anos, em fevereiro de 2017, vítima de um AVC. A ex-primeira-dama teve extinta a punição no processo por ordem de Moro.

– Quarta-feira, 10 de maio de 2017

 

A mais esperada audiência da Lava Jato, o primeiro interrogatório de Lula frente a frente com Sérgio Moro, durou mais de cinco horas. O petista respondeu perguntas sobre o triplex do Guarujá, atacou a imprensa e disse que era vítima de prejulgamento.

“A verdade é a seguinte: não solicitei, não recebi, não paguei e não tenho nenhum triplex”, afirmou.

Lula atribuiu à Marisa a intenção de adquirir o imóvel no litoral como investimento. “Eu não ia ficar com o apartamento, mas eu não sei se a dona Marisa iria ficar para fazer negócio ou não”, disse.

Questionado se a ex-primeira-dama lhe falou sobre a reforma do triplex pela OAS, Lula respondeu a Moro: “Não, não relatou, querido. Lamentavelmente, ela não está viva para responder.”

O interrogatório de Lula mobilizou apoiadores do ex-presidente na capital do Paraná. Na frente do Museu Oscar Niemeyer, manifestantes pró-Lava Jato armaram um boneco do ex-presidente. Enquanto militantes de movimentos sociais e apoiadores do petista marcharam pelo centro de Curitiba.

Ao fim do interrogatório, o ex-presidente se juntou a seus apoiadores e chorou ao se dizer inocente. “Quero ser julgado por provas.”

– Quinta-feira, 12 de julho de 2017

 

Aos 71 anos de idade, Lula foi condenado a 9 anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Na ocasião, Moro não decretou a prisão do ex-presidente. O então juiz alegou ‘prudência’ e a necessidade de se evitar ‘certos traumas’.

Sérgio Moro destacou na sentença que o réu adotou táticas de intimidação. “Aliando esse comportamento com os episódios de orientação a terceiros para destruição de provas, até caberia cogitar a decretação da prisão preventiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.”

A sentença absolveu o petista e o empresário José Adelmário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro, da OAS, ‘das imputações de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o armazenamento do acervo presidencial, por falta de prova suficiente da materialidade’.


Abstêmia há mais de dez anos, jornalista dá palestras sobre alcoolismo, lança livro sobre o tema e tenta mostrar que “dá para ser feliz sem beber”

No mês passado completaram-se 12 anos desde que a jornalista e escritora Barbara Gancia tomou a saideira. Foi a caminho de uma clínica para dependentes, nos arredores de São Paulo. Levada por uma amiga, quando já estava no limite do alcoolismo, ela foi parando de bar em bar, de padaria em padaria, de boteco em boteco, para beber a derradeira, até chegar, “torta”, à clínica. Não foi a primeira internação e nem o primeiro tratamento que ela se propôs a fazer para se livrar do vício pelo álcool, parceiro de mais de 30 anos de histórias e muita “ressaca moral”, como ela mesma diz. Mas foi a última. Apesar disso, sabe que seu problema é vitalício. “Curada eu sei que não estou”.

Barbara Gancia, 61, nasceu e cresceu na alta sociedade paulistana. Filha do casal de pilotos Piero e Lulla Gancia, a caçula de três irmãos transitou, desde pequena, por festas e eventos com celebridades e personalidades do mundo todo. Estudou em um dos colégios mais caros do país antes de ir para o exterior terminar os estudos. No meio de tanta badalação, ela narra inúmeros casos em que deu vexame por passar da conta com o álcool, ingerido pela primeira vez aos três anos de idade, quando virou restos dos copos dos convidados em uma festa. Depois, repetiu a dose aos seis, quando descobriu o licor que recheava os chocolates da mãe. E novamente aos nove, quando bebeu ponche escondida. “Com esse padrão, aos 20 anos eu estava bebendo regularmente. E bebendo como gente grande”, diz ela.

