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Postado em 04-04-2019
Arquivado em (Artigos) por vitor em 04-04-2019 00:16

Mick Jagger, o cantor, de 75 anos, se cuida mais que nunca. Pratica esporte, medita e não bebe, mas isso não evitou que tenha de ser operado por um problema cardíaco

Tem oito filhos, o último chegou há apenas 27 meses. Sua companheira, Melanie Hamrick, acaba de soprar 31 velas, ou seja, é 44 anos mais nova do que ele. Treina três horas por dia, cinco ou seis dias por semana, sob o comando de um fisioterapeuta norueguês chamado Torje Eike, que já trabalhou com atletas olímpicos. Percorre de 9 a 10 quilômetros durante as mais de duas horas que os shows de sua banda, The Rolling Stones, costumam durar. Até três dias atrás, Mick Jagger parecia invencível. Não é o único de sua geração que ainda está ativo, mas talvez seja o único – sem mencionar Iggy Pop, quatro anos mais jovem – que pode subir ao palco com uma energia quase igual à que transmitia há três ou quatro décadas e vestido com uma roupa de tamanho semelhante à que usava em 1969. Mas um problema cardíaco do cantor, que requer uma intervenção cirúrgica, levou os autores de Brown Sugar a cancelar a turnê norte-americana que planejavam realizar entre 20 de abril e 29 de junho.

Apenas 48 horas após a notícia, Jagger podia ser visto relaxando em uma praia de Miami com seu filho mais novo e uma de suas filhas, Georgia May, de 27 anos. Na mesma praia estava também Ronnie Wood, o guitarrista da banda, acompanhado da mulher e de suas gêmeas de dois anos. Jagger, como seus companheiros, tem se empenhado nos últimos anos em demonstrar que a era dos Rolling Stones ficou enterrada no passado, seja pela promoção de hábitos saudáveis ou engendrando bebês em série.

Quando nasceu seu filho Devenaux há menos de dois anos, The Sun publicou declarações de uma fonte próxima ao vocalista que confirmava que ele tinha até mesmo intensificado seu modo de se cuidar com o objetivo de ver seu recém-nascido crescer. “Ele está totalmente comprometido em criar o filho”, publicou o tabloide britânico.

No segundo trimestre de 2018, a banda estava se preparando para começar sua turnê europeia em Dublin. A principal novidade em relação àquele primeiro show foi dada pelo gerente de produção da turnê, Dale Skjerseth: não haveria álcool, nem antes nem durante nem sequer depois do show, para nenhum dos integrantes do grupo. Nem uma gota. “Tocar ao vivo é a sua arte e eles querem fazer isso bem. São muito profissionais”, disse Skjerseth, que já trabalhou com bandas como Guns n ‘Roses e AC/DC.

Uma semana depois do show na capital irlandesa, a rotina de treinamento do septuagenário Jagger veio a público: uma série de exercícios que pareciam destinados a lhe render várias medalhas nos Jogos Olímpicos. Às ordens do já mencionado Torje Eike, o vocalista inglês punha em forma corpo e alma. Uma dieta à base de sucos, massas, peixe e frango, complementados por vários suplementos, e não os que tomava nos anos 60 e 70, mas as vitaminas A, C, D e E, bem como um preparado com óleo de fígado de bacalhau e outro com ginseng se uniam à prática de corrida, ioga, ciclismo, kickboxing, balé e treinamentos específicos dedicados ao fortalecimento da resistência cardiovascular. “Eu treino seis dias por semana, mas não fico louco”, disse Jagger, confirmando que, desde a sua irrupção no cenário do rock, seu conceito do que significa ficar louco não tem muito a ver com o nosso, o resto dos mortais.

Mick Jagger, em um show dos Rolling Stones em Lisboa, em maio de 2014.
Mick Jagger, em um show dos Rolling Stones em Lisboa, em maio de 2014. JOSE SENA GOULAO EFE
 Nada em sua vida tem muito a ver com o resto dos mortais, como exemplifica um pequeno escândalo que aconteceu durante aqueles meses em Londres. O grupo tinha de participar de um evento e sua equipe pediu aos donos do local que retirassem dois obstáculos colocados na calçada em frente para evitar que algum carro estacionasse ali. Exato, Mick Jagger, o cara que corre nove quilômetros por show e treina como se fosse disputar dois triatlos em um mesmo dia, não era capaz de andar 100 metros até a porta de um restaurante. Nem mesmo o Daily Mail pôde resistir a fazer a piada na manchete da notícia.

“Não tivemos escolha”, lembrou em uma entrevista concedida a um órgão da imprensa irlandesa alguns dias antes do show sóbrio em Dublin que deu início à turnê No Filter, a mesma que agora tiveram de adiar nos EUA. “Nós éramos os garotos maus por acaso, jamais pensei que aquela vibração um tanto sebosa que nos marcava no início iria nos transformar em arquétipos de anti-herói. No começo, nos deixamos levar, depois colocamos um pouco mais de nós mesmos.”

Meio século depois, aqueles garotos maus não são mais garotos, nem tão maus. Eles se sentam para fazer castelos de areia na praia com seus rebentos e aguardam a hora da sala de cirurgia. Em breve os veremos novamente em um palco e, se os prognósticos se cumprirem, ouviremos também seu primeiro álbum com material novo desde 2005.

Duas vidas diferentes

Os motivos que levaram Keith Richards e Mick Jagger a cancelar shows da banda nas últimas décadas podem dar uma ideia de quão diferentes são agora a vida e a personalidade desta dupla. As duas ocasiões anteriores em que Jagger cancelou foram por uma laringite (Las Vegas, 2016) e pelo trágico suicídio de sua namorada, L’Wren Scott.

Quanto a Richards, as duas últimas vezes em que não pôde entrar no palco com a banda incluem uma queda de uma escada em casa em 1998 e a melhor desculpa que alguém já deu para cancelar uma turnê: cair de um coqueiro. Isso aconteceu em 2006 e já faz parte dos livros de história do rock.

No domingo passado, enquanto Wood e Jagger estavam na praia brincando com seus filhos, Richards os observava, cerveja na mão, do seu quarto de hotel.

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