O Museu da Libertação

Joaci Góes

Ao exemplar confrade, arquiteto e professor Paulo Ormindo.

A discussão acadêmica, nos anos cinquenta e sessenta, do Século XX, para encontrar o percentual de herança genética e cultural em cada humano, como síntese final de sua espécie, chegou a termo com a desconcertante opinião do biólogo britânico Peter Brian Medawar, ao concluir que cada um de nós herda 100% do patrimônio genético e 100% do cultural, na contramão dos que caíram prisioneiros na armadilha matemática que apontava para combinações cartesianas do tipo 30%+70%, 20%+80%, 40%+60%, 50%+50%, chegando-se à soma sinérgica de 100%.

Peter Medawar, nascido em Petrópolis, Rio de Janeiro, em 1915 e morto em Londres, em 1980, ganhou o Nobel de Biologia, em 1960, aos 45 anos, com pesquisas sobre o sistema imunológico dos animais. Ele consola os que não se conformam com a ausência de brasileiros entre os ganhadores do cobiçado laurel, inconformismo mitigado pela recente conquista do Prêmio Templeton, uma espécie de Nobel do diálogo entre a ciência e a espiritualidade, pelo físico brasileiro Marcelo Gleiser, de valor pecuniário sensivelmente superior ao patrocinado pelo famigerado fabricante de dinamites.

Curiosamente, o povo brasileiro, em geral, e o baiano, em particular, pela marcante singularidade de sua herança genética e cultural, representa o contingente humano mais diversamente rico do Planeta, nessa cadeia sucessória quase infinita. Se não, vejamos: além da herança genética e cultural, de matriz greco-romana, com os contributos de origem asiática e médio-oriental, filtrados pelos diferentes povos europeus, os baianos são, também, herdeiros diretos dos africanos e das populações autóctones da Terra de Santa Cruz! Melting pot psicossomático tão complexo não há sobre a face da terra!

Essa aligeirada digressão sobre nosso passado físico-espiritual vem a propósito do mutirão cultural que ora reúne entidades do porte da Academia de Letras da Bahia, do instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Universidade Federal da Bahia, Academia Baiana de Educação, Academia de Letras Jurídicas da Bahia, Academia de Letras e Artes de Salvador, Ordem dos Advogados do Brasil, Academia de Ciência da Bahia e o Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira. Essas venerandas instituições são dirigidas por gente do peso de Nelson Cerqueira, Eduardo Morais de Castro, João Carlos Salles, Astor de Castro Pessoa, Rodolfo Pamplona, Luis Cláudio Guimarães, Fabrício de Castro Oliveira, Jailson Andrade e José Carlos Capinan. Todos unidos em torno do propósito de sensibilizar o Governo do Estado da Bahia e a Prefeitura Municipal de Salvador, nas pessoas do Governador Rui Costa e do Prefeito ACM Neto, para a criação do Museu da Libertação, a ser instalado no Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, antiga propriedade da família do poeta Castro Alves, onde ele viveu alguns anos de sua curta e luminosa existência. A ideia central é fazer desse tão necessário e já tardio museu o maior repositório das lutas travadas para rompermos os grilhões da escravidão. Além do quanto se puder reunir como testemunho material da chaga da escravidão em nossa história, o registro dos nomes de todos que contribuíram para nossa letárgica abolição, como o Poeta dos Escravos, Zumbi dos Palmares, Luiza Mahin, Luis Gama e escritores que fizeram de nossa matriz africana tema de suas criações literárias, nas mais distintas vertentes epistemológicas, como Luis Anselmo da Fonseca, Gilberto Freire, Luis Viana Filho, Edison Carneiro, Kátia Queiroz Mattoso, João José Reis, Ana Maria Gonçalves, Raymundo Laranjeira. E muitos outros nomes.

O melhor das modernas técnicas computacionais deve ser incorporado aos elementos tradicionais tangíveis, para fazer desse notável empreendimento fator de grande impacto na estrutura dos inúmeros atrativos que engrandecem nossa terra aos olhos do mundo. Pede-se ao Governador e ao Prefeito que nomeiem seus representantes para integrarem este mutirão.
Afinal de contas, o tempo “ruge” para colocarmos de pé um novo marco que confere a maior dignidade possível à utilização dos recursos oriundos da Lei Rouanet.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado originariamente na TB, nesta quinta-feira, 4.