Algumas das histórias, inclusive essas das primeiras experiências com o álcool, estão no livro A saideira – Uma dose de esperança depois de anos lutando contra a dependência (Editora Planeta). Algumas, porque nem todas ela se lembra. “Eu tive que entrevistar alguns amigos para que eles me contassem algumas coisas, porque eu não me lembrava das histórias”, conta ela, na sala de seu apartamento no bairro do Itaim, onde recebeu a reportagem. Outras anedotas ficaram de fora do livro por pura “vergonha” de contá-las. “Se fosse para contar tudo, teria que fazer uns oito volumes”, diz ela, rindo. “Peguei as mais pitorescas também porque queria que o livro fosse mais leve e palatável”.

Os casos contados pela jornalista são “palatáveis” porque ela imprime muito de sua personalidade nos textos. Barbara é divertida, engraçada, fala sem parar, gosta de fazer seu interlocutor rir, como, por exemplo, quando conta sobre o dia em que fez um ebó para tentar se livrar do vício. Mas não fosse por uma questão do estilo cômico, as histórias de A saideira seriam trágicas. Ela sofreu ao menos oito acidentes de carro por estar embriagada no volante – mas não se lembra de todos. Em um deles, perdeu a visão de um dos olhos. Bebeu tanto certa vez, que acordou no chão da sala, em meio a uma poça de sangue, com um talho na cabeça, e até hoje não se lembra do que aconteceu. Poderia ter morrido em várias das situações em que se meteu. “O alcoólatra que não para de beber, ele acaba morrendo”, diz. “Ou vai cair no banheiro, ou brigar num bar, ou no trânsito…”

– Como você mesma quase morreu várias vezes, né?

– “Exatamente” (risos). “O problema do alcoolismo é que você só para quando tem um dano grande, quando tá no fundo do poço”.

Como em todos os casos de adicção, o mal que o álcool causava não se limitava somente a ela. “O alcoolismo é uma doença que prejudica os outros também. Todo mundo fica com raiva”, diz. “A minha família queria me matar. A minha irmã ficava super preocupada e magoada, mas também ficava com ódio”. Sua predileção pelo whisky fez com que perdesse amigos, relacionamentos e trabalhos. “Chegou um momento em que eu parei de ser convidada para os lugares. Porque intimida muito. Muitas das pessoas falavam ‘a Bárbara é um perigo”. A gota d’água foi quando ela apresentou um programa de televisão depois de ter bebido a tarde inteira. “Minha mãe assistiu, me ligou e falou: ‘você está bêbada, né?’ Aquilo foi muito humilhante. Foi a ressaca moral que me fez procurar ajuda”.

A doença do silêncio

No Brasil, as políticas públicas de combate ao alcoolismo, doença que mata mais de três milhões de pessoas por ano em todo o mundo, ainda são muito tímidas. O distanciamento da realidade é tão gritante que o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo é celebrado, por alguma razão, no dia 18 de fevereiro. Não é raro que a data coincida com o Carnaval, momento em que o consumo de álcool e drogas aumenta substancialmente. Apesar de existir uma data para lembrar do combate ao consumo exagerado dessas substâncias, pouco se faz, efetivamente, para prevenir o alcoolismo, em um país onde a indústria de bebidas é uma das mais poderosas. “A indústria de bebida consegue fazer um lobby gigantesco no Brasil”, diz Barbara. “Aqui, a cerveja é legislada de forma diferente das demais bebidas. Pode ter anúncio, patrocinar as festas de universidade, esportes…”. Ela defende que as companhias produtoras de bebida deveriam gastar metade da verba destinada a publicidade em programas de conscientização sobre o consumo de álcool.

Barbara Gancia e um dos seus dois cachorros. ampliar foto
Barbara Gancia e um dos seus dois cachorros. Raoni Maddalena
 Ela mesma já fez uma limonada de sua experiência com o alcoolismo, ao bater na porta de um dos diretores da Ambev para dizer que eles deveriam compartilhar a responsabilização pelos danos que suas bebidas causam. Assim, passou a fazer palestras por todo o país para alertar sobre o consumo de álcool e suas consequências. Grande parte do problema está, segundo ela, no silêncio diante dessa questão. “Eu já fui dar palestra em favela não pacificada. Os garotos de 12 anos sabem tudo sobre o AA, eles frequentam o Al-Anon [grupo para os familiares e amigos de alcoólatras]. Porque o pai é traficante”, diz. “E aí você vai em escola de granfino, e ninguém sabe porra nenhuma, os pais não querem que fale desse assunto”.

A ideia de escrever um livro, ela diz, surgiu justamente para colocar os riscos do abuso do álcool em discussão. Para isso, ela teve que superar a vergonha de reviver muito do que fez ao longo das décadas de vício. “Foi complicado escrever o livro. Eu sonhava com as coisas que já tinham acontecido…”. O processo todo durou pouco mais de dois anos, e hoje ela comemora o feedback positivo que chega dos leitores. “Tenho recebido retornos de gente que comprou o livro e no final decidiu parar de beber”, conta. “As pessoas falam: ‘você era uma bêbada igual a mim. Eu estou me vendo nas histórias!”.

Apesar de estar longe do álcool há mais de uma década, Barbara conta que não deixa de sair por isso. Mas tem suas estratégias, como chegar mais tarde e sempre ir embora mais cedo das festas. “Eu sou boêmia”, diz. “Vou aos bares tranquilamente, mas tomo Coca Cola, limonada, energético. E fico olhando as outras pessoas e penso ‘graças a deus que não sou eu fazendo isso‘. Porque eu tenho péssimas lembranças, eu estou fazendo esse negócio do livro e estou sempre me lembrando”, conta.

As lembranças de um passado que a deixa envergonhada são um poderoso antídoto para deixá-la longe da bebida. “De quando em quando eu estou numa festa com um monte de gente maluca e de repente eu penso ‘que pena que eu não bebo”, admite. “Mas aí eu lembro da pessoa que eu virava quando bebia. Eu não era aquela pessoa boazinha. Eu fazia estrago”. Por isso, ela diz, sem nenhum orgulho, que “até hoje” está pedindo desculpas para as pessoas com quem convive pelo que fez no passado.

Hoje, ela substituiu o prazer que o álcool dava por programas mais leves. Vive com a mulher, Marcela Bastos, e os enteados, além de dois cachorros da raça Dachshund, que ficaram o tempo todo ao lado dela durante a entrevista. E jura que a esteira ergométrica que está na sala é utilizada todos os dias. “Como você pode ver, não tem nenhuma roupa pendurada aqui, eu uso para caminhar de verdade”, diz, rindo.

“O alcoólatra que não para de beber, ele acaba morrendo”

Embora diga que “nem pensa” em bebida, Barbara sabe que não está curada. De vez em quando ainda vai às reuniões dos Narcóticos Anônimos (NA), e é seguidora convicta dos 12 passos, método difundido por todo o mundo para o acompanhamento de dependentes químicos. “Vou no NA, mas eu falo AA [alcoólatras anônimos] porque quando você fala NA, já pensam que você é um junk. Mas como hoje em dia todo mundo tem dependência cruzada, quem sobrou hoje no AA são uns velhos chatos e caretas, do século retrasado”, diz. “Você tem que dar um pouco de risada e lá dentro do NA você dá muita risada porque só tem maluco. É divertidíssimo. Claro, tem horas que é barra pesada”.

O livro, ela conta, a ajudou a romper as barreiras dos grupos de ajuda e das clínicas, e trazer o tema para ser debatido em outros ambientes. “O objetivo do livro é mostrar que dá para você parar de beber e ser feliz, e também abrir essa discussão no Brasil porque ninguém faz isso. É uma loucura, em volta da gente tem milhares de pessoas que precisariam de ajuda”.

